[ Vox populi vox Dei ]

2011-08-29

« OS EMIGRANTES E A LÍNGUA PORTUGUESA »








Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro. Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade; e quem for possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa, vai gradualmente sofrendo uma desnacionalização. Não há já para ele o especial e exclusivo encanto da fala materna, com as suas influências afectivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do carácter. Por isso o poliglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desaparece, diluído em estrangeirismo.

Eça de Queirós









Por esta altura do ano, são milhares os emigrantes portugueses que regressam à terra, para matarem saudades e reverem locais e familiares e, com eles, vêm também muitos dos seus descendentes para que estes conheçam a terra dos seus progenitores. 

É bom assistir, ano após ano e desde que se deu o "boom" da emigração para França essencialmente, à vinda destes compatriotas, com reflexos sócio-económicos importantes.

Em várias aldeias, muitas delas desertificadas durante o ano, este é o período de (quase) único movimento e vida daquelas povoações que geraram e criaram portugueses que hoje estão espalhados por esse mundo fora, com destaque para o cerca de um milhão só na União Europeia.

Verifica-se, contudo, que há cada vez mais um desenraizamento linguístico e cultural, pois não tem havido o cuidado de criar as condições para que tal não acontecesse ou de efeito mais reduzido. 

Culpa das entidades portuguesas (Embaixadas, Instituto Camões etc. ?), mas, em primeiro lugar, culpa dos próprios emigrantes  que descuraram a transmissão aos seus descendentes dos valores culturais e da língua portuguesa, menosprezando a importância que isso representa, pelo que é triste verificar que são poucos os luso descendentes que dominam a língua portuguesa.



Mais estranho ainda é o facto de alguns deles ocuparem lugares relevantes nas comunidades e instituições desses países (sejam elas locais ou nacionais e públicas ou privadas). 

Por várias razões, mas agora reforçada nesta era da globalização que vivemos, a língua portuguesa continua a merecer destaque nas empresas e organizações internacionais, pelo que o conhecimento da nossa língua, pelos emigrantes e seus descendentes, para além da língua desses países e de outras, é uma mais valia e facilitadora da ascensão sócio-profissional nesses países. Os emigrantes, salvo honrosas exceções, não entenderam a sua importância e não investiram na formação dos seus descendentes.


MUSEU da LÍNGUA PORTUGUESA



Há tempos, ouvi um emigrante que estava muito arrependido dessa falta, pelo que os seus filhos pouco ou nada sabem da nossa língua. Outro, falou em jeito de pergunta: "investir para quê se eles não pensavam vir para Portugal?".

O domínio da língua mãe é  imprescindível, mas lá como cá, esse é também um dos nossos pontos fracos. Infelizmente e sem ofensa, estas atitudes estão relacionadas com a baixa escolaridade de muitos dos nossos emigrantes da geração de sessenta/setenta, muito diferente da formação dos atuais emigrantes. Aliás, o insucesso escolar dos luso descendentes ultrapassa a média dos países onde nasceram e vivem. Também e tal como cá, existe este tipo de correlação.





 Os resultados dos recentes exames nacionais mostraram-nos uma triste realidade e um crescendo no "analfabetismo" linguístico, pelo que o investimento nesta área é imprescindível. 

As novas tecnologias  e uma oferta variada de alternativas desviam os jovens das formas de comunicação, verbal e escrita assente na língua materna.

Vale a pena saber bem o português, aqui e junto das comunidades emigrantes? Obviamente que sim, pela importância que tem o domínio da língua mãe, mas se não houver um esforço conjugado de todos os envolvidos, então não haverá melhorias.

Diz o povo que o "saber não ocupa lugar" e independentemente de pensarem ou não em regressar ou vir para Portugal, os emigrantes e os seus descendentes devem investir na sua formação, pois sem ela sobrarão para eles apenas as tarefas onde as exigências de conhecimentos e formação são menores.

Por que não enviarem os filhos estudar para Portugal, aqueles que puderem? 

Custa entender isto? 

Se calhar... os  nossos governantes até teriam de fechar menos Escolas!






2011-08-10

« VOILÀ... UM AMERICANO JEITOSO: - O VINHO MORANGUEIRO »





O vinho americano ou morangueiro é típico de algumas localidades  de Lafões. No concelho de Oliveira de Frades, é na freguesia de Ribeiradio que este tipo de vinho tem uma maior expressão, se bem que a sua produção tem conhecido um decréscimo.

O vinho morangueiro apareceu em Portugal na sequência da destruição dos vinhedos tradicionais causados pela filioxera.

Ganhou particular relevo no norte do país (Minho, Douro Litoral e nas Beiras), abrangendo zonas  que pela sua humidade e altitude não permitem o cultivo da vinha europeia.

Foi nessas zonas que este vinho ganhou maior adesão popular, particularmente porque as vinhas americanas produziam mais que as europeias.

A competição feita aos bons vinhos foi intensa, redundando na proibição da comercialização do morangueiro.

Na região de Lafões, a freguesia de Ribeiradio é um dos melhores exemplos de um local onde o vinho americano é expressivo.

Os produtores, sobretudo, são conhecedores deste produto que, durante anos trouxe gente a estas paragens para provar e comprar este néctar,  e vinham buscar pipos e levavam quatro a cinco mil litros de cada vez. 

Era um vinho apreciado por muitos, e ao passarem a palavra conseguia-se escoar muita produção. Agora há menos procura e menos venda.

Reconhece-se no entanto que a produção tem baixado significativamente nos últimos anos, muito graças às alterações de hábitos alimentares das gerações, mas também às  medidas  "do tempo de Salazar, que acabaram por não fomentar o seu desenvolvimento".

A preservação desta qualidade de vinho, com um paladar diferente e característico, deve ser feita em prol das raízes culturais desta região.

Especialistas acreditam que só assim se poderá fazer justiça para com este vinho, que teve uma importância fulcral no século passado, tanto como espécie autónoma, como para salvar as qualidades nacionais.

Apesar da diminuição da produção, em Ribeiradio, mas também em outras freguesias, é possível ver os cordões de vinha ao longo das terras ocupadas com outras culturas. As ramadas, especialmente nos quintais e junto às habitações, são outra das características desta espécie de vinha, que se estende ao longo de arames e esteios, numa conjugação que não tem conquistado as novas gerações.
Tudo começou no século XIX, quando chegaram dos Estados Unidos da América as videiras de vinho morangueiro ou americano como viria a ser conhecido.

O grande objectivo era neutralizar a filoxera, uma doença que estava a atacar a vinha nacional. Mas o que era para ser salvador da vinha, acabou por se transformar numa ameaça às culturas tradicionais, já que os produtores viram a extraordinária produtividade do vinho americano e também a sua grande capacidade de adaptação.

A acrescentar a estas  potencialidades, esta qualidade de vinha tem ainda a vantagem de resisitir a habitat frios e húmidos e de não pôr em causa as  outras produções agrícolas, como o milho, a batata ou mesmo as pastagens.


Uma característica desta vinha, disposta em "latadas",  proporcionando protecção solar a alguma lavoura e, ou, aos seus produtores que descansavam, ou divertiam-se sob a  sua sombra dedicando-se a múltiplas actividades.



Um cenário que agradava aos agricultores do Norte e das Beiras, que assim compunham o orçamento familiar, uma vez que o trabalho e o investimento com esta cultura também não eram significativos.

Ainda no que diz respeito a vantagens, registe-se que estas videiras, pelo porte e pela formação de ramadas, permitem a protecção de sementeiras do sol directo.

Em 1929 foi publicada legislação que obrigava a destruir a planta, já que os responsáveis políticos consideravam que esta espécie estava a prejudicar os vinhos nacionais. 

A eterna questão dos políticos, preocupados com o sucesso dos pequenos,  a favor dos grandes agrários!

A grande capacidade produtiva e o baixo preço, foram os argumentos utilizados pelo Estado para fazer cumprir a lei. A concorrência para com os vinhos nacionais sentia-se especialmente na abertura de vinhos novos, já que o vinho morangueiro tem um menor tempo de fermentação do que os restantes.
Mas os agricultores não viram com bons olhos a medida, já que esta planta lhes era útil e constituía uma forma de obter dividendos.

A juntar a estas vicissitudes, surgiu a desconfiança de que o vinho morangueiro prejudicava a saúde!!

Em 1936, saiu uma nova lei que impunha um prazo para reconversão ou destruição dos vinhedos, mas que acabou "esquecida" devida ao mau ano agrícola. Mas... o cenário de proibição foi mantido ao longo dos anos, com muita destruição pelo caminho.

Com a saída da ditadura, a proibição ficou esquecida, embora legalmente ainda seja uma realidade!

Há rumores de a União Europeia estar atenta ao assunto, podendo devolver ao vinho morangueiro a força de outrora.

Sendo conhecido também como vinho americano... esperemos que,
a Moody's...  não o considere... lixo!












2011-08-04

« O MANGUITO DO ZÉ-POVINHO À MOODY' S »


Um dos 500 bonecos reproduzindo o manguito [ O TOMA ] do Zé-Povinho à Moody's, feito pelas "Faianças Bordallo Pinheiro" 
- chovem encomendas para mais bonecos iguais -








As Agências de Rating não são estrelas na Constelação dos Mercados, nomeadamente a  Moody's. Os seus ratings, a exemplo das suas congéneres, falharam a toda a linha quando, por exemplo, fizeram uma avaliação positiva da Empresa Lehman Brothers, umas semanas antes daquela falir, bem como não previram  as  falências dos Bancos islandeses...


Funcionam como zelosas radicais dos mercados, seus clientes, num cálculo e estudo fundamentalista, provavelmente por excesso de rigidez, para superar a imagem da estrondosa falência nos casos atrás mencionados.


A Moody's que, em breve, secundada pelas concorrentes, irmanadas na mesma agenda, foi indiferente a todos os acordos com a Troika, menosprezou o facto das forças partidárias do nosso país, que representam mais de 80% do eleitorado, estarem comprometidas com as medidas de recuperação por ela delineadas.


Não teve em conta o propósito já manifestado pelo atual Governo de cumprir os princípios de austeridade propostos como passos largos para a recuperação.Muito menos, valorizou a medida suplementar do aumento da Receita do Estado, por via do corte do denominado subsídio de Natal.


Espelhou neste recanto Lusitano, a situação grega, menosprezando, por ignorância ou má fé, as diferenças abismais da União Europeia, quer no âmbito económico, quer nos propósitos das suas Gentes!