[ Vox populi vox Dei ]

2014-12-13

« PORQUÊ... TANTA GENTE INFELIZ? »



Somos infelizes porque temos medo do futuro, medo do sofrimento e muitas vezes da morte... E sentimo-nos tantas vezes reféns do acaso! 

E depois, em vez de enfrentar a realidade, agarramo-nos a quimeras e não a sonhos realistas. Outras vezes alheamo-nos do mundo, ou agarramo-nos  desesperadamente ao "ter" como uma forma de segurança (fragilidade aproveitada por esta sociedade de consumo) e esquecemo-nos que a infelicidade de momento não torna a felicidade impossível, ou seja, estamos sempre a tempo de mudar e de recomeçar, de criar uma segunda natureza e construir um mundo novo.

Somos infelizes muitas vezes porque nos esquecemos que o mundo é o que é e não o que gostaríamos que fosse. Esse ideal, temos de ser nós a ajudar a construir sem pressas, e a melhor maneira de o fazer é sermos quem fomos chamados a ser.

Somos muitas vezes infelizes porque não conseguimos perceber o que podemos mudar e o que não podemos mudar...

Somos muitas vezes infelizes porque não assumimos que a vida é um risco, desde o nascimento até à morte, que nada está garantido e não percebemos que a forma mais adequada de diminuir o risco não é isolarmo-nos, fugindo da vida, mas antes vivê-la com responsabilidade, respeitando as regras e os valores que nos protegem, sendo prudentes como já nos ensinaram os antigos; pois a prudência é uma virtude que nos leva à sabedoria.

Somos muitas vezes infelizes porque nem sempre os nossos sonhos e a realidade andam de mãos dadas, e porque nem sempre o mundo é justo e é preciso saber lidar com isso, não desesperar...

As injustiças, as coisas menos bonitas ou mesmo muito feias que o mundo nos vai revelando, não nos podem tirar a capacidade de sorrir, a capacidade de trabalhar com amor ao nosso projecto pessoal. Devem antes motivar-nos a fazer o melhor para que possamos intervir individual e colectivamente para que o mundo se torne melhor; pois o futuro é aberto e permite-nos ter todas as esperanças; é essa esperança que nos deve mover...

E, se por um lado, somos quem fomos, seremos amanhã quem somos hoje e o mundo será o que todos nós juntos fizermos por ele.

Quando a realidade nos dificultar a realização dos nossos sonhos, é tempo de os avaliar e perceber se é preciso mudar de sonhos ou mudar de estratégias para os conseguir...

Quanto ao passado e ao presente, aquilo que não nos foi possível mudar, teremos de aceitar, mas nunca desistir de construir um futuro onde possamos sorrir com sabedoria, para aceitarmos o que não pudemos mudar e a força e a inteligência para mudar o que pode ser mudado.

2014-12-12

«CABO VERDE: A NATUREZA EM BELEZA E TERROR»


Há fenómenos da natureza   que nos espantam pelo espectáculo de rara beleza, que captam a nossa atenção, que arrastam multidões em interessada observação, mas que, no reverso dessa medalha, têm tanto de magia como de poder destrutivo e incontrolável. Cabo Verde tem tido de tudo isto para nos apresentar. O seu vulcão da Ilha do Fogo, em intensa e persistente actividade, mostra todas estas componentes.

O pior é que, com o seu avanço, há povoados e zonas diversas que têm de ser esvaziados da presença humana, que tudo deixa para trás, e isso é drama pessoal e social que muito preocupa. Perante a avalanche de lava, nada mais há a fazer: Sair, deixar para trás uma vida e uma comunidade, é o único caminho possível.

É o que ali se presencia a cada momento. Com várias erupções ao longo dos anos, esta mostra-se em toda a sua ferocidade e tudo leva em frente. Por isso, está o mundo a mobilizar-se para apoiar aquele povo e aquela gente que se vê impotente face a tão grande força da natureza.

Na cooperação, temos a essência de uma dimensão humana que, felizmente, se não tem perdido: a solidariedade.

Hoje, é Cabo Verde que assim precisa da atenção mundial. Ontem, outras sociedades e países levaram a idênticas atitudes. E estes são sinais de que, mesmo na agrura das crises, na tormenta de um presente que é um horror, há tempo para não nos esquecermos do outro, do nosso semelhante, neste caso, de nossos irmãos lusófonos.

Ao olharmos aquele espectáculo de brasas vermelhas a descerem pelas encostas e a engolirem cada metro quadrado de vida, somos levados a pensar que é muito pequenino o ser humano face à natureza  e ao ambiente em que habita. De um momento para o outro, tudo se perde, tudo desaparece e o instinto de sobrevivência, quando há tempo para isso, vem ao de cima, assim como a mão amiga de quem aparece - e ainda bem - para ajudar nessas tão difíceis horas de dor e sofrimento.

Hoje, num mundo de novas tecnologias, é fácil fazer levar as mensagens de apelo a todos os cantos do universo, praticamente em cima do acontecimento. Esta dimensão tem inerentes dois aspectos: se chama a nossa atenção para a gravidade dessas situações, põe-nos também, de imediato,em contacto com o campo visual desses mesmos fenómenos. A gravidade do que se presencia e ouve é, em si mesmo, um grito de alerta e de socorro e os apoios podem logo entrar em acção.

Neste dias, é Cabo Verde que corre mundo. Lá mais longe, os tufões nas Filipinas são outro campo em que a natureza nos surge em toda a sua temível força. A nossa solidariedade a todas as pessoas agora em duro sofrimento.

Com o gosto pela História, evocamos aqui uma outra presença da natureza enfurecida, em Lisboa, a 1 de Novembro de 1755, que foi o Terramoto que devastou a capital, com efeitos a espalharem-se pelo sul do país e até várias zonas da Espanha. Em comparação, as comunicações são factor que põe em confronto estas duas épocas; em 1975, a notícia demorou dias e meses e chegar ao conhecimento das populações de então, enquanto agora é o segundo que marca a transmissão dessas imagens. Outrora, eram as comunidades vicinais que corriam para ajudar; presentemente, pode-se ser útil em cima da hora, a partir de um qualquer lugar. Só que é preciso, num e noutro momento, haver o melhor de tudo: a disponibilidade para se ser solidário.

Ainda bem que esses valores não fugiram, ainda que, nem sempre, se ponham em acção como convém. Mas, mesmo devagar, muito mais do que aquilo que seria de esperar, lá vão chegando a quem precisa.

Se a natureza é o que é, que o ser humano seja sempre o que deve ser: amigo de todos e em todas as aflições, de Cabo Verde às Filipinas e por toda a parte.


2014-11-21

« O PROFESSOR »


Um professor é alguém que tem o privilégio de auxiliar, orientar e assistir ao desenvolvimento físico e intelectual das novas gerações.

O seu trabalho não se limita a uma transmissão de saberes, ele engloba também, a orientação dos sentidos de lealdade, verdade e honestidade em geral e honestidade intelectual em particular.

Como afirmava o pedagogo português Damião Peres: "o professor tem que saber o que ensina e o que quer ensinar". 

Para atingir este tríplice objectivo é necessário consagrar muitas horas ao estudo e à preparação das aulas. Por muitos anos de prática que tenham, nunca terão perante eles, turmas iguais.

A preparação das aulas faz-se pensando nos seus alunos. A mesma matéria não pode ser dada sempre da mesma maneira quando muda o público.

Choca,  profundamente, ver os professores tratados como funcionários públicos que trabalham menos horas que os outros, porque na realidade não é assim, o professor trabalhou muito antes, durante e depois das aulas.

Todas as unidades lectivas têm de ser previamente preparadas; os testes de avaliação requerem uma cuidadosa elaboração, bem como uma posterior correcção, o que, na melhor das hipóteses, exige horas e horas de trabalho silencioso, atento, perspicaz e minucioso.

Segue-se ainda o levantamento das lacunas detectadas na recepção da aprendizagem e consequente procura da melhor forma de ajudar o aluno a ultrapassá-las,  não esquecendo que não há dois alunos iguais, para cada um tem de se encontrar uma forma diferente de o conduzir à superação das respectivas dificuldades com sucesso.

O professor está sempre sobre  escrutínio dos alunos, dos pais e dos colegas. Não podem consentir que pessoas que estão no ensino, porque não podem fazer outra coisa, criem um ambiente de confrontação. A Escola tem de ser uma comunidade de trabalho em que todos se desenvolvam e valorizem.

O professor tem que ser exigente com os alunos porque começa por ser exigente consigo mesmo. Os alunos devem conhecer "as regras do jogo" por forma a evitar que não  aproveitem todas as oportunidades para crecerem em formação e conhecimento.

Numa sociedade altamente competitiva, como aquela em que vivemos, as pessoas têm que ser habituadas a ser avaliadas. Na escola, a avaliação não é um estigma mas é uma forma de conhecer se se está ou não a atingir os objectivos estabelecidos.

Na vida activa ninguém se pode furtar à avaliação e aí sim, se as coisas correm mal o resultado não será brilhante e pode ser muito frustrante.

Para além do respeito que deve pautar toda a convivência, na sala de aula, ele é de capital importância pois não se pode esquecer que a par da formação científica há a formação pessoal.

Lembro, com saudades, alguns professores que tive. Eram exigentes em todos os seus domínios, mas tratavam-nos com cordialidade e ajudavam-nos a superar as dificuldades, sabíamos que tínhamos que fazer o possível para atingir os objectivos, mas sabíamos, também, que podíamos contar com uma disponibilidade total e que nos davam a palavra certa no momento certo.

Um professor sabe sair de si mas, acima de tudo, ama os seus alunos!