[ Vox populi vox Dei ]

2012-11-24

« PÁTRIA INGRATA... MAS NÃO PARA TODOS! »




Desde há muito, vive-se num país marcado  pelo contraste. Sentados nos bancos da escola, em crianças, ao mesmo tempo que se ouvia o relato de um passado glorioso envolto em conquistas e riquezas, olhava-se em redor e só se via miséria: miúdos a esfregarem o pão em peles de bacalhau, ao mesmo tempo que aqueciam as mãos em pedras quentes retiradas das lareiras e que traziam nos bolsos para confortar as mão regeladas pelo frio.

Lembrando o velho adágio que diz que Deus dá o frio conforme a roupa, haverá porém um lugar da Terra, em que o adágio é desmentido e esse lugar é o nosso país. Enquanto uns vivem aquecidos pelo luxo, outros há que gelam nas ruas das grandes cidades ao sabor do frio.

À falta de melhor lar, a rua, em Portugal, começa a ser o lar de muita gente onde a única coisa que aquece no inverno é a solidariedade de alguns...

Enquanto os habitantes de Berlim passam regaladamente as suas noites "polares" nas suas casas aquecidas, em Lisboa [e não só...] os sem-abrigo batem o queixo.

Já noutros tempos havia falta de emprego, facto que obrigava muitas pessoas a emigrar. Para trás ficavam a mulher e os filhos, em suma a família, o aconchego do lar. Volvidos tantos anos a situação mantém-se e as pessoas veem-se obrigadas a deixar a pátria em busca de uma vida melhor.

O nosso país faz-nos lembrar uma sala de visitas, que em vez de receber, despede!

A única diferença é que naquele tempo emigravam os pais e atualmente são os filhos a fazê-lo...

Chega o Natal e a situação mantém-se, pois a sorte grande apenas contempla o poder. E se há espetáculo de infortúnio humano que comove é o frio dos que têm frio e a fome dos que têm fome. Cenário deprimente assisitir à procura de comida nos caixotes do lixo, enquanto alguns se banqueteiam em hotéis de luxo financiados pela miséria.

E, tal como naqueles tempos, o povo continua a pedir esmola, sem esperança, sem convicção, sem eloquência. A voz com que pede esmola não é a voz lamurienta da miséria que mendiga, mas a voz brusca e desalentada de quem já nada espera da solidariedade, da piedade, da compaixão alheia. E lá se vai um dos ideais do 25 de Abril...

E, mais uma vez, Natal após Natal, a fava calha sempre ao povo. Caso para dizer, um ano novo e um velho fado. 

Não surpreende por isso, as manifestações de descontentamento a que assistimos nos últimos tempos. Cada vez mais o homem está insatisfeito com a sua sorte. 

Pede-se moral. Reivindicam-se direitos. Pede-se pão. Há que exigir Justiça!




JORGE de SENA
(1919 - 1978)

[Poeta, Crítico, Ensaísta, Dramaturgo]



A Portugal

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço.
És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não 



Poema de: Jorge de Sena