[ Vox populi vox Dei ]

2016-11-26

«DESONESTIDADE: DESVIO DE CARÁCTER?»


O argumento cínico de que ninguém é melhor do que ninguém sempre foi assim, aqui e no resto do mundo. Todos roubam, mentem e aproveitam-se das situações de poder, e o máximo que se pode fazer é acreditar que os “nossos” ladrões também fazem outras coisas que consideramos boas – como reduzir a pobreza, ou desenvolver a economia, ou dar poder a determinados sectores dos quais gostamos, ou participamos.

A honestidade é uma referência de todos os dias. A desonestidade também. Ensinamos às crianças a importância de se ser honesto em todos os aspectos: não roubar, não mentir, não enganar, não dissimular, mas depois, a cada esquina, confrontamo-las com torrentes de notícias, vindas de todo o lado, que mostram à sociedade que a honestidade já teve melhores dias e que o mundo em que vivemos, muitas das pessoas que o dirigem e as instituições que deveriam ser confiáveis não o são.

Habituámo-nos a pensar que, de um lado, havia os criminosos e delinquentes encartados e assumidos: ladrões de alto e baixo coturno, gatunos de trazer por casa, carteiristas de transportes públicos, assaltantes de bancos; e, do outro lado, havia os cidadãos honestos e cumpridores, que pagavam os impostos, devolviam as carteiras que encontraavam, não se apropriavam do que não lhes era devido, não mentiam para esconder pecadilhos nem se prestavam a situações pouco claras ou tortuosas.

Fomos levados a crer que, de um lado, havia indivíduos regidos por códigos que punham em causa o que estava instituído e, do outro, cidadãos bem comportados, que cumpriam as regras e eram decentes, decorosos, virtuosos e honrados.

Vamos depois, vida fora, descobrindo que o que existe mesmo é um enorme e pantanoso sistema de encobrimento generalizado em que se largam umas notinhas, ou pastas carregadas, para lubrificar funcionamentos lentos ou preconceituosos; se trocam favores, influências e presentes; se foge aos impostos sempre que possível; se aproveitam todas as regalias acessíveis; se sonega tudo o que se pode. A todos os níveis, uns em larga escala e outros dos mais mesquinhos.

Descobre-se que, se se continua a pregar o valor da honestidade, as práticas em vigor são genericamente desonestas e que a maioria dos indivíduos que têm tentações e a oportunidade se revelam em todo o seus esplendor de fragilidade ética e moral.

Mais do que a questão da criminalização da desonestidade, existe a constatação do enorme falhanço da interiorização das regras que, supostamente, é o que define o nosso grau de civilidade. Que afinal parece discutível!


2016-11-19

« BARTOLOMEU DE GUSMÃO - O PADRE AERONAUTA »

A Passarola - Invenção do Padre Bartolomeu de Gusmão


18 de Novembro de 1724 : Data provável da morte de Bartolomeu de Gusmão, o "Padre voador"

Bartolomeu Lourenço de Gusmão, cognominado “O Padre Voador” morreu em Toledo, Espanha, no dia 18 de Novembro de 1724, aos 38 anos. Sacerdote secular, cientista e inventor português, nascido na capitania de São Vicente, no Brasil, tornou-se famoso por ter inventado o primeiro aeróstato operacional, a que chamou  “passarola” – mais conhecido na sua versão moderna, como balão de ar quente.
 
Cursou as primeiras letras no Colégio São Miguel em São Vicente. Prosseguiu os estudos na Capitania da Baía de Todos os Santos. Ingressou no Seminário de Belém, em Cachoeira, onde teve início a profícua carreira de inventor. Em1699, concluído a formação, Bartolomeu transferiu-se para Salvador, capital do Brasil à época e ingressou na Companhia de Jesus, de onde saiu antes de ser ordenado, em 1701.
 
Viaja para Portugal, hospedando-se em Lisboa na casa do Marquês de Fontes, que se impressionara com os dotes intelectuais do jovem de 16 anos.
 
Em 1702, Bartolomeu retorna ao Brasil e dá início ao processo de ordenação sacerdotal. 
Em 1708, o já padre Bartolomeu embarca para Portugal, matriculando-se na Faculdade de Cânones da Universidade de Coimbra. Abandona a faculdade a meio e  instala-se em Lisboa. Na capital pede patente para um “instrumento para se andar pelo ar” – que se revelaria mais tarde como sendo o aeróstato ou balão – concedida em 19 de Abril de 1709. 
 
O invento, divulgado por meia Europa em estampas fantasiosas, causou celeuma. Era retratado como uma barca com formato de pássaro, ficando conhecido como “passarola”.
 
 
 
 
 Padre Bartolomeu de Gusmão


As primeiras ilustrações da Passarola tinham sido elaboradas por um filho do Marquês de Fontes, Joaquim Francisco, com a conivência de Bartolomeu. Aluno de matemática do padre,  era a única pessoa que tinha livre acesso ao recinto em que o engenho voador era guardado.


Leva a cabo então o exótico desenho da Passarola, em que tudo era propositadamente falseado. E para preservar o verdadeiro princípio da invenção – o Princípio de Arquimedes - atribuiu a ascensão da engenhoca ao magnetismo, resposta naquela altura a quase todos os mistérios científicos. A Passarola, inspirada ao que parece em fábula da fauna brasileira, espalhou-se pela Europa em várias versões.
 
Em Agosto de 1709, finalmente, Bartolomeu fez perante a corte portuguesa cinco experiências com balões de pequenas dimensões: na primeira, realizada na Casa do Forte, o protótipo incendiou-se antes de subir; na segunda, noutra dependência do palácio, a Casa Real, o aeróstato, provido no fundo de uma tigela com álcool em combustão,  elevou-se a 4 metros, quando começou a arder; na terceira, feita novamente na Casa do Forte, o balão, contendo no interior uma vela acesa, logrou fazer um voo curto, mas incendiou-se ao descer; na quarta, feita no Terreiro do Paço, o balonete elevou-se a grande altura, pousando lentamente minutos depois; na quinta, feita na Sala das Audiências, no interior do Palácio Real, o globo subiu até ao tecto do aposento, aí permanecendo, quando enfim desceu com suavidade.


Em 3 de Outubro de 1709, na ponte da Casa da Índia, o padre fez nova demonstração do invento. O aparelho utilizado era maior que os anteriores, mas ainda incapaz de transportar um homem. A experiência teve êxito absoluto: o balão subiu bastante alto, flutuou por um tempo não medido e pousou sem problemas.
 
Cinco testemunhas registaram estas experiências: o cardeal italiano Michelangelo Conti, eleito papa em 1721 sob o nome de Inocêncio XIII, os escritores Francisco Leitão e José Soares, membros da Academia Real de História Portuguesa, o diplomata José Brochado e o cronista Salvador Ferreira.
 
Estas experiências, embora com a assistência de personalidades da época, não foram suficientes para popularizar o invento. Os pequenos balões exibidos, além de não terem sido encarados como inovação importante ou útil, por serem desprovidos de qualquer tipo de controlo - eram levados pelo vento. Foram considerados perigosos, pois podiam provocar incêndios. Estes factores não permitiram a construção de um modelo grande, tripulável.
 
Entre 1713 e 1716, viajou pela Europa. Registou na Holanda o invento de uma “máquina para drenagem da água alagadora das embarcações de alto mar”.  Viveu em Paris, trabalhou como ervanário para sustentar-se.
 
O padre Bartolomeu de Gusmão voltou a Portugal, quando foi vítima de insidiosa campanha de difamação. Acusado pela Inquisição de simpatizar com cristãos-novos, viu-se forçado a fugir para a Espanha, no final de Setembro de 1724.
 
Segundo o testemunho que, mais tarde, João Álvares, um irmão mais novo, daria à Inquisição espanhola, Bartolomeu teria feito a conversão ao judaísmo, em 1722, depois de atravessar uma crise religiosa. O relato de João Álvares ao Santo Ofício, ainda que deva ser visto com cautela, mostra aspectos místicos, messiânicos e megalómanos do "padre voador".
 
Em Toledo, Bartolomeu adoece gravemente, recolhendo-se ao Hospital da Misericórdia, onde veio a falecer em 18 de Novembro de 1724. Antes de morrer, confessou-se e recebeu a comunhão, conforme o rito católico, e assim foi sepultado na Igreja de São Romão, em Toledo. Foram feitas, ao longo de décadas, várias tentativas para localizar a sua sepultura , o que só ocorreu em 1856. Parte dos restos mortais foi transportada para o Brasil e  encontra-se, desde 2004, na Catedral Metropolitana de São Paulo.
 
Bartolomeu de Gusmão figura como uma das personagens centrais de Memorial do Convento, romance de José Saramago.

2016-08-07

«O PORTUGUÊS É UMA LÍNGUA BASTARDA?»



As línguas, meus caros, são umas bastardas.

Reparem: o português julga que vem do latim, essa língua imperial, mas nem sempre se lembra que o latim era outro: não o latim dos intelectuais romanos, mas a língua do padeiro. E do ferreiro. E da mulher da vida. E do soldado. Sim, também temos Cícero a correr nas veias da língua, mas menos do que gostam de imaginar os que sonham com uma qualquer nobreza da língua.

Mas, mais: depois de cozer a língua na Galécia, misturámos esse nosso galego com uns pós de árabe — e nem sequer era bem o árabe, mas sim os pedaços de árabe que já vinham misturados, como pedaços de chocolate numa bolacha, no moçárabe, a língua do povo do sul da península.

Durante séculos, o nosso português era a língua vulgar e o antigo latim continuava no seu trono. Enfim, lá se tornou oficial e, mais tarde, inventámos algumas palavras a soar a grego e também fomos outra vez ao latim para dar um ar mais cultivado…

Mas não nos enganemos: a língua continuou a ser um bicho sem tino. Importámos palavras de todo o lado. Até Os Lusíadas têm palavras de muitas paragens e castelhanismos que sobram..

Então se nos afastarmos da língua escrita, se olharmos para a língua da rua, essa sempre se misturou, sempre se deixou levar por manias e modas, sempre pisoteou todas as ideias de pureza. Lá vieram palavras do francês, do italiano, do inglês, das línguas índias e muito mais (mas descansem: também oferecemos palavras a outras línguas: ao inglês, ao castelhano, ao francês, até ao japonês).

E, claro, depois, nas naus, lá foi o português e lá se espalhou pelo mundo, e em todo o mundo se misturou e se pintalgou: a nossa língua também é mestiça, ó gente armada ao puro!
Sim, eu sei: se a língua nasceu na rua, os escritores e os gramáticos deram-lhe lustro, limaram-lhe as arestas, escolheram isto em vez daquilo. Mas a verdade, também, é que a literatura se alimenta dessas correntes obscuras, da língua doutros sítios, doutras gentes — não é de todo feita duma linguagem depurada: muito antes pelo contrário. Poucos bons escritores conseguiriam escrever se a língua fosse qualquer coisa de artificial ou um bicho domado. Não: a literatura vive desse bicho selvagem criado nas ruas, nas camas, nas noites — a língua de todos, de quem insulta e ama, de quem vende e compra — e por isso tem de misturar, aprender, mudar — de quem tem pouca paciência para queixas, de quem precisa, agora, de falar, às vezes à pressa, muitas vezes com um sorriso na boca, ou um grito, ou um segredo, ou um beijo.

Somos só nós que somos assim? Não: o português não está sozinho: o inglês, por exemplo, a língua que agora anda nas bocas do mundo, chegou àquelas ilhas britânicas como língua dum povo guerreiro, estragou-se com os celtas e os viquingues, que lhe esfacelaram a gramática toda, andou à rédea solta enquanto os nobres falavam normando, absorveu palavras latinas, francesas, até portuguesas. Hoje, é uma manta de retalhos em que o tecido original, muito germânico, já está cheio de remendos de todo o tipo. Alguém se importa? Há quem se importe, mas não interessa.
O mesmo podemos ver no espanhol, no francês (até no francês!), no italiano — e em todas as outras línguas. Mesmo o esperanto, coitadinho, não passa duma mistura estranha de muitas línguas, só que em vez de ser na cabeça de milhões, foi na cabeça de um só homem.

As línguas ficam mais pobres com estas misturas todas? Claro que não! A ideia de pureza linguística é como todas as outras ideias de pureza: extraordinariamente sedutora, mas perigosa, daquele perigo mau, que às vezes até acaba em tragédia. É uma mania que não ajuda ninguém e só nos deixa enervados uns com os outros.

Por isso, todos os que querem uma língua impoluta, sem misturas, sempre no mesmo registo, sem palavrões, sem palavras populares em textos escritos (como «deslargar» e outras), sem um ou outro absurdo, sem redundâncias, sem palavras que querem dizer a mesma coisa, sem estrangeirismos: percebam que o português, como todas as línguas, é um fenómeno natural, um sistema complexo e desordenado, que podemos estudar, usar, moldar para nosso proveito — mas que dificilmente podemos controlar. Podemos (isso sim) conhecer e até amar esse bicho bastardo. Podemos ainda — aliás, devemos — cada um de nós, tentar falar e escrever cada vez melhor a língua que nos calhou na rifa. É bastarda, mas é nossa.

Sim, temos de ter uma norma-padrão, o português seleccionado que serve para as situações formais e académicas — e serve de base à escrita, essencial à civilização. Quanto mais pessoas a conhecerem bem, mais pessoas têm acesso a muita coisa que julgo importante. A norma-padrão é um instrumento essencial — mas não se convençam que é sagrada e, acima de tudo, não tentem reduzi-la ao mínimo, não tentem cortá-la até ficar sem vida. A norma pode ser mais ou menos rica — e quanto mais pura, mais pobre será. Sim: mesmo à norma, quando a conhecemos de trás para a frente, fica bem dar-lhe um pouco de sangue, esticar um pouco a corda. Arriscar. Misturar. Sem medo. Querem protegê-la? Escrevam mais, leiam mais, trabalhem! Não desatem a querer cortar à língua palavras e expressões por esta ou aquela razão, deixando a norma mais pobre e mais distante da língua de todos.
É verdade, admitamos: isto vem muito a propósito do estardalhaço lido por causa de uma simples palavra numa notícia. Uma pequena brincadeira, um pequeno risco que um jornalista decidiu correr — e vem a correr a brigada da língua, cheia de discursos inflamados a acusar os falantes da língua de todas as patifarias deste mundo. São os discursos habituais, que se viram contra a própria língua com a desculpa de a proteger.

Quando vejo tanta gente a atacar os outros por falarem português, tanta gente a atarefar-se a mudar a língua para a tornar mais lógica, mais pura, mais pequena, penso: quem salvará a língua de quem quer salvar a língua?





2016-03-29

« AGRADAR... E TER RETORNO »

 NICOLAU BREYNER
Actor
1940 - 2016

Gosto que gostem de mim, é um facto. É um fraco que eu tenho, porque eu gosto muito das pessoas.

= X =


Gostamos que gostem de nós. Pode ser uma fragilidade ou uma presunção, mas, de facto, a maioria de nós é sensível ao facto de desencadear nos outros reacções que passam por exprimir sentimentos positivos. 

Para muitos, não chega que os outros tenham uma atitude bem-educada, já que isso passa por um profissionalismo indiferente e desapegado. O que se quer mesmo é sentir que as pessoas que habitualmente nos rodeiam e até as que surgem pontualmente nas nossas vidas desenvolvam connosco uma ligação significativa, uma cuidado maior, uma deferência especial.

Tanto faz que seja o colega da mesa ao lado, o empregado do restaurante do costume, a empregada da frutaria em que fazemos as compras. Mesmo que não os conheçamos nem eles a nós, queremos sentir que nos tratam bem, queremos ter a sensação de que somos bem-vindos, queremos experimentar o conforto de nos sentirmos entre amigos.

Dir-se-ia que, por isto, seríamos todos consequentes com esta necessidade e, portanto, assumiríamos nós a responsabilidade da coisa, iniciando interacções simpáticas, afivelando sorrisos calorosos, dirigindo perguntas demonstrativas de um interesse mais pessoal (Como está? Não o tenho visto. Já sentia a sua falta.).

Algumas pessoas, em todo o caso poucas, são excelentes neste exercício e fazem dos seus quotidianos uma caminhada suave. Cumprimentam quem passa, sorriem à esquerda e à direita, dizem larachas e fazem brincadeiras com quem se cruzam, sabem o nome de toda a gente e lembram-se da questão certa ou do comentário adequado ("Então, Sr. Jaime, lá ganhou o seu Benfica"; "Olá, Dª. Augusta, está melhor das suas costas?"; "Viva Dr. Araújo, li a sua entrevista, gostei muito").

 A maioria das pessoas, no entanto, arrasta-se perra. Uns nem chegam a ter consciência da sua necessidade de agradar e, pelo contrário, parecem fazer tudo na direcção contrária. Carregam o sobrolho, desviam o olhar, irritam-se por dá cá aquela palha, respondem torto.

Outros por inabilidade, timidez, ou por nunca terem pensado no assunto, adoptam uma posição defensiva ou passiva como se a simpatia e a alegria fossem sempre uma resposta e nunca uma iniciativa.

Agradar, como tudo na vida, dá trabalho e precisa de empenho.