[ Vox populi vox Dei ]

2013-08-31

« TITANIC - O NAVIO MAIS FAMOSO DOS MARES »



Os grandes transatlânticos  Olympic, Titanic e Britannic nasceram na primeira década do século XX, quando este tipo de embarcações majestosas dominava o mundo. Os três navios, quase idênticos, tiveram uma existência estranha e um final trágico. Chegou-se mesmo a falar de navios marcados pela desgraça. O fim do Titanic e do Olympic está  praticamente documentado, ao contrário do Britannic que explodiu misteriosamente e se afundou em menos de uma hora em 21 de Novembro de 1916. Passaram mais de sessenta anos para que o puzzle se completasse quanto à explicação sobre o que aconteceu a estes navios gémeos. Jacques Cousteau e a sua equipa de exploradores submarinos, trouxeram, entretanto, a verdade à tona de água.

Que tipo de navio era o Titanic? O que causou o seu naufrágio? Uma visita ao Museu do Povo e dos Transportes de Ulster, perto de Belfast, Irlanda do Norte, ajuda-nos a encontrar as respostas a essas perguntas.

O mito do Titanic ficará para sempre! Desafia o tempo. Desperta a imaginação. Deu origem à realização de filmes que esgotaram bilheteiras, mexendo com os sentimentos levando os espectadores às lágrimas.

Por que o Titanic é tão especial? Segundo Michael McCaughan, ex-conservador do Museu do Povo e dos Transportes, o Titanic é o "navio mais famoso da História". Com é sabido e acima foi referido, havia outros navios de porte semelhante. Dos três irmãos, o Titanic foi o segundo a ser construído nos estaleiros de Harland & Wolff, em Belfast. Entre os maiores da sua época, media 269 metros de comprimento e 28 metros de largura.





A companhia de navegação White Star Line mandou fazer essas embarcações enormes para conseguir o monopólio das lucrativas rotas marítimas  do Atlântico Norte. A White Star Line não tinha condições de concorrer  com a sua congénere, a Cunard Line, no quesito velocidade. Assim, dedicou-se à construção de embarcações maiores e mais luxuosas a fim de atrair passageiros ricos e famosos.

Mas o Titanic tinha potencial para desempenhar outro papel. Entre 1900 e 1914, quase novecentos mil imigrantes entraram nos Estados Unidos por ano. Transportar essas pessoas da Europa para a América constituía a maior fonte de receita para as companhias de navegação transatlântica, e o Titanic seria usado para esse objectivo.

O capitão do Titanic, E. J. Smith, conhecia os perigos que o gelo no Atlântico Norte representava. Já havia feito essa rota várias vezes com o Olympic. Vários alertas  de icebergs foram enviados para o Titanic por outros navios, mas alguns foram desconsiderados ou pelos vistos não foram recebidos pelo comandante.


E.J. Smith, Capitão do Titanic (à direita)
c/o Comissário-chefe Herbert McElroy




10 de Abril de 1912 
O Titanic zarpa de Southampton, Inglaterra, rumo a Nova York, E.U.A.



11 de Abril de 1912
Depois de apanhar passageiros em Cherbourg, França, o Titanic segue rumo ao Atlântico



De repente, os vigias do Titanic avisaram que havia um iceberg em frente - mas era tarde demais! O oficial de serviço evitou uma colisão frontal, mas não conseguiu impedir que a lateral do Titanic raspasse no iceberg. Isso danificou o casco do navio - e o mar inundou vários compartimentos dianteiros. O Capitão Smith terá de imediato sabido que o seu navio estava seriamente comprometido. Enviou mensagens de S.O.S. e ordenou que os botes salva-vidas fossem abaixados.

O Titanic contava com um total de 20 barcos salva-vidas. Ao todo, podiam transportar cerca de 1.170 pessoas. Mas havia mais de 2.200 a bordo, incluindo passageiros e tripulação. Para piorar a situação, muitos dos botes afastaram-se com a lotação incompleta. E a maioria deles não fez nenhum esforço para procurar possíveis sobreviventes de entre as pessoas que se tinham atirado ao mar. No final, apenas 705 pessoas foram salvas.



Após o desastre, as autoridades marítimas aprovaram normas que melhoraram a segurança no mar. Uma dessas normas exigia que os navios tivessem um número suficiente de barcos salva-vidas para todos a bordo.

Durante anos, as pessoas acreditaram que o Titanic afundou por causa de um enorme rasgo no casco decorrente da colisão.

Mas, em 1985, após a descoberta do Titanic no fundo do oceano, investigadores chegaram a uma conclusão diferente: as águas geladas comprometeram o aço do navio deixando-o quebradiço e levando-o a rachar, devido a erros na fundição do aço, com excesso de enxofre, tornando o metal quebradiço a baixas temperaturas.




Menos de três horas após a colisão, o navio partiu em dois e afundou, entrando para a história da navegação como um dos maiores desastres marítimos.






Olive Palmer é um dos homens mais ricos da Austrália e está a financiar um estaleiro chinês para lhe construir a versão do Titanic do Século XXI.




OLIVE PALMER



O milionário da mineração afirma que a construção do Titanic II estará pronta em 2016 e o navio pronto a zarpar.

Tornou público que a embarcação será o mais semelhante possível com o Titanic original, mas garante que por detrás do design antigo,  vai incorporar no navio toda a tecnologia dos nossos dias.

O que esta gente endinheirada descobre, para ter o seu nome encostado aos ecos da História. Tento abstrair-me desta gabarolice, e pensar que, pelo menos o navio irá proporcionar muitos postos de trabalho à futura tripulação.

Bons cruzeiros,  e boa viagem!...


2013-08-07

«AS BONECAS... E OS MAGALAS DE CHUMBO»


A Tucha



A boneca atravessou todas as idades da humanidade, esquecida no jardim, molhada, suja, mimada, acarinhada, punida, recompensada. Modificou-se ao longo do tempo, com novos materiais: pano, cera, porcelana, pasta de papel, celulóide, plástico e borracha transformaram  a sua fisionomia, mas o afecto da criança por ela não mudou.

Os túmulos egípcios, gregos e romanos guardam figurinhas em terracota ou osso que provavelmente desempenharam o papel das nossas bonecas, exprimindo também os sinais do sagrado, servindo de totem.

A boneca permite consciencializar um corpo, torna-se um duplo, um alter-ego capaz de captar ansiedades e vivências, conversas. Veste-se e despe-se. Adormece-se. Pode-se embalar. E podemos contar-lhes a nossa vida. As bonecas desde o século XVIII, divulgam a moda de Paris, e eram exportadas para vários países da Europa lançando modelos franceses pelo mundo. A colecção de bonecas da rainha Vitória, vestidas pelas suas próprias mãos e representando personagens da corte, revelam um grande sentido de exactidão e o gosto que a boneca suscita em todos os tempos.




 Exemplares de bonecas antigas


Actualmente, por exemplo, a Barbie invade os mercados, multiplicando-se em cores, conjuntos e situações. Também se vendem bonecos articulados, a pensar na divisão social rapaz-rapariga (divisão que parece redutora e que com as creches deixa de acontecer) que apresentam aventuras de todo o tipo e acessórios diversificados. Boneco ou boneca, é o brinquedo por excelência. Permite o diálogo com o mundo e com o «outro» numa dimensão que se desenha mais profunda em cada época.



A  Barbie


Estes bonecos vivem por vezes em casa, são manuseados, arrumados em famílias, estes «lares» podem ser um recanto de jardim ou um sólido e ordenado ambiente doméstico, uma casinha de bonecas, ensinando uma ordem doméstica e um modus vivendi para com quem com elas brinca.

As casas de bonecas são a melhor história do mobiliário. Informam-nos sobre a vida privada das épocas e dos países. Copiam-se também utensílios domésticos. Desde a mais remota Antiguidade que se reproduzem, à escala, os objectos da vida real.





Criança ao lado da sua casa de bonecas


O brinquedo funcionou muitas vezes de modelo transmissão de uma época, de uma moral, de uma política. Isso acontece com forte intenção na história moderna. Os soldadinhos de chumbo serviram a Hitler (e o militarismo em geral) para preparar os rapazes para uma futura guerra. Hitler auto-representava-se mais alto do que qualquer outro (quando era de baixa estatura), os soldados em miniatura, os brinquedos adquiriram uma forma instintiva, com sangue, cavalos mortos no campo de batalha, enfermarias, feridos, muita violência.

Assim se pretendia «formar» soldados sem medo, com vontade de guerra. Daquela guerra. Como, aliás, das guerras de hoje!!

Luís XIV, aos 12 anos, foi iniciado nos exercícios militares com soldados em miniatura. A verdade é que as crianças imitam nas suas brincadeiras o que vêem.



Exemplares de brinquedos representando líders nazis e fascistas





Soldados de chumbo nazis em "acção"



O Estado português fascista, no tempo do chamado Estado Novo, também editou
os filiados da Mocidade Portuguesa de chumbo em "alto estilo"
como a imagem mostra




Durante a Revolução Francesa, as crianças guilhotinavam gatos recém-nascidos, e assistiam à execução para se divertirem. Na Ásia menor foram encontrados guerreiros em terracota da época romana [não estava ainda em prática o uso do chumbo para moldar soldados].

Soldados e guerras que suscitaram sempre o entusiasmo de quem com eles brincou, fornecendo provas de que só são diferentes as maneiras, mas a guerra acontece sempre.

Com estas histórias do brinquedo que acabo de contar, reafirmo: o que é perene - o modo de brincar, às vezes! As brincadeiras perdidas no tempo e na memória de quem as leva consigo. 

O que muda: os materiais e modos de fabrico; os brinquedos; as novidades introduzidas em cada época e que se esquecem, passam de moda, a fisionomia do brinquedo, o gosto, o sistema, os símbolos de vida, os sinais, as pessoas.

O que é imutável: o modo de brincar, muitas vezes! As brincadeiras repetidas ou guardadas na memória de quem as preserva.

O que é igual: alguns brinquedos e modos de brincar; alguns materiais; o afecto, o gosto de brincar, a alegria e a tristeza, o crescer, a vida, tantas vezes o medo.


2013-08-05

« CHAMPAGNE - O VINHO ESPUMANTE FRANCÊS »






Dom Pérignon foi um monge beneditino (Sainte-Menehould, 1639 - Abadia de Saint-Pierre d'Hautvillers, 24 de setembro de 1715) que inventou o método para a fabricação do champanhe denominado Método Champanoise inspirado no Método Antigo de Limoux.

Quase contemporâneo de Luis XIV, ele não era nem viticultor nem alquimista. Foi numa peregrinação à Abadia de Saint Hillaire que ele descobriu o método de vinificação dos vinhos efervescentes. De volta ao mosteiro de Hautvillers, perto de Épernay, ele importou então o método Limouxine.

Nasceu em dezembro de 1638 ou janeiro de 1639, em Sainte-Menehould, sob o nome de Pierre Pérignon. Apesar de a sua data de nascimento ser imprecisa, o seu ato de batismo é datado de 5 de janeiro de 1639. Cresceu em Sainte-Menehould e fez parte do coral da Abadia Beneditina de Moiremont. Aos treze anos entrou para o colégio de jesuítas de Châlons e, em 1656 entrou para o mosteiro beneditino de Verdun onde, fiel às regras de São Bento, alternava trabalho manual, leitura e oração, adquirindo sólidos conhecimentos em filosofia e teologia. Em 1668, então com trinta anos, entra para a Abadia Saint-Pierre de Hautvillers. Até à sua morte em 1715, ele fica encarregado da adega e dos produtos da abadia. Um cargo de elevada importância numa época em que os mosteiros possuíam vastos domínios e de onde tiravam todas as espécies de produtos destinados à venda. E que, sobretudo, dá-lhe o controle sobre as vinhas e as prensas. Foi enterrado na frente do coro da igreja de Hautvillers.

Neste último terço do século XVII, a abadia Saint-Pierre de Hautvillers não gozava de um grande prestígio. Ela contava com apenas um punhado monges que tentavam tirar o sustento dos domínios da abadia, que eram muito pouco explorados. Os depósitos, as adegas e as prensas estavam em ruínas! Com paciência e obstinação, o jovem monge tratou de os recuperar. O seu objetivo: voltar a dar à abadia os meios que lhe faltam tanto e, enquanto isso, restaurar o brilho da pequena comunidade religiosa. Neste país de velha tradição vinícola, a exploração das vinhas e o comércio do vinho constituem, sem dúvida, o melhor produto de comércio.

A partir de 1668, a primeira inovação de Don Pérignon consiste em acompanhar sistematicamente a evolução das vinhas, antes mesmo de prensar as uvas. Tinha à sua disposição várias qualidades de uvas cuja mistura ele mesmo fez a fim de harmonizar as qualidades e minimizar os defeitos. “É o conhecimento do bom efeito que produzem as uvas de três ou quatro vinhas de diferentes qualidades que levou à perfeição os famosos vinhos de Sillery, de Ay e de Hautvillers. Dom Pérignon, religioso beneditino de Hautvillers, é o primeiro a aplicar com sucesso a mistura de uvas das diferentes vinhas” escrito em 1763 pelo abade Noël-Antoine Pluche, reconhecendo assim a contribuição do jovem na elaboração de um champanhe de qualidade.

Dom Pérignon tem um cuidado específico com as vindimas e a escolha das uvas, e não permite que outro as prove em seu lugar. “Dom Pérignon não provava as uvas”, disse o irmão dele, aluno e sucessor “do pai” do champanhe. “Mas fazia-se trazer uvas das vinhas que destinava a compor a mistura fermentada. Fazia degustação apenas no dia seguinte em jejum, após ter feito passar a noite ao ar livre sobre a sua janela, julgando do gosto de acordo com os anos. Não somente compunha fermentados de acordo com este gosto, mas ainda de acordo com a disposição, os anos precoces, tardios, frios, chuvosos, e de acordo com as vinhas boas ou medíocres. Todos os acontecimentos lhe serviam de regras para distinguir a composição dos seus fermentados.” Com Dom Pérignon, a enologia ascendeu à categoria de uma verdadeira ciência.

Com essa prática, o champanhe adquire assim uma qualidade que não tinha até então e que fará grande diferença para a sua reputação. A história quer que Dom Pérignon tenha sido o primeiro a descobrir o meio para fazer fermentar o vinho de Champanhe em garrafas. Verdadeira ou falsa, a história vale a pena: À época, as garrafas eram tapadas com cavilhas de madeiras envoltas de estopa embebida de óleo. À procura de um método mais limpo e mais estético, Dom Pérignon teve a ideia de derreter cera de abelhas no gargalo das garrafas, o que lhes assegura assim uma perfeita vedação. Ao fim de algumas semanas, a maior parte das garrafas explodiu, deixando o monge perplexo. Demorou algum tempo para compreender o que o açúcar contido na cera de abelha tinha provocado, em contacto com o vinho, fazendo uma segunda fermentação provocando uma brusca efervescência. Incapazes de se opor à pressão, as garrafas tinham voado das prateleiras. Foi essa feliz má sorte que permitiu a Dom Pérignon descobrir a fermentação em garrafa: “o método champanhês” ou, mais simplesmente o champanhe, acabava de nascer. Embora nada permitisse afirmar com certeza, o monge de Hautvillers teria inventado também a rolha de cortiça para substituir o arcaico feixe de madeira mantida no gargalo por um cordão de cânhamo.

Sem dúvida, o processo de elaboração do vinho foi uma obra longa. E neste processo, esse monge amante de enologia desempenhou indubitavelmente um papel essencial. No início do século XVIII, o champanhe como conhecemos hoje faz a felicidade das mesas aristocráticas e reais.

[na foto: Estátua de Dom Perignon na sede da empresa vinícola Moet & Chandon. Epernay, França, junho 2007]


2013-08-03

«OSTRAS - CRIATURAS COMESTÍVEIS, OU DE ADORNO»

Exemplar de ostra


Desde que foi pela primeira vez tentada com êxito no Oriente, há séculos, a arte de cultivar ostras tem sido amplamente praticada. Em princípio, criar ostras é coisa simples: plantam-se numa baía ou estuário cascas de ostra ou outras conchas vazias semelhantes, para apanhar certa porção de ostras novas. Assim que elas atingem tamanho comercializável, faz-se a colheita. São necessários, porém, conhecimentos para se conseguir constantemente uma boa produção dessa cultura submarina.


Criação artificial - ostreicultura




Aspecto de apetrechos de criação de ostras


É preciso ter sorte também. A vida da ostra está sujeita desde o início a riscos sem conta. Provavelmente, apenas duas num milhão atingem a idade adulta!
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A chance do criador de ostras é a surpreendente vida sexual desses animais ser da mais fecunda. Em geral a ostra começa a vida como macho, depois, uma vez em cada época, pode transformar-se em fêmea e pôr uma grande quantidade de ovos. A fêmea pode pôr nada menos do que 500 milhões de ovos numa só temporada de desova. No mesmo período o macho solta bilhões de espermatozóides. No entanto, apenas poucas células germinativas chegam a unir-se, pois o seu encontro ocorre na água, é aparentemente ao acaso.
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Poucas horas depois de o ovo ter sido fertilizado, dele sai o embrião. Dentro de um a dois dias a pequenina ostra forma uma concha minúscula, semelhante a um pequeno marisco, mas invisível a olho nu. Mesmo depois de alimentar-se constantemente durante duas semanas, não é muito maior do que a cabeça de um alfinete. Correntes e marés arrastam muitas ostras novas às águas profundas, onde morrem. Das cem espécies conhecidas no mundo inteiro, poucas vivem em profundidades superiores a oito metros e uma grande quantidade torna-se o repasto de medusas e outras criaturas marinhas.
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As que sobrevivem às duas primeiras semanas descem ao fundo, onde procuram superfícies limpas para nelas se fixarem. Quando a ostra encontra uma superfície adequada, a concha segrega imediatamente uma substância adesiva. Dentro de poucos minutos torna-se dura como cimento e daí em diante a ostra está permanentemente fixada à base, sempre pela metade profunda da sua concha - esquerda; apenas a metade direita - plana -, que a ela se adapta como tampa, permanece móvel. A ostra cresce aumentando as bordas da concha, cerca de dois centímetros e meio por ano em algumas regiões; porém, mais do que o dobro nos períodos de crescimento mais longos, em águas quentes.
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Durante a estação de crescimento o criador de ostras deve inspeccionar com frequência os seus parques ostrícolas, pois é quase certo os rapinantes andarem por perto. Nas águas setentrionais, estrelas-do-mar aos bandos pululam sobre os bancos de ostras. Com o corpo grotescamente curvado, a estrela-do-mar monta-se numa ostra fechada e, com os numerosos tentáculos tubulares, começa a sugar até que os vigorosos músculos da ostra não resistem à tensão e abre a concha.
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Os cultivadores de ostras arrastam enormes lambazes - aparelho marítimo tipo' vassoura' - ao longo dos seus bancos de cultura para enlear as estrelas-do-mar nos cordões do equipamento, ou espalham cal sobre o fundo; esta dissolverá a casca crustácea das estrelas- do-mar.
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Em certas regiões, esponjas de amarelo vivo crescem sobre as cascas das ostras e dissolvem-nas. Gigantescas raias-chita podem devastar uma grande ostreira apenas numa noite! Para combatê-las, é preciso guarnecer as áreas de cultivo com paus aguçados para espetar as raias quando estas se baixam para comer.
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As ostras são atacadas por numerosos fungos. Os leitos da desova podem ser destruídos, ou as ostras podem ser mortas por resíduos industriais. Excesso de chuva pode diluir o sal na água das baías ou enseadas, deixando-o abaixo do teor necessário à vida da ostra. Todavia, a falta de chuva pode impedir a afluência de substâncias nutritivas indispensáveis vindas de terra.
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Em condições favoráveis, a ostra come 24 horas por dia, bombeando durante esse tempo cerca de 750 litros de água através das guelras. Partículas sólidas na água são arrastadas a canais de espesso muco, que flui lentamente para a boca da ostra. As partículas menores de alimento - minúsculas plantas ou detritos orgânicos - vão para o estômago.
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Em águas quentes as ostras atingem em 18 meses, ou menos, o tamanho adequado para venda, mas em águas setentrionais podem levar cinco anos ou mais para crescerem até ao mesmo tamanho.




 Ostra perlífera

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Entre as diferentes espécies melhoradas por uma cuidadosa cultura, pode citar-se a Ostra portuguesa, originária do rio Tejo, que chega ao estado adulto no fim de três anos; mas só no fim de quatro a sete é que atinge as suas maiores dimensões.
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Ostras de água fria são firmes, tendo em média 23% de carne sólida. As de água quente, de crescimento rápido, têm menos de 10% de substância sólida.
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Outrora era considerado perigoso comer ostras nos meses de Verão. É verdade que as ostras no Verão são leitosas por causa das ovas e muito menos saborosas do que as colhidas no Inverno; mas as ostras de nenhum modo são venenosas. A ideia de se evitarem as ostras no Verão originou-se na Europa, onde a ostra comum nessa estação do ano se torna arenosa, sendo desagradável ao paladar.



Ostras prontas para a mesa
          Foi corajoso quem comeu uma ostra pela primeira vez

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Em valor nutritivo poucos alimentos são comparáveis às ostras, tão ricas em cobre e ferro como uma porção equivalente de fígado. Contêm manganês, cálcio, fósforo, duzentas vezes mais iodo do que o leite, os ovos, ou a carne, além de elevado teor de proteínas e vitaminas. O coeficiente de calorias é semelhante ao do leite, mas as calorias do leite são provenientes da gordura, ao passo que as da ostra são da proteína.
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As ostras figuram entre os poucos animais que o homem ainda come vivos e crus! Acondicionadas em sacos húmidos e mantidas frescas, de comboio de mercadorias, camiões frigoríficos, ou de avião, são entregues em mercados distantes milhares de quilómetros do local onde foram apanhadas.
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A temperaturas negativas tornam-se semi-dormentes e, neste estado, conservam-se vivas e frescas durante muitos meses.
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Observando-se a ostra, um humilde molusco disforme e viscoso, um autêntico nó cinzento em nada devendo à estética, concordar-se-á que o Anónimo que comeu a primeira ostra, ou tinha muita fome, ou era alguém com muita coragem!