[ Vox populi vox Dei ]

2016-08-07

«O PORTUGUÊS É UMA LÍNGUA BASTARDA?»



As línguas, meus caros, são umas bastardas.

Reparem: o português julga que vem do latim, essa língua imperial, mas nem sempre se lembra que o latim era outro: não o latim dos intelectuais romanos, mas a língua do padeiro. E do ferreiro. E da mulher da vida. E do soldado. Sim, também temos Cícero a correr nas veias da língua, mas menos do que gostam de imaginar os que sonham com uma qualquer nobreza da língua.

Mas, mais: depois de cozer a língua na Galécia, misturámos esse nosso galego com uns pós de árabe — e nem sequer era bem o árabe, mas sim os pedaços de árabe que já vinham misturados, como pedaços de chocolate numa bolacha, no moçárabe, a língua do povo do sul da península.

Durante séculos, o nosso português era a língua vulgar e o antigo latim continuava no seu trono. Enfim, lá se tornou oficial e, mais tarde, inventámos algumas palavras a soar a grego e também fomos outra vez ao latim para dar um ar mais cultivado…

Mas não nos enganemos: a língua continuou a ser um bicho sem tino. Importámos palavras de todo o lado. Até Os Lusíadas têm palavras de muitas paragens e castelhanismos que sobram..

Então se nos afastarmos da língua escrita, se olharmos para a língua da rua, essa sempre se misturou, sempre se deixou levar por manias e modas, sempre pisoteou todas as ideias de pureza. Lá vieram palavras do francês, do italiano, do inglês, das línguas índias e muito mais (mas descansem: também oferecemos palavras a outras línguas: ao inglês, ao castelhano, ao francês, até ao japonês).

E, claro, depois, nas naus, lá foi o português e lá se espalhou pelo mundo, e em todo o mundo se misturou e se pintalgou: a nossa língua também é mestiça, ó gente armada ao puro!
Sim, eu sei: se a língua nasceu na rua, os escritores e os gramáticos deram-lhe lustro, limaram-lhe as arestas, escolheram isto em vez daquilo. Mas a verdade, também, é que a literatura se alimenta dessas correntes obscuras, da língua doutros sítios, doutras gentes — não é de todo feita duma linguagem depurada: muito antes pelo contrário. Poucos bons escritores conseguiriam escrever se a língua fosse qualquer coisa de artificial ou um bicho domado. Não: a literatura vive desse bicho selvagem criado nas ruas, nas camas, nas noites — a língua de todos, de quem insulta e ama, de quem vende e compra — e por isso tem de misturar, aprender, mudar — de quem tem pouca paciência para queixas, de quem precisa, agora, de falar, às vezes à pressa, muitas vezes com um sorriso na boca, ou um grito, ou um segredo, ou um beijo.

Somos só nós que somos assim? Não: o português não está sozinho: o inglês, por exemplo, a língua que agora anda nas bocas do mundo, chegou àquelas ilhas britânicas como língua dum povo guerreiro, estragou-se com os celtas e os viquingues, que lhe esfacelaram a gramática toda, andou à rédea solta enquanto os nobres falavam normando, absorveu palavras latinas, francesas, até portuguesas. Hoje, é uma manta de retalhos em que o tecido original, muito germânico, já está cheio de remendos de todo o tipo. Alguém se importa? Há quem se importe, mas não interessa.
O mesmo podemos ver no espanhol, no francês (até no francês!), no italiano — e em todas as outras línguas. Mesmo o esperanto, coitadinho, não passa duma mistura estranha de muitas línguas, só que em vez de ser na cabeça de milhões, foi na cabeça de um só homem.

As línguas ficam mais pobres com estas misturas todas? Claro que não! A ideia de pureza linguística é como todas as outras ideias de pureza: extraordinariamente sedutora, mas perigosa, daquele perigo mau, que às vezes até acaba em tragédia. É uma mania que não ajuda ninguém e só nos deixa enervados uns com os outros.

Por isso, todos os que querem uma língua impoluta, sem misturas, sempre no mesmo registo, sem palavrões, sem palavras populares em textos escritos (como «deslargar» e outras), sem um ou outro absurdo, sem redundâncias, sem palavras que querem dizer a mesma coisa, sem estrangeirismos: percebam que o português, como todas as línguas, é um fenómeno natural, um sistema complexo e desordenado, que podemos estudar, usar, moldar para nosso proveito — mas que dificilmente podemos controlar. Podemos (isso sim) conhecer e até amar esse bicho bastardo. Podemos ainda — aliás, devemos — cada um de nós, tentar falar e escrever cada vez melhor a língua que nos calhou na rifa. É bastarda, mas é nossa.

Sim, temos de ter uma norma-padrão, o português seleccionado que serve para as situações formais e académicas — e serve de base à escrita, essencial à civilização. Quanto mais pessoas a conhecerem bem, mais pessoas têm acesso a muita coisa que julgo importante. A norma-padrão é um instrumento essencial — mas não se convençam que é sagrada e, acima de tudo, não tentem reduzi-la ao mínimo, não tentem cortá-la até ficar sem vida. A norma pode ser mais ou menos rica — e quanto mais pura, mais pobre será. Sim: mesmo à norma, quando a conhecemos de trás para a frente, fica bem dar-lhe um pouco de sangue, esticar um pouco a corda. Arriscar. Misturar. Sem medo. Querem protegê-la? Escrevam mais, leiam mais, trabalhem! Não desatem a querer cortar à língua palavras e expressões por esta ou aquela razão, deixando a norma mais pobre e mais distante da língua de todos.
É verdade, admitamos: isto vem muito a propósito do estardalhaço lido por causa de uma simples palavra numa notícia. Uma pequena brincadeira, um pequeno risco que um jornalista decidiu correr — e vem a correr a brigada da língua, cheia de discursos inflamados a acusar os falantes da língua de todas as patifarias deste mundo. São os discursos habituais, que se viram contra a própria língua com a desculpa de a proteger.

Quando vejo tanta gente a atacar os outros por falarem português, tanta gente a atarefar-se a mudar a língua para a tornar mais lógica, mais pura, mais pequena, penso: quem salvará a língua de quem quer salvar a língua?





2016-03-29

« AGRADAR... E TER RETORNO »

 NICOLAU BREYNER
Actor
1940 - 2016

Gosto que gostem de mim, é um facto. É um fraco que eu tenho, porque eu gosto muito das pessoas.

= X =


Gostamos que gostem de nós. Pode ser uma fragilidade ou uma presunção, mas, de facto, a maioria de nós é sensível ao facto de desencadear nos outros reacções que passam por exprimir sentimentos positivos. 

Para muitos, não chega que os outros tenham uma atitude bem-educada, já que isso passa por um profissionalismo indiferente e desapegado. O que se quer mesmo é sentir que as pessoas que habitualmente nos rodeiam e até as que surgem pontualmente nas nossas vidas desenvolvam connosco uma ligação significativa, uma cuidado maior, uma deferência especial.

Tanto faz que seja o colega da mesa ao lado, o empregado do restaurante do costume, a empregada da frutaria em que fazemos as compras. Mesmo que não os conheçamos nem eles a nós, queremos sentir que nos tratam bem, queremos ter a sensação de que somos bem-vindos, queremos experimentar o conforto de nos sentirmos entre amigos.

Dir-se-ia que, por isto, seríamos todos consequentes com esta necessidade e, portanto, assumiríamos nós a responsabilidade da coisa, iniciando interacções simpáticas, afivelando sorrisos calorosos, dirigindo perguntas demonstrativas de um interesse mais pessoal (Como está? Não o tenho visto. Já sentia a sua falta.).

Algumas pessoas, em todo o caso poucas, são excelentes neste exercício e fazem dos seus quotidianos uma caminhada suave. Cumprimentam quem passa, sorriem à esquerda e à direita, dizem larachas e fazem brincadeiras com quem se cruzam, sabem o nome de toda a gente e lembram-se da questão certa ou do comentário adequado ("Então, Sr. Jaime, lá ganhou o seu Benfica"; "Olá, Dª. Augusta, está melhor das suas costas?"; "Viva Dr. Araújo, li a sua entrevista, gostei muito").

 A maioria das pessoas, no entanto, arrasta-se perra. Uns nem chegam a ter consciência da sua necessidade de agradar e, pelo contrário, parecem fazer tudo na direcção contrária. Carregam o sobrolho, desviam o olhar, irritam-se por dá cá aquela palha, respondem torto.

Outros por inabilidade, timidez, ou por nunca terem pensado no assunto, adoptam uma posição defensiva ou passiva como se a simpatia e a alegria fossem sempre uma resposta e nunca uma iniciativa.

Agradar, como tudo na vida, dá trabalho e precisa de empenho.


2016-03-18

« EFICIÊNCIA v/s EFICÁCIA »



Em tempos de vacas magras, um pouco por todo o lado, procura-se despender o menos possível para chegar a resultados idênticos.

Quando há muitos recursos, ninguém se preocupa como as coisas aparecem feitas. Ninguém se questiona se faz sentido que haja mais uma estrada a ligar nenhures a lado algum, se dá jeito ter uma nova máquina que ninguém sabe operar, se é adequado ultrapassar dez vezes um qualquer orçamento inicial, se é sensato pôr cem pessoas a fazer aquilo que cinco seriam capazes de executar no mesmo tempo. Ninguém se rala se as montanhas parem ratos. Quando os recursos passam a ser limitados, aí começa a preocupação com a racionalização.

Nas instituições, nas empresas de bens ou serviços, nos lares, todos percebemos que temos de ser mais eficientes e gastar menos recursos e energia para fazer o que há a fazer. Não se trata mera,ente de poupar. Trata-se de arranjar um equilíbrio mais sustentável entre o que se tem de fazer e a forma como se faz.

Não sei se se pode dizer que nós, como povo, temos muito a aprender em matéria de eficiência. Generalizar tende a ser abusivo. Mesmo assim, parece que nos enredamos demais nos processos que conduzem às soluções de um problema e que demasiadas vezes chegamos ao objectivo a um custo absurdamente dispendioso.

Os exemplos são aos montes. Os grandes pilares societários: justiça, saúde, ensino enredam-se de tal maneira nos seus próprios trâmites que temos todos a ideia de que os objectivos  que atingem são ridículos em função dos recursos que desbaratam. Ficamos mesmo com a sensação de que se distraem daquilo que achamos que são as respectivas missões e se despreocupam de administrar a justiça, tratar as doenças e promover a saúde ou ensinar e facilitar o conhecimento e se perdem amiúde com as problemáticas do seu corpo de funcionários.

A níveis mais básicos e comezinhos, as coisas correm do mesmo jeito. Muitos de nós sentem permanentemente que se esteve em demasiadas reuniões para discutir coisa nenhuma, que se preencheu dúzias de papéis que ninguém leu, que se gastaram horas  de vida em conversas, negociações e discussões laterais ao que era suposto ser o cerne da questão.

Parece que temos o gosto pelo drama e pela complicação, pela análise exaustiva de pequenos detalhes periféricos e que demasiadas vezes ficamos a olhar o dedo que aponta qualquer coisa magnífica que não chegamos a ver.

P.S. - Que atire a primeira pedra quem nunca se confundiu com a definição e aplicação dessas duas simples palavras: Eficiência e Eficácia. Sem medo de afirmar, essa é uma das dúvidas mais frequentes da área de Negócios. Mas afinal, qual a diferença entre eficiência e eficácia? É possível ser eficiente, mas não eficaz?
Peter Drucker, o pai da Administração moderna, define os termos da seguinte forma:
"A eficiência consiste em fazer certo as coisas: geralmente está ligada ao nível operacional, como realizar as operações com menos recursos – menos tempo, menor orçamento, menos pessoas, menos matéria-prima, etc…"
"Já a eficácia consiste em fazer as coisas certas: geralmente está relacionada ao nível gerencial".

2016-03-08

«A INGLATERRA DAS ALIANÇAS PECHISBEQUE»



Vai por essa Europa fora uma azia danada à conta das diatribes perpetradas pelos nossos amigos britânicos. O que, da nossa parte, apenas suscitará um sorriso condescendente. Continuam iguais a eles próprios. Dividir para reinar. 

Aquando da adesão à CEE em 1973, 67% de votos favoráveis decorrem apenas da conclusão de que, do exterior, jamais conseguiriam destruir a coisa.  Houve apenas um pequeno escolho que não conseguiriam remover e que se chamava De Gaulle. Apenas tiveram de aguardar, serenamente, a sua morte.

Mas tenhamos sempre presente que um britânico, embora pró-europeu, é sempre anti-europeu. Quer estar dentro para partir a louça, sem a maçada de recolher os cacos.

Lembremo-nos de Margaret Thatcher e da sua cruzada anti-euro. E como tinha razão! Por uma vez, concedamos que não se tratava apenas de teimosia, pois a razão está à vista de todos.

Regressando à vaca fria, assim sem esforço de memória recordemos terem feito alianças com holandeses contra espanhóis, com alemães contra franceses, com franceses contra alemães e italianos. E isto para ficarmos só pela Europa.

É a história da Grã-Breranha nos últimos cinco séculos. Querem uma Europa desunida. Eles, espertalhões, chamam-lhe diplomacia. Por vezes até, com ironia fina, apelidam-na de política externa. Para quê mudar, se tem sido uma receita de sucesso?

Uma sugestão aos líderes europeus. Em vez de mastigarem estatísticas, leiam a História. Evitariam, pelo menos, a cara de parvos que têm pavoneado por Bruxelas.