[ Vox populi vox Dei ]

2011-03-31

« SAINT- EXUPÉRY... EM 1940 FEZ ESCALA EM LISBOA »


ANTOINE  DE  SAINT-EXUPÉRY
(1900 - 1944)





O grande escritor e jornalista francês Saint-Exupéry, piloto de aviação, desaparecido sobre o Mar Mediterrâneo em 31 de Julho de 1944, no mesmo ano em que a sua pátria seria enfim libertada, passou em Dezembro de 1940 por Portugal, a caminho de Nova Iorque.

Na sua Carta a Um Refém, o famoso piloto-aviador conta a impressão fantasmagórica, de «baile de bonecas», que a Lisboa do duplo centenário desse ano  podia oferecer a alguém que fugia de de uma Europa ensanguentada, em guerra, ocupada pelas hordas nazis.

É esse texto que adiante reproduzimos. Saint-Exupéry escreveu alguns livros que ficarão entre os maiores do nosso tempo, como "Correio Sul",  "Voo Nocturno", "Terra dos Homens", "Piloto de Guerra".

A sua "Carta a um Refém" é um opúsculo escrito na América e dirigida a um amigo do escritor que se encontrava preso pelos alemães, um judeu.

É também muito conhecida a célebre obra para crianças  "O Principezinho",  que aos adultos tanta falta faz  ler (...)



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Saint-Exupéry,  Lettre à un Otage

[Carta a um Refém]



Quando em Dezembro de 1940 atravessei Portugal para ir aos Estados Unidos, Lisboa surgiu-me como uma espécie de paraíso claro e triste. Falava-se então muito de invasão iminente e Portugal agarrava-se à ilusão da sua felicidade

Lisboa, que organizara a mais bela exposição do mundo, sorria com um sorriso um tanto pálido, como o das mães  que não têm quaiquer notícias do filho ausente na guerra e se esforçam por salvá-lo a poder ter confiança: «O meu filho continua vivo porque eu sorrio...» «Vejam como estou feliz», dizia assim Lisboa: «Como estou feliz, tranquila e bem iluminada...» O continente inteiro pesava contra Portugal como se fosse uma montanha selvagem, carregada de tribos predatórias; Lisboa em festa desafiava a Europa: «Haverá alguém capaz de me tomar por alvo se nem tento esconder-me? Se sou tão vulnerável!...»

À noite as cidades da minha terra eram cor de cinza. Nelas eu perdera o hábito de toda a claridade e esta capital radiosa causava-me um incómodo vago. Se é escura a vizinhança, os diamantes da montra muito iluminada atraem os que ali vagueiam. Sentimo-los circular. Contra Lisboa sentia eu pesar a noite da Europa habitada por grupos errantes de bombardeiros, como se ao longe tivessem farejado aquele tesouro.



Imagens da Exposição do «Mundo Português»
que Saint-Exupéry visitou em 1940 


Mas Portugal ignorava o apetite do monstro. Recusava-se a acreditar nos maus sinais. Portugal falava de arte com uma confiança desesperada. Haveria quem ousasse esmagá-lo no seu culto da arte? Pusera à mostra todas as suas maravilhas. Haveria quem ousasse esmagá-lo nas suas maravilhas? Mostrava os seus grandes homens. À falta de exército e canhões, contra o ferro do invasor erguera todas as suas sentinelas de pedra: os poetas, os exploradores, os conquistadores. À falta de exército e canhões, todo o passado de Portugal barrava a estrada. Haveria quem ousasse esmagá-lo na sua herança de um passado grandioso?

Noite após noite eu errava com melancolia através dos êxitos dessa exposição de extremo bom gosto onde tudo roçava a perfeição, até a música, tão discreta e escolhida com tanto tacto, como um mrmúrio de fonte. Haveria quem destruísse no mundo esse maravolhoso gosto pela justa medida?

Mas por baixo do sorriso, eu achava Lisboa mais triste que as minhas cidades extintas.

Conheci, vós também, por certo, dessas famílias um pouco excêntricas  que mantêm à mesa o lugar dum morto. Negavam o irreparável. Não cuido, porém que tal desafio consolasse. Dos mortos devemos fazer mortos. Então eles, no seu papel de mortos, recuperam outra forma de presença. Mas aquelas famílias suspendiam o seu regresso. Faziam deles ausentes eternos, convivas em atraso para toda a eternidade. Trocavam o luto por uma espera sem conteúdo. E essas casas pereciam-me mergulhadas num mal-estar sem perdão e tão abafante como o desgosto.

Pelo piloto Guillaumet consenti pôr luto, Deus meu!... o último amigo que perdi, morto em serviço postal aéreo. Guillaumet nunca mais mudará. Se não voltar a estar presente, também não há-de estar ausente. Sacrifiquei-lhe o lugar à mesa, essa armadilha inútil, e fiz dele um verdadeiro amigo morto.

Mas Portugal tentava acreditar na felicidade mantendo-lhe o seu lugar, conservando os seus candeeiros e a sua música. Em Lisboa representava-se a felicidade para que Deus acreditasse nela.



Os "aguadeiros" na Lisboa de 1940
(vendedores ambulantes de água)



Fotos de ruas de Lisboa nos anos 40



Em parte, o clima de tristeza devia-o Lisboa à presença de certos refugiados. Não me refiro a proscritos em busca de asilo. Não falo de emigrantes à procura de uma terra a fecundar com o seu trabalho. Falo dos que se expatriam para longe da miséria dos seus a fim de manter o dinheiro a bom recato.

Não consegui alojamento mesmo na cidade e fiquei no Estoril, a dois passos do casino. Eu tinha saído de uma guerra densa: o meu grupo aéreo, que durante nove meses não interrompera os voos sobre a Alemanha, perdera três quartos da equipagem no decurso da única ofensiva alemã. De volta a casa sentira a soturna atmosfera da escravidão e a ameaça da fome. Vivera a noite espessa das cidades. E eis que, a dois passos, o Casino do Estoril em cada noite se povoava de espectros. Automóveis Cadillac silenciosos que fingiam dirigir-se a qualque lugar largavam-nos ali, na areia fina do pórtico da entrada. Tinham-se vestido para o jantar como noutros tempos.  Exibiam a sua gravata ou as suas pérolas. Convidaram-se uns aos outros para refeições de figurantes onde nada havia a dizer.




O Casino do Estoril em 1940



Depois jogavam à roleta ou ao bacará, conforme as fortunas. Às vezes ia vê-los. Não sentia indignação nem qualquer sentimento irónico, porém uma vaga de angústia.A que nos assalta no jardim zoológico perante os sobreviventes de uma espécie extinta. Instalavam-se em redor das mesas. Apertavam-se de encontro a um croupier austero e esforçavam-se por examinar a esperança, o desespero, o medo, a inveja e a satisfação. Tal como seres vivos. Jogavam fortunas que talvez naquele minuto já se encontrassem vazias de significado. Usavam dinheiro que talvez já tivesse caducado. Talvez o valor dos seus cofres, fosse garantido por fábricas já confiscadas ou, de ameaçadas que estavam pelos torpedos aéreos, em vias de ruína. Faziam saques em Sírio. Apegando-se ao passado, esforçavam-se em crer na legitimidade da sua febre, como se de há uns tantos meses àquela parte nada houvesse começado a estalar na terra, na cobertura dos seus cheques, na eternidade das suas convenções. Era irreal. Lembrava um verdadeiro baile de bonecas. Porém era triste.




Praia do Estoril - foto de 1940




Com certeza não sentiam nada. Eu abandonei-os. Fui respirar à beira mar. E esse mar do Estoril, mar de cidade de banhos, mar domesticado, também a mim me parecia entrar no jogo.

Empurrava para o golfo uma onda única e mole, toda luzidia de lua, como se fora um vestido fora de época.





[Realizei esta composição em homenagem ao Homem Escritor, Grande Pensador e camarada Piloto-Aviador] 





Imagens: Selecionadas no Google
Texto: Adaptado e traduzido
- na íntegra - de Col. Pléiade;
Paris, Gallimard, 1959



2011-03-24

« AS MÁSCARAS DO ROSTO DA HUMANIDADE »




A Humanidade  nunca se sentiu satisfeita consigo mesma. Desejou sempre ser diferente. Parecia-lhe que não tinha bastante poder. Invejou por vezes a força animal, e por isso desejou ser búfalo, leão, deus ou demónio, aquilo que melhor servisse as suas ambições ou diminuisse os seus receios.

Desses diferentes estados de espírito nasceu o anseio de transformação, dando ao rosto expressões de benevolência, de omnipotência ou de pesar, conforme as circunstâncias. Insatisfeita, criou uma forma eficaz: as máscaras.


 Vídeo-Clip com: - Máscaras de todo o mundo...





Máscara fúnebre de Goethe
perpetuando o poeta





O primitivo uso básico da máscara, parece ter sido o propósito de transformar a personalidade. A primeira máscara terá sido a pintura corporal, obtida com o auxílio de argila vermelha, terra branca, carvão, penugem de pássaros amassada com sangue, e outros materiais que a natureza fornecia.

A aplicação de massas coloridas, diretamente sobre a pele, resultava numa expressão dramática, uma vez animada pelos músculos do rosto.

Esta máscara rudimentar, mas de seguro efeito, foi também uma das primeiras manifestações estéticas. Assim, sem qualquer espécie de alardes, passaram os povos primitivos da pintura corporal para a confeção de máscaras, manifestação de arte primeva [primitiva]. Máscara é, pois, arte. Arte é diálogo. Diálogo do artista com o mundo que vive dentro dele, com os seres a quem o pretende transmitir, mesmo que esse mundo tenha pouca correspondência com o das coisas concretas.




Existem máscaras provenientes de todos os pontos do mundo e oriundas de todas as formas de sociedade, das mais primitivas às mais civilizadas. No museu de Toronto são apresentadas sobre mesas giratórias, em que incidem luzes que arrancam efeitos hilariantes ou dramáticos. Agrupadas segundo as regiões de onde provêm, estão dispostas de forma a que o impacte sobre o visitante sugira o impulso primário comum a toda a Humanidade, dos esquimós aos africanos.




Algumas, como as de origem japonesa, são inexcedivelmente subtis e delicadas. Outras, rudemente talhadas em pedra, são apenas projetadas numa singela forma dominante. Há-as laboriosamente feitas de osso, de madeira, cabelo ou pele, e algumas em tecido.





Embora as origens sejam tão diferentes e bastas vezes reflexo de sociedades elevadas, à ideia de máscara andou sempre associado o conceito de primitivismo. Os povos ditos civilizados criam-nos rudes e ignorantes, impreparados de todo para compreender o seu semelhante, que procuravam incorporar em si alguma força irreal, através de tal Arte.

Quando no último quartel do século XIX, os artistas europeus procuraram representar o universo sob formas cubistas e realistas, desfizeram-se alguns dos antigos preconceitos, ao verificar-se que os artistas africanos tinham encontrado muito antes deles - e partindo de premissas completamente diferentes - magníficas expressões plásticas que se adaptavam à sua visão predominantemente espiritualista do mundo. Reside aí, no papel preponderante das religiões ou da magia, o denominador comum para a interpretação correta de tais manifestações artísticas.

Dentro da evolução dos fins a que se destinam, surgiu depois a máscara  fúnebre, usada para "preservar a individualidade". Em cima, apresentamos uma fotografia da máscara fúnebre do poeta Goethe. É conhecida a máscara fúnebre de Estaline e de outras individualidades, entre elas, a de Oliveira Salazar, que sabemos ter sido efectuada mas, desconhecemos de todo o seu paradeiro. 

Esta prática foi comum a diversas regiões do globo, revestindo embora formas diversas. Todos nos familiarizamos com as máscaras pintadas das múmias egípcias que, consoante o grau de riqueza e prestígio do defunto, eram mais ou menos valiosas. Os faraós fizeram perpetuar a sua memória com o auxílio de máscaras perfeitíssimas e por vezes de elevado valor material.





O jovem faraó Tutankhámon levou a múmia totalmente recoberta por uma máscara de folhas de ouro, de que se destacava o rosto, pela perfeição das formas e pelas inúmeras e extraordinárias pedras preciosas que a ornavam.

Acreditavam esses povos que a alma era imortal, e que um dia viria em que a alma, após a morte, de novo se juntava ao corpo. Tal crença implicava a necessidade dos mortos serem enterrados com a devida pompa. Para não haver possibilidades de engano, e a alma se não depositar num corpo errado, o adorno com as feições do morto facilitaria a tarefa. Ainda hoje, em certas regiões, se fazem moldes de gesso do morto, mas esta prática está confinada aos grandes e aos notáveis, como acima já sugerimos.

Com a preocupação de preservar a individualidade - e é bom que isto seja dito entre aspas - as formas tornaram-se ideais, os traços delicados, e as feições mantidas em repouso. Essas figuras, cheias de caráter, revelam a insatisfação do Homem consigo próprio, na ânsia de se tornar imortal.

 Mais perto de nós, a máscara de novo se destinou a esconder a personalidade de quem a usa. Destinada a determinados fins, corresponde à aquisição de uma qualidade exterior ao indivíduo; este aparece assim revestidodas insignias da sua função. No grande melodrama da vida africana a todo o momento intervêm  bailarinos mascarados. Os objectivos podem ser singelamente lúcidos ou participação imdispensável de ritos de iniciação, danças guerreiras ou cerimónias propiciatórias da caça ou do auxílio dos antepassados.

As populações africanas movimentam-se tradicionalmente num mundo embebido de religiosidade, que os observadores ocidentais dificilmente poderão compreender, limitados como são pelas suas conceções de eficiência, lucro e técnica.

A própria escolha de materiais obedece frequentemente a conceitos religiosos. Dentes e chifres de animais possantes representam a força. A madeira de certas árvores, mansão de espíritos protetores, transmite poderes e virtudes. A cor branca associa-se aos espíritos, símbolo de outro mundo, embora não sejam raras as máscaras de variadas cores.

Nem sempre as máscaras têm por finalidade auxiliar a alcançar objetivos extra terrenos. Nas cerimónias de circuncisão, por exemplo, que se efetuam entre povos africanos, os mestres são guiados para local isolado onde os circuncisos são mantidos alguns dias, por um membro do grupo que se cobre com uma máscara grotesca, ou de traços cómicos. Destina-se ela a incutir coragem nos jovens que vão ser submetidos à cerimónia e se encontram naturalmente amedrontados. Pelo receio da dor que os espera. Pelo clima de mistério em que se desenrolam as atos preliminares aos quais não é permitida a presença de mulheres, sentindo-se afastados do acolhedor amparo das mães. Os efeitos dessas máscaras consideram-se deveras eficazes.



Estes e outros resultados não devem admirar ninguém: as máscaras raramente são inexpressivas. Antes pelo contrário: constituem manifestações ampliadas de emoções ou de caráteres. Parecem mesmo muito mais naturais que certos rostos com que nos cruzamos a cada passo, rostos teatralizados, formalizados, de harmonia com a vida quotidiana que levam os seus possuidores.

Conscientes desses factos, os encenadores teatrais estão cada vez mais a fazer reviver o uso das máscaras no teatro contemporêneo.

Parece, assim, que a máscara, tão duramente julgada, se vai tornando indispensável até no quotidiano das nossas vidas  em sociedade.











Fotos: - Net
Vídeo: - YouTube
Pesquisas em:
 - "Enciclopédia dos Museus"
Mirador Internacional
(Edição de 1969)
 - "Essais sur la Anthropologie"
Recherches Internationales
(Edição de 1959)

2011-03-09

O MERCADO da PRAÇA DA FIGUEIRA


Painel de azulejos representando o antigo Mercado da Praça da Figueira 
- Lisboa - 
numa parede da Rua do Alecrim
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A Praça da Figueira é um local de vastas tradições. Quando o terramoto devastou a cidade; ali, naquele lugar onde ficava o hospital de Todos os Santos, determinou-se, por Decreto de 23 de Novembro de 1755, estabelecer-se um mercado local.

O hospital sofrera um incêndio; o tremos de terra aniquilara-lhe os restos e no terreno desobstruído foi decidido edificar um mercado de frutas e hortaliças com os seus arruamentos e cabanas para as diversas lojas. Sucedia - porém, que no mercado recém construído havia desordem. Os vendedores, os intermediários da produção e os fazendeiros não se entendiam devido à grande diferença de preços de uns para os outros, além disso, instalavam-se dias inteiros no sítio até esgotarem os objectos dos seus negócios, enchiam o recinto de carros, cestos, vasilhame, tomavam as cabanas, julgavam-se senhores do local, havia abusos, e, de quando em quando, a ordem era alterada.

Para acabar com toda esta confusão foi decidido, que os transportes deviam sair imediatamente do lugar após o descarreganento, os almotacés [oficiais da Câmara dos pesos e medidas] e os fiscais, eram obrigados a verificar os documentos de apresentação dos vendedores. O intermediário acabara.

A Praça devia estar levantada às duas da tarde. Nas cabans podiam expor-se frutas, aves, ovos, queijos e hortaliças. Os seus vendedores só podiam negociar um género.

Deste modo, não se prejudicavam os vizinhos. Ou vendia aves ou queijos, frutas ou hortaliças. Em todo o caso, mais tarde, não se sabe bem porquê, foi permitido que nas lojas de fruta se pudesse vender carne de porco limpa, vinda de fora, pois eram proibidas as matanças no mercado. Havia, no ano de 1804, 210 lugares na praça.


                                                                                                                                                                       
Vista do interior da praça



Em 1819, declarou-se «livre tráfego» e cada um podia vender o que quisesse, sendo aberto o mercado para todos os tráficos e negociantes.

Devido à falta de limpeza no local, os cães  eram os agentes de limpeza, foi deliberado o perfuramento do centro da praça em busca de água destinada à limpeza do local, toda a população sabia que, outrora, correra ali perto um rio, profundou-se e fez-se um poço que ficou pronto no Natal de 1835.


Vieram depois os melhoramentos; as grades, as portas, as defesas. Plantaram-se árvores, pois o mercado não era coberto, e desenvolveu-se o negócio.

O regatear balburdiava, os clientes tinham medo das vendedeiras que constituíam classe  pronta a batalhar entre si mas defendendo-se, mutuamente, contra o público. Os seus peitos repletos de cordões. de medalhas e crucifixos em ouro; as orelhas, esticadas ao peso dos brincos, eram mostruário da hostentação de riqueza nascida do negócio e do berro. A má língua da vendedeira tornara-se um provérbio.

A autoridade era deficiente; as desordens sucediam-se. Ali, no centro da cidade, a algazarra tornava-se impossível. Efectivamente, era necessário corrigir toda aquela desordem, com uma fiscalização eficaz e bem feita, obrigando os vendedores a respeitar os fregueses.
Funda-se a Companhia dos Mercados, que, no ano de 1875, apresenta a proposta à Câmara com o fim de melhorar a praça, dando-lhe o aspecto e a polícia própria de um grande mercado.

A Lúcio de Araújo e Manuel Ferreira Lima, da Companhia dos Mercados, foi-lhes cedido, por cem contos e oitocentos mil réis, os direitos de construção e exploração da praça. Receberam oitenta e um contos de contado e o resto em acções e iniciaram-se as obras...

Foi o autor do projecto Manual Faria Ricardo Correia e em 16 de maio de 1885 inaugurou-se novo mercado. Constava a praça de um edifício rectangular, em estrutura metálica, ocupava uma área de quase oito mil metros quadrados. Quatro pavilhões cupulados limitavam um primeiro corpo circundante, com portas principais e secundárias e lojas abertas para o exterior. As fachadas principais dividiam-se em três corpos no interior, de longos telhados corridos com clarabóias. Escusado será dizer que a prala se tornou logo num dos emblemas de Lisboa, pela construção notável para a época e pelo seu carácter de verdadeiro centro da cidade.



BILHETE  POSTAL  COM GRAVURA  DO  MERCADO PÚBLICO 
DA 
PRAÇA DA FIGUEIRA





Texto de uma publicação 
da autoria 
de 
António Ferro




Durante a construção deste edifício, os vendedores fizeram o seu negócio na Praça de D. PedroIV. As festas realizadas  deram que falar com as suas iluminações a gás, e no dia 18 de Maio - uma segunda feira - abriu o mercado ao público, devidamente policiado.

Passou o tempo e, em Fevereiro de 1934 começaram rumores na imprensa: "sempre que qualquer edilidade trata de melhoramentos da cidade, logo se afiança a demolição da Praça da Figueira"! Realmente é do programa do alargamento da área das ruas da Palma  e vizinhanças  que a transferência do célebre mercado  passou a estar condenado a desaparecer, sem se saber para onde seriam transferidos os lugares e os negócios. Esta sentença baseava-se ainda na necessidade do espaço para escoamento do trânsito que já era considerado imenso.

Dividiram-se as opiniões que consideravam uns, um benefício para o desenvolvimento, melhoria para os comércios no resto da cidade e outros, uma tradição que fazia falta, tanto ao público, como aos negociantes ali instalados, muitos deles a peso de ouro.

Foi, porém, a fatalidade eterna: os novos suplanterem os velhos. A Lisboa moderna reduzirá a antiga - a Baixa - a um campo de operações comerciais de espécie diferente. Foi o mercado financeiro; o empório dos escritórios.

O último Santo António, ali todos os anos alegremente festejado, foi o de 1949. A vereação de 1947 tinha assinado o óbito da Praça da Figueira, porque havia grandes planos para o local. De tais planos, apenas foi cumprido o da demolição. Nos anos seguintes, os mercados foram sendo instalados em edifícios mais pequenos, no alinhamento das ruas Chão de Loureiro e Forno do Tijolo.


Só em 1968 se assinou o contrato para a construção da estátua equestre de D. João I, executada pelo escultor Leopoldo de Almeida, que foi inaugurada em 1971.



ESTÁTUA do REI de PORTUGAL  D. JOÃO I



Esteve esta Praça, com chão de terra batida, transformada em parque de estacionamento a céu aberto, durante 22 anos aguardando pelos tais grandes planos....



Em baixo, apresenta-se um vídeo com pormenores da Praça, e o Rei ao centro:
[Mesmo assim... ainda não houve tempo de se fazer um trabalho em português]




RESUMO:

A Praça da Figueira antes do Terramoto de 1755 era o local do Hospital de Todos-os-Santos, cujas fundações foram postas a descoberto durante a construção do actual parque de estacionamento subterrâneo.

No desenho do Marquês de Pombal para a Baixa, a praça transformou-se no principal mercado da cidade. 

Em 1885 foi aí construído um mercado coberto, demolido nos anos 50. 

Hoje, os edifícios de quatro andares são ocupados por hotéis, lojas e cafés e a praça já não é um mercado.

Uma das características interessantes são os bandos de pombos que se empoleiram no pedestal da estátua equestre de bronze de D. João I erguida em 1971, da autoria de Leopoldo de Almeida.


A praça é servida pela estação de metro do Rossio, na Linha Verde, bem como por algumas carreiras da Carris e o serviço da CP Lisboa na estação de Lisboa Rossio.
 

2011-03-04

« O PRIMEIRO JORNAL PORTUGUÊS »

 D. AFONSO  VI
Rei de Portugal
(1643 - 1683)
[O Vitorioso]



Sexto filho de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão.
Atacado na infância por doença não identificada, fica mental e fisicamente diminuído. Com a morte de seu irmão D. Teodósio e de seu pai, sobe ao trono com treze anos, pelo que a regência ficou entregue a sua mãe. O rei foi crescendo, rebelde a toda a acção educadora, levando uma vida desregrada e manifestando-se perfeitamente incapaz para assumir as responsabilidades do governo.

Um dos seus companheiros, na vida de arruaceiro que levava, António Conti, italiano de origem, insinuou-se-lhe de tal maneira que em breve passou a viver no Paço, a convite de D. Afonso VI e a ter influência nos negócios do governo do reino. O escândalo aumentou a um ponto que D. Luísa de Gusmão fez jurar herdeiro do trono o infante D. Pedro e António Conti foi preso. Logo a seguir, o conde de Castelo Melhor executa um golpe de Estado, compelindo D. Luísa a entregar o governo a D. Afonso VI e forçando-a a retirar-se para um convento.

Nas boas graças do rei, Castelo Melhor lança-se na sua curta e brilhante carreira política, terminando vitoriosamente com a guerra da Restauração e conseguindo casar D. Afonso com Mademoiselle de Aumale. Em breve a nova rainha entra em conflito com Castelo Melhor.

Giza-se nova conspiração no paço, de que resulta a demissão do conde e a abdicação de D. Afonso VI. 
D. Pedro toma as rédeas do poder, casa com a cunhada, depois da anulação do casamento desta com D. Afonso e este último é desterrado para Angra do Heroísmo em 1669, donde regressa em 1674, sendo então encerrado no Palácio de Sintra até à sua morte.

D. Afonso VI nasceu em Lisboa, a 12 de Agosto de 1643 e morreu em Sintra, a 12 de Setembro de 1683, tendo sido sepultado no Mosteiro dos Jerónimos e trasladado para o Mosteiro de S. Vicente de Fora. 
Casou em 1666 com D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, que nasceu em Paris, a 21 de Junho de 1646, e morreu em Lisboa, a 27 de Dezembro de 1683, estando sepultada na igreja do Convento das Francesinhas e trasladada em 1912, para o Mosteiro de S. Vicente de Fora, filha de Carlos Amadeu de Sabóia, duque de Nemours, e de Isabel de Vendôme. Morreu sem descendência.
Ganhou o cognome de " O Vitorioso", porque no seu reinado Portugal venceu a Espanha em várias batalhas da Restauração, com o apoio militar do estratega alemão Conde e Duque de Schomberg. 
De resto, a sua vida até à morte súbita nada teve de vitoriosa; antes pelo contrário: um reinado que herdou prematuramente aos treze anos, um casamento falhado  com o pedido de anulação pela rainha, devido à queixa de não se ter consumado o matrimónio! 
Um autêntico enredo que constituiu matéria para, em verso, D. João da Câmara, em 1890, ter escrito uma das suas melhores produções dramáticas: «Afonso VI - Drama Histórico em 5 Actos»





 .
 Exemplar do primeiro jornal português  
de 
cariz político

 >o<


Nos primórdios da imprensa periódica portuguesa destacaram-se dois títulos - a "Gazeta" e o "Mercúrio Português".


A designação de Mercúrio foi adoptada por publicações de vários países europeus, evocando o simbolismo do mensageiro dos deuses. Segundo os estudiosos da imprensa periódica, havia diferenças claras entre os mercúrios e as gazetas, apresentando estas últimas um carácter mais noticioso.

Deste modo, considera-se a "Gazeta" como o primeiro periódico de notícias que se publicou em Portugal e o "Mercúrio" como o primeiro periódico político português. O "Mercúrio Português" surgiu em Janeiro de  1663, na cidade de Lisboa, e foi publicado até 1667.


O seu director e redactor foi o escritor, político e diplomata António de Sousa de Macedo, por muitos considerado o primeiro jornalista português. 

O tema principal do jornal era, como vinha apresentado no próprio título, "as novas da guerra entre Portugal e Castela". Este tema, de grande actualidade e de importância decisiva para o país, empenhou totalmente António de Sousa de Macedo que nele utilizou as suas grandes qualidades literárias. 

O jornal era impresso mensalmente na oficina de Henrique Valente de Oliveira, variando o seu preço entre 5 e 10 réis. Cada número tinha em regra 8 a 32 páginas e, até Dezembro de 1666, foi redigido por António de Sousa de Macedo. No ano de 1667 saíram mais 7 números, redigidos por autor anónimo. 

António de Sousa de Macedo nasceu no Porto em 1606, tendo-se formado em Direito na Universidade de Coimbra. Veio depois para Lisboa exercer o cargo de desembargador da Casa da Suplicação e, em 1641, foi nomeado secretário de embaixada. Com este cargo, seguiu para a corte de Inglaterra, onde muito se esforçou no sentido de serem reconhecidos os direitos do rei D. João IV à coroa portuguesa.

Em 1651 foi nomeado embaixador na Holanda, onde permaneceu alguns anos. De volta a Portugal, foi-lhe confiado o cargo de Secretário de Estado de D. Afonso VI em 1663, ano em que iniciou a publicação do "Mercúrio Português". 

O "Mercúrio Português", sendo embora um jornal de cariz eminentemente político, não tratava apenas da guerra entre Portugal e Castela.Inseria também muitas outras informações, tanto do país, e de Lisboa principalmente, como do estrangeiro, de interesse muito variado.


Por exemplo, no mês de Maio de 1665 referia a abertura de uma rua, denominada de Rua Nova do Almada, que iria tornar mais fácil a comunicação entre a baixa e a alta de Lisboa. O nome da rua devia-se ao nome do seu autor, o presidente do senado da câmara, Rui Fernandes de Almada. 

No número de Agosto de 1666, o jornal descrevia em pormenor a chegada de França e a entrada em Lisboa de D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, que vinha ao encontro de seu esposo, o rei D. Afonso VI. 

António de Sousa de Macedo foi o redactor do "Mercúrio Português" até Dezembro de 1666. Nesse último número do ano de 1666, despedia-se dos seus leitores, expondo uma vez mais as razões que o levaram a publicar este periódico - "tapar a boca aos Castelhanos".

No ano seguinte foram ainda publicados mais 7 números, sem no entanto se conhecer o seu autor.


 >o<


ANTÓNIO de SOUSA de MACEDO
(1606 - 1682)
Fidalgo da Casa Real
Comendador das Ordens de Cristo e de S. Bento de Avis
Doutor em Direito, Diplomata, Secretário de Estado do Rei

JORNALISTA

>o<

No artigo que serve de introdução ao 1.º número do Mercúrio, queixa-se amargamente António de Sousa de Macedo da falta de jornais, o que mostra que nessa época se não publicou em Portugal nenhum periódico.
 
O Mercúrio português teve grande voga, mas apesar de ser escrito por homem tão erudito, parece que não pôde, contudo, escapar ao fado de todos os jornais políticos, porque o P. António Vieira achava-o pouco verídico, impolítico e mal escrito. 

Essas dissidências poderiam talvez ser motivadas pelo facto de serem os dois grandes escritores de opiniões contrárias nas intrigas palacianas e políticas entre D. Afonso VI, seu irmão D. Pedro e a rainha D. Maria Francisca de Sabóia. Macedo, como secretário de Estado havia tomado o partido de D. Afonso VI, a quem era afeiçoado, fazendo-lhe portanto oposição o partido da rainha e do infante D. Pedro. 

Resultou daqui aborrece-lo a rainha, e para se vingar acusá-lo de lhe ter faltado ao respeito; porém a forma como os seus próprios inimigos referem o conflito é muito curiosa. A rainha queixou-se de um facto qualquer sucedido com um dos seus criados, e parece que dirigiu algumas palavras de censura aos portugueses, e António de Sousa de Macedo respondeu com irreverente cólera: «que sua majestade não tinha razão de se queixar dos portugueses, porque o respeito que eles lhe tinham, chegava a ser adoração.» 

Não parece que esta amabilidade possa envolver irreverente cólera, contudo, a rainha considerou-se muito ofendida, e exigiu a demissão de Macedo. D. Afonso opôs-se, sustentou uma grave luta contra sua mulher e seu irmão, mas afinal pela falta de energia, que tão fatal lho foi, esmoreceu a sucumbiu, acabando por ceder. 

O conde da Ericeira, no Portugal restaurado, diz, que o conselho do estado entendeu que, só para dar gosto à duquesa de Nemours, devia o rei mandar retirar da corte durante 10 ou 12 dias o secretário de estado e restitui-lo depois à sua antiga ocupação. 

O facto é que a rainha, naturalmente por Sousa de Macedo ser protegido pelo conde de Castelo Melhor, reputava-o como adversário, e tanto se magoou com o marido, enquanto não foi castigado o secretário de estado, que deixou de comparecer no segundo dia da corrida de touros da festa de Santo António, celebrada por essa ocasião no Terreiro do Paço pelo senado de Lisboa. 

Foi então que se recorreu ao conselho de estado, para satisfazer a irritação daquela senhora. Passado algum tempo voltou Macedo a exercer o seu antigo lugar, o que aumentou as iras da rainha, e levou seu cunhado, que mais tarde foi seu marido e rei D. Pedro II, a uma cena violenta com D. Afonso VI, acabando o conflito levantado por este motivo pela saída de Macedo para fora do Paço e para sítio, onde nunca mais pudesse receber ordens do infeliz monarca, como ele prometeu e cumpriu.

O fenómeno persecutório da classe jornalística pelo Poder... já vem de muito longe!











Fotos: 
-Google; com realce da fonte,
Biblioteca Nacional.
-Adaptações e condensações de um
portal de História.