[ Vox populi vox Dei ]

2012-07-30

«OS FOGOS E AS DISCUSSÕES INCENDIÁRIAS »



Estas são horas de aflição e muitas outras já tem havido: o fogo, assaltante sem carteira profissional e com fúrias desmedidas, tudo leva e nada deixa. O que lhe aparecer pela frente é faca em manteiga neste calor de verão. Por mais que o queiram travar, poucas vezes ele permite que o domem. Nesse combate desigual, um grupo de gente valente lhe faz frente: os voluntariosos soldados da paz, esses homens e mulheres sem medo e cheios de coragem, valentia, bravura, entusiasmo e solidariedade.

Com experiência, dedicação e saber, tudo fazem para salvar os nossos bens e haveres e até os nossos corpos. Entregues de alma e coração a essa nobreza de funções, para essa gente não há dia, nem noite, sábados ou domingos, férias ou tempo de trabalho, cama ou jardim que impeça a ida serena, calma,  sempre altruísta, decidida, responsável e arrojada.

Dizemos isto, porque conhecemos bem a "massa" com que é feito este naipe de nossos irmãos, o mais puro que há nas nossas sociedades. Vimo-los correr para o fogo, quase sem se despedirem da família. Assistimos a idas suas para a estrada, mal a sirene tocava, porque o seu sangue lhes dizia que outro se vertia no alcatrão e tudo era preciso fazer para evitar que se derramasse de todo. Sabemos que deixavam de dormir para acudir a quem sofrera um AVC, ou uma simples indisposição.




Contactamos com as suas múltiplas idas para a serra a arder, sem horário de partida, nem de chegada. Por tudo isto, compreendemos a revolta e os berros que dão, quando se vêem no terreno de combate aos incêndios enquadrados e comandados por quadros de estufa, por gente de farda reluzente e ar de cidade, a quem falta esta mística do voluntariado conhecedor e a quem sobram galardões e bonés estrelados. Se nada temos contra estas estruturas, também pouco nos dizem, a nós que temos nos Bombeiros Voluntários a nossa referência maior,  no que toca à luta tenaz e heróica contra fogos florestais.

Ano após ano, é sempre a mesma coisa: a Autoridade Nacional da Protecção Civil [ANPC] vai, em bons automóveis, para aquilo que chamam o teatro das operações; munidos de telemóveis e rádios topos de gama, de mapas psicadélicos, em carros-sala de comando, tudo querem controlar. Mas, lá no fundo da mata, onde o fogo queima e os tojos ardem, onde as árvores  rebentam com tanta chama e as fagulhas traem as trajetórias previstas, que o vento não se compadece com a maravilha dos computadores, lá, andam os nossos Bombeiros, os da pá e da picareta, da mangueira e das máscaras, se as há, aliás...

É sempre assim. Por aquilo que sabemos e por aquilo que vemos em cada fogo, escusam de nos vir com conversas de treta porque quem sabe da poda é o podador. Neste caso, o Bombeiro e o seu Comando. Ponto final!





Chega de experiências de gabinete. Em incêndios, a liderança das operações só pode ter, na sua cabeça, homens de farda voluntária, de tarimba feita de muita dor e muita prova de esforço em pleno mato e terreno de suas terras. Nada disso se passa  com quem vem do ar condicionado, por mais  respeito que devamos ter por esse pessoal de fardas vistosas. Ali chegados, é o desastre completo: nada conhecem de caminhos, nada sabem das pedras  que podem encontrar, dos valados a atravessar. Os traços azuis das cartas são muito bonitos, mas não passam de desenhos virtuais!

Compreende-se, por isso, os desabafos de Jaime Soares, Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, quando diz, no rescaldo dos terríveis incêndios da Madeira e do Algarve,  que toda esta estrutura, "ultrapassada, burguesa e elitista" (a ANPC), tem de ser repensada e refundada. Acrescentamos: extinta, de alto a baixo.




Contrapondo uns Bombeiros solidários e anónimos, mas voluntariosos e determinados, dá a receita ideal. 

Deixa no ar ainda outras óbvias conclusões: à falta de corretas medidas de prevenção, planeamento e ordenamento florestal se deve o descalabro dos incêndios anuais.

Podemos ainda trazer outros argumentos para cima da mesa desta urgente (e sempre adiada) discussão: como se não aplica, nem que seja pela prevista medida coerciva, a lei da limpeza de cinquenta metros em redor de moradias, o perigo para as nossas casas está sempre à espreita!

Como muito há a fazer, tudo aquilo que só apareça em tempos de calor cheira a esturro e terra queimada, o melhor, o ideal, a prevenção autêntica, é tarefa de um ano inteiro.

E o Comando das Operações, na altura das grandes refregas, pertence aos Bombeiros e a mais ninguém!

Quem vier de outros quadrantes, que se apresente para colaborar, nunca para mandar!...


2012-07-07

« O REGRESSO AO FUTURO DA EUROPA »

A queda de Roma


Desde os primeiros tempos, que o progresso da humanidade tem sido contínuo. No entanto, em 410 da nossa era produziu-se um evento de efeitos devastadores.

Nesse ano Roma foi destruída e saqueada pelos bárbaros. A queda de Roma abre um período terrível na História que irá durar séculos.

A Europa só volta a recuperar o equilíbrio com a coroação de Hugo Capeto em 987, data que oficialmente abre a Idade Média.

Podemos afirmar que neste período a civilização desapareceu da face da terra. A chama apenas se manteve acesa em Constantinopla, que caiu às mãos dos otomanos a 29 de maio de 1453.



Os bárbaros


Os bárbaros chegaram à China, pois os chineses, tal como os romanos, chamavam bárbaros a todos aqueles que viviam para além das "limes" ou da Grande Muralha, no caso da China.

Os hunos eram caçadores e criadores de gado, que habitavam as grandes estepes do planalto euro-asiático. Átila, o seu temível chefe (395 - 453), ainda nos faz tremer.

São eles que explicam o aspeto asiático de húngaros, búlgaros e mesmo alguns russos [Lenine tinha os olhos em bico].




"Luzes de Constantinopla e da Igreja Católica"


Roma exercia um enorme fascínio sobre estes povos, chegando mesmo a integrá-los nas suas legiões.

A Europa caminha hoje a passos largos para uma situação semelhante.

Qual foi pois a razão da catástofre de 410, que tanto impressionou o próprio Santo Agostinho? É preciso entender que nessa época a superioridade militar de Roma baseava-se no seu modelo de gestão e organização, pois as armas eram praticamente as mesmas...

Individualmente os bárbaros eram superiores, e essa superioridade perdurou até à descoberta dos canhões, nos princípios da Idade Média.

Quando os sedentários se desorganizam,  ficam à mercê dos nómadas.

Roma, que se defendia com 30 legiões e não tinha inimigos à altura, autodestruiu-se!

Sabemos que a partir do século III a classe dirigente prefere os banhos e as discussões estéreis ao trabalho e à conquista. E nenhuma sociedade resiste ao egoísmo e individualismo. Os governos têm de dar a impressão de se preocupar com a coisa pública, ou melhor, devem preocupar-se  mesmo, sob pena de não conseguirem explicar os seus privilégios ao povo.

Chateaubriand definiu bem esta situação: "Uma classe dirigente conhece três fases sucessivas, a da superioridade, a dos privilégios e a das vaidades. Saindo da primeira, degenera na segunda e desfaz-se na terceira".

O desaparecimento de uma classe dirigente pode arrastar a sociedade para o abismo. Aquando da revolução francesa em 1789, a alta burguesia estava preparada para substituir a nobreza.

Em Roma isso não aconteceu. A virtude, o respeito pela lei, a coragem militar, o sentido de grandeza, tudo isso se desvaneceu.

Há pois uma espécie de implosão, uma regressão civilizacional. Temos de ter consciência de que o progresso não é automático. Desde os faraós, que o homem não parava de progredir...

Mas... em 410 dC... tudo parou!

As belas cidades e vilas romanas rapidamente passaram a ruínas... É preciso notar que estas ruínas não são naturais!

Há templos hindus com mais de 5.000 anos que se encontram impecáveis, a catedral de Notre Dame está permanentemente em restauro, mas no dia em que ficar em ruínas, isso significa que a civilização francesa desapareceu.

As magníficas ruínas romanas têm pois a missão de nos relembrar a implosão do império romano.



« Drakkars »



A anarquia mata muito mais do que a guerra, as guerras púnicas foram terríveis mas não afetaram a civilização, ao invés a queda de Roma arrastou consigo o Ocidente.

Graças à demografia histórica e às fotos aéreas que nos dão uma ideia da localização das populações, sabemos hoje que a Gália romana contava com cerca de 10 milhões de habitantes, pouco depois com os merovíngios não passava dos 3 milhões, a população regredira 70% pois, como já dissemos, a insegurança traz consigo a morte das cidades e do comércio [da economia como é mais moderno dizer].

Roma passou de um milhão para 10.000 habitantes! (...) Os bárbaros deixaram a marca na Europa, emprestando os seus nomes a numerosas nações.

Os francos ocuparam a Gália que se passou a chamar França, os anglo e os saxões que eram germanos batizaram a Inglaterra, [alguns "bretões", para fugirem aos anglo-saxões, instalaram-se na ponta ocidental de França, dando origem à Bretanha, salvando assim o gálico ou bretão], a própria Alemanha perpetuou o nome dos alamanos.

Alguns bárbaros eram marinheiros, os Vikings (suecos, noruegueses, dinamarqueses) caem nesta categoria, assim como os Normandos, "homens do norte", que aperfeiçoando a galera mediterrânica semearam a morte e o terror pelas costas do Mar do Norte.

O comércio entre o Báltico e o Mar Negro foi um monopólio sueco durante séculos, a guarda de honra bizantina era sueca, os célebres "varégues".

Os normandos instalaram-se na Normandia, que lhes será dada mais tarde pelo rei carolíngio no tratado de Saint-Clair-sur-Epte em 911, toda a Normandia tem pois vestígios dinamarqueses, o cabo de la Hague (Copenhaga), ou por exemplo "floor" latinizada em flor.

Cristianizados os normandos e sob o comando de Guilherme o Conquistador, conquistam a Inglaterra aos seus primos afastados, os anglo-saxões, em 1066.

Partem depois para a Sicília, onde fundam reinos cristãos, e serão vistos mais tarde em Jerusalém à frente das Cruzadas.




Os Mongóis pretenderam a Europa para fazer dela uma enorme coutada de caça



Por volta de 982, um explorador norueguês descobre um imenso território que por ser verde batiza de "groenland". A Gronelândia arrefece e estes agricultores/navegadores abandonam a ilha, partindo uns para a Islândia, onde apenas encontram alguns monges e eremitas, e outros para o Labrador, o estuário de São Lourenço na América do Norte.

Descem depois provavelmente até às Caraíbas...

De resto, quando Cortés chega ao México, o imperador Montezuma diz-lhe que eles não são os primeiros a chegar, teriam sido precedidos por grandes marinheiros louros, navegando em barcos com enormes serpentes esculpidas na proa.

Talvez tenham sido os «drakkars» a descobrir a América cinco séculos antes de Colombo.

Essa descoberta cai em saco roto, pois apesar de bons navegadores eram fracos em geografia e cartografia, e a própria Europa, em plena anarquia, não estava preparada para dar apoio a estas descobertas...

Apesar do descalabro, houve várias luzes que se mantiveram acesas: Constantinopla e a Igreja Católica. 

Hoje, podemos colocar a seguinte questão: se a civilização ocidental se desmoronasse, qual seria o seu refúgio, quem a iria reconstituir? 

Deixamos este raciocínio a quem tiver a paciência e a amabilidade de nos estar a ler...

A civilização é um milagre, a sua reconstrução ... outro milagre ainda maior!

Basta um alfinete para a fazer implodir. Esse alfinete no século III foram os bárbaros. Qual será hoje o alfinete?

Houve já nos primórdios da Idade Média uma última vaga de invasões vindas das estepes euro-asiáticas.

Gengis Khan, um pagão nómada, e os Mongóis conseguiram juntar os cavaleiros dispersos da Sibéria (1115-1227) e partiram de Karakorum à conquista do mundo.

No entanto os mongóis pararam à porta da Europa, que começava a sair do seu longo "sono". Os mongóis, ao contrário dos bárbaros germânicos, não sentiam qualquer espécie de fascínio pelo Ocidente, queriam apenas transformar a Europa numa imensa coutada de caça.

Tudo não passou de um sonho fulgurante que acabou por se dissipar perante o fogo dos canhões do Czar da Rússia.

Foi com a artilharia que os sedentários venceram de vez os nómadas...

E assim,  chegamos às portas da Idade Média!

Todos os impérios da História só tiveram ciclos ativos de duração limitada, até ao dia em que a sua expansão e as suas contradições internas os conduziram ao fracasso.

A Europa já superou tentativas para uniformizar o continente. Mas todas tinham em comum a arrogância de quererem fazer tudo, e nenhuma delas teve êxito duradouro.

Está-se a construir uma arquitetura não-democrática a partir de estruturas políticas não eleitas! Assim, foram-se abolindo as diferenças e estabelecendo regras de uniformização, com o argumento dos interesses do comércio livre.

É uma teia onde não se sabe quem manda. É esse poder anónimo,  não eleito, que se escuda por detrás de um série de leis (?) impostas aos diferentes países.

Assim... como todos vemos... a derrocada é previsível,  e não se entende que espécie de Europa se está a produzir...

Sem fatalismos, se não tivermos por aí outra invasão da barbárie, teremos pelo menos o regresso da Idade Média!