[ Vox populi vox Dei ]

2012-06-20

« O SEXO DOS ANJOS NA ESPIONAGEM »

KIM PHILBY
Agente britânico dos Serviços Secretos
Espião da URSS

Harold Adrian Russell " Kim " Philby
(1912 - 1988)



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A 25 de Maio de 1951, os serviços de segurança britânicos preparavam-se para acusar Donald Maclean, um alto diplomata, de espionagem a favor dos Russos. O dia 25 era uma sexta-feira e decidiram esperar até segunda-feira seguinte para o prenderem. Nessa noite, Maclean desapareceu, assim como Guy Burgess, outro importante diplomata. Era óbvio que tinham fugido para a Rússia. Pior ainda, alguém altamente colocado nos serviços secretos britânicos os informara. Era essencial encontrar o «terceiro homem».
As suspeitas caíram sobre Harold «Kim» Philby, um dos oficiais superiores do MI 6 (serviços secretos). Philby foi interrogado durante diversos meses e, apesar de se não ter provado nada contra ele, foi obrigado a demitir-se. Em 1955, um membro do Parlamento afirmou em sessão parlamentar que Philby foi interrogado por jornalistas de todos os principais jornais britânicos. Mas quer nos julgamentos públicos, quer nos privados, Philby afirmou sempre que estava inocente.

Muitos dos seus antigos colegas do MI 6 achavam que Philby fora demasiado castigado. Alguns pensavam que o haviam derrubado por rivalidade. Em 1956 foi enviado para Beirute como jornalista do 'The Observer': e há também quem pense que para trabalhar para o MI 6. Depois de actuar cinco anos em Beirute, Philby desapareceu subitamente. Pouco tempo depois foi anunciado que fugira para a Rússia. Nas suas palavras, regressava «são e salvo». Na realidade, Philby era o «terceiro homem». Há trinta anos que era agente comunista.

Num dia de Setembro de 1961, o ano da fuga de Philby, um russo de aparência elegante passeava-se numa avenida de Moscovo e parou junto de um parque infantil onde brincavam algumas crianças. Sorriu e ofereceu a uma delas uma caixa de chocolates. Quando o homem se foi embora, a criança levou a caixa à mãe, que estava sentada num banco ali perto. A mãe era mulher de um diplomata britânico na Embaixada de Moscovo. A caixa continha quatro rolos de filme de documentos secretos dos próprios serviços secretos russos. O homem era o Coronel Oleg Penkovsky, um Oficial do G.R.U. (serviços secretos militares soviéticos).



 Coronel Oleg Penkovsky
Oficial dos Serviços Secretos Soviéticos
Espião a favor do Ocidente


Penkovsky era espião pelo Ocidente. O seu principal contato era um homem de negócios inglês chamado Greville Wynne, cujo trabalho o levava frequentemente a Moscovo. Através de Wynne, os serviços secretos americanos e britânicos forneceram a Penkovsky dinheiro, uma câmara fotográfica miniatura 'Minox' e um receptor de rádio. Em dezoito meses, Penkovsky conseguiu passar 5.000 fotografias de documentos militares e secretos. Os filmes eram passados por contato directo, como foi descrito acima, e também por meio de «marcos de correio mortos» [gíria denominativa de pessoas que oficialmente não existem].





 A mítica câmara fotográfica «Minox»
ferramenta de espionagem da época


Em Outubro de 1962, enquanto Penkovsky planeava escapar para o Ocidente definitivamente, foi preso em Moscovo. Wynne foi raptado na Hungria e trazido para a Rússia. Foram julgados e considerados culpados. Penkovsky foi condenado à morte e Wynne a oito anos de prisão, mas Whynne nunca chegou a cumprir a pena. Em 1964 foi trocado pelo espião russo «Gordon Lonsdale».

Muito embora o Coronel Penkovsky tenha sido condenado à morte e dado com tendo sido executado, acredita-se que o mantiveram vivo, muito embora preso algures na Rússia. Desígnios da espionagem de alta escola!

Kim Philby gozou merecidamente a sua reforma, oferecida pelo regime soviético como gratidão pelos serviços prestados. Inclusivamente foi homenageado numa emissão de selo de correio conforme em baixo se ilustra em fotografia.


 Selo de Correio russo
homenageando Kim Philby pelos serviços
prestados à URSS


 Kim Philby clamou a sua  inocência perante os jornalistas em 1955.  Philby, Guy Burgess e  Maclean,   tinham andado juntos na Universidade de Cambridge, onde se tornaram comunistas. Todos os três foram recrutados como espiões comunistas pouco tempo depois, nunca se sabendo por quem.

Philby devia manter-se «adormecido» isto é, não deveria atuar até ter alcançado uma posição que pudesse ser de verdadeiro valor.
Ao longo da segunda guerra mundial, foi subindo na carreira dos serviços secretos britânicos. Incrivelmente, chegou a chefiar o departamento que tratava dos assuntos dos serviços secretos russos!
Será que os serviços secretos britânicos foram mesmo ludibriados? Ou tinham esperança de que ele se traísse, ou a outros, se fosse deixado à solta?

O agente Philby desde há muito tinha "curriculum" e consciência política. Em 1937 tinha viajado para Espanha, Sevilha, como jornalista "freelancer" e, já como agente duplo, dava informações ao MI 6 britânico, e à URSS que as transmitia ao Exército Republicano espanhol. Tendo escapado miraculosamente ( ferido na cabeça) duma operação de combate, o General Francisco Franco condecorou-o com a medalha da Cruz Vermelha de Mérito Militar, no dia 2 de março de 1938. Aquela distinção, favoreceu-o na infiltração no seio das tropas falangistas e maior acesso às informações das estratégias da guerra civil.


Condecoração espanhola 
que 
Kim Philby recebeu



 Só muito raramente os homens da «polícia secreta» inglesa saiem da sombra. Poucas pessoas - além dos seus superiores imediatos - sabem o que eles realmente fazem. Se se metem nalgum sarilho, não podem contar com qualquer auxílio oficial. E, as próprias mulheres estão convencidas de que eles são homens iguais aos outros, apenas com um horário de trabalho um pouco estranho...
Na pequena tabacaria da aldeia aquela manhã era uma manhã igual a todas as outras, até o homem alto entrar. Mostrou um cartão à mulher que estava atrás do balcão e disse-lhe para fechar a loja. Depois de o último cliente ter saído, começou a interrogar a proprietária acerca das ideias politicas do filho, de 18 anos. Quando o interrogatório terminou, hora e meia mais tarde, a mulher soluçava.
Em alguns países este incidente seria vulgar. Porém, a cena passava-se no Surrey, Inglaterra, em 1967...
O homem em questão era um investigador local; contudo, o trabalho que executava naquela ocasião era bastante fora do comum. Na realidade trabalhava diretamente para a Divisão Especial... A Divisão Especial - a organização que, em Inglaterra, mais se aproxima de uma verdadeira polícia secreta - só muito raramente sai da sombra. De facto, a meia dúzia de homens «sem rosto» que se encontravam na parte de trás da sala do tribunal de Old Bailey, de Londres, quando o oficial da RAF (Força Aérea) Douglas Britten, foi condenado a 21 anos de prisão por espionagem, apareciam pela primeira vez em público, desde um outro caso similar 8 anos antes.

Poucas pessoas, incluindo a polícia ortodoxa, estão a par do verdadeiro papel da Divisão Especial. Na realidade esta é o braço executivo do serviço secreto britânico. É quem efectua as prisões depois dos casos terem sido resolvidos pelos serviços de contra-espionagem.
Porém, desde a reorganização total efectuada em 1961, a Divisão Especial tornou-se igualmente numa força de polícia política que mantém sob vigilância as pessoas cujas simpatias esquerdistas possam, em certas circunstâncias, representar um perigo para a segurança nacional.
Desde a fundação do Partido Comunista Britânico, em 1920, a Divisão Especial sempre prestou redobrada atenção às actividades, mas as modificações realizadas em Junho de 1961, quando da reorganização, aumentaram eficazmente a sua capacidade no combate das actividades ditas subversivas. A rede foi-se propagando através da província e cada subdivisão regional que, ao princípio dispunha apenas de dois ou três elementos no máximo, passou a mais do dobro, incluindo o inspector, dois sargentos e investigadores.

Embora a sua tarefa só muito raramente venha a público, a Divisão Especial mantêm-se em constante actividade. Por cada ameaça ou suspeita de ameaça que chega aos jornais, há dúzias delas que permanecem em segredo. Os serviços são também responsáveis pela protecção dos dignatários que visitam a Grã-Bretanha. Grande parte do trabalho deles é aborrecido e rotineiro: verificar chegadas e partidas nos aeroportos, ou entrevistar forasteiros suspeitos de actividades irregulares.

Raramente os membros da Divisão Especial são chamados a intervir na destruição e detenção de redes de espionagem. É o MI 5 que recolhe as provas e depois as entrega à Divisão Especial para realizar as prisões.
O facto de estes serviços - na prática uma polícia que ninguém conhece - poderem exercer consideráveis pressões sobre a população, poderia levar a crer que a invejável posição da Inglaterra como país livre no mundo moderno não passa de um mito.

Passam a mensagem que acontece exactamente o contrário, pois actuam unicamente contra aqueles que constituem uma ameaça para a segurança e liberdade, um valor inestimável que os cidadãos em geral tanto preservam!


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 Kim Philby gozando a reforma de velhice 
na 
Rússia

Falta esclarecer em que ponto ficará salvaguardada a liberdade de expressão e de pensamento (...)
Apenas como apontamento académico e mera concepção histórica, lembro que a espionagem consiste em obter e passar informações secretas. É uma arte muito antiga que perdurou até aos nossos dias. Os primeiros registos humanos contêm relatos de missões de espionagem.

A China antiga, o Egipto e a Roma Imperial de Júlio César transformaram a espionagem numa actividade "requintada" e tornaram os espiões tão velhos como os segredos humanos.

Agentes duplos, redes de espiões e passadores de informações falsas são personagens dessa grande "indústria" moderna que é a espionagem.

O nosso amado Rei D. João II - o Príncipe Perfeito -, monarca hábil, justo e tolerante (apunhalou Dom Diogo, Duque de Viseu!), é considerado uma das mais gloriosas figuras da História de Portugal, até na dinâmica dos descobrimentos e não foi alheio a ter usado e aproveitado a espionagem internacional em larga escala.

"Kim" trabalhou para o NKVD e, depois da extinção desta organização, para o KGB que lhe sucedeu. Há quase dois anos que tenho a intenção de escrever um post sobre os serviços secretos soviéticos que vieram depois da polícia czarista Ochrana. Tenho evitado fazê-lo para não ferir susceptibilidades. Penso que com isenção poderei falar dos factos, sem com isso melindrar ideologias que estão acima de quaisquer atos menos correctos, que qualquer organização policial de natureza política sempre incorreu, e incorrerá.

Estou a lembrar-me de episódios recentes de espionagem passados entre nós, e que, aos poucos, vão tentando branquear até ao apagamento da proverbial memória curta dos portugueses!...
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Como este post não é propriamente uma tese de doutoramento, não adianto mais pormenores muito embora de interesse histórico, e vou terminar com um pedido de opinião: será que a Espionagem e os seus Agentes são mesmo um mal necessário?


2012-06-06

«MARTIN LUTHER KING - UM SONHO ADIADO...»

Um dos «graffiti» que fotografei de telemóvel num bairro "difícil" dos arredores de Lisboa
homenageando 
Martin Luther King
(1929 - 1968)
[Lutador pela integração dos negros pela via pacífica]



Há cerca de duzentos anos, quando o negro era uma coisa, um objeto pertencente ao senhor branco, alguns donos de escravos  possibilitaram aos servos os meios através dos quais pudessem comprar o seu resgate e se tornassem livres.Um jovem empreendedor, apaixonado pela namorada escrava, esforçava-se desesperadamente - utilizando o tempo disponível -, e durante anos acumulava o capital suficiente para obter a sua liberdade e a de sua noiva. Muitas mães negras, depois de trabalhar de sol a sol, passavam o resto da noite a lavar roupa e a guardarem os tostões assim obtidos até que, com os anos, acumulassem uma maquia considerável. Frequentemente, lutavam e sacrificavam-se para comprar, não a própria liberdade, mas a de um filho ou de uma filha. O dinheiro suado era pago ao senhor, em troca do instrumento legal de alforria que declarava o portador liberado da escravidão física.





 +

Dr. MARTIN  LUTHER KING

uma das suas citações


Com o progresso deste movimento, alguns negros devotaram a sua vida à compra e à libertação de outros.

Uma empregada de Thomas Jefferson - 3º Presidente da América - trabalhou durante quarenta anos e juntou dez mil dólares com que conseguiu obter a liberação de dezanove pessoas negras. Mais tarde, alguns brancos humanitários empreenderam uma cruzada pública  para obter fundos tendentes a resgatar os negros da degradação que lhes era imposta pelos captores (proprietários).

"Ajude-me a comprar a minha mãe," ou "Ajude-me a comprar o meu filho," era um apelo pungente! Para muitos brancos, em cujo espírito a escravidão produzia um constrangimento doloroso, isto calava fundo de maneira chocante, a profunda tortura da alma negra.





Martin Luther King foi uma fonte de inspiração para milhares de pessoas, ficou conhecido como um dos mais importantes  líderes do ativismo pelos direitos civis. Através de campanhas de apelo à não violência, foi capaz de mobilizar milhares de vontades, que partilhavam do mesmo sonho: a igualdade entre pessoas, independentemente do seu estatuto social e económico, credo religioso ou diferença racial.

"Eu tenho um sonho..." - uma das citações mais famosas desta figura ainda é ouvida atualmente em discursos políticos, na televisão e em manifestações estéticas e artísticas, designadamente de cariz musical.

Os seus principais feitos foram a conquista de direito ao voto, o fim da segregação, das descriminações no trabalho e a conquista de outros direitos civis básicos.

Foi graças às marchas e aos seus empolgantes discursos que conseguiu o apoio necessário para marcar a diferença. Na História ficou conhecido como uma das figuras mais importantes da América, tendo sido distinguido como o Homem mais novo a merecer o prémio Nobel da Paz.

Uma das suas grandes fontes de inspiração foi Mahatma Gandhi, também conhecido pelos seus gestos pacíficos.

Martin Luther King tornou-se um ícon, graças ao seu esforço e infindável esperança no sentido de vir a viver num mundo melhor, num mundo em que as pessoas "não serão julgadas pela cor da sua pele, mas pelo  conteúdo do seu caráter".





A PRISÃO DE MARTIN  LUTHER KING



Infelizmente, as ideias de Martin Luther King têm ainda hoje muita razão de ser, dado que pelo menos em muitas comunidades, sociedades e até nações, os seus desígnios não foram concretizados.

Todos devemos continuar a ter presentes e a defender  estes ideais de valores éticos, morais e de amor ao próximo.







 Velório de Martin Luther King
 (morto por assassínio)




ENTREVISTA AO ASSASSINO DO LÍDER:
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Em previsão tragicamente confirmada, Martin Luther King tinha a certeza que «não podia esperar» ...
(outro dos seus "slogans" de oratória) ... Nem ele, nem o seu povo!  A sua eliminação física era sempre uma questão de tempo, derivação natural do massacre a que o negro norte-americano estava submetido. 

Massacre social, económico, político e moral que o impede de atingir a condição humana.

Entendida esta na sua expressão mais simples, cujo significado não ultrapassa o limite da necessidade do ser humano, individual e coletivamente, viver num contexto  de direitos e obrigações que definem a moralidade, dão forma à liberdade concreta e que, no processo da sua efetivação, passam a ser o atributo básico do ser humano, isto é, tornam o homem, humano.

É exatamente em busca da sua humanidade que lutam os negros, e não estão sozinhos na batalha. Possuem companheiros de todas as cores em todos os continentes. Disso tinha plena consciência a liderança adulta de Luther King quando afirmou com grande lucidez: «A determinação dos negros norte americanos de se libertarem de todas as formas de opressão, deriva dos mesmo motivos profundos que inspiram as lutas de todos os povos oprimidos no mundo. Os descontentamentos na Ásia e na África são expressões de um anseio de liberdade e de dignidade humana por pessoas que, por longo tempo, foram vítimas do colonialismo e do imperialismo. Num sentido verdadeiro, a crise racial dos Estados Unidos é parte de uma crise mais ampla, que abrange o mundo inteiro».

Eis aí a verdadeira dimensão da luta racial nos Estados Unidos, suas implicações  e significados de ordem mundial, e dentro dela a importância, a vitalidade e o alcance do líder assassinado.

Sucumbiu, na forma já rotineira na América quando se trata de figura do maior destaque, através de atentado rápido e materialmente 'limpo', perpetrado ainda uma vez por um «louco» possuído de "fúria ideológica".

Martin Luther King conhecia a sua condição de vítima latente, e serenamente aguardou o desfecho.

Na impossibilidade absoluta de consolo, frize-se com veemência que ele sabia porquê... ia morrer, ele que morreu por todos nós! 

Continuemos a ser, na respetiva atuação e atitude quotidiana, um humilde mas ainda muito necessário Martin Luther King.


2012-06-02

«ÉTICA SOCIAL - DO FUTURO... E UM CONCEITO ALARGADO DO EU »

Para Aristóteles, cidadão é aquele que tem o poder executivo, legislativo e judiciário


Não se conhece nenhuma sociedade capaz de subsistir e organizar as suas atividades sem que existam códigos morais. A expressão aristotélica "o Homem é um animal político" significa que ele é eminentemente social e, obrigatoriamente , um ser moral.

O termo ética deriva do grego "ethos", também relacionado com costumes, mas apontando para uma dimensão mais interior. Remete, igualmente, para a ação, o "ethos" grego apresenta um significado mais conotado com a intenção e com a finalidade dos atos do Homem virtuoso.

Assim, centrando-se nas intenções de um sujeito moral, a ética procura a razão de ser das ações humanas e das normas pelas quais o Homem se orienta e pauta na sua conduta de vida.

Dado que somos seres sociais, a convivência não é apenas necessária para garantir a subsistência biológica, mas também é indispensável para a nossa construção como seres humanos, mais fraternos e mais amigos.




Com efeito, sem aprendizagem social e sem a partilha de conhecimentos e experiências, sem o estabelecimento de relações e de vínculos afetivos, não poderíamos desenvolver a nossa inteligência nem construir a nossa personalidade.

O Homem só se torna verdadeiramente um ser humano na relação com os outros, os que partilham da mesma natureza racional. Logo, cada um de nós, para além dos deveres para connosco temos ainda a obrigação da formação do nosso semelhante e, consequentemente, da sociedade em que vivemos.

Por ser racional e comunitário, idealiza fins orientadores da ação que vão para além da mera dimensão biológica e dos interesses individuais egoístas, tendo sempre em vista o aperfeiçoamento humano de toda a sociedade.

A ilustração em cima fala por ela, não precisa de intérprete, e contraria um pouco as palavras que o social e politicamente correto mandam proferir, mas é assim que vamos vivendo nesta atmosfera poluída de bondade, do  olha para o que eu digo mas não repares no que eu faço. 

Ao editar assim... é para contrastar exatamente a diferença entre palavras bonitas e o resultado da indiferença quase geral!

Ninguém é feliz sozinho, o ideal da partilha e do amor ao próximo é a condição e o segredo da nossa felicidade, é a meta ética que nos leva a construir um futuro mais luminoso, mais sorridente e mais fraterno.





Além do presente, que para muitas pessoas está um sufoco, há ideias de futuro que toldam ainda mais aquilo que acontece aqui e agora. Como se sabe, a vida é sempre aqui e agora e o que há de ser são apenas projeções de ideias mais prováveis ou mais improváveis. Do futuro vislumbramos apenas aquilo que as nossas experiências passadas, a nossa específica condição e circunstância, nos permitem levar a crer que pode ser possível.

Mas, mesmo não havendo ainda nenhum futuro, mesmo que se perceba que a graça desta viagem no tempo que é a nossa própria existência reside,  sobretudo, no facto de ser uma expedição no desconhecido, a nossa imensa fantasia de controlo - um controlo que nos permite mover com alguma segurança e o convencimento de que sabemos para onde vamos - implica vivermos em estados de enorme ansiedade quando, como agora, é assumido que não temos a menor ideia de como será o mundo daqui a uns tempos. Não sabemos nem como será o mundo, nem como será o nosso estilo de vida, nem que direções as coisas que nos são conhecidas  e familiares seguirão.

Olhando para trás, recuando apenas as três últimas décadas que são acessíveis à maioria de nós, dá para perceber que o mundo atual não é nada parecido com qualquer das hipóteses que colocávamos antes da queda do muro de Berlim, antes do alegado fim das grandes ideologias, antes do advento da globalização, antes dos computadores pessoais e das tecnologias  de informação e comunicação. 

Não sonhávamos com telemóveis, não pensávamos possível deslocarmo-nos  pelo mundo como depois viemos a fazer, não lobrigávamos hipóteses de o consumo se transformar no que depois foi, não tínhamos as mesmas perspetivas sobre a saúde, a educação, a justiça, as relações entre géneros e entre gerações que acabámos por ter.


O meio ambiente em perigo


Não tínhamos os mesmos costumes nem adivinhávamos o que se seguiria  em termos de transformações de mentalidades. Ou seja, há apenas duas ou três décadas vivíamos inseguros por outras razões e tínhamos do futuro que veio a ser imensas convicções que não se confirmaram.

Faz sentido relembrar isto quando se ouve com frequência que não há futuro. O futuro espera por nós mesmo que nós não esperemos nada dele.