[ Vox populi vox Dei ]

2011-10-28

« É O PAÍS E COIMBRA , SEM MAIS ENCANTO ! »

Panorâmica da cidade de Coimbra






«AS RUAS ESTÃO TRISTES.
As ruas da minha cidade estão sorumbáticas. Ruas onde outrora havia um comércio pujante, onde se namorava, onde se ia lavar os olhos na paisagem, onde os sons correspondiam ao pulsar das pessoas que se acotovelavam para espreitarem as montras.
Esse tempo passou. Agora as lojas não existem, as montras não chamam ninguém e as pessoas têm medo. As falências do comércio tradicional trouxeram a morte anunciada de uma memória colectiva. Esse passado, que existia há poucos anos, é agora uma saudosa lembrança que permanece, também, como uma imagem depressiva do país. Onde havia lojas há agora um lugar de silêncio irrespirável; onde havia esperança resiste o lugar sem vida.
Os gatos são os “senhores” das ruas, passeiam-se altivos e insuflam-se no pêlo quando são visitados. Os donos dos sítios, nas ruas e becos da Baixinha de Coimbra, são amigos de outros cantos (no sentido de outros sons). O diálogo de gatos ensurdece a noite, principalmente, se a Lua espreita nos beirais.
O envelhecimento da população local, a degradação urbana e a lenta agonia do tecido económico local não são bons augúrios. Sabe-se que quando não há vida própria a insegurança tende a aumentar. A reabilitação urbana e o arrendamento jovem, ligados a novos conceitos de comércio poderão trazer a Baixinha de Coimbra à dignidade a que tem direito.
A proximidade com rio Mondego e o facto de manter uma malha urbana com história potencia a fixação de uma população jovem que não precisa de fazer uso do automóvel. 
Universidade de Coimbra
Começam a surgir alguns projectos que são bons exemplos e que devem servir de estímulo para novos empreendedores. A esperança está suspensa de alguns projectos estruturantes como o Metro Mondego e a candidatura da Universidade de Coimbra a Património Mundial da UNESCO. A complementaridade destes dois projectos transformaria Coimbra numa das cidades mais fervilhantes do país. 
 
A MESTRIA de CARLOS PAREDES  EM COIMBRA:
Mas numa altura em que o chefe do governo de Portugal, Passos Coelho, vem dizer que é preciso empobrecermos para vencermos as dificuldades, não deixa de ser espantosa esta afirmação. 
Adriano Correia de Oliveira
Estudante e cantor de Coimbra
 
Gostaria de lembrar que um ministro, de um dos governos provisórios de Portugal, durante o PREC, visitou a Suécia, país conhecido pelo bom nível económico e de desenvolvimento. Numa conferência de imprensa um jornalista perguntou a esse nosso ministro, “como é que estão a fazer em Portugal para acabar com a pobreza?”. O nosso ministro respondeu: “estamos a acabar com os ricos”. O seu homólogo sueco foi lesto na resposta: “Nós aqui, na Suécia, estamos a acabar com os pobres”. 
Este episódio histórico parece ter sido recuperado pelas piores razões por Passos Coelho. Ao saber que o Orçamento de Estado para 2012 vai colocar na pelintrice a maioria dos portugueses, e ao ter consciência das consequências das suas políticas, quis deixar uma espécie de “testamento vital” para que ninguém se surpreenda quando a morte chegar.
Este Orçamento de Estado, tal como é conhecido, não pode merecer um voto de indiferença por aqueles que têm responsabilidades neste país.
O Metro Mondego é um projecto estruturante para Coimbra, onde já se gastou muito dinheiro dos contribuintes, e, por isso, o governo deve garantir a continuação do projecto e defendê-lo no Orçamento de Estado para 2012.
Se não o fizer saberemos interpretar de que lado estão aqueles que dizem defender Coimbra. A reabilitação da Baixinha de Coimbra está, também, nas mãos deste governo, que pode, se quiser, fomentar o desenvolvimento de uma cidade que reúne todas as condições para relançar a economia local e a reabilitação urbana.
Eu, e penso que todos os portugueses, excepto Passos Coelho, não queremos mais pobres aqueles que nunca deixaram de ser pobres.
Mas, infelizmente, Passos Coelho não pensa assim. »
A VOZ DE ZECA AFONSO CANTA COIMBRA:
 
 

2011-10-19

« A NONA SINFONIA DE BEETHOVEN - HINO à LIBERDADE »

LUDWIG  VAN  BEETHOVEN
(1770 - 1827)



Ludwig van Beethoven nasceu em Bona, em 1770, filho de uma família oriunda da Flandres. Representa o mais importante elo de ligação entre o período do chamado classicismo, em que se salientaram muito especialmente Mozart e Haydn, e o brilhante movimento do romantismo, que dominou quase por completo uma grande parte do século XIX.

A obra de Beethoven é vasta e diversificada, tanto para instrumentos a solo - salientando-se aí as famosas 32 "Sonatas para Piano" - como para conjuntos de câmara, sendo inadmissível não distinguir aí os seus admiráveis "Quartetos de Cordas", como para orquestra sinfónica.

O verdadeiro grande sinfonista já terá começado com Mozart ou com Haydn, mas oficilializou-se totalmente com Beethoven.

Não será de esquecer a sua Ópera "Fidélio", a notável "Missa Solene" e, ao nível da popularidade, os cinco "Concertos de Piano" que fazem parte do repertório de todos os grandes concertos mundiais.


No entanto, haverá talvez que admitir que as suas obras mais divulgadas entre o grande público são as nove sinfonias: todos conhecem os acordes iniciais da "Quinta Sinfonia", a história da "Terceira", Sinfonia também denominada "Heróica", que o compositor começou por dedicar a Napoleão, para mais tarde rasgar a dedicatória, quando este se auto-coroou imperador, numa atitude que o compositor interpretou - no que não se enganou, aliás... - como uma prova de que o conflituoso estadista francês não passava de mais um déspota a querer tiranizar o mundo...

Também a "Sexta Sinfonia" - a chamada "Pastoral" - atingiu um elevado grau de popularidade, por se tratar de uma das primeiras obras em que a música assume um carácter claramente descritivo, ao imitar o som de um riacho, dos pássaros ou de uma tempestade. Ainda não é um poema sinfónico, mas para lá caminha...

Entretanto, a Nona Sinfonia será talvez aquela que mais consagrou o compositor, com o seu famoso Hino à Alegria, sobre um texto de Schiller, que, na sua origem, até deveria chamar-se Hino à Liberdade.

Gostaria de, ao correr do texto, ir legendando as referências com apontamentos musicais, recolhidos na internet. 

Não o vou fazer  para não ser  uma vez mais considerado 'maçudo', mas não resisto a transportar para aqui, e a seguir, a:

NONA SINFONIA



Considerando que o vídeo clip em cima apresentado foi eliminado pelo YouTube, insisto em musicar este post com a 9ª Sinfonia de Beethoven. 
Se for de novo cortado, voltarei,
e arranjarei outra orquestra!

VOILÀ:


Será impossível não nos espantarmos com o facto de Beethoven estar completamente surdo quando escreveu esta monumental partitura coral-sinfónica, mas há que lembrar que o compositor já tinha toda a música organizada, como que em ficheiros, na sua cabeça e na sua memória.

Na verdade, não escutava os sons que vinham do exterior, mas ouvia internamente tudo aquilo que depois iria passar ao papel.

Isto deveu-se também, como é evidente, ao facto de a sua preparação de base ser entregue desde o início a bons professores, como fosse o caso de Neefe, um músico e um pedagogo de assinalável competência.

E assim, quando seguiu para Viena, a fim de estudar com Haydn, o então jovem compositor já tinha toda uma organização musical devidamente articulada na sua mente, pelo que não se pode dizer que a futura surdez tenha de algum modo afectado a sua criatividade.

A "Nona Sinfonia", nomeadamente devido ao genial tratamento dado ao tema do quarto andamento, continua hoje a ser um dos maiores símbolos da grande música, e, como li algures... também da defesa da Liberdade.












2011-10-15

«"DOMÉSTICA": UMA PROFISSÃO A RECONHECER E PRESTIGIAR»

Florence Nightingale
Fundadora da Enfermagem Moderna



Num destes dias, ao olhar para uma janela que pingava água, vi a silhueta de uma mulher que estendia roupa, e pensei nas enfermeiras e em Florence Nightingale.

Florence Nightingale é mundialmente considerada a fundadora  da enfermagem moderna. Com a sua iniciativa e o seu trabalho contribuiu para dignificar uma profissão - a da enfermagem - que até à época era um trabalho desqualificado, socialmente desvalorizado e mal remunerado, sendo os cuidados médicos prestados sem qualquer qualidade técnica e a profissão desempenhada pelas Irmãs de Caridade e sobretudo, pelas matrons - pessoal com uma conduta reprovável: alcoolismo, roubo, desleixo, promiscuidade etc.

Estudando as condições em que os cuidados médicos eram prestados, Florence Nightingale demonstrou estatisticamente que quando a técnica e a assepsia eram respeitadas, morriam menos pessoas (naquele caso, soldados, pois a estatística foi feita nos hospitais militares do Reino Unido) do que nas circunstâncias então existentes e que era de toda a conveniência a formação pessoal e profissional das enfermeiras.

Analisando o valor social do trabalho doméstico, podemos concluir que ainda hoje, no século XXI e por cá, comunga de algumas das características da enfermagem do século XIX: socialmente desvalorizado, com um desempenho associado no imaginário a um nível socioeconómico baixo, de preferência executado por emigrantes, das quais muitas sem a escolaridade básica e sem qualquer formação técnica. E, se não é mal remunerado, comparando com outras profissões, é porque a oferta é escassa.




Mas o trabalho da casa é uma profissão? Não é só limpar o pó, despejar o lixo, cozinhar e pouco mais? Não existem hoje em dia máquinas de cozinhar? Aspiradores robot?

Existem máquinas e deviam existir ainda mais. Mas, quem as põe a funcionar? Quem tem conhecimentos técnicos necessários para, utilizando-as, elaborar ementas equilibradas, saborosas, que diminuam os riscos da obesidade, das doenças cardiovasculares e outras? Para lavar a roupa, limpar o chão etc. sem utilizar mais detergente do que o adequado, contribuindo para a sua manutenção, durabilidade e evitando poluir o ambiente? Quem organiza o trabalho doméstico equilibrando os recursos  disponíveis e evitando o desperdício? Quem está preparado para reintroduzir em casa a beleza de umas flores dispostas com gosto, de uma travessa que vem à mesa tão bonita que diminui a falta de apetite e o cansaço de qualquer um?

Num momento ou noutro, não há ninguém que não tenha vivido o caos que se instala quando, por doença, excesso de trabalho etc. a mãe, ou quem se encarrega desse trabalho, deixa de o poder realizar.

Para não referir os desastres causados pelos que começam a desempenhar esta profissão: refeições intragáveis, panelas queimadas, peúgas no lixo, máquinas avariadas etc. e o orçamento familiar com cada vez menos recursos disponíveis.

Frequentemente, nos meios de comunicação social, no Parlamento e em outras tribunas públicas, lamenta-se o facto de as mulheres a exercerem cargos de elevada responsabilidade serem muito poucas.

Uma das razões porque isto acontece é que muito poucas mulheres conseguem, sem ajuda, compatibilizar essas funções com as domésticas. Sem a ajuda preparada e experiente de alguém é muito difícil compatibilizar dois trabalhos igualmente exigentes e por isso a escolha de optar por sacrificar a carreira pública, por assim dizer, pela doméstica e conseguir estar mais tempo em casa, proporcionando aos outros membros da família um bem-estar que de outro modo seria difícil de alcançar.

Por isso, pergunto-me: no início do século XXI tal como Florence Nightingale no século XIX, não será altura de repensar o valor do serviço doméstico? Reconhecer a mais-valia deste trabalho, as condições em que deve ser prestado, a necessária formação técnica e humana e deste modo contribuir para o justo prestígio de uma profissão tão preconceituosamente vilipendiada.

E, claro, passar das palavras aos atos na decisão política, o que neste momento deve ser impraticável, considerando a falta de respeito que o atual executivo tem por todos os trabalhadores.