[ Vox populi vox Dei ]

2013-08-31

« TITANIC - O NAVIO MAIS FAMOSO DOS MARES »



Os grandes transatlânticos  Olympic, Titanic e Britannic nasceram na primeira década do século XX, quando este tipo de embarcações majestosas dominava o mundo. Os três navios, quase idênticos, tiveram uma existência estranha e um final trágico. Chegou-se mesmo a falar de navios marcados pela desgraça. O fim do Titanic e do Olympic está  praticamente documentado, ao contrário do Britannic que explodiu misteriosamente e se afundou em menos de uma hora em 21 de Novembro de 1916. Passaram mais de sessenta anos para que o puzzle se completasse quanto à explicação sobre o que aconteceu a estes navios gémeos. Jacques Cousteau e a sua equipa de exploradores submarinos, trouxeram, entretanto, a verdade à tona de água.

Que tipo de navio era o Titanic? O que causou o seu naufrágio? Uma visita ao Museu do Povo e dos Transportes de Ulster, perto de Belfast, Irlanda do Norte, ajuda-nos a encontrar as respostas a essas perguntas.

O mito do Titanic ficará para sempre! Desafia o tempo. Desperta a imaginação. Deu origem à realização de filmes que esgotaram bilheteiras, mexendo com os sentimentos levando os espectadores às lágrimas.

Por que o Titanic é tão especial? Segundo Michael McCaughan, ex-conservador do Museu do Povo e dos Transportes, o Titanic é o "navio mais famoso da História". Com é sabido e acima foi referido, havia outros navios de porte semelhante. Dos três irmãos, o Titanic foi o segundo a ser construído nos estaleiros de Harland & Wolff, em Belfast. Entre os maiores da sua época, media 269 metros de comprimento e 28 metros de largura.





A companhia de navegação White Star Line mandou fazer essas embarcações enormes para conseguir o monopólio das lucrativas rotas marítimas  do Atlântico Norte. A White Star Line não tinha condições de concorrer  com a sua congénere, a Cunard Line, no quesito velocidade. Assim, dedicou-se à construção de embarcações maiores e mais luxuosas a fim de atrair passageiros ricos e famosos.

Mas o Titanic tinha potencial para desempenhar outro papel. Entre 1900 e 1914, quase novecentos mil imigrantes entraram nos Estados Unidos por ano. Transportar essas pessoas da Europa para a América constituía a maior fonte de receita para as companhias de navegação transatlântica, e o Titanic seria usado para esse objectivo.

O capitão do Titanic, E. J. Smith, conhecia os perigos que o gelo no Atlântico Norte representava. Já havia feito essa rota várias vezes com o Olympic. Vários alertas  de icebergs foram enviados para o Titanic por outros navios, mas alguns foram desconsiderados ou pelos vistos não foram recebidos pelo comandante.


E.J. Smith, Capitão do Titanic (à direita)
c/o Comissário-chefe Herbert McElroy




10 de Abril de 1912 
O Titanic zarpa de Southampton, Inglaterra, rumo a Nova York, E.U.A.



11 de Abril de 1912
Depois de apanhar passageiros em Cherbourg, França, o Titanic segue rumo ao Atlântico



De repente, os vigias do Titanic avisaram que havia um iceberg em frente - mas era tarde demais! O oficial de serviço evitou uma colisão frontal, mas não conseguiu impedir que a lateral do Titanic raspasse no iceberg. Isso danificou o casco do navio - e o mar inundou vários compartimentos dianteiros. O Capitão Smith terá de imediato sabido que o seu navio estava seriamente comprometido. Enviou mensagens de S.O.S. e ordenou que os botes salva-vidas fossem abaixados.

O Titanic contava com um total de 20 barcos salva-vidas. Ao todo, podiam transportar cerca de 1.170 pessoas. Mas havia mais de 2.200 a bordo, incluindo passageiros e tripulação. Para piorar a situação, muitos dos botes afastaram-se com a lotação incompleta. E a maioria deles não fez nenhum esforço para procurar possíveis sobreviventes de entre as pessoas que se tinham atirado ao mar. No final, apenas 705 pessoas foram salvas.



Após o desastre, as autoridades marítimas aprovaram normas que melhoraram a segurança no mar. Uma dessas normas exigia que os navios tivessem um número suficiente de barcos salva-vidas para todos a bordo.

Durante anos, as pessoas acreditaram que o Titanic afundou por causa de um enorme rasgo no casco decorrente da colisão.

Mas, em 1985, após a descoberta do Titanic no fundo do oceano, investigadores chegaram a uma conclusão diferente: as águas geladas comprometeram o aço do navio deixando-o quebradiço e levando-o a rachar, devido a erros na fundição do aço, com excesso de enxofre, tornando o metal quebradiço a baixas temperaturas.




Menos de três horas após a colisão, o navio partiu em dois e afundou, entrando para a história da navegação como um dos maiores desastres marítimos.






Olive Palmer é um dos homens mais ricos da Austrália e está a financiar um estaleiro chinês para lhe construir a versão do Titanic do Século XXI.




OLIVE PALMER



O milionário da mineração afirma que a construção do Titanic II estará pronta em 2016 e o navio pronto a zarpar.

Tornou público que a embarcação será o mais semelhante possível com o Titanic original, mas garante que por detrás do design antigo,  vai incorporar no navio toda a tecnologia dos nossos dias.

O que esta gente endinheirada descobre, para ter o seu nome encostado aos ecos da História. Tento abstrair-me desta gabarolice, e pensar que, pelo menos o navio irá proporcionar muitos postos de trabalho à futura tripulação.

Bons cruzeiros,  e boa viagem!...


2013-08-07

«AS BONECAS... E OS MAGALAS DE CHUMBO»


A Tucha



A boneca atravessou todas as idades da humanidade, esquecida no jardim, molhada, suja, mimada, acarinhada, punida, recompensada. Modificou-se ao longo do tempo, com novos materiais: pano, cera, porcelana, pasta de papel, celulóide, plástico e borracha transformaram  a sua fisionomia, mas o afecto da criança por ela não mudou.

Os túmulos egípcios, gregos e romanos guardam figurinhas em terracota ou osso que provavelmente desempenharam o papel das nossas bonecas, exprimindo também os sinais do sagrado, servindo de totem.

A boneca permite consciencializar um corpo, torna-se um duplo, um alter-ego capaz de captar ansiedades e vivências, conversas. Veste-se e despe-se. Adormece-se. Pode-se embalar. E podemos contar-lhes a nossa vida. As bonecas desde o século XVIII, divulgam a moda de Paris, e eram exportadas para vários países da Europa lançando modelos franceses pelo mundo. A colecção de bonecas da rainha Vitória, vestidas pelas suas próprias mãos e representando personagens da corte, revelam um grande sentido de exactidão e o gosto que a boneca suscita em todos os tempos.




 Exemplares de bonecas antigas


Actualmente, por exemplo, a Barbie invade os mercados, multiplicando-se em cores, conjuntos e situações. Também se vendem bonecos articulados, a pensar na divisão social rapaz-rapariga (divisão que parece redutora e que com as creches deixa de acontecer) que apresentam aventuras de todo o tipo e acessórios diversificados. Boneco ou boneca, é o brinquedo por excelência. Permite o diálogo com o mundo e com o «outro» numa dimensão que se desenha mais profunda em cada época.



A  Barbie


Estes bonecos vivem por vezes em casa, são manuseados, arrumados em famílias, estes «lares» podem ser um recanto de jardim ou um sólido e ordenado ambiente doméstico, uma casinha de bonecas, ensinando uma ordem doméstica e um modus vivendi para com quem com elas brinca.

As casas de bonecas são a melhor história do mobiliário. Informam-nos sobre a vida privada das épocas e dos países. Copiam-se também utensílios domésticos. Desde a mais remota Antiguidade que se reproduzem, à escala, os objectos da vida real.





Criança ao lado da sua casa de bonecas


O brinquedo funcionou muitas vezes de modelo transmissão de uma época, de uma moral, de uma política. Isso acontece com forte intenção na história moderna. Os soldadinhos de chumbo serviram a Hitler (e o militarismo em geral) para preparar os rapazes para uma futura guerra. Hitler auto-representava-se mais alto do que qualquer outro (quando era de baixa estatura), os soldados em miniatura, os brinquedos adquiriram uma forma instintiva, com sangue, cavalos mortos no campo de batalha, enfermarias, feridos, muita violência.

Assim se pretendia «formar» soldados sem medo, com vontade de guerra. Daquela guerra. Como, aliás, das guerras de hoje!!

Luís XIV, aos 12 anos, foi iniciado nos exercícios militares com soldados em miniatura. A verdade é que as crianças imitam nas suas brincadeiras o que vêem.



Exemplares de brinquedos representando líders nazis e fascistas





Soldados de chumbo nazis em "acção"



O Estado português fascista, no tempo do chamado Estado Novo, também editou
os filiados da Mocidade Portuguesa de chumbo em "alto estilo"
como a imagem mostra




Durante a Revolução Francesa, as crianças guilhotinavam gatos recém-nascidos, e assistiam à execução para se divertirem. Na Ásia menor foram encontrados guerreiros em terracota da época romana [não estava ainda em prática o uso do chumbo para moldar soldados].

Soldados e guerras que suscitaram sempre o entusiasmo de quem com eles brincou, fornecendo provas de que só são diferentes as maneiras, mas a guerra acontece sempre.

Com estas histórias do brinquedo que acabo de contar, reafirmo: o que é perene - o modo de brincar, às vezes! As brincadeiras perdidas no tempo e na memória de quem as leva consigo. 

O que muda: os materiais e modos de fabrico; os brinquedos; as novidades introduzidas em cada época e que se esquecem, passam de moda, a fisionomia do brinquedo, o gosto, o sistema, os símbolos de vida, os sinais, as pessoas.

O que é imutável: o modo de brincar, muitas vezes! As brincadeiras repetidas ou guardadas na memória de quem as preserva.

O que é igual: alguns brinquedos e modos de brincar; alguns materiais; o afecto, o gosto de brincar, a alegria e a tristeza, o crescer, a vida, tantas vezes o medo.


2013-08-05

« CHAMPAGNE - O VINHO ESPUMANTE FRANCÊS »






Dom Pérignon foi um monge beneditino (Sainte-Menehould, 1639 - Abadia de Saint-Pierre d'Hautvillers, 24 de setembro de 1715) que inventou o método para a fabricação do champanhe denominado Método Champanoise inspirado no Método Antigo de Limoux.

Quase contemporâneo de Luis XIV, ele não era nem viticultor nem alquimista. Foi numa peregrinação à Abadia de Saint Hillaire que ele descobriu o método de vinificação dos vinhos efervescentes. De volta ao mosteiro de Hautvillers, perto de Épernay, ele importou então o método Limouxine.

Nasceu em dezembro de 1638 ou janeiro de 1639, em Sainte-Menehould, sob o nome de Pierre Pérignon. Apesar de a sua data de nascimento ser imprecisa, o seu ato de batismo é datado de 5 de janeiro de 1639. Cresceu em Sainte-Menehould e fez parte do coral da Abadia Beneditina de Moiremont. Aos treze anos entrou para o colégio de jesuítas de Châlons e, em 1656 entrou para o mosteiro beneditino de Verdun onde, fiel às regras de São Bento, alternava trabalho manual, leitura e oração, adquirindo sólidos conhecimentos em filosofia e teologia. Em 1668, então com trinta anos, entra para a Abadia Saint-Pierre de Hautvillers. Até à sua morte em 1715, ele fica encarregado da adega e dos produtos da abadia. Um cargo de elevada importância numa época em que os mosteiros possuíam vastos domínios e de onde tiravam todas as espécies de produtos destinados à venda. E que, sobretudo, dá-lhe o controle sobre as vinhas e as prensas. Foi enterrado na frente do coro da igreja de Hautvillers.

Neste último terço do século XVII, a abadia Saint-Pierre de Hautvillers não gozava de um grande prestígio. Ela contava com apenas um punhado monges que tentavam tirar o sustento dos domínios da abadia, que eram muito pouco explorados. Os depósitos, as adegas e as prensas estavam em ruínas! Com paciência e obstinação, o jovem monge tratou de os recuperar. O seu objetivo: voltar a dar à abadia os meios que lhe faltam tanto e, enquanto isso, restaurar o brilho da pequena comunidade religiosa. Neste país de velha tradição vinícola, a exploração das vinhas e o comércio do vinho constituem, sem dúvida, o melhor produto de comércio.

A partir de 1668, a primeira inovação de Don Pérignon consiste em acompanhar sistematicamente a evolução das vinhas, antes mesmo de prensar as uvas. Tinha à sua disposição várias qualidades de uvas cuja mistura ele mesmo fez a fim de harmonizar as qualidades e minimizar os defeitos. “É o conhecimento do bom efeito que produzem as uvas de três ou quatro vinhas de diferentes qualidades que levou à perfeição os famosos vinhos de Sillery, de Ay e de Hautvillers. Dom Pérignon, religioso beneditino de Hautvillers, é o primeiro a aplicar com sucesso a mistura de uvas das diferentes vinhas” escrito em 1763 pelo abade Noël-Antoine Pluche, reconhecendo assim a contribuição do jovem na elaboração de um champanhe de qualidade.

Dom Pérignon tem um cuidado específico com as vindimas e a escolha das uvas, e não permite que outro as prove em seu lugar. “Dom Pérignon não provava as uvas”, disse o irmão dele, aluno e sucessor “do pai” do champanhe. “Mas fazia-se trazer uvas das vinhas que destinava a compor a mistura fermentada. Fazia degustação apenas no dia seguinte em jejum, após ter feito passar a noite ao ar livre sobre a sua janela, julgando do gosto de acordo com os anos. Não somente compunha fermentados de acordo com este gosto, mas ainda de acordo com a disposição, os anos precoces, tardios, frios, chuvosos, e de acordo com as vinhas boas ou medíocres. Todos os acontecimentos lhe serviam de regras para distinguir a composição dos seus fermentados.” Com Dom Pérignon, a enologia ascendeu à categoria de uma verdadeira ciência.

Com essa prática, o champanhe adquire assim uma qualidade que não tinha até então e que fará grande diferença para a sua reputação. A história quer que Dom Pérignon tenha sido o primeiro a descobrir o meio para fazer fermentar o vinho de Champanhe em garrafas. Verdadeira ou falsa, a história vale a pena: À época, as garrafas eram tapadas com cavilhas de madeiras envoltas de estopa embebida de óleo. À procura de um método mais limpo e mais estético, Dom Pérignon teve a ideia de derreter cera de abelhas no gargalo das garrafas, o que lhes assegura assim uma perfeita vedação. Ao fim de algumas semanas, a maior parte das garrafas explodiu, deixando o monge perplexo. Demorou algum tempo para compreender o que o açúcar contido na cera de abelha tinha provocado, em contacto com o vinho, fazendo uma segunda fermentação provocando uma brusca efervescência. Incapazes de se opor à pressão, as garrafas tinham voado das prateleiras. Foi essa feliz má sorte que permitiu a Dom Pérignon descobrir a fermentação em garrafa: “o método champanhês” ou, mais simplesmente o champanhe, acabava de nascer. Embora nada permitisse afirmar com certeza, o monge de Hautvillers teria inventado também a rolha de cortiça para substituir o arcaico feixe de madeira mantida no gargalo por um cordão de cânhamo.

Sem dúvida, o processo de elaboração do vinho foi uma obra longa. E neste processo, esse monge amante de enologia desempenhou indubitavelmente um papel essencial. No início do século XVIII, o champanhe como conhecemos hoje faz a felicidade das mesas aristocráticas e reais.

[na foto: Estátua de Dom Perignon na sede da empresa vinícola Moet & Chandon. Epernay, França, junho 2007]


2013-08-03

«OSTRAS - CRIATURAS COMESTÍVEIS, OU DE ADORNO»

Exemplar de ostra


Desde que foi pela primeira vez tentada com êxito no Oriente, há séculos, a arte de cultivar ostras tem sido amplamente praticada. Em princípio, criar ostras é coisa simples: plantam-se numa baía ou estuário cascas de ostra ou outras conchas vazias semelhantes, para apanhar certa porção de ostras novas. Assim que elas atingem tamanho comercializável, faz-se a colheita. São necessários, porém, conhecimentos para se conseguir constantemente uma boa produção dessa cultura submarina.


Criação artificial - ostreicultura




Aspecto de apetrechos de criação de ostras


É preciso ter sorte também. A vida da ostra está sujeita desde o início a riscos sem conta. Provavelmente, apenas duas num milhão atingem a idade adulta!
.
A chance do criador de ostras é a surpreendente vida sexual desses animais ser da mais fecunda. Em geral a ostra começa a vida como macho, depois, uma vez em cada época, pode transformar-se em fêmea e pôr uma grande quantidade de ovos. A fêmea pode pôr nada menos do que 500 milhões de ovos numa só temporada de desova. No mesmo período o macho solta bilhões de espermatozóides. No entanto, apenas poucas células germinativas chegam a unir-se, pois o seu encontro ocorre na água, é aparentemente ao acaso.
.
Poucas horas depois de o ovo ter sido fertilizado, dele sai o embrião. Dentro de um a dois dias a pequenina ostra forma uma concha minúscula, semelhante a um pequeno marisco, mas invisível a olho nu. Mesmo depois de alimentar-se constantemente durante duas semanas, não é muito maior do que a cabeça de um alfinete. Correntes e marés arrastam muitas ostras novas às águas profundas, onde morrem. Das cem espécies conhecidas no mundo inteiro, poucas vivem em profundidades superiores a oito metros e uma grande quantidade torna-se o repasto de medusas e outras criaturas marinhas.
.
As que sobrevivem às duas primeiras semanas descem ao fundo, onde procuram superfícies limpas para nelas se fixarem. Quando a ostra encontra uma superfície adequada, a concha segrega imediatamente uma substância adesiva. Dentro de poucos minutos torna-se dura como cimento e daí em diante a ostra está permanentemente fixada à base, sempre pela metade profunda da sua concha - esquerda; apenas a metade direita - plana -, que a ela se adapta como tampa, permanece móvel. A ostra cresce aumentando as bordas da concha, cerca de dois centímetros e meio por ano em algumas regiões; porém, mais do que o dobro nos períodos de crescimento mais longos, em águas quentes.
 .
Durante a estação de crescimento o criador de ostras deve inspeccionar com frequência os seus parques ostrícolas, pois é quase certo os rapinantes andarem por perto. Nas águas setentrionais, estrelas-do-mar aos bandos pululam sobre os bancos de ostras. Com o corpo grotescamente curvado, a estrela-do-mar monta-se numa ostra fechada e, com os numerosos tentáculos tubulares, começa a sugar até que os vigorosos músculos da ostra não resistem à tensão e abre a concha.
.
Os cultivadores de ostras arrastam enormes lambazes - aparelho marítimo tipo' vassoura' - ao longo dos seus bancos de cultura para enlear as estrelas-do-mar nos cordões do equipamento, ou espalham cal sobre o fundo; esta dissolverá a casca crustácea das estrelas- do-mar.
.
Em certas regiões, esponjas de amarelo vivo crescem sobre as cascas das ostras e dissolvem-nas. Gigantescas raias-chita podem devastar uma grande ostreira apenas numa noite! Para combatê-las, é preciso guarnecer as áreas de cultivo com paus aguçados para espetar as raias quando estas se baixam para comer.
.
As ostras são atacadas por numerosos fungos. Os leitos da desova podem ser destruídos, ou as ostras podem ser mortas por resíduos industriais. Excesso de chuva pode diluir o sal na água das baías ou enseadas, deixando-o abaixo do teor necessário à vida da ostra. Todavia, a falta de chuva pode impedir a afluência de substâncias nutritivas indispensáveis vindas de terra.
.
Em condições favoráveis, a ostra come 24 horas por dia, bombeando durante esse tempo cerca de 750 litros de água através das guelras. Partículas sólidas na água são arrastadas a canais de espesso muco, que flui lentamente para a boca da ostra. As partículas menores de alimento - minúsculas plantas ou detritos orgânicos - vão para o estômago.
.
Em águas quentes as ostras atingem em 18 meses, ou menos, o tamanho adequado para venda, mas em águas setentrionais podem levar cinco anos ou mais para crescerem até ao mesmo tamanho.




 Ostra perlífera

.
Entre as diferentes espécies melhoradas por uma cuidadosa cultura, pode citar-se a Ostra portuguesa, originária do rio Tejo, que chega ao estado adulto no fim de três anos; mas só no fim de quatro a sete é que atinge as suas maiores dimensões.
.
Ostras de água fria são firmes, tendo em média 23% de carne sólida. As de água quente, de crescimento rápido, têm menos de 10% de substância sólida.
.
Outrora era considerado perigoso comer ostras nos meses de Verão. É verdade que as ostras no Verão são leitosas por causa das ovas e muito menos saborosas do que as colhidas no Inverno; mas as ostras de nenhum modo são venenosas. A ideia de se evitarem as ostras no Verão originou-se na Europa, onde a ostra comum nessa estação do ano se torna arenosa, sendo desagradável ao paladar.



Ostras prontas para a mesa
          Foi corajoso quem comeu uma ostra pela primeira vez

.
Em valor nutritivo poucos alimentos são comparáveis às ostras, tão ricas em cobre e ferro como uma porção equivalente de fígado. Contêm manganês, cálcio, fósforo, duzentas vezes mais iodo do que o leite, os ovos, ou a carne, além de elevado teor de proteínas e vitaminas. O coeficiente de calorias é semelhante ao do leite, mas as calorias do leite são provenientes da gordura, ao passo que as da ostra são da proteína.
.
As ostras figuram entre os poucos animais que o homem ainda come vivos e crus! Acondicionadas em sacos húmidos e mantidas frescas, de comboio de mercadorias, camiões frigoríficos, ou de avião, são entregues em mercados distantes milhares de quilómetros do local onde foram apanhadas.
.
A temperaturas negativas tornam-se semi-dormentes e, neste estado, conservam-se vivas e frescas durante muitos meses.
.
Observando-se a ostra, um humilde molusco disforme e viscoso, um autêntico nó cinzento em nada devendo à estética, concordar-se-á que o Anónimo que comeu a primeira ostra, ou tinha muita fome, ou era alguém com muita coragem!




2013-06-01

« A VERDADE... E NADA MAIS DO QUE A VERDADE! »


A verdade existe e é só uma, universal, não há duas verdades para a mesma coisa. A verdade não se define pela interpretação que fazemos dos factos. As interpretações podem ser diferentes, porque todos experienciamos os factos de maneiras diferentes, de acordo com o nosso passado, de acordo com experiências que fizemos de outros factos e que nos construíram. Mas, por muito diferente que a interpretação seja, o facto em si é o mesmo e só esse é verdade.

Se se perguntar à fação vencedora de uma guerra o que acharam dela, dirão que foi boa da mesma maneira que os derrotados dirão que foi má. No entanto, uma guerra que apenas leva à vitória  aqueles que não pereceram pelo caminho, não pode ser boa para lado nenhum e essa é a verdade! Pode trazer coisas boas mas é má em si.

Não existe "a minha verdade e a tua verdade", só podem existir  diferentes maneiras  de a viver e de a aceitar e a verdade é a mesma , é o que é e o que existe e não o modo como a ditamos para nós. Não é por alguém ser daltónico que uma laranja passa a ser azul ou cinzenta, é sempre da cor da laranja.

.

Também não é por  muitos  acreditarem em determinada interpretação que esta passa a ser verdade. A verdade não é declarada por uma maioria. Se assim fosse, da mesma maneira quando se deixasse de aceitar, deixava de ser verdade e logo deixava de ser ou existir.

Se mais ninguém acreditar em Deus, Ele não deixa de existir, da mesma maneira que Ele não existe apenas porque um grande número de pessoas crê nisso. Por muito que se acredite, os unicórnios não existem, apenas são ficção, não passam de um universo das ideias, a guerra não passa a ser boa por os vencedores acharem que assim foi!

No Renascimento, não era verdade que o sol andava à volta da terra. Não era por isso ser o aceite que passava a ser verdade. A terra não passou a girar à volta do sol quando Copérnico o declarou. O que havia eram interpretações erradas, baseadas em factos difíceis de compreender, por não não ser possível mais investigação. A investigação e a experimentação podem levar a interpretações mais verdadeiras e inclusivamente levar à aproximação da verdade, ao mais avançado ponto de descobertas e de probabilidades máximas, mas não são a verdade em si, em momento algum do seu decorrer, até que cheguem finalmente à verdade!

Pode haver muitas coisas relativas e subjetivas, como as interpretações que se façam da verdade, mas essa é única, o facto, o acontecimento, é só um, embora possa ser abordado e captado de várias formas de acordo com o sujeito que o faz.

Se assim não for, isto é, se a verdade for declarada por maioria e houver várias verdades, então tudo tem de ser subjetivo e relativo a algo, cai-se em libertinagem e crises de valores, pois umas anulam as outras e nenhuma se sobrepõe como única.

O bem e o mal, serão sempre comparações com outra coisa qualquer  e que mais nos aprouver, de acordo com os nossos gostos, desejos e ambições. Tudo é legítimo porque uma coisa será tanto mais certa enquanto outra for mais ou menos errada. Matar um ou matar mil, não é uma questão de números, é tirar a vida a uma pessoa, é cometer um crime seja em que circunstância for.

A verdade é só uma, ela existe e é o que é por si sem depender de falsos critérios, argumentos mais ou menos oportunistas, distorcidos ou falaciosos. 

O bem é sempre o bem e o mal é sempre o mal, nada de contornos dúbios, duvidosos ou indutivos de erro, nesta matéria não pode haver meias tintas ou: assim, assim, ou é ou não é!





2013-05-24

« O HOMEM - UM BUSCADOR DA FELICIDADE »




O que é a felicidade? Quando olho o mundo com atenção e observo as pessoas sempre a correr e, tantas vezes, de semblante carregado, pergunto-me o porquê de tanta agitação, de tanto stress e dou muitas vezes comigo a pensar, o que é a felicidade? O que nos poderia ajudar a dar mais sentido à vida, a torná-la mais leve e a fazer do sorriso um companheiro de todos os dias?

Esta pergunta é uma interrogação de ontem, de hoje e de sempre, porque no âmago de cada ser humano está gravado o desejo de ser feliz. Se o ímpeto para a felicidade é uma vocação nossa que nos faz persegui-la e até a tornar realizável, por que é que há tanta gente infeliz, por que é que temos tantas dificuldades em construir a felicidade?






Por que é que há pessoas que aparentemente não têm nada, enfrentam dificuldades de toda a ordem - económicas, problemas de saúde, contextos sócio culturais difíceis  - sentem-se felizes e, mesmo assim, encontram sentido na vida, enquanto que há outras que aparentemente têm tudo - dinheiro, poder e mesmo  pertencendo a meios privilegiados sentem-se as pessoas mais desgraçadas do mundo?

Estas e outras perguntas têm-me feito pensar muito e a procurar dentro de mim esclarecimento para estas dúvidas.

Por agora, no meu olhar de 'peregrino do saber' que procura, sabendo que quase tudo me falta aprender, encontro na sociedade materialista, hedonista, que desenvolveu o relativismo, o facilitismo, o culto das aparências e a competição, fatores importantes que desorientaram o Homem de hoje, distraindo-o, seduzindo-o e afastando-o de ser quem é. 





Esta crise ocidental afetou a educação e a cultura.. Os meios de informação também não estiveram à altura de contribuir para o desenvolvimento pessoal e social do Homem; muitas vezes até o dificultaram, confundindo-o e não lhe permitindo discernir entre o superficial e o profundo, o imediato e o duradouro, manipulando-o muitas vezes no sentido do desejar e não do querer, ou seja, não promovendo uma educação e uma cultura assente no conhecimento, na liberdade e na responsabilidade.

Os adolescentes, que são os futuros adultos, são as principais vítimas desta crise, porque os modelos que vão recebendo apontam cada vez mais para o prazer imediato, para realizações fáceis, ou seja para o curto prazo que tem pouco a ver com a realização pessoal de cada um, mas muito a ver com a sociedade da pressa e do "fast-food"  que se vive em todos os setores da vida.

É uma moda difícil de contrariar, até pelos adultos, quanto mais pelos adolescentes. A sociedade de consumo e da competição, consome os dias  e as energias que seriam necessárias para o desenvolvimento de um projeto coletivo e pessoal autêntico, ancorado na estrutura familiar, social e histórico cultural que promoveriam o desenvolvimento humano.

Talvez por estarmos nesta crise é que se fale tanto de felicidade e se corra atrás dela e, embora tenhamos meios técnicos e científicos como nunca tivemos, talvez o homem nunca se tenha sentido tão vazio.






Talvez por isso sejam raros os sorrisos e os rostos carregados já não são só uma marca da idade avançada mas encontra-mo-los cada vez mais nos jovens!

Quem viajar todos os dias é assustador o que se observa todas as manhãs. Sente-se nos rostos e corpos das pessoas com quem nos cruzamos, que o dia que desperta é um peso e não uma dádiva... Na pressa de chegar, os encontrões  substituem os bons dias, os pais gritam com os filhos porque estão atrasados, os filhos ofendem os pais porque os consideram "cotas" e não satisfazem os seus desejos de momento e além da confusão sente-se que o vazio e a angústia enchem as pessoas que circulam. Mas há exceções, há algumas pessoas que se alheiam de tudo isto e outras que observam e se interrogam do porquê de tanta agitação e correria e outras ainda, poucas sem dúvida, devolvem uma gentileza e até um sorriso.






Então o que é que poderá fazer mudar esta situação? O que é que terá o poder de saciar o Homem dessa fome de felicidade? Onde podemos encontrar a "Pedra Filosofal" que nos fará felizes? Se recuarmos no tempo e nos debruçarmos sobre as reflexões filosóficas dos grandes pensadores da Antiguidade e também nos de hoje, talvez encontremos pistas que possam orientar o nosso caminho e nos ajudem a encontrar meios para sermos felizes, já que penso que a felicidade consiste na nossa plena realização, que quando se alcança, também transborda em dons para os outros e assim se criarão laços de fraterna amizade na busca constante duma felicidade.








2013-05-18

« A HISTÓRIA DE UMA BANDEIRA »


Em 1950 o Conselho da Europa lançou um concurso de ideias para a escolha do desenho da futura bandeira da então recém-nascida Comunidade Europeia.

Entre muitos artista gráficos que concorreram, Arsène Heitz, natural de Estrasburgo, cidade onde vivia, apresentou várias propostas  entre 1950 e 1955, de todas foi escolhida  aquela que tão bem conhecemos: Um "Sol" de doze estrelas sobre um fundo azul.




Arsène Heitz
(1908 - 1989)


Homenageado pela filatelia, Selos de Correio, no cartão adequado para colecionadores

ARSÉNE HEITZ, antigo agente do Conselho da Europa, 
co-autor da  Bandeira da Europa



Anos mais tarde, entrevistado por uma revista francesa, Heitz revela a génese da sua inspiração: Na altura do concurso estava a ler a história da "Virgem da Medalha Milagrosa" - como hoje é conhecida  - na Rua du Bac - em Paris. E foi a partir de Nossa Senhora que nasceu a concepção de doze estrelas em círculo, sobre fundo azul, tal como é representada na iconografia tradicional das imagens da Imaculada Conceição.

Começando por ser uma ideia vulgar como tantas outras que fluem na imaginação de um artista como Heitz, ela despertou o seu interesse de tal forma que se tornou tema de meditação ao longo de toda  a sua vida, vindo a falecer nonagenário no início do nosso século.

Longe de ser um beato milagreiro, Heitz considerava-se simplesmente, um homem profundamente religioso, devoto à Virgem Maria, a quem todos os dias rezava o terço na companhia de sua esposa, mas não nega que a sua sensibilidade artística tinha uma forte inspiração divina comum a todos os homens que amam e procuram a Deus.





Claro que nem as estrelas nem o azul da bandeira são propriamente símbolos religiosos, facto que permite respeitar a consciência de todos os europeus, quaisquer que sejam as suas crenças. O próprio diretor do serviço de Imprensa e Informação do Conselho da Europa ao justificar aos membros da Comunidade o significado do desenho escolhido fê-lo dizendo que o símbolo de doze estrelas era representativo do "número da plenitude" e não do número de países, pois na década de 50 tão pouco eram doze.

Talvez na alma de Heitz tenha pairado a passagem do Apocalipse de São João: " Apareceu no Céu um grande sinal - uma Mulher vestida de Sol, com a lua a seus pés e um coroa de doze estrelas na cabeça" ...

Talvez não tenha sido por acaso, sem disso se darem conta, que os delegados dos ministros europeus adotaram por unanimidade o símbolo proposto por Heitz numa reunião plenária realizada a 8 de dezembro, como sabemos um dos mais importantes dias marianos em que se celebra a festa da Imaculada Conceição, e, em tempos melhores, já foi o Dia da Mãe!

Certo é que para todos os europeus, nomeadamente os portugueses, será um motivo de orgulho, pois desde tempos muito recuados que a Virgem Maria é invocada como padroeira e Rainha de Portugal, país a que muitos chamam Terra de Santa Maria.

Também a Fé que caldeou a civilização ocidental e é o grande suporte da História e cultura das nações europeias, se espalhou por todos os continentes graças a navegadores e missionários portugueses.

É consolador e reconfortante contemplar a bandeira da União Europeia - expressão dos valores comuns dos povos europeus - e nela reconhecer o grande "sinal bíblico e mariano" evocativo da Paz, União, e da Vitória final.

Não esquecer as nossas origens e conhecer bem o passado será um caminho seguro para construir um futuro mais coerente, harmonioso e perfeito!








2013-04-13

« PORTUGAL ... SOMOS NÓS! »


É nos momentos mais difíceis  que se revela o caráter de um Homem; é nos períodos mais complicados da sua História que se afirma o caráter de um Povo.  Em situações como aquela em que hoje vivemos julgamos ser absolutamente necessário levantar a cabeça, olhar com coragem as dificuldades e sermos construtivos, positivos e confiantes que um País como o nosso tem futuro. Porque, como outros já disseram, 'Portugal vale a pena'; ser Português vale a pena; Portugal somos nós! Mesmo, com qualquer Governo que queira contrariar o nosso destino!

Portugal não é um país pequeno; os portugueses, os que vivem no país mais os da diáspora, não são poucos e nunca serão de mais; as fronteiras do território, este retângulo mais as Ilhas e o mar que é nosso, nunca nos limitaram nem limitarão a generosidade de ser português, de ser de Portugal e do mundo.

Portugal é, foi e será, do tamanho da vontade dos portugueses. E a vontade dos portugueses apenas se compara à mais grandiosa utopia. O próprio 25 de Abril, uma alteração ao sistema de poder vigente à época (o fascismo, convém lembrar), foi feito com flores! Quem mais, neste mundo com pouco espaço para a poesia, fez  "revoluções com cravos"?





Em Portugal, os portugueses, este povo que somos, sempre esqueceram as suas amarguras e continuam a dar um exemplo de como bem receber quem nos visita, com hospitalidade e simpatia.

Porque nem sempre estamos conscientes do muito bom que existe neste país e que soubemos construir. É preciso recordarmos que, em mais de 190 países, nós, Portugal, estamos entre os 30 com melhor desenvolvimento, sócioeconómico.

Apesar de tudo! ...

É preciso recordar que este país, Portugal, que tem nove séculos de História, é o que realizou os Descobrimentos, primeiro e decisivo passo para aquilo que hoje chamamos de globalização. Que fomos o primeiro país que aboliu a pena de morte no mundo e um dos primeiros a abolir a escravatura.




Que Portugal tem problemas, sabêmo-lo, mas deu também passos para a construção de uma sociedade moderna, dinâmica e inovadora. Em muitas áreas tem profissionais competentes e reconhecidos: no design, no marketing, na moda, na engenharia, na medicina, na ciência, na arquitetura.

Na educação e na saúde aproximámo-nos dos melhores. Na cultura temos hoje homens e mulheres que são referências mundiais.

Que há grandes empresas multinacionais instaladas em Portugal, mas dirigidas por portugueses, trabalhando com técnicos e trabalhadores portugueses, que obtêm grande sucesso nos mercados e juntos das casas mãe. Sem esquecermos os inúmeros exemplos de vida e mérito dados pelos nossos emigrantes.




Nos cuidados de saúde, em Portugal, passámos de uma das piores taxas de mortalidade infantil para a quarta a nível mundial; em 8 anos construímos o mais importante registo europeu de medula óssea, indispensável ao combate de doenças leucémicas; somos líderes mundiais no transplante de fígado e estamos em segundo lugar no transplante de rins.

Na educação, democratizámos o acesso à mesma e, apesar das dificuldades, e do muito (imenso atualmente) que falta ainda fazer, temos em Portugal, uma população infinitamente mais qualificada que antes.

Na segurança e proteção social, temos hoje, apesar de tudo - a péssima governação ainda em funções -, aquilo que os portugueses que nos antecederam não tiveram e de que tanto necessitaram para se sentirem agradecidos ao Portugal a quem deram o melhor de si mesmos!

Este Portugal que nos deu o ponto de partida para a vida e para o mundo, país onde vivemos e onde vivem cerca de 10 milhões de pessoas, merece que reconsideremos a forma como o vemos e falamos dele.

Merece que o procuremos conhecer mais profundamente, de descobrir o que tem de bom e de muito bom, e de aprender a amá-lo!

PORQUE PORTUGAL SOMOS NÓS ...



2013-03-27

« MEDITAR E PENSAR »



Um dos maiores prazeres que posso usufruir, é poder estar no cimo de uma montanha, estando em sintonia de corpo e alma com a Natureza, contemplando a beleza daquilo que nos foi dado, e poder meditar.

Costumo pensar na Filosofia como arte de pensar, saber encadear toda e uma série de raciocínios lógicos, ou análises críticas, a nós mesmos ou àquilo que nos rodeia, para que tudo faça sentido, e que seja possível haver uma opinião ponderada.

Não é à toa que as pessoas que oram com frequência, não aquela oração de repetição, que mais não é do que despejar um rol de palavras muitas vezes sem sentido - nem sentidas - mas aquela oração em que entramos dentro de nós mesmos fazendo uma meditação ou oração, sempre com a certeza de que alguém superior a nós nos ouve, conseguem ser pessoas de espírito crítico muito apurado, não indo em conversas fáceis ou como diz o povo " Vai como as ovelhas", quando alguém faz ou diz conforme todos os outros fazem ou dizem.

A Filosofia é um caminho para a felicidade baseada na razão, em complemento com a religião como caminho para a felicidade baseada no amor.

Acho estes dois caminhos indissociáveis um do outro, e não um complemento, basearmo-nos somente na razão (pensamento científico) sem termos a capacidade de amar nunca se poderá atingir a verdadeira felicidade, continuo a pensar que não é por sermos mais sábios que saberemos melhor amar, mas sim o contrário.





Há uma crise de valores na nossa sociedade, há uma crise de convicções, o que move a sociedade hoje em dia é a imagem daquilo que os outros fazem de nós mesmos, vivemos para parecer aos outros aquilo que não somos, talvez com o intuito de sermos aceites, estamos a ficar vazios de nós mesmos, qual sociedade zombie, que se move só porque o faz todos os dias.

Noto que nos tempos que correm, e na generalidade, que a juventude tem pouca noção do que é ser responsável, e tudo derivará da educação transmitida pelos pais, cada vez com menos conteúdo, sem diálogo, superprotegendo mas não educando!

A responsabilidade obriga-nos a pensar, a utilizarmos o espírito crítico para formularmos opiniões e fazer escolhas, e a Filosofia dá-nos a elasticidade mental para que isso seja possível, sempre coma humildade de admitir que nada sabemos, mas que fazemos tudo para aperfeiçoar o nosso conhecimento.

Peço desculpa por este paleio pouco interessante, mas inspirei-me no pensamento da minha querida Clarice Lispector - a irmã que nunca tive e gostaria de ter tido - que usei como elemento ilustrativo do cabeçalho do post.

Para concluir, aproveito para vos desejar uma boa Páscoa!





2013-03-20

« AMBIÇÃO: DEFEITO OU VIRTUDE? »

Acontece algo de curioso com a ambição: é uma palavra ambivalente, uma vez que gera sensações tanto positivas como negativas. Socialmente, diríamos que a ambição proporciona um certo prestígio, dado que está entre as atitudes que se esperam de pessoas dinâmicas e inteligentes. O filósofo Aldous Huxley escreveu o seguinte:

"Nas nossas sociedades, os homens são paranoicamente ambiciosos, porque a ambição paranoica é admirada como uma virtude e os ambiciosos e bem sucedidos são idolatrados como deuses. Escreveram-se mais livros sobre Napoleão do que a respeito de qualquer outro ser humano. Este facto é profunda e alarmantemente significativo".

A ambição é definida nos dicionários como o desejo ardente de conseguir poder, riquezas, dignidades ou fama. Existe nesta definição um espírito e uma letra: por um lado, desejo ardente; por outro, o objeto desejado. Tanto desejo, tanto ardor, tanta obsessão acaba, frequentemente, em danos para terceiros.




Então, por que se mantém a ambição como um valor positivo? Por que chega a ser lamentável que alguém não tenha ambição alguma? Desde logo, porque a partir da infância que nos predispõem a "ser alguém na vida". E para sê-lo, há que ter a ambição necessária!

Nos dias de hoje é quase obrigatório procurar um "status", algo que se alcança através do dinheiro, dado que tudo o resto pode ser adquirido. É desta forma que surge o grande dilema, tão debatido por académicos e pensadores: é preferível ser ou ter?

Não existem pais  neste mundo que não ambicionem o melhor para os seus filhos. Para tal, procuram estimulá-los, motivá-los e exortá-los a serem ambiciosos na vida. "Sê forte, sê trabalhador, sê perfeito": a intenção é positiva e costuma funcionar como estímulo para o crescimento da criatura. Porém, também acontece que alguns pais exijam tanto dos filhos, criando expetativas tão elevadas, que acabam por ultrapassar os limites do ótimo, para adensarem-se na exigência, no perfecionismo e na ambição desmesurada.



Ambição desmedida


Chega, então, a ansiedade, o stress e a frustração, e todos os objetivos educacionais acabam por sair gorados. Como disse o grande William Shakespeare, "Quem se eleva demasiado em direção ao sol, com asas de ouro, acaba por derretê-las".

Será que existe uma ambição positiva e uma negativa? E, se existe, onde está a fronteira entre as duas? Para alguns pensadores, a ambição é única. Ardemos de desejo ou não. Nada neste mundo é mais desejável do que aquilo que não temos ou aquilo que julgamos difícil de alcançar. Perante este repto, apenas há o prémio da possessão, ou seja, o "ter".




Em contrapartida, quem ambiciona pouco, centra mais a sua atenção no "ser". Já o dizia o filósofo e escritor francês Voltaire: "No desprezo da ambição, encontra-se um dos princípios essenciais da felicidade sobre a terra".

A isso podemos chamar viver sem tantas expetativas, porque, sem dúvida, as grandes expetativas geram grandes fracassos.

Onde cabe, afinal, a ambição das nossas vidas? Pensemos, por um momento, em tudo aquilo que conseguimos alcançar graças à nossa determinação. Quando conseguimos ultrapassar adversidades, quando somos bem sucedidos a eliminar condutas limitantes, quando recebemos o prémio dos nossos esforços continuados e disciplinados, que forças impulsionadoras nos permitiram alcançar esse sucesso? A ambição? O perfecionismo? As exigências? As expetativas elevadas?




Desde um ponto de vista psicológico, a ambição consiste numa "construção", isto é, num conjunto de condutas, crenças e emoçõs que descrevem uma atitude ou caráter.

A ambição pode desdobrar-se em vários níveis:

- Um nível elevado de motivação face a um determinado objetivo;
- Convencimento de que "os fins justificam os meios, acompanhado da crença de que é possível alcançar tudo o que deseja;
- Uma certa ciclotimia emocional, ou seja, a combinação de estados emocionais de euforia com outras fases mais depressivas;

O pensamento pode tornar-se obsessivo e a conduta agressiva (o que não significa violenta) e de extrema exigência em relação a si mesmo e aos outros. Também pode tender para uma manipulação calculista.

Parando um pouco para recapitular:

É saudável ser ambicioso? É a ambição que nos impele a alcançar objetivos vitais? Ou é apenas uma emoção negativa, que nos desequilibra, nos angustia e nos pões em conflito com o mundo?

Eis... um grande dilema! ... Ou não?!