[ Vox populi vox Dei ]

2011-07-30

« TINTIN ... O REPÓRTER FREELANCER... »

O  REPÓRTER  TINTIN  COM  O  SEU  INSEPARÁVEL  CÃO  MILOU



OUTROS COMPANHEIROS  NAS  AVENTURAS  DE  TINTIN



Vídeo Clip de apresentação do filme de STEVEN SPIELBERG, sobre as Aventuras de Tintin, brevemente em exibição: 



Quem apostaria que um personagem graficamente tão "datado", que partia de comboio, em 1929, de Bruxelas para Moscovo numa cruzada anti-comunista sem precedentes, viria a transformar-se no herói imorredouro dos dias atuais?

Naqueles primeiros tempos, Tintin é de um linearidade absoluta, de um esquematismo gráfico e mesmo narrativo nos quais é difícil  reconhecer o herói " moderno " e isento das  histórias posteriores...






Como personagem, é um repórter, nascido para correr mundo e viver as aventuras que o imortalizaram. Talvez por isso mesmo, nunca é surpreendido a escrever um artigo - quando muito, há os registos impressos das suas vivências em jornais -, mas quem se importa com isso se as suas histórias exprimem de forma eloquente esse desejo absoluto de justiça e humanidade que impregna cada quadradinho a cada prancha?

Por detrás de cada ato de criação está, muitas vezes, uma explicação singela. Visto à distância e  a mais de setenta anos, e de acordo com a confissão do próprio autor numa carta enviada a um admirador, em Novembro de 1996, o ato fundador de Tintin é de um despojamento tocante:  

- «A 'ideia' da personagem Tintim e do tipo de aventuras que ele ia viver ocorreu-me, creio, em cinco minutos, no momento de esboçar pela primeira vez a silhueta desse herói: isso quer dizer que ele não tinha habitado os meus verdes anos, nem mesmo em sonhos».

Mas Hergé tem o cuidado de acrescentar mais alguma coisa:

- «É possível que eu me tenha imaginado, em criança, na pele de uma espécie de Tintin: nisso, haveria uma cristalização de um sonho, sonho que é um pouco o de todas as crianças e não pertença exclusiva do futuro Hergé».

Depois, há as razões sociais e culturais da época que viu surgir o repórter. O padre Norbert Wallez, diretor do jornal belga "Vingtième", encomenda ao seu jovem colaborador - Hergé tem então 22 anos e manifesta uma admiração pelo eclesiático que nunca sofreu a menor quebra - uma história que metesse um adolescente e um cão.

A ideia era passar valores católicos para os leitores, que se pretendia educar no culto da virtude e do espírito missionário.

O envio do jovem repórter à Rússia Soviética, um reino satânico onde impera a pobreza, a fome, o terror e a repressão, era uma solução que se adequava às mil maravilhas ao desejo do padre reacionário e conservador.




Ao lado de Tintin, encontramos desde a primeira hora, Milou, um cão inteligente que é um companheiro e um  cúmplice de todas as aventuras.

Não é inteiramente animal, pois Hergé confere-lhe o dom da palavra e algumas das características que habitualmente se podem encontrar nos humanos: realismo, coragem e preocupação com o seu conforto, mas também instinto batalhador... e muita gulodice!

O êxito desta primeira aventura fará com que Tintim vá ao Congo, numa homenagem de recorte inconfundivelmente colonialista à ação da Bélgica no seu antigo território africano.






Este álbum, pelas suas características observadas sob o ponto de vista político e social atuais, está sob apreciação jurídica no sentido de ser retirado dos escaparates livreiros.



E... logo a seguir, vai à América, onde Hergé desejara levar o seu repórter num contraponto crítico à incursão soviética, mas frustrado pela vontade do padre Wallez.

Vieram depois, mais de 20 histórias, através das quais a personagem ganha  espessura, é rodeada de uma notável galeria de personagens assessórias (Capitão Haddock, Professor Tournesol, irmãos detetives Dupont e Dupond, a cantora de ópera Bianca Castafiore etc. etc.) ganha o sortilégio do colorido e de um traço cada vez mais moderno e amadurecido.

Poderá sempre dizer-se que tudo o que Tintin é, já estava contido naquela primeira e primordial aventura. É certo que os balões e outros pormenores da banda desenhada moderna europeia nascem um pouco ali. Mas também é verdade que as narrativas ganham uma solidez e uma segurança que ainda mal se vislumbrava naquela tal primeira história.

Lendo «Tintin no País dos Sovietes», descobre-se também, com surpresa,  que o herói nutre uma atitude muito compassiva perante o género humano, e é mesmo cruel e implacável.


Um exemplar igual, num leilão, foi arrematado pela quantia de mais de 7.000 €



Mas, com o passar dos anos, essa atitude cruel e implacável conhece uma subtil metamorfose, dando lugar a um herói mais positivo e fraterno, disponível para defender e ajudar os fracos e oprimidos, inserindo-se na sua imagem de pequeno justiceiro, perseguidor de bandidos, traficantes e espiões. 

Disponível para quaisquer missões, sempre armado da coragem e da audácia, caracteriza-se por não ter problemas de dinheiro, nem conflitos familiares.





2011-07-21

« MOODY'S! - LIXO... É A TUA TIA ! »




 Agências de notação: há mais mundo... além desta gente!


Há tiros que saem pela culatra e assim aconteceu com a recente e desastrosa notação que a Moody´s atribuiu à nossa dívida soberana e a uma série de outras entidades, desde bancos a câmaras municipais. 

Aquilo que pretendeu ser uma forte reprimenda a Portugal, com intenções mais do que duvidosas, redundou, afinal, num coro de protestos e de rejeição dessa classificação, que fez unir a Europa a gritar contra tão descabidas posições, para além de, por aqui, nos pôr a todos a olhar de lado para essa gente que, na sua terra, os EUA, deixou grassar a epidemia do colapso das suas próprias finanças e do mundo, em geral.

Cabe-nos dizer que isto de nos tratar como "lixo", é bofetada que nunca mais vai deixar de doer. É uma ofensa grave, até porque se sabe que o papel destas agências não é ingénuo, nem isento: quem assim fala dos outros tem interesses no jogo, uma vez que se confundem os campos de atuação - dá-se uma nota, por um lado, espera-se que ela destrua a economia dos visados e, depois, vai-se ao mercado, o que é uma manifesta traição à ética e ao bom senso.



A prestigiada empresa portuguesa  LANIDOR lançou 10.000 exemplares de T-shirts - como a imagem em cima ilustra -, para serem distribuídas gratuitamente em todas as Lojas da Marca aos clientes que possuam o LA Card.  João Pedro Xavier, um administrador da Lanidor, explicou que foi utilizado o inglês, para que a Moody's  possa perceber a mensagem de repúdio, sublinhando que, «Quem não se sente, não é filho de boa gente. Não somos
lixo e não nos sentimos lixo»



Mas esta é uma história perversa, porque assenta num triângulo, umas vezes pretensamente virtuoso, outras a descambar para o pântano e para o perigo e que é este: o sustentáculo dessas entidades passa pelos clientes, estes sujeitam-se ao seu veredicto (que não pode ser tornado público) e os notadores também não se afastam da ideia de que o resultado das suas decisões tem influência direta nos seus próprios financiadores, o que é, no mínimo, perfeitamente estranho.

Durante cerca de cem anos, todo este esquema funcionou um pouco na "perfeição". O pior é quando outros discos têm de ser tocados, talvez numa surda guerra de moedas, o dólar e o euro. Pelo meio, ficam a apanhar tareia aqueles que, devido as suas debilidades intrínsecas, são os mais fracos em toda esta teia de confusões e Portugal está, para nosso mal, no fim desta picada. Entretanto, e como que a mostrar que, um dia, muitos mais desastres haverá, eis que a EU debate o problema da Itália, um colosso também na corda bamba.

Agora, soou a trombeta do descontentamento e, com ela, a necessidade de se encontrarem outros protagonistas de matriz mais europeia e, sobretudo, mais independentes, como já fizeram saber a UE, o BCE e muitas outras instâncias por esse mundo fora. Pela voz da Comissária Europeia, Viviane Reding, pede-se, inclusivamente, o desmantelamento dessas agências, sendo, pela análise presente, muito mais papistas que o papa. Com tal trunfo de unidade em mãos, saiu-nos, a esse propósito, a sorte grande!

Mas o certo é que a bolsa caiu, os investidores fugiram ainda mais, o mercado - que, curiosamente, Portugal bem pode dispensar em função dos fundos pedidos à Troika - fez disparar os juros e, por isso, a banca e as empresas têm acrescidas dificuldades em financiar-se. Aqui é que está, para já, o cerne da questão, a ponto de a Brisa, o BES, a ANA e as Câmaras de Lisboa, Porto, Cascais e Sintra terem abandonado esse mesmo barco, descontentes com quem eles apoiaram durante tempo demais.

Está feito o mal. Importa é, neste momento de reflexão, olhar noutras direções e escolher as melhores vias, que este foi chão que deu uvas, algumas bem podres, como se está a ver.

Por assim ser, mais do que rejeitarmos estas ditas Agências de Notação, queremos ver o nosso país mais equilibrado, sereno e capaz de se atirar pelos milénios além.

E isso só se constrói, com novos paradigmas de desenvolvimento e ordenamento do território e muito menos com balelas de adormecer os detentores de crónicas insónias,  por mais aborrecidas que sejam.







- Legenda: da T-Shirt da Lanidor
adaptada da Revista VISÃO
 nº 958.
- Imagens: do Google

2011-07-06

CORTO MALTESE - UM CIDADÃO DO MUNDO SEM FRONTEIRAS...



CORTO  MALTESE, o marinheiro nascido em Malta [La Valetta] no mês de Julho de 1887, solteiro, de 1,87 m. de altura, olhos negros, filho de mãe cigana de Sevilha, belíssima dançarina de flamenco, e pai marinheiro britânico, oriundo da Cornualha, homem ruivo e porte poderoso, cioso de três paixões - o mar, o whiskey irlandês e as lendas célticas -, deixou marca discreta mas inconfundível em todas as geografias conhecidas do planeta.

Esteve no conflito russo-nipónico nos primeiros anos do século XX, abriu trilhos insuspeitos na floresta amazónica e foi visto na costa ocidental da América do Sul. Durante a Primeira Guerra Mundial passa pela Europa e pela África Oriental, enfrenta os rigores da Sibéria e procura os tesouros de Samarcanda. Atravessa meio mundo para procurar velhos amigos na Argentina depois de uma nova incursão pela Veneza dos seus sonhos e mitos: "Veneza seria o meu fim!", exclamou num dos seus mais nostálgicos monólogos de que há memória :


 Imagem de " Fábula de Veneza "



 Em  Veneza...  enfrenta a  Maçonaria


Apaixonado confesso pela cidade italiana, muito bela e além disso encantadora, geradora de todas as preguiças e deleites. Porque ela é também o lugar de todos os sortilégios, onde existem três lugares mágicos e secretos. Quando os venezianos, e por vezes malteses, se cansam das autoridades, dirigem-se a estes lugares e, abrindo as portas ao fundo desses pátios, partem para todo o sempre em direção a países fantásticos e outras histórias.

Foi desta maneira que, se assim se pode dizer, terminou a história "Fábula de Veneza", porventura a mais emblemática das aventuras de Corto Maltese, o herói solar criado pelo italiano Hugo Pratt no já distante ano de 1967. Em todo o seu recorte realista e mágico, este romance gráfico mostra de forma livre e criadora que a aventura é, antes de mais, uma atitude perante a vida e o mundo, e só depois uma deambulação aparentemente arbitrária pelos caminhos do mundo.

Hugo Pratt é unânimemente considerado como um dos maiores autores de Banda Desenhada de sempre. Mais do que isso, o nome de Pratt tornou-se sinónimo de uma certa maneira, a um tempo desprendida e empenhada de estar na vida. O que talvez explique que as suas obras transcendam em muito o campo da BD, sendo citadas mesmo por pessoas que não apreciam de todo a arte dos quadradinhos. 

Hugo Eugénio Pratt, filho único de Roland Pratt e de Eveline Genero, nasceu no dia 15 de janeiro de 1927 na praia de Lido di Ravenna, perto de Rimini, Itália, onde os seus pais estavam de férias. As suas primeiras leituras, por volta dos 7 anos, vão para Homero e outras obras épicas, mas também para a Banda Desenhada.


HUGO  PRATT
Escritor; Desenhador; Aguarelista; Aventureiro
(1927 - 1995)


Autor italiano de banda desenhada, escritor e aventureiro, com apenas 13 anos, combateu na Etiópia no Exército italiano, mas veio a colaborar com os Aliados como intérprete. De 1949 a 1962 viveu na Argentina, onde iniciou a fase decisiva da sua criação, com personagens como, entre outras, o famoso Corto Maltese, cujas aventuras surgiram tanto em prosa - romance - como em banda desenhada

Hugo Pratt foi, por excelência, um aguarelista, como pretendemos demonstrá-lo nas ilustrações deste post. 

A nível estético e gráfico, Pratt apresentou sempre o seu « Alter Ego », Corto Maltese:



Hugo Eugénio Pratt  transmitiu ao seu personagem os seus ideais humanistas e inconformistas com os sistemas instalados nos 'poderes' das tiranias



Vídeo clip com uma entrevista que Hugo Pratt concedeu:




Quem diz Corto, diz Pratt e é difícil dizer onde acaba um e começa o outro. Aos que lhe perguntam se o personagem é ele próprio, Pratt limita-se a responder que têm em comum o gosto pela  aventura -  "como Ulisses, é um marinheiro que vai de aventura em aventura" - e que " a sua criação foi uma intuição ".

Herói mediterrânico, fleumático quanto baste, é acima de tudo um observador profundamente apaixonado pela condição humana em tudo o que ela tem de belo e também de horrível.

Corto Maltese não é o esquemático "herói positivo" da tradição clássica, que surge para impor olimpicamente um novo curso à acção e determinar os destinos pessoais dos que são impregnados por essa seiva redentora.






É verdade que, depois dele passar, nada voltará a ser com antes, mas o que mais impressiona nas bandas desenhadas da série é esse modo subtil, que não se exime a ser violento e radical quando necessário, como o herói  intervém, sempre movido por um insaciável desejo de justiça e de humanidade.




E também, o que não é de somenos importância, animado por uma incessante e nunca terminada busca de beleza, tão bem representada pelas fabulosas personagens femininas que povoam, como aconteceu na vida aventurosa do próprio Hugo Pratt, os dias e as noites de Corto Maltese.



PANDORA - a grande paixão de CORTO MALTESE




O ano de 1914 passa-o Corto Maltese no Pacífico na ilha Escondida, juntamente com um companheiro carismático - Rasputine -, e aquela que foi a sua grande paixão, Pandora, participando esporadicamente em combates contra os alemães, tendo um ano depois seguido para a ilha de Pitcairn, depois de dois meses de navegação.

A partir desta altura, as aventuras de Corto Maltese são-nos apresentadas por Hugo Pratt em Forma de Banda Desenhada com as suas maravilhosas aguarelas.

O seu primeiro álbum, " Balada do Mar Salgado", surge em Julho de 1967, situando a acção exactamente entre 1913 e 1915.

Permitimo-nos apresentar a seguir, um Vídeo Clip do YouTube com um resumo de imagens desta Aventura, cantado por STING,  que emprestou a sua presença, certificado de qualidade humanista,  com o Tema "Shape Of My Heart":





2011-07-03

« ANTÓNIO GEDEÃO... O MEU POETA, SE EU VOLTAR A SER PEQUENO... »

 .


 Lágrima sofrida...  na Poesia de Gedeão



O meu professor Rómulo de Carvalho  v/s   poeta  António Gedeão






ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA


Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,
 
Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, 
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas
Despertas;
 
Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;
 
Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;
 
Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio 
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;
 
Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
Abaixo o mistério da poesia.






António Gedeão, Linhas de Força







Estamos perante um poeta que olhou atentamente para a relação que se estabelece entre o indivíduo e a sociedade que o rodeia como espaço de intervenção. 

Veja-se a este propósito o poema intitulado “ Poema do Homem Só” (Sós,/ irremediavelmente sós,/como um astro perdido que arrefece./Todos passam por nós/ e ninguém nos conhece.) onde o poeta expressa a sua visão do Homem, como vemos, marcada pelo seu carácter anti-social, apresenta-o, em outros poemas, também como animal esquecido, mau, confuso, miserável e oportunista (Eu sou o homem. O Homem./Desço ao mar e subo ao céu./ Não há temores/ que me domem/ É tudo meu, tudo meu.) como no “Poema do homem-rã”.


O mundo, que inevitavelmente carrega este fardo chamado Homem, também não lhe oferece melhor visão como em “Esta é a Cidade” (Aperfeiçoo a focagem. / Olho imagem por imagem/ numa comoção crescente. / Enchem-se-me os olhos de água. / Tanto sonho! Tanta mágoa!/ Tanta coisa! Tanta gente!/ São automóveis, lambretas,/ motos, vespas, bicicletas,/ carros, carrinhos, carretas,/ e gente, sempre mais gente,/ gente, gente, gente, gente,/ num tumulto permanente/ que não cansa nem descansa, /um rio que no mar se lança/ em caudalosa corrente.// Tanto sonho! Tanta esperança!/ Tanta mágoa! Tanta gente!).


 No entanto, face a esta realidade António Gedeão não renuncia. Há uma solução: o sonho. Esse mesmo sonho que tem força mítica como em “Pedra Filosofal” (Eles não sabem, nem sonham, / que o sonho comanda a vida. / Que sempre que um homem sonha/ o mundo pula e avança/ como bola colorida/ entre as mãos de uma criança.), volta-se para o mundo através da poesia que pode humanizar, transformar e harmonizar pelo amor e assume a voz daqueles que não têm voz numa perspetiva total onde todos nos revemos e onde o próprio poeta, num primeiro estádio, também se sente.


Surgem, assim, na sua poesia várias personagens como que acusando suas próprias narrativas – a cantora, a criança, a bailarina, a filha do alfaiate, a Luísa que sobe a calçada (como lhe sobem as dificuldades na vida), o Galileu (símbolo de coragem), a multidão, a vítima da guerra, o bêbado, os camponeses e tantos outros – porque todos têm alguma coisa a dizer e querem dizê-lo.











 

2011-07-01

« APÓS PARTIDA... FAZ HOJE UM ANO... DE VIAGEM »



As flores de hoje...  predilectas de sempre



Quando Eu For Pequeno


«Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono. 


Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados. 


Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar. 

 

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou
                                                       [pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.»

 


José Jorge Letria, in "O Livro Branco da Melancolia"









 A casa rosa, o sítio onde fui pequeno pela primeira vez







NOTA: 
Obrigado à pessoa querida que me enviou este Poema.