[ Vox populi vox Dei ]

2012-11-24

« PÁTRIA INGRATA... MAS NÃO PARA TODOS! »




Desde há muito, vive-se num país marcado  pelo contraste. Sentados nos bancos da escola, em crianças, ao mesmo tempo que se ouvia o relato de um passado glorioso envolto em conquistas e riquezas, olhava-se em redor e só se via miséria: miúdos a esfregarem o pão em peles de bacalhau, ao mesmo tempo que aqueciam as mãos em pedras quentes retiradas das lareiras e que traziam nos bolsos para confortar as mão regeladas pelo frio.

Lembrando o velho adágio que diz que Deus dá o frio conforme a roupa, haverá porém um lugar da Terra, em que o adágio é desmentido e esse lugar é o nosso país. Enquanto uns vivem aquecidos pelo luxo, outros há que gelam nas ruas das grandes cidades ao sabor do frio.

À falta de melhor lar, a rua, em Portugal, começa a ser o lar de muita gente onde a única coisa que aquece no inverno é a solidariedade de alguns...

Enquanto os habitantes de Berlim passam regaladamente as suas noites "polares" nas suas casas aquecidas, em Lisboa [e não só...] os sem-abrigo batem o queixo.

Já noutros tempos havia falta de emprego, facto que obrigava muitas pessoas a emigrar. Para trás ficavam a mulher e os filhos, em suma a família, o aconchego do lar. Volvidos tantos anos a situação mantém-se e as pessoas veem-se obrigadas a deixar a pátria em busca de uma vida melhor.

O nosso país faz-nos lembrar uma sala de visitas, que em vez de receber, despede!

A única diferença é que naquele tempo emigravam os pais e atualmente são os filhos a fazê-lo...

Chega o Natal e a situação mantém-se, pois a sorte grande apenas contempla o poder. E se há espetáculo de infortúnio humano que comove é o frio dos que têm frio e a fome dos que têm fome. Cenário deprimente assisitir à procura de comida nos caixotes do lixo, enquanto alguns se banqueteiam em hotéis de luxo financiados pela miséria.

E, tal como naqueles tempos, o povo continua a pedir esmola, sem esperança, sem convicção, sem eloquência. A voz com que pede esmola não é a voz lamurienta da miséria que mendiga, mas a voz brusca e desalentada de quem já nada espera da solidariedade, da piedade, da compaixão alheia. E lá se vai um dos ideais do 25 de Abril...

E, mais uma vez, Natal após Natal, a fava calha sempre ao povo. Caso para dizer, um ano novo e um velho fado. 

Não surpreende por isso, as manifestações de descontentamento a que assistimos nos últimos tempos. Cada vez mais o homem está insatisfeito com a sua sorte. 

Pede-se moral. Reivindicam-se direitos. Pede-se pão. Há que exigir Justiça!




JORGE de SENA
(1919 - 1978)

[Poeta, Crítico, Ensaísta, Dramaturgo]



A Portugal

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço.
És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não 



Poema de: Jorge de Sena 




2012-10-23

«HISTÓRIA E REMODELAÇÕES DO CASTELO DE S. JORGE »

Gravura do Séc. XVI revelando o Castelo de São Jorge de Lisboa como era na época



Situado numa das colinas mais altas de Lisboa, num local aprazível sobranceiro ao Tejo, o Castelo de São Jorge, domina a paisagem ribeirinha da Baixa Pombalina.

Em meados do primeiro milénio antes de Cristo, a colina do Castelo era banhada por um esteiro do Tejo, que entrava pela Praça do Comércio e se prolongava até à Praça da Figueira – Martin Moniz, onde desaguavam pequenas ribeiras. O progressivo açoreamento e atulhamento destas linhas de água foi dando lugar a construções. Na época, o povoamento desenvolvia-se pelas vertentes Sul e Sudoeste da colina do Castelo diluindo-se na zona baixa das praias do esteiro.

Os vestígios mais antigos encontrados no Castelo remontam à Idade do Ferro, ao séc. VI a.C. É provável que, nesta época, existisse um povoado fortificado na área, não se conhecendo, porém, os seus contornos exactos. As escavações arqueológicas a decorrer no local puseram a descoberto um conjunto de estruturas, pavimentos e muros, e de objectos de uso quotidiano, que testemunham a antiguidade da ocupação da zona onde hoje se encontra o Castelo.

Estrabão, geógrafo do séc. I a.C., informa que Olisipo foi fortificada no séc. II a.C, durante as campanhas militares romanas na Lusitânia. Dessa fortificação não se encontraram até à data vestígios, mas sabe-se que Olisipo era, na época, um importante porto comercial, quer pelos geógrafos da antiguidade clássica que escreveram sobre a Península Ibérica, quer pelos vestígios arqueológicos descobertos.


.

 Gravura antiga mostrando outra perspectiva do Castelo


Considerando o espaço do Castelo como um local privilegiado para a implantação de edifícios públicos de carácter monumental ou religioso, até à data, foram identificadas poucas estruturas da época romana, das quais se salienta a presença de um edifício público marmoreado. Também, os objectos do dia-a-dia, nomeadamente, moedas, ânforas e lucernas são pouco abundantes. Porém, são abundantes as epigrafes que, ainda, que deslocadas do seu local original, são reveladoras da importância de Olisipo.

A existência de um castelo propriamente dito, é documentado nas fontes e na arqueologia a partir de meados do século XI. As descrições dos geógrafos árabes salientam o forte castelo e as muralhas que defendiam a quasabah ( alcáçova). Nessa altura, Al Uzbuna, como era designada pelos muçulmanos, mantinha a sua importância enquanto cidade portuária, datando desta época o castelo e muralhas que defendiam a quasabah. A cidade propriamente dita, a medina, desenvolvia-se, desde o Castelo até ao rio, pela encosta Sul e Sudoeste.

A alcáçova, com o seu castelo, construída no topo da colina era efectivamente o centro do poder politico e militar da cidade. Na alcáçova, no sítio da Praça Nova, o bairro islâmico posto a descoberto pelas escavações arqueológicas constata essa realidade, simultâneamente de residência por excelência dos governadores, nobres e altos funcionários, e de centro militar. A cerca velha ou moura, com troços ainda visíveis em vários pontos, terá sido, provavelmente, reconstruída e aumentada durante o período islâmico.

Em 1147, quando D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, acampa com o seu exército na envolvente da colina do Castelo para o tomar aos mouros, o castelo e parte da cidade encontravam-se defendidos por uma muralha, que abraçava parte da cidade que pela colina do Castelo se desenvolvia até ao rio.

A conquista que ficou célebre nos anais da história pela morosidade do cerco devido à dificuldade em tomar o Castelo, que imponente se erguia no topo, contou com a ajuda da Segunda Cruzada que se dirigia para a Terra Santa para mais uma ofensiva contra os árabes.

A lenda que com o tempo se gerou em torno da conquista de Lisboa, enaltece em particular, a proeza de um nobre cavaleiro de D. Afonso Henriques, Martim Moniz, que percebendo que os mouros fechavam a porta do Castelo, a franqueou permitindo, assim, a entrada dos cristãos no último reduto de defesa. Desde então, passou a designar-se por Porta do Moniz, aquela que permitiu a vitória a D. Afonso Henriques, e que se situa junto à Praça Nova.

A conquista cristã de 25 de Outubro de 1147 parece dar continuidade à ocupação islâmica do espaço da alcáçova, bem patente a nível político nos pactos firmados para a rendição da cidade, não se registando, até ao momento, quaisquer níveis de destruição que testemunhem momentos de guerra nesta área. A mesquita, a confirmar-se a sua localização tradicional, cede o lugar à igreja de Santa Cruz. O palácio do alcaide da cidade cede lugar ao paço que aloja o rei quando este se encontra em Lisboa.

Em 1256, Lisboa, torna-se capital do reino de Portugal. Desde então, até ao início do séc. XVI, o Castelo conhece o seu período áureo. Para além da residência real e do palácio dos Bispos, a alcáçova recebe casas dos nobres da Corte.

Os vários reis do séc. XIII, XIV e XV, dedicam uma atenção especial ao Castelo promovendo melhorias várias. Em meados do séc. XIII, D. Afonso III faz obras de reparação no palácio do governador. No séc XIV, D. Dinis, transforma a alcáçova mourisca em Paço Real da Alcáçova. D. Fernando, em 1373 – 1375, manda construir a Cerca Nova ou Cerca Fernandina, para que a cidade ficasse mais defendida, pois tinha-se expandido muito. Também, com D. Fernando, é instalada na Torre de Ulisses o tombo do reino, onde se guardava os documentos antigos do Arquivo Real.

.

Depois das guerras com Castela e restabelecida a paz, nos finais do séc. XIV, D. João I, manda atulhar o fosso e coloca o Castelo sobre a protecção de São Jorge, santo protector dos guerreiros e da fé cristã.
Gradualmente, o castelo vai ganhando um cunho mais cortesão, e perdendo a sua função militar. É no Paço Real da Alcáçova que Vasco da Gama é recebido por D. Manuel depois de regressar da Índia, no limiar do séc XV para XVI. É também, neste paço que é apresentada a primeira peça de teatro português, o Auto do Vaqueiro, de Gil Vicente, por ocasião do nascimento do príncipe D. João, futuro rei D. João III.

No dealbar do séc. XVI, a residência real e a corte transferem-se para a baixa da cidade, para a Praça do Comércio, onde estava a ser terminado o Paço da Ribeira.

Desde então, o antigo Paço Real da Alcáçova, vai perdendo, naturalmente importância. O terramoto ocorrido no ano de 1531, acentuou-lhe o abandono, já que sofreu alguma ruína. Porém, em meados do séc. XVI, D. Sebastião, manda reedificar o Paço para aí estabelecer a sua residência, ficando para a história como o último rei a residir no antigo Paço Real.

Com a ida da corte para a zona baixa da cidade, a fisionomia da alcáçova, foi-se alterando, e gradualmente os palácios e casas nobres foram dando lugar a habitações mais populares, ainda hoje visíveis no traçado urbano da actual freguesia do Castelo.

A partir de 1580, com a dominação filipina, o castelo, retoma a sua importância militar, sendo construídos e adaptados edifícios para albergar a guarnição espanhola e para servir de prisão. A função de presídio, será uma constante até à sua reabilitação em 1938-1940.

No séc XVII e XVIII, mantêm-se a sua função de quartel e presídio. Ainda no séc. XVII, é construída numa das torres o Observatório Geodésico, passando a designar-se, desde então, por Torre do Observatório. A Torre do Tombo, também se manteve na alcáçova, ocupando para além de uma das torres do castelejo, algumas alas do antigo Paço Real mais próximas, nomeadamente, uma ala designada por Câmara de D. Fernando.

Com o terramoto de 1755, o Castelo, descaracterizado pelas construções que lhe foram sendo acrescentadas, sofre graves danos, desaparecendo numerosos edifícios, torres e troços de muralha.
Os trabalhos de reconstrução então empreendidos, reflectem meios e condições diferentes das existentes na área da baixa pombalina. Os vestígios arqueológicos em toda a zona da antiga alcáçova, testemunham uma notória incapacidade de retirar os escombros do terramoto, optando-se por construir sobre esses escombros novos edifícios ou não construir e deixar essas zonas baldias.



 Fotografia de 1940, mostrando o Castelo ainda em visível estado de degradação

Assim, dos vários trabalhos de reedificação, foram empreendidas obras de reconstrução e adaptação para receber a instalação da Casa de Correcção da Casa Pia, que permanecerá no Castelo até ao inicio do séc. XIX. Porém, parte do antigo Paço Real da Alcáçova, do Palácio dos Condes de Santiago, do Palácio das Cozinhas ou do Hospital de São João de Deus, não serão mais reconstruídos ou só serão reconstruídos parcialmente já nos finais do séc. XX.

Em 1910, com a implantação da República é classificado como Monumento Nacional.

Em 1940, o Castelo de São Jorge assume um novo destaque com vista à comemoração centenária da Fundação da Nacionalidade e da Restauração da Independência. A intervenção realizada entre 1938-1940 pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, procurou imprimir-lhe a dignidade de outros tempos, em que era o centro político e militar do país, pondo a descoberto algumas das estruturas antigas do velho paço real e do castelejo que se encontravam subterradas.

.
 Aspecto actual do Castelo de São Jorge


O Castelejo e o Antigo Paço Real da Alcáçova que hoje existem, não são a « reconstrução fiel» do que foram outrora, mas o resultado dos aspectos mais marcantes das sucessivas épocas que lhe foram moldando a fisionomia.











Fonte Oficial do Castelo de São Jorge

Fotos: Selecionadas na internet

2012-10-21

« O CONFORMISMO ... ESSE FILHO DO MEDO... »





Conformismo

Forma de influência social que resulta do facto de  uma pessoas mudar o seu comportamento ou  as  suas atitudes por afeito ou pressão do grupo.

Processos subjacentes ao comportamento conformista

1.A unanimidade do grupo – o conformismo é maior nos grupos em que há unanimidade.

2.A natureza da resposta – O conformismo aumenta quando a resposta é dada publicamente. Esta é a razão do uso do voto secreto, para assegurar o máximo de liberdade e independência na escolha.

3.A ambiguidade da situação – a pressão do grupo aumenta quando não estamos certos do que é  correcto.

4.A importância do grupo – quanto mais atractivo for o grupo para a pessoa maior é a  probabilidade de ela se conformar.

5.A auto estima – as pessoas com um nível mais elevado de auto  estima são  mais independentes do que as que têm uma auto estima mais baixa,  que são,  naturalmente,  mais  conformistas. As razões  que  levam  as pessoas a conformar-se  são as mesma que as levam  a  fazer parte de grupos: a necessidade de ser aceite e de interagir com os outros.















Penso que se julga que o conformismo é uma caracterísitca de personalidade entre outras, havendo assim pessoas mais conformistas e dispostas a conformarem-se do que outras.

Outra forma de colocar as coisas é considerar que o conformismo é um resultado, um produto, que ocorre de forma mais ou menos nítida num contexto relacional e num quadro de relações assimétricas.

Explicando melhor: todos nós, desde pequenos, somos coagidos a uma indispensável socialização. Aprendemos a falar um dada língua, a ter uma posição ereta, a comportarmo-nos de uma certa forma porque quem nos cuida assim o determina.

Somos quem somos porque aderimos, sem alternativa, primeiro a aprendizagens básicas, depois, vida fora e de forma cada vez mais sofisticada, a regras, preceitos, crenças e valores.

Somos conforme se deve ser para um dado grupo de pertença - habitualmente a família - e, durante o percurso de uma vida, vamos mudando de pessoas e grupos e adquirindo as respetivas conformidades que valorizamos ou nos fazem um qualquer sentido.

Assim sendo, e para todos nós, o conformismo dá conta de um processo de adesão, inevitavelmente humano, as normas de outras pessoas ou de grupos. Deste processo natural não damos conta, nem em nós nem nos outros, a não ser que a adesão surja como submissão.






Só quando a vontade de um outro prevalece sobre a nossa, só quando damos conta de que somos ambivalentes ou críticos em relação a comportamentos ou ideias que assumimos como nossos, é que percebemos que estamos a ser submissos.

Porque é que as pessoas se submetem, porque é que não se revoltam, é pois a questão seguinte: a resposta não é difícil, já com tantas interdependências que a maioria das pessoas nem sabe que se pode revoltar!

Enquadrados em grupos, em ideias e em convicções que partilhamos com aqueles de quem gostamos, não temos espaço individual para rejeitar formas de vida que, seguramente, partilhamos com muitos outros.

Há quem ache que se é conformista por falta de imaginação, por ignorância, medo ou passividade - por já não valer a pena!  É verdade... Mas sobretudo é-se conformista pelo receio atávico de se perder pessoas e elos significativos.

Baseado nuns textos académicos sobre psicologia, redigi este apanhado que, de alguma maneira também parece conformista com o statu quo (...)

Por amor aos meus pais e à família, jamais instalei na minha mente emigrar para um país mais ou menos distante, em busca de uma vida alegadamente melhor. Então... e as saudades? Então... e o resto? Então, de forma conformista, ingressei nas fileiras das Forças Armadas, e «emigraram-me» para a guerra das então colónias portuguesas de África! (...) Lá se foi o preconceito das saudades e do tal resto, para o brejo!!

.
 Mafalda, a conhecida "inventora" 
do 
inconformismo


Para que o mundo pule e avance, precisamos de ter a coragem de assumirmos o inconformismo. Indo mais longe, devemos até enveredar pelos caminhos da desobediência...

O inconformismo é o grande motor das descobertas tecnológicas, filosóficas, científicas etc.; é eficaz na luta contra preconceitos negativos, era bom se as pessoas que pertencem a regimes políticos ditatoriais fossem inconformistas e desobedientes!

Acho que, atualmente, é o  caso português ...





2012-09-28

« DO FUTURO PROSAICO... À POESIA INTEMPORAL »



Além do presente, que para muitas pessoas está um sufoco, há ideias de futuro que toldam ainda mais aquilo que acontece aqui e agora.

Como se sabe, a vida é sempre aqui e agora e o que há-de ser são apenas projeções de ideias mais prováveis ou mais improváveis. Do futuro vislumbramos apenas aquilo que as nossas experiências passadas, a nossa específica condição e circunstância, nos permitem levar a crer que pode ser possível.

Mas, mesmo não havendo ainda nenhum futuro, mesmo que se perceba que a graça desta viagem no tempo que é a nossa própria existência reside, sobretudo, no facto de ser uma expedição no desconhecido, a nossa imensa fantasia de controlo - um controlo que nos permite mover com alguma segurança e o convencimento de que sabemos para onde vamos - implica vivermos em estados de enorme ansiedade quando, como agora, é assumido que não temos a menor ideia de como será o mundo daqui a uns tempos. Não sabemos nem como será o nosso estilo de vida, nem que direções as coisas que nos são conhecidas e familiares seguirão. Olhando para trás, recuando apenas as três últimas décadas que são acessíveis à maioria de nós, dá para perceber que o mundo atual não é nada parecido com qualquer das hipóteses que colocávamos antes da "queda" do muro de Berlim, antes do "fim" das grandes ideologias, antes dos computadores domésticos e das tecnologias  de informação e comunicação.

Não sonhávamos com telemóveis e "smartphones" multifunções, não pensávamos possível deslocarmo-nos pelo mundo como depois viemos a fazer, não lobrigávamos hipóteses de o consumo se transformar no que depois foi, não tínhamos as mesmas perspetivas - ou a falta delas - sobre a saúde, a educação, a justiça, as relações entre géneros e entre gerações que acabámos por ter.

Não tínhamos os mesmos costumes nem adivinhávamos o que se seguiria em termos de transformações de mentalidades.

Ou seja, há apenas duas ou três décadas vivíamos inseguros por outras razões e tínhamos do futuro que veio a ser imensas convicções que não se confirmaram.

Faz sentido relembrar isto quando se ouve com frequência que não há futuro.

O futuro espera por nós, mesmo que nós não esperemos nada dele! 







 António Gedeão
Poeta




« Poema do Futuro »

Conscientemente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.

No declive do tempo os anos correm,
deslizam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê, e sorri.
Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corpo imóvel, exhumado
da vala do poema.

Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.
Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo quanto fica,
é tudo quanto resta
de um ser que entre outros seres
vagueou sobre a Terra.

António Gedeão, in 'Poemas Póstumos'







Ary dos Santos

Poeta





O Futuro    

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.








2012-08-19

« DR. SOUSA MARTINS, MÉDICO SANTO... OU SOLIDÁRIO?! »

Foto e estátua do Dr. Sousa Martins
'Escola de Medicina'
(ao fundo)


José Tomás de Sousa Martins (Alhandra, 7 de Março de 1843 — Alhandra, 18 de Agosto de 1897) foi um médico e professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa. Formado em Farmácia e Medicina, trabalhou intensa, e na maioria dos casos gratuitamente, sobretudo no combate à tuberculose.
Orador brilhante, dotado de humor e inteligência, homem de actividade inesgotável e praticante incansável da caridade junto aos mais desfavorecidos, exerceu uma forte influência sobre os colegas de profissão, os alunos e os pacientes que tratou. Esta influência metamorfoseou-se e perpetuou-se no tempo, tendo a figura de Sousa Martins assumido contornos de santo laico, num culto actual, bem visível nos ex-votos colocados em torno da sua estátua no Campo de Santana, em Lisboa, e no cemitério de Alhandra, onde está sepultado. Foi sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa.

Nasceu numa casa da zona ribeirinha de Alhandra a 7 de março de 1843, filho de Caetano Martins, carpinteiro, e de Maria das Dores de Sousa Martins, doméstica, uma família com escassos recursos económicos. Viveu a sua infância em Alhandra, onde completou o ensino primário, então os únicos estudos possíveis naquela vila. Ficou órfão do pai aos 7 anos de idade.

Aos 12 anos de idade foi aconselhado pela mãe a partir para Lisboa, onde um seu tio materno, Lázaro  Joaquim de Sousa Pereira, se tinha estabelecido como farmacêutico, ao tempo proprietário da Farmácia Ultramarina, sita na Rua de São Paulo.
 
Ficou instalado em casa do tio, trabalhando como aprendiz na farmácia, ao mesmo tempo que frequentava o Liceu Nacional de Lisboa. A 1 de Abril de 1856 iniciou oficialmente funções como praticante de botica na Farmácia Ultramarina. Tornou-se exímio manipulador de produtos naturais e adquiriu uma experiência que depois muito valorizou como médico e professor de Medicina.

Terminado o curso liceal, concluiu em 1861 os estudos preparatórios da Escola Politécnica de Lisboa, ingressando seguidamente no curso de Medicina da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e no ano seguinte no curso de Farmácia, onde os conhecimentos que adquirira enquanto praticante de farmácia o ajudaram a terminar em 1864, com 21 anos de idade, o curso de farmacêutico com excelente classificação.

Após a conclusão do curso de Farmácia decidiu continuar estudos e concluiu em 1866, com apenas 23 anos de idade, também na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, o curso de Medicina, apresentando como tese de licenciatura o trabalho intitulado O Pneumogástrico Preside à Tonicidade da Fibra Muscular do Coração.

A 13 de Julho de 1864 foi eleito sócio efectivo da Sociedade Farmacêutica Lusitana, por proposta subscrita por José Tedeschi, assumindo em pouco tempo um papel relevante na vida da instituição, elaborando ao longo da década seguinte múltiplos relatórios e pareceres e publicando vários artigos no periódico Jornal da Sociedade Farmacêutica, órgão oficial daquela associação. Foi durante mais de uma década vogal da Comissão de Saúde Pública da Sociedade, tendo um papel relevante na regulação de diversas práticas farmacêuticas potencialmente perigosas para a saúde pública. A 4 de Agosto de 1874 foi feito membro benemérito da Sociedade, com fundamento na maneira brilhante como desempenhou o difícil e honroso encargo de representante de Portugal no congresso de Viena, nos assuntos de quarentenas e medidas sanitárias.

Em 1867 foi feito sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa.
Concluído o curso médico como aluno brilhante, em 1868 foi nomeado, após concurso público, para o cargo de demonstrador da Secção Médica da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Nesse mesmo ano foi eleito sócio da Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa, iniciando uma carreira ligada ao ensino e investigação na área da Medicina.

No desenvolvimento dessa carreira, em 1872 foi nomeado lente da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e em 1874 médico extraordinário do Hospital de São José.
 
Entretanto afirmou-se como médico de nomeada e membro relevante de diversas agremiações científicas e cívicas, conquistando um lugar de relevo entre a intelectualidade de Lisboa. Como médico e professor, dava grande importância à componente psicológica e de relação humana da prática médica, ficando conhecido conselho incluído numa das suas lições: Quando entrardes de noite num hospital e ouvirdes algum doente gemer, aproximai-vos do seu leito, vede o que precisa o pobre enfermo e, se não tiverdes mais nada para lhe dar, dai-lhe um sorriso. Mesmo depois da sua morte, as suas lições coligidas foram referência obrigatória durante décadas.

O seu percurso académico e profissional levou-o ao cargo de secretário e bibliotecário da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, catedrático de Patologia Geral, Semiologia e História da Medicina, presidente da Comissão Executiva e da Secção de Medicina da expedição científica à Serra da Estrela organizada em 1881 pela Sociedade de Geografia de Lisboa e director efectivo da Enfermaria de São Miguel no Hospital de São José.

A sua actividade no Hospital de São José, e em particular a importante acção filantrópica que exercia a favor dos doentes mais pobres, afirmou-o como um dos médicos mais prestigiados de Portugal. Ganhou enorme prestígio na luta contra a tuberculose, que então atingia proporções epidémicas em Lisboa, que reforçou ao liderar a expedição científica à Serra da Estrela e ao defender a construção naquelas montanhas de sanatórios destinados à climoterapia daquela doença.
 

A expedição científica à Serra da Estrela foi organizada sob a égide da Sociedade de Geografia de Lisboa, de que Sousa Martins era sócio fundador e vogal do Conselho Central, reunindo em Agosto de 1881 uma plêiade de cientistas e intelectuais que estudaram aquela região portuguesa nas suas vertentes geográfica, meteorológica e antropológica num esforço sem precedentes de exploração sistemática do território português.

O interesse de Sousa Martins na realização da expedição prendia-se com a necessidade de conhecer a meteorologia e as condições sanitárias da região dado a importância então atribuída ao clima no tratamento da tuberculose pulmonar. Essa necessidade levou a que em conjunto com Brito Capelo tivesse requerido ao Governo, em 1882, a instalação de um posto meteorológico na Serra.
 
Na sequência da expedição Sousa Martins defendeu a implantação de Casas de Saúde na região serrana e foi um dos impulsionadores da fundação do Club Hermínio, uma associação de carácter humanitário que criada em 1888 se manteve activa pelo menos até 1892. Sousa Martins foi aclamado sócio honorário e presidente perpétuo pelos membros fundadores. Afirmando-se como uma instituição de solidariedade, o Club Hermínio tinha por finalidades promover o melhoramento das condições naturais da Serra da Estrela, considerada como estação sanitária através do estabelecimento de casas de saúde sob direcção médica, o socorro aos doentes pobres e o exercício de polícia higiénica em todos os pontos da Serra e nas habitações que fossem usados pelos doentes.

No Verão de 1888, com o patrocínio do Club Hermínio e com o apoio entusiástico de Sousa Martins e de Guilherme Teles de Meneses, esteve na Serra da Estrela o médico Basílio Freire, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, que ali assegurou acompanhamento médico gratuito aos doentes que o procuravam.

O principal objectivo de Sousa Martins era a construção de um sanatório na Serra da Estrela que de forma permanente pudesse acolher e tratar doentes com tuberculose pulmonar. Apesar do seu esforço e da sua influência junto da Coroa, já que desde 1888 era médico honorário da Real Câmara de Suas Majestades e Altezas, e do Governo, a iniciativa, aclamada por todos, tardou em materializar-se e o sanatório proposto apenas seria construído após a sua morte.

A construção do sanatório da Guarda, ficou a dever-se à Assistência Nacional aos Tuberculosos, a ANT, instituição que sob a presidência da rainha D. Amélia de Orleães conseguiu reunir os fundos necessários e materializar a construção e equipamento. A inauguração do sanatório, o primeiro a ser construído pela ANT e o terceiro de Portugal, ocorreu a 18 de Maio de 1907, quase uma década após o falecimento de Sousa Martins. A inauguração incluiu uma homenagem àquele pioneiro da luta contra a tuberculose, cuja acção e dinamismo a rainha já evocara 1899 em intervenção pública integrada numa campanha de profilaxia da tuberculose.

Apesar do tempo decorrido após o falecimento de Sousa Martins, em sua homenagem, a nova instituição foi denominada Sanatório Dr. Sousa Martins e por ela passaram muitos milhares de doentes ao longo de mais de meio século de funcionamento. A sua importante acção deixou o nome ligado à zona serrana com tal perenidade que o principal hospital da cidade da Guarda o mantém Sousa Martins como patrono.

Foi também escolhido para representar Portugal em diversos eventos internacionais na área da Medicina: em 1874 foi nomeado delegado à Conferência Sanitária Internacional realizada em Viena; e em 1897 foi delegado à Conferência Sanitária Internacional, realizada em Veneza, onde foi eleito vice-presidente.
 
Adoeceu quando se encontrava em Veneza, regressando a Lisboa muito debilitado. Diagnosticada tuberculose, partiu para a Serra da Estrela à procura de alívio. Aparentemente convalescendo, recolheu-se a Alhandra, onde se instalou numa quinta, propriedade de amigos, tentando recuperar.

A doença agravou-se e aos 54 anos, tuberculoso terminal e sofrendo de lesão cardíaca, Sousa Martins cometeu suicídio, com uma injecção de morfina. Pouco antes, havia confidenciado a um amigo: "A morte não é mais forte do que eu" e "Um médico ameaçado de morte por duas doenças, ambas fatais, deve eliminar-se por si mesmo".

Na mensagem que enviou ao saber da morte de Sousa Martins, o rei D. Carlos I de Portugal afirmou: Ao deixar o mundo, chorou-o toda a terra que o conheceu. Foi uma perda irreparável, uma perda nacional, apagando-se com ele a maior luz do meu reino.
 
D. Carlos I e a Rainha Dª Amélia na inauguração do Sanatório

Também sobre ele, António Egas Moniz, Prémio Nobel da Medicina, disse: Notável professor que deixou, atrás de si, um nome aureolado de prelector admirável, de clínico, de orador consagrado, sempre alerta nas justas da Sociedade das Ciências Médicas.

Por sua vez Guerra Junqueiro considerou-o Eminente homem que radiou amor, encanto, esperança, alegria e generosidade. Foi amigo, carinhoso e dedicado dos pobres e dos poetas. A sua mão guiou. O seu coração perdoou. A sua boca ensinou. Honrou a medicina portuguesa e todos os que nele procuraram cura para os seus males.
 
                                  Monumento ao Dr. Sousa Martins na cidade da Guarda

O principal hospital da cidade da Guarda tem o nome de Hospital Sousa Martins, em homenagem ao trabalho pioneiro de Sousa Martins sobre a tuberculose e climoterapia que conduziu à promoção da Serra da Estrela como área propícia à instalação de sanatórios para o tratamento de tuberculosos. Para além disso, existem vários sítios que homenageiam o Dr. Sousa Martins, entre os quais um concorrido monumento, de autoria de Costa Motta (tio) no Campo de Santana, em Lisboa; um jazigo no Cemitério de Alhandra, onde se encontra sepultado; a Casa-Museu Dr. Sousa Martins, em Alhandra; e o busto do Dr. Sousa Martins, no Largo 7 de Março, na baixa alhandrense. Também a toponímia da cidade da Guarda, à qual o nome de Sousa Martins está associado desde o início do século XX mercê da estrutura sanatorial que ali existiu, o recorda no nome de uma das ruas do moderno Bairro da Senhora dos Remédios. Um pequeno monumento erguido dentro dos muros do antigo Sanatório da Guarda continua, diariamente, a receber preces e agradecimentos e, à semelhança do monumento lisboeta do Campo de Santana, está quase sempre emoldurado de flores e de ex-votos diversos.
 
 
Imagens de culto junto à estátua do Dr. Sousa Martins  em Lisboa
Campo dos Mártires da Pátria

Ao contrário do que muitos pensam, não há nenhum dado que indique que o Dr. Sousa Martins foi um adepto do Espiritismo; contudo, muitos dos seguidores dessa crença atribuem-lhe curas milagrosas por intermédio das suas comunicações mediúnicas.
A 7 de março e a 18 de agosto de cada ano, aniversários do seu nascimento e morte, milhares de devotos visitam e rezam junto da sua estátua em Lisboa, deixando nesse local ex-votos.



1 - Texto retirado de um post do Facebook
2 - Fotos escolhidas na Internet

2012-07-30

«OS FOGOS E AS DISCUSSÕES INCENDIÁRIAS »



Estas são horas de aflição e muitas outras já tem havido: o fogo, assaltante sem carteira profissional e com fúrias desmedidas, tudo leva e nada deixa. O que lhe aparecer pela frente é faca em manteiga neste calor de verão. Por mais que o queiram travar, poucas vezes ele permite que o domem. Nesse combate desigual, um grupo de gente valente lhe faz frente: os voluntariosos soldados da paz, esses homens e mulheres sem medo e cheios de coragem, valentia, bravura, entusiasmo e solidariedade.

Com experiência, dedicação e saber, tudo fazem para salvar os nossos bens e haveres e até os nossos corpos. Entregues de alma e coração a essa nobreza de funções, para essa gente não há dia, nem noite, sábados ou domingos, férias ou tempo de trabalho, cama ou jardim que impeça a ida serena, calma,  sempre altruísta, decidida, responsável e arrojada.

Dizemos isto, porque conhecemos bem a "massa" com que é feito este naipe de nossos irmãos, o mais puro que há nas nossas sociedades. Vimo-los correr para o fogo, quase sem se despedirem da família. Assistimos a idas suas para a estrada, mal a sirene tocava, porque o seu sangue lhes dizia que outro se vertia no alcatrão e tudo era preciso fazer para evitar que se derramasse de todo. Sabemos que deixavam de dormir para acudir a quem sofrera um AVC, ou uma simples indisposição.




Contactamos com as suas múltiplas idas para a serra a arder, sem horário de partida, nem de chegada. Por tudo isto, compreendemos a revolta e os berros que dão, quando se vêem no terreno de combate aos incêndios enquadrados e comandados por quadros de estufa, por gente de farda reluzente e ar de cidade, a quem falta esta mística do voluntariado conhecedor e a quem sobram galardões e bonés estrelados. Se nada temos contra estas estruturas, também pouco nos dizem, a nós que temos nos Bombeiros Voluntários a nossa referência maior,  no que toca à luta tenaz e heróica contra fogos florestais.

Ano após ano, é sempre a mesma coisa: a Autoridade Nacional da Protecção Civil [ANPC] vai, em bons automóveis, para aquilo que chamam o teatro das operações; munidos de telemóveis e rádios topos de gama, de mapas psicadélicos, em carros-sala de comando, tudo querem controlar. Mas, lá no fundo da mata, onde o fogo queima e os tojos ardem, onde as árvores  rebentam com tanta chama e as fagulhas traem as trajetórias previstas, que o vento não se compadece com a maravilha dos computadores, lá, andam os nossos Bombeiros, os da pá e da picareta, da mangueira e das máscaras, se as há, aliás...

É sempre assim. Por aquilo que sabemos e por aquilo que vemos em cada fogo, escusam de nos vir com conversas de treta porque quem sabe da poda é o podador. Neste caso, o Bombeiro e o seu Comando. Ponto final!





Chega de experiências de gabinete. Em incêndios, a liderança das operações só pode ter, na sua cabeça, homens de farda voluntária, de tarimba feita de muita dor e muita prova de esforço em pleno mato e terreno de suas terras. Nada disso se passa  com quem vem do ar condicionado, por mais  respeito que devamos ter por esse pessoal de fardas vistosas. Ali chegados, é o desastre completo: nada conhecem de caminhos, nada sabem das pedras  que podem encontrar, dos valados a atravessar. Os traços azuis das cartas são muito bonitos, mas não passam de desenhos virtuais!

Compreende-se, por isso, os desabafos de Jaime Soares, Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, quando diz, no rescaldo dos terríveis incêndios da Madeira e do Algarve,  que toda esta estrutura, "ultrapassada, burguesa e elitista" (a ANPC), tem de ser repensada e refundada. Acrescentamos: extinta, de alto a baixo.




Contrapondo uns Bombeiros solidários e anónimos, mas voluntariosos e determinados, dá a receita ideal. 

Deixa no ar ainda outras óbvias conclusões: à falta de corretas medidas de prevenção, planeamento e ordenamento florestal se deve o descalabro dos incêndios anuais.

Podemos ainda trazer outros argumentos para cima da mesa desta urgente (e sempre adiada) discussão: como se não aplica, nem que seja pela prevista medida coerciva, a lei da limpeza de cinquenta metros em redor de moradias, o perigo para as nossas casas está sempre à espreita!

Como muito há a fazer, tudo aquilo que só apareça em tempos de calor cheira a esturro e terra queimada, o melhor, o ideal, a prevenção autêntica, é tarefa de um ano inteiro.

E o Comando das Operações, na altura das grandes refregas, pertence aos Bombeiros e a mais ninguém!

Quem vier de outros quadrantes, que se apresente para colaborar, nunca para mandar!...


2012-07-07

« O REGRESSO AO FUTURO DA EUROPA »

A queda de Roma


Desde os primeiros tempos, que o progresso da humanidade tem sido contínuo. No entanto, em 410 da nossa era produziu-se um evento de efeitos devastadores.

Nesse ano Roma foi destruída e saqueada pelos bárbaros. A queda de Roma abre um período terrível na História que irá durar séculos.

A Europa só volta a recuperar o equilíbrio com a coroação de Hugo Capeto em 987, data que oficialmente abre a Idade Média.

Podemos afirmar que neste período a civilização desapareceu da face da terra. A chama apenas se manteve acesa em Constantinopla, que caiu às mãos dos otomanos a 29 de maio de 1453.



Os bárbaros


Os bárbaros chegaram à China, pois os chineses, tal como os romanos, chamavam bárbaros a todos aqueles que viviam para além das "limes" ou da Grande Muralha, no caso da China.

Os hunos eram caçadores e criadores de gado, que habitavam as grandes estepes do planalto euro-asiático. Átila, o seu temível chefe (395 - 453), ainda nos faz tremer.

São eles que explicam o aspeto asiático de húngaros, búlgaros e mesmo alguns russos [Lenine tinha os olhos em bico].




"Luzes de Constantinopla e da Igreja Católica"


Roma exercia um enorme fascínio sobre estes povos, chegando mesmo a integrá-los nas suas legiões.

A Europa caminha hoje a passos largos para uma situação semelhante.

Qual foi pois a razão da catástofre de 410, que tanto impressionou o próprio Santo Agostinho? É preciso entender que nessa época a superioridade militar de Roma baseava-se no seu modelo de gestão e organização, pois as armas eram praticamente as mesmas...

Individualmente os bárbaros eram superiores, e essa superioridade perdurou até à descoberta dos canhões, nos princípios da Idade Média.

Quando os sedentários se desorganizam,  ficam à mercê dos nómadas.

Roma, que se defendia com 30 legiões e não tinha inimigos à altura, autodestruiu-se!

Sabemos que a partir do século III a classe dirigente prefere os banhos e as discussões estéreis ao trabalho e à conquista. E nenhuma sociedade resiste ao egoísmo e individualismo. Os governos têm de dar a impressão de se preocupar com a coisa pública, ou melhor, devem preocupar-se  mesmo, sob pena de não conseguirem explicar os seus privilégios ao povo.

Chateaubriand definiu bem esta situação: "Uma classe dirigente conhece três fases sucessivas, a da superioridade, a dos privilégios e a das vaidades. Saindo da primeira, degenera na segunda e desfaz-se na terceira".

O desaparecimento de uma classe dirigente pode arrastar a sociedade para o abismo. Aquando da revolução francesa em 1789, a alta burguesia estava preparada para substituir a nobreza.

Em Roma isso não aconteceu. A virtude, o respeito pela lei, a coragem militar, o sentido de grandeza, tudo isso se desvaneceu.

Há pois uma espécie de implosão, uma regressão civilizacional. Temos de ter consciência de que o progresso não é automático. Desde os faraós, que o homem não parava de progredir...

Mas... em 410 dC... tudo parou!

As belas cidades e vilas romanas rapidamente passaram a ruínas... É preciso notar que estas ruínas não são naturais!

Há templos hindus com mais de 5.000 anos que se encontram impecáveis, a catedral de Notre Dame está permanentemente em restauro, mas no dia em que ficar em ruínas, isso significa que a civilização francesa desapareceu.

As magníficas ruínas romanas têm pois a missão de nos relembrar a implosão do império romano.



« Drakkars »



A anarquia mata muito mais do que a guerra, as guerras púnicas foram terríveis mas não afetaram a civilização, ao invés a queda de Roma arrastou consigo o Ocidente.

Graças à demografia histórica e às fotos aéreas que nos dão uma ideia da localização das populações, sabemos hoje que a Gália romana contava com cerca de 10 milhões de habitantes, pouco depois com os merovíngios não passava dos 3 milhões, a população regredira 70% pois, como já dissemos, a insegurança traz consigo a morte das cidades e do comércio [da economia como é mais moderno dizer].

Roma passou de um milhão para 10.000 habitantes! (...) Os bárbaros deixaram a marca na Europa, emprestando os seus nomes a numerosas nações.

Os francos ocuparam a Gália que se passou a chamar França, os anglo e os saxões que eram germanos batizaram a Inglaterra, [alguns "bretões", para fugirem aos anglo-saxões, instalaram-se na ponta ocidental de França, dando origem à Bretanha, salvando assim o gálico ou bretão], a própria Alemanha perpetuou o nome dos alamanos.

Alguns bárbaros eram marinheiros, os Vikings (suecos, noruegueses, dinamarqueses) caem nesta categoria, assim como os Normandos, "homens do norte", que aperfeiçoando a galera mediterrânica semearam a morte e o terror pelas costas do Mar do Norte.

O comércio entre o Báltico e o Mar Negro foi um monopólio sueco durante séculos, a guarda de honra bizantina era sueca, os célebres "varégues".

Os normandos instalaram-se na Normandia, que lhes será dada mais tarde pelo rei carolíngio no tratado de Saint-Clair-sur-Epte em 911, toda a Normandia tem pois vestígios dinamarqueses, o cabo de la Hague (Copenhaga), ou por exemplo "floor" latinizada em flor.

Cristianizados os normandos e sob o comando de Guilherme o Conquistador, conquistam a Inglaterra aos seus primos afastados, os anglo-saxões, em 1066.

Partem depois para a Sicília, onde fundam reinos cristãos, e serão vistos mais tarde em Jerusalém à frente das Cruzadas.




Os Mongóis pretenderam a Europa para fazer dela uma enorme coutada de caça



Por volta de 982, um explorador norueguês descobre um imenso território que por ser verde batiza de "groenland". A Gronelândia arrefece e estes agricultores/navegadores abandonam a ilha, partindo uns para a Islândia, onde apenas encontram alguns monges e eremitas, e outros para o Labrador, o estuário de São Lourenço na América do Norte.

Descem depois provavelmente até às Caraíbas...

De resto, quando Cortés chega ao México, o imperador Montezuma diz-lhe que eles não são os primeiros a chegar, teriam sido precedidos por grandes marinheiros louros, navegando em barcos com enormes serpentes esculpidas na proa.

Talvez tenham sido os «drakkars» a descobrir a América cinco séculos antes de Colombo.

Essa descoberta cai em saco roto, pois apesar de bons navegadores eram fracos em geografia e cartografia, e a própria Europa, em plena anarquia, não estava preparada para dar apoio a estas descobertas...

Apesar do descalabro, houve várias luzes que se mantiveram acesas: Constantinopla e a Igreja Católica. 

Hoje, podemos colocar a seguinte questão: se a civilização ocidental se desmoronasse, qual seria o seu refúgio, quem a iria reconstituir? 

Deixamos este raciocínio a quem tiver a paciência e a amabilidade de nos estar a ler...

A civilização é um milagre, a sua reconstrução ... outro milagre ainda maior!

Basta um alfinete para a fazer implodir. Esse alfinete no século III foram os bárbaros. Qual será hoje o alfinete?

Houve já nos primórdios da Idade Média uma última vaga de invasões vindas das estepes euro-asiáticas.

Gengis Khan, um pagão nómada, e os Mongóis conseguiram juntar os cavaleiros dispersos da Sibéria (1115-1227) e partiram de Karakorum à conquista do mundo.

No entanto os mongóis pararam à porta da Europa, que começava a sair do seu longo "sono". Os mongóis, ao contrário dos bárbaros germânicos, não sentiam qualquer espécie de fascínio pelo Ocidente, queriam apenas transformar a Europa numa imensa coutada de caça.

Tudo não passou de um sonho fulgurante que acabou por se dissipar perante o fogo dos canhões do Czar da Rússia.

Foi com a artilharia que os sedentários venceram de vez os nómadas...

E assim,  chegamos às portas da Idade Média!

Todos os impérios da História só tiveram ciclos ativos de duração limitada, até ao dia em que a sua expansão e as suas contradições internas os conduziram ao fracasso.

A Europa já superou tentativas para uniformizar o continente. Mas todas tinham em comum a arrogância de quererem fazer tudo, e nenhuma delas teve êxito duradouro.

Está-se a construir uma arquitetura não-democrática a partir de estruturas políticas não eleitas! Assim, foram-se abolindo as diferenças e estabelecendo regras de uniformização, com o argumento dos interesses do comércio livre.

É uma teia onde não se sabe quem manda. É esse poder anónimo,  não eleito, que se escuda por detrás de um série de leis (?) impostas aos diferentes países.

Assim... como todos vemos... a derrocada é previsível,  e não se entende que espécie de Europa se está a produzir...

Sem fatalismos, se não tivermos por aí outra invasão da barbárie, teremos pelo menos o regresso da Idade Média!