[ Vox populi vox Dei ]

2011-01-31

31 de JANEIRO de 1891 - A REVOLUÇÃO REPUBLICANA no PORTO

 Gravura da Revolta de 31 de Janeiro ocorrida no Porto em 1891
[Autoria de Louis Tynayre,  in A Ilustração: Revista Universal em Paris]




 ALVES  DA  VEIGA
(Dr. Augusto Manuel Alves da Veiga)
(1850-1924)
Ativista Republicano e Promotor da Revolução do 31 de Janeiro



 Alves da Veiga proclamando a República



 Protagonistas do 31 de Janeiro de 1891





Trinta e Um de Janeiro de 1891

No decorrer da segunda metade do século XIX, a Europa conhece um forte desenvolvimento económico com um correspondente aumento da produção. Esta situação exige das potências europeias, como a Inglaterra, a Alemanha ou a França, a exploração de novos mercados e de novas fontes de matérias-primas. É neste contexto que se afirma o crescente interesse destes países pelo continente africano e pelo expansionismo colonial.

Alertados para essas pretensões, sobretudo após a Conferência de Berlim (1884-85), alguns portugueses têm a pretensão de formar um vasto território na África Central, um novo Brasil, ligando os litorais de Angola e Moçambique - o chamado "Mapa cor-de-rosa". No entanto, esta pretensão chocava com os planos do expansionismo inglês. Daí que a Inglaterra responda com um ultimato ao governo português que este acaba por  acatar.

A humilhação subsequente da população portuguesa desemboca na revolta republicana ocorrida na guarnição militar do Porto, na madrugada de 31 de Janeiro de 1891. Sendo o culminar de uma onda de descontentamento que o ultimato de Janeiro de 1890 gerara em todo o país, foi a primeira revolta de cariz republicano a abanar as estruturas monárquicas.

Após o Ultimato inglês, generaliza-se um pouco por todo o país, e sobretudo entre as classes mais esclarecidas, a crença de que o sistema republicano seria a única tábua de salvação.
 
Nas cidades de Lisboa e Porto, com especial incidência nesta última, conspirava-se por todo o lado, de forma aberta e participada por vários sectores da cidade, em que se destacaram estudantes, jornalistas, juristas e sargentos. A impunidade com que os republicanos portuenses se moviam e proclamavam os seus ideais fê-los crer que a revolta teria a adesão das forças militares estacionadas no Porto. Este facto explica a precipitação e a profusão de erros estratégicos cometidos pelos revoltosos.

Assim, ao contrário do esperado pelos republicanos, a maior parte dos regimentos não saiu dos quartéis. Só o batalhão de Caçadores 9, comandado por sargentos, a que mais tarde se juntou o alferes Malheiro e alguns batalhões chefiados pelo capitão Leitão, aderiram à intentona, concentrando-se no Campo de Santo Ovídio, hoje Praça da República. Daí, dirigiram-se aos Paços do Conselho do Porto e, da varanda, por entre vivas à República, foi proclamada por Alves da Veiga a implantação da República e anunciada a constituição de um Governo Provisório.

Parecia que a revolta estava terminada, apesar da fraca adesão dos militares, em especial do corpo de oficiais da cidade.

No entanto, quando as tropas revoltosas subiram a rua de Santo António, hoje 31 de Janeiro, para se juntarem à Guarda Municipal, esta abriu fogo do cimo da rua sobre os revoltosos e os civis que os acompanhavam, dispersando uns e prendendo os responsáveis operacionais da revolta; sargentos e praças foram detidos e levados a Conselho de Guerra em Tribunal Militar.

Muitos revoltosos ainda se refugiam no edifício da Câmara, mas a derrota estava consumada. Entretanto, entre outros líderes republicanos, Alves da Veiga conseguiu fugir para o estrangeiro.

Mas, a 31 de Janeiro de 1908 – há que recordá-lo também -, em plena ditadura de João Franco, depois de esmagada outra reacção revolucionária republicana em 28 de Janeiro, o Rei D. Carlos I assinou um Decreto que conferia ao ditador poderes de excepção, permitindo-lhe perseguir, prender e deportar, sumariamente – sem processo judicial -, qualquer pessoa suspeita de republicanismo activo, ou de mera insubmissão ao regime e ao governo, decreto esse que terá motivado o atentado regicida levado a cabo no dia seguinte, um de Fevereiro, em que toda a família real foi vítima, sucumbindo o Rei e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe, escapando a Rainha e, ligeiramente ferido, o infante D. Manuel, depois Rei de Portugal até 5 de Outubro de 1910, data da revolução e implantação definitiva da República Portuguesa.




Placa comemorativa na antiga Rua de Santo António

2011-01-30

« "DICAS" PARA A NOVA ORTOGRAFIA PORTUGUESA »






Acentuação dos Ditongos das Palavras 
Paroxítonas

Some o acento dos ditongos (quando há duas vogais na mesma sílaba) abertos éi e ói das palavras paroxítonas (as que têm a penúltima sílaba mais forte):

idéia - ideia
bóia - boia
asteróide - asteroide
Coréia - Coreia
platéia - plateia
assembléia - assembleia
heróico - heroico
estréia - estreia
paranóia - paranoia
Européia - Europeia
apóio - apoio
jibóia - jiboia
jóia - joia

ATENÇÃO! As palavras oxítonas como herói, papéis e troféu mantêm o acento.





Acento Circunflexo Em Letras Dobradas

Desaparece o acento circunflexo das palavras terminadas em êem e ôo (ou ôos):

crêem - creem
lêem - leem
dêem - deem
vêem - veem
prevêem - preveem
enjôo - enjoo
vôos - voos



Acento Agudo de Algumas Palavras Paroxítonas


Some o acento no i e no u fortes depois de ditongos (junção de duas vogais), em palavras paroxítonas:

baiúca - baiuca
bocaiúva - bocaiuva
feiúra - feiura

ATENÇÃO! Se o i e o u estiverem na última sílaba, o acento continua como em: tuiuiú ou Piauí.





Acento Diferencial


Some o acento diferencial (aquele utilizado para distinguir timbres vocálicos):

pêlo - pelo
pára - para
pólo - polo
pêra - pera
côa - coa
ATENÇÃO! Não some o acento diferencial em pôr (verbo) / por (preposição) e pôde (pretérito) / pode (presente). Fôrma, para diferenciar de forma, pode receber acento circunflexo.



 


Acento Agudo No "u" Forte

Desaparece o acento agudo no u forte nos grupos gue, gui, que, qui, de verbos como averiguar, apaziguar, arguir, redarguir, enxaguar:

averigúe - averigue
apazigúe - apazigue
ele argúi - ele argui
enxagúe você - enxague você

ATENÇÃO! As demais regras de acentuação permanecem as mesmas.




ALFABETO -Inclusão de Três Letras

Passa a ter 26 letras, ao incorporar as letras “K“, “W” e “Y“.

 



HÍFEN - Eliminação do Hífen Em Alguns Casos

O hífen não será mais utilizado nos seguintes casos:

1. Quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente:

extra-escolar - extraescolar
aero-espacial - aeroespacial
auto-estrada - autoestrada

2. Quando o segundo elemento começa com s ou r, devendo estas consoantes serem duplicadas:

anti-religioso - antirreligioso
anti-semita - antissemita
contra-regra - contrarregra
infra-som - infrassom

ATENÇÃO!   O hífen será mantido quando o prefixo terminar em  " r  "
 
Exemplos: hiper-requintado, inter-resistente, super-revista.









APREENDENDO  COM  DIVERSÃO:



2011-01-21

« A EVOLUÇÃO DA ORTHOGRAPHIA »




A Ortografia, é o estudo da figuração dos sons, ou da escrita correcta das palavras. As diferenças entre a grafia e a pronúncia, entre a língua falada, sujeita à influência multiforme dos coloquiantes e a língua escrita, com tendência a certa imobilidade, provocam dificuldades graves aos que escrevem.

A situação manifesta-se em variantes gráficas e ortográficas flutuantes, mas o que fixa a pronúncia não é a Ortografia, é a História.

A escrita pressupõe uma representação gráfica da pronúncia e, daí a necessidade de reduzir ao mínimo o desacordo entre a fala e a escrita. O melhor sistema gráfico será, assim, o que mais se aproximar da pronúncia.

O famoso António de Nebrija (1441-1522), na «Gramática  de la Lengua Castellana», de 1492, a primeira gramática de uma língua vulgar que se escreveu na Europa, escreveu: "Temos de escrever como pronunciamos e pronunciar como escrevemos". 

Dedicou este livro famoso à Rainha Isabel I de Castilla (a Católica).

O nosso grande Duarte Nunes de Leão (1530-1608), natural de Évora, jurista, linguista e historiador, de origem judaica, afirma que compôs o seu livro de Ortografia da Língua Portuguesa em que «reduzi a arte e preceitos o que nunca teve arte, nem concerto».

Por outro lado, não parece casual que nos séculos XVI, XVII e XVIII proliferassem os tratados de Ortografia; citemos a título de exemplo, o Padre Bento Pereira (1536-1610), Pedro de Magalhães Gândavo, João de Morais Madureira Feijó (séc. XVIII), todos com obras de títulos análogos: «Regras Gerais da melhor Ortografia», «Ortografia ou Modo de Escrever», «Orthographia ov modo para Escrever certo na língua Portuguesa» (1631)... 

... Álvaro Ferreira de Véra (séc. XVII)... afirma no prólogo da sua «Orthographia»:
«O falar é cousa de muitos; e o escrever de poucos; os que escrevem sabem e os que muito falam erram e obram pouco e sabem menos. Assim que é tão diferente a eloquência da orthographia e tão fora de se comparar com ela, que para o homem ser sábio, há-de ser destro no escrever, breve e cauto no falar. Contudo, não nego que o falar faz bem, é vantagem que os homens estimam, como cousa tão superior aos animais.»

E, a páginas 82, da sua Ortografia, escreveu ainda: «E povoando Portugal e toda a Hespanha desta gente, a lingua que failavão era Hespanhola, no que concordao muitos»!

Sem dúvida que, desde há muito tempo os Acordos Ortográficos e a sua evolução têm sido de uma importância fundamental para os povos, posto que,  não se concebe como legítimo, que cada cidadão escreva a sua língua, arbitrariamente!



 O  BOM  NATURAL  DAS  GENTES  DO  BRAZIL
[Texto escrito segundo a Ortografia de 1872]



Ao estrondo da artilheria disparada pelos nossos descobridores, e nunca d'antes ouvido naquellas regiões, se abalaram, como attonitos, dos arredores de suas serranias, bandos de barbaria, suspensos de verem que sustentava o corpo das aguas machinas tam grandes, como a de nossas naus da India; e muito mais, de verem hospedes tão extranhos, brancos, com barba, e vestidos, cousas entre elles nunca imaginadas.

Desciam a ver, como em manadas, ordenados porém a seu modo em som de guerra; e eram tantos os que concurriam, que ao principio davam cuidado. Porém com signaes e acenos, e muito mais com dadivas (a melhor fala de todas as nações) de cascaveis, manilhas, pentes, espelhos, cousas para elles as maiores do mundo, vieram a conhecer que a nossa entrada não era de mao titulo. 

Fizeram confiança, trouxeram mulheres e filhos, e tractaram logo  com os portuguezes fóra de todo o receio: traçaram em sua presença mostras de alegria a modo de sua gentilidade, galanteados elles e ellas de tintas de paos e pennas de passaros, fazendo festas, bailes e jogos, lançando frechas ao ar; e por fim vieram carregados de animaes e aves de suas caças, e de fructas varias da terra, que, por não vistas outro tempo dos nossos, não podiam deixar de agradar. 

Quando se embarcava o general, acompanhavam-no com mostras de prazer: iam com elle á praia, uns se mettiam pela agua chegando o batel, outros nadavam á contenda com elle, outros seguiam-no até ás naus em jangadas, tudo signaes de amizade; dando a intender que lhes era grata sua presença, e que ficavam agradecidos de sua boa correspondencia.

Sobre tudo mostrava esta gente natural docil e domavel; porque, assistindo entre os nossos ás missas e mais actos christãos dos religiosos do seraphico padre S. Francisco, que alli se acharam, estavam decentemente, como pasmados, mostrando fazer conceito da bondade d'aquellas ceremonias, pondo-se de joelhos, batendo nos peitos, levantando as mãos, e fazendo as mais acções que viam fazer aos portuguezes, como pezarosos de não intenderem elles tambem o que significavam.



Parece estranha a ortografia do texto acima redigido, mas era assim que escreviam, entre muitos outros, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Eça de Queiroz e... o homem que nos ensinou a  ler e a escrever... na sua Cartilha Maternal:  João de Deus!





Invadidos observam invasores

2011-01-11

« JOÃO de DEUS... POETA do AMOR e da CARTILHA MATERNAL »

Hoje, dia 11 de Janeiro, faz 115 anos que morreu o:  « a  e  i  o  u »

( Da minha colecção de medalhística, esta é a peça do meu coração)



 A "Cartilha Maternal" - Método João de Deus



[O grande «segredo» do aprender a ler e a escrever]






JOÃO DE DEUS  nasceu em São Bartolomeu de Messines a 8 de Março de 1830, filho de Isabel Gertrudes Martins e de Pedro José dos Ramos, modestos proprietários dali naturais e residentes. O pai, também comerciante, era conhecido entre os seus patrícios por Pedro Malgovernado, não que merecesse o cognome pelo mau governo da sua casa, mas pela facilidade em satisfazer as vontades dos filhos, com os quais gastava mais do que podia.

O seminário e os anos de Coimbra:

João de Deus, o quarto de catorze irmãos, não lhe permitindo a situação sócio-económica da família aspirar a uma carreira universitária, estudou latim na sua terra natal e ingressou no Seminário de Coimbra, então o único caminho para prosseguir estudos aberto aos menos abonados. Em 1850, aos dezanove anos, não tendo vocação para a vida eclesiástica, ingressou na Universidade de Coimbra como estudante de direito.

Preferindo as belas artes à ciência do direito, envolvido na vida boémia coimbrã, teve na Universidade um percurso académico conturbado, com diversas interrupções e reprovações por faltas. Apenas se formou dez anos depois de ter ingressado, em 13 de Julho de 1859, e mesmo assim por instâncias e ameaças dos seus condiscípulos, entre os quais se incluía a melhor intelectualidade da época.

Logo no ano de ingresso na Universidade revelou o seus dotes líricos, escrevendo versos que circularam manuscritos no meio académico e com os quais obtinha modestos rendimentos que ajudavam na sua parca subsistência. De 1851 conhece-se o poema Pomba e a elegia Oração, a qual foi a sua primeira obra publicada, tendo saído a público na Revista Académica em 1855, tendo merecido imediata aclamação pública.

Nos anos seguintes, os fracos recursos familiares, a melancolia e passividade do seu carácter e o insucesso académico levaram a que João de Deus vivesse em Coimbra numa quase indigência. Como forma de ajuda, os amigos e condiscípulos coligiram as suas poesias, as quais foram aparecendo na imprensa coimbrã da época. São desta fase os poemas publicados na Estreia Literária, na Ateneu e no Instituto de Coimbra.

Com aquelas publicações a sua reputação de poeta lírico foi crescendo, com a sua obra a merecer, já em 1858, uma crítica fortemente elogiosa no artigo A propósito de um Poeta, publicado no Instituto de Coimbra por Antero de Quental.

Em 1859, terminado o curso, opta por permanecer em Coimbra, praticando pouca advocacia e continuando a escrever, agora produzindo poesia de carácter satírico, entre as quais ressalta A lata (publicada em 1860 e a sua primeira obra em separata) e A Marmelada.

Não tendo interesse pela advocacia, em 1862 aceita o convite para ir para Beja como redactor do periódico O Bejense, então o jornal de maior expansão no Alentejo. Neste período colaborou em diversos periódicos da imprensa regional do sul de Portugal. Permaneceu em Beja até 1864, regressando nesse ano à sua terra natal.

Mantendo colaboração com a imprensa regional alentejana e algarvia e redigindo a Folha do Sul, em São Bartolomeu de Messines e em Silves tentou sem sucesso a advocacia, tendo em 1868 optado por partir para Lisboa, cidade onde passou a residir.

Em Lisboa levou uma vida de grandes privações. Passava o tempo nos cafés, em particular no Martinho da Arcada, em constantes tertúlias, sem nunca procurar encontrar uma forma estável de ganhar a vida. Para sobreviver recorria à realização de traduções, à escrita de sermões e hinos para cerimónias religiosas e a colaborações literárias várias. Neste período diz-se que, entre outras actividades, costurou roupas de senhora.

A passagem pelas Cortes:

Numa dessas tertúlias surgiu a ideia, talvez no contexto do tradicional bota abaixo dos políticos (o poema Eleições de João de Deus indicia isso mesmo), de tentar a eleição de João de Deus como deputado às Cortes e por esta via obter uma subvenção que lhe permitisse viver.

A ideia foi levada avante, e João de Deus apresentou-se às eleições gerais de 22 de Março de 1868 (para a 16:ª legislatura da monarquia constitucional) como candidato independente pelo círculo de Silves.

Apesar da sua candidatura ser apoiada por José António Garcia Blanco e Domingos Vieira, a eleição não foi fácil, tendo havido lugar a uma votação de desempate no dia 5 de Abril imediato. Saindo vitorioso, presta juramento nas Cortes a 18 de Maio de 1868, iniciando relutantemente a sua actividade parlamentar.

Sobre o Parlamento, em declarações que foram publicadas pelo Correio da Noite em 1869, terá dito: "Que diacho querem vocês que eu faça no Parlamento? Cantar? Recitar versos? Deve ser (…) gaiola que talvez sirva para dormir lá dentro a ouvir a música dos outros pássaros. Dormirei com certeza!." 

Essas palavras retratam a sua atitude perante a actividade parlamentar: em 1868 ainda participou, embora sem intervir, na maioria das sessões, mas no ano seguinte, faltou a 10 das 13 sessões que se realizaram.

O casamento e a mudança de vida:

Em 1868, pouco depois da sua eleição parlamentar, casa com Guilhermina das Mercês Battaglia, uma senhora de boas famílias, ganhando estabilidade na sua vida pessoal.

Deste casamento nasceram Maria Isabel Battaglia Ramos, José do Espírito Santo Battaglia Ramos, que vira a ser visconde de São Bartolomeu de Messines, João de Deus Ramos, que continuaria a obra pedagógica de seu pai, e Clotilde Battaglia Ramos.

Com o casamento e a passagem pelas Cortes, reflectindo uma maior disponibilidade, inicia a publicação sistemática da sua obra poética e dramática. Logo nesse ano publica a colectânea Flores do campo, a que se segue uma pequena recolha de 14 poemas intitulada Ramo de flores (1869), considerada a sua melhor obra poética.

Ambas recolhas resultaram da selecção feita por José António Garcia Blanco entre os poemas publicados na imprensa periódica. São obras com laivos de ultra-romantismo, representativas da sua primeira fase de produção poética de João de Deus.

Estes textos seriam depois reunidos e organizados por Teófilo Braga. A compilação dos seus textos líricos, satíricos e epigramáticos foi editada com o título de Campo de Flores (1893), e os textos de prosa com o título de Prosas (1898). Na colectânea Campo de Flores foi incluído o poema algo lascivo Cryptinas, o que na altura foi motivo de algum escândalo.

Ao longo dos anos seguintes manterá colaboração com a imprensa periódica e continuará a produzir traduções e adaptações de obras de diversos autores, com destaque para as comédias Amemos o nosso próximo, Ser apresentado, Ensaio de Casamento e A viúva inconsolável

O poema Horácio e Lydia (1872), uma tradução da obra homónima de Pierre de Ronsard, demonstra a perícia de João de Deus na versificação e na manutenção do ritmo discursivo.

Demonstrando a mutação espiritual entretanto ocorrida, publica em 1873 os textos em prosa Ana, Mãe de Maria, A Virgem Maria e A Mulher do Levita de Ephraim, traduções livres da obra Femmes de la Bible do arcebispo francês Georges Darboy. Na mesma linha vão as obras Grinalda de Maria (1877), Loas da Virgem (1878) e Provérbios de Salomão.

Também por esta altura, talvez por influência do seu amigo Antero de Quental, adere ao ideário socialista, vindo e publicar na edição de 29 de Agosto de 1880 do jornal católico Cruz do Operário uma carta onde se afirma socialista dizendo que (…) é socialista porque é cristão, é socialista porque ama os seus semelhantes (…).

 A Cartilha Maternal e o método de ensinar a leitura às crianças:


Entretanto, em 1876, menos de um ano depois da morte de António Feliciano de Castilho e perante a descrença em que caíra o Método Português de Castilho, João de Deus envolveu-se nas campanhas de alfabetização, escrevendo a Cartilha Maternal, um novo método de ensino da leitura, que o haveria de distinguir como pedagogo.

A Cartilha, num processo muito semelhante aos esforços que 25 anos antes António Feliciano de Castilho empreendera com o seu método, incorpora, para além daquela experiência, os trabalhos de Johann Heinrich Pestalozzi e Friedrich Wilhelm August Fröbel, dando-lhe um carácter menos infantilizante.

A obra foi recebida de forma encomiástica, sendo saudada como utilíssima e genial pelos principais intelectuais da época, entre os quais Alexandre Herculano e Adolfo Coelho.

Este método, relativamente inovador na época, foi dois anos depois, e por proposta do deputado Augusto Lemos Álvares Portugal Ribeiro, aprovado como o método nacional de aprendizagem da escrita da língua portuguesa. Graças a esta decisão, João de Deus teria a nomeação vitalícia de Comissário Geral da Leitura para essa forma de ensinar, com uma pensão anual de 900$000 réis.

Para complementar o seu método, João de Deus publicou uma tradução adaptada da obra Des devoirs des enfants envers leurs parents, de Theodore-Henri Barraus, a que se seguiram múltiplos artigos de natureza pedagógica contento exortações e instruções dirigidas aos mestres que deveriam aplicar o método.

Os anos finais:

A expansão do método da Cartilha Maternal foi seguida de um autêntico fenómeno de culto pela figura do poeta, tornando-o numa das figuras mais populares do último quartel do século XIX português. Nesse contexto foi organizada em 1895 uma grande homenagem nacional ao poeta, alegadamente iniciativa dos estudantes de Coimbra. 


Durante a homenagem, o rei D. Carlos impôs-lhe a grã-cruz da Ordem de Santiago da Espada e por todo o país foram realizadas iniciativas comemorativas.

Na sequência da homenagem nacional, o Diário de Notícias, de 8 de Março de 1895, publicou o seguinte texto laudatório: «João de Deus é uma das personificações mais belas do nosso carácter peninsular; vivo e indolente, devaneador e apaixonado, crente e sentimental. É uma flor do meio-dia, cheia de seiva e colorido, dos poetas e nunca ninguém sentiu entre nós mais ardente a sua imortalidade do que Bocage. Com que entusiasmo ele exclamava ao ver os seus versos elogiados na boca de Filinto: - Zoilos tremei; posteridade, és minha! Sob este ponto de vista, João de Deus é a antítese completa de Bocage. Este tinha a inspiração orgulhosa, cheia de fogo, rebentando quase num caudal de ironia e de sarcasmo. João de Deus tem a inspiração serena, espontânea, quase inconsciente. João de Deus é como a flor do campo, que rebenta formosa sem cultivo, velada apenas pela graça de Deus, o jardineiro supremo. As suas poesias são verdadeiras flores do campo, mas das mimosas, das encantadoras na sua singeleza, das que, guardadas num álbum, conservam perfeitamente a delicadeza da forma, o colorido transparente da corola, o aveludado do cálice, a disposição encantadora das pétalas.»

Apesar da fama, o método da Cartilha Maternal tinha adversários [e... ainda hoje tem] e pouco depois da homenagem nacional, por iniciativa de Joaquim Pedro de Oliveira Martins, o Ministério do Reino decidiu mandar retirar das salas de aula os quadros da Cartilha. 


Pouco depois desta polémica decisão, João de Deus caiu doente com uma enfermidade cardíaca.

O filho mais ilustre de São Bartolomeu de Messines viria a falecer, aos 66 anos, no dia 11 de Janeiro de 1896, encontrando-se o seu túmulo no Panteão Nacional.

Por decreto de Governo presidido por Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro, datado de 13 de Janeiro de 1896, foi concedida à viúva e filhos do poeta uma pensão vitalícia, isenta de impostos, de 1 000$000 réis anuais.

João de Deus é recordado em Lisboa pelo Museu João de Deus e em São Bartolomeu de Messines por uma casa-museu e por um grupo escultórico. A modestíssima casa onde nasceu ostenta na sua fachada uma lápide alusiva.

Em 1930, aquando da comemoração do centenário do seu nascimento, foi-lhe erigida um estátua no Jardim da Estrela, em Lisboa [Junto dela, durante anos, esteve à disposição do público uma Biblioteca Camarária, ao ar livre].

Obra:

Na literatura da sua época, João de Deus ocupou uma posição singular e destacada. Surgido nos finais do ultra-romantismo, aproximou-se da tradição folclórica de forma mais conseguida que qualquer outro escritor romântico português. A sua poesia distinguiu-se, sobretudo, pela grande riqueza musical e rítmica.

Grande parte da sua obra poética está presente em Flores do Campo(eBook) (publicada em 1868), Folhas Soltas (1876) e Campos de Flores. Esta última obra, publicada em 1893, além de conter outros poemas, engloba também o conteúdo de "Flores do Campo" e "Folhas Soltas", pelo que funciona como uma colectânea da sua obra poética.

Foi, ainda, autor de fábulas e de obras destinadas ao teatro, estas na maior parte dos casos traduções e adaptações de autores estrangeiros. Grande parte da sua produção em prosa foi reunida na colectânea Prosas.

Mas a sua obra mais importante viria a ser a Cartilha Maternal, um método destinado a ajudar a aprendizagem da leitura a criança, que ainda hoje mantém seguidores.

Para além das obras mencionadas, deixou um Dicionário Prosódico de Portugal e Brasil (1870), e as obras poéticas Ramo de Flores(eBook) (1869) e Despedidas de Verão (1880).

Algumas composições em prosa que se encontravam dispersas e parte importante da sua correspondência foram editadas postumamente por Teófilo Braga (Lisboa, 1898).







Legenda
- Medalha: colecção do autor do blog

- Outras fotos e adaptações de texto:
recolhidas na Internet, c/especial referência
à «Associação de Jardins Escolas João de Deus»

2011-01-09

« OS GOLFINHOS... OU DELFINS... Família dos DELPHINIDAE »

     Foto de um golfinho saltando fora das águas do rio Sado em Portugal
                                                                                                                                                      


                                                            

ESPECTACULAR REPORTAGEM na ILHA dos GOLFINHOS


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O GOLFINHO é...  um mamífero aquático altamente inteligente, a quem foi atribuído o salvamento de muitos náufragos no meio de destroços, e sempre foi tido como um dos melhores amigos do homem no oceano. 

O maior dos golfinhos de focinho deve o seu nome ao seu bico comprido, a fazer lembrar o gargalo de uma garrafa.

 Pensa-se que os golfinhos de nariz de garrafa são muito inteligentes e vivem em grupos sociais. Comunicam uns com os outros utilizando silvos distintos, e linguagem corporal.
         
Bilhete de Identidade

Ordem: Cetacea
Família
: Delfins
Género
: Tursiops
Espécie
: Tursiops Trucatus

Estado
: Comum
Unidade social:
Variável
Comprimento
: 1,9m-4m
Peso
: 500 kg
Maturidade Sexual
: Fêmea: 5-12 anos; Macho: 9-13 anos
Época de acasalamento: Março e Abril
Período de Gestação: 12 meses
Número de crias: 1
Intervalo de procriação: 2-3 anos
Dieta: Variada gama de peixes e mariscos
Longevidade: 12-40 anos, podendo atingir os 50 anos

Esta espécie pode ser especialmente encontrada nas águas temperadas e tropicais do Atlântico e nos mares adjacentes, preferindo as zonas costeiras rasas e quentes.
Também é possível encontrá-los perto do Havaí e da Florida.

O acasalamento

A principal época de acasalamento é entre Março e Abril. Os golfinhos juntam-se nesta altura, por um breve espaço de tempo, em que o macho demonstra preferência pela companhia de um determinada fêmea. A corte pode ser feita de forma violenta, com muitas cabeçadas pelo meio.

As crias nascem no pico do Verão em águas europeias e entre Fevereiro e Maio na Flórida. A ligação entre a mãe e a cria é tão forte que já se testemunhou mães a trazerem crias mortas á superfície, como que a querer ajudá-las a respirar. A mãe  e a cria permanecem juntas até esta ter quatro ou cinco anos de idade. 

Excelente pescador

Quando estão em liberdade os golfinhos alimentam-se de 8 a 10 kg de lulas, camarão, enguias e outros peixes, por dia. Caçam frequentemente em grupo, encurralando pequenos peixes e capturando os que saem do cardume; em algumas águas, seguem os barcos de pesca para se banquetearem com as sobras. 

As técnicas de caça dependem muito da localização. Na Carolina do Sul, EUA, por exemplo, os golfinhos seguem o peixe até à costa e empurram-no até à praia, capturando-o. No entanto, no Golfo do México, já foram avistados golfinhos que jogam as suas presas ao ar com os lobos das caudas, para as atordoarem, e depois capturam-nas à superfície. 

Alguns pesquisadores acreditam que estes conseguem atordoar as suas presas emitindo altos ruídos. 

Acrobata dos mares

Os golfinhos nariz de garrafa viajam em grupos familiares de um a dez indivíduos, em regiões costeiras, e por vezes até 25 em mar alto, apesar de já se terem registado grupos de 500 elementos. Dentro destes grupos, é vulgar passarem o tempo com os seus companheiros favoritos. As fêmeas e as crias pequenas andam normalmente juntas, tal como os machos. 

É possível avistar o golfinho nariz de garrafa a acompanhar a onda de proa dos navios e fazer piruetas, podendo sair vários metros para fora de água. Dormem cerca de oito horas por dia e nadam a uma velocidade de cerca de 20 km por hora, podendo mergulhar até 20 minutos e a uma profundidade de 300 m. 

Os machos lutam ferozmente pelas fêmeas durante a época da reprodução. Um golfinho nariz de garrafa faz uma pirueta para respirar e também, para comunicar com os seus parceiros. 

Em vias de extinção

Apesar de ainda existirem num número alargado, os golfinhos nariz de garrafa têm sido virtualmente erradicados de alguns lugares. São caçados pela sua carne ou outros produtos em todo o Mundo. No Pacífico, é vulgar afogarem-se em redes de pesca ao atum, apesar de já serem utilizadas redes “amigas” dos golfinhos.

Recentemente, tem havido preocupação sobre o ruído marinho provocado pelo Homem, tal como o sonar dos navios, que interfere com a capacidade de baleias e golfinhos em alimentarem-se, orientarem-se e comunicarem. 

As provas mostram que o sistema de detecção de submarinos militares, em que é utilizado um sonar activo de baixa frequência, enche os mares de ruído que ameaça a sobrevivência dos golfinhos e baleias, destruindo-lhes a audição ou causando-lhes hemorragias nos pulmões e ouvidos.



                                                 
                                      Os cetáceos

[Sugerimos a leitura - é só clicar no link - do 'post' do nosso blog gémeo «MUNHO» http://munho.blogspot.com - que denuncia no texto e nos comentários, as atrocidades (des)humanas cometidas contra todos estes animais]

Esta espécie não pode sobreviver fora de água. Semelhantes aos peixes pela morfologia e perfeita adaptação ao meio aquático, os cetáceos são no entanto mamíferos, com pulmões e temperatura constante, que dão origem a indivíduos desenvolvidos, os quais amamentam. 
Os cetáceos formam uma ordem dividida em duas subordens: de um lado cetáceos com dentes (odontocetos) e de outro lado as dez espécies de baleias sem dentes (misticetos). Todos têm a particularidade de não possuírem membros superiores visíveis, enquanto os membros anteriores estão transformados em barbatanas. A cauda é possante e constitui o principal órgão de locomoção. As vias digestivas e respiratórias estão isoladas umas das outras, o que lhe permite engolir as presas debaixo de água. Os cetáceos respiram por pulmões, o que não os impede de permanecer submersos longo tempo, mesmo a grande profundidade (mais de uma hora e até três mil metros no caso do cachalote!). Ao voltar à superfície, expelem o ar pelo espiráculo, num jacto visível à distância. 
O sentido do olfacto encontra-se atrofiado nas baleias e ausente nos golfinhos. Se a visão é fraca, a audição é muito apurada nestes animais, que utilizam  a ecolocalização (emissão de ultra-sons e recolha do eco) para se deslocarem e caçarem . Os cetáceos sem dentes agrupam um grande número de baleias, entre as quais a baleia-azul, o maior dos cetáceos.
                                           
Esta baleias primitivas possuem um sonar rudimentar e um sistema nervoso central pouco desenvolvido. Em vez de dentes possuem barbas, centenas de lâminas córneas fixas ao maxilar superior, que filtram o alimento da água. 

Estes gigantes do mar conseguem nadar porque a sua densidade é similar à da água, ligeireza que se deve à estrutura esponjosa do esqueleto e da gordura. 


AJUDEM... POR TODOS OS MEIOS POSSÍVEIS, NA LUTA CONTRA A MATANÇA DOS GOLFINHOS E DAS BALEIAS

2011-01-07

« DERRADEIRA HOMENAGEM A MALANGATANA »

 CIDADÃO  do  MUNDO
(1936 - 2011)



 No intuito de prestarmos uma última homenagem, o corpo do Mestre Malangatana está presente no Mosteiro dos Jerónimos, hoje, dia 7 de Janeiro, a partir das 15H00




« Malangatana, o homem que pintava pessoas »


Malangatana vendeu os primeiros quadros há 50 anos e com o dinheiro arranjou uma casa e foi buscar a família para Maputo. Meio século depois, morreu um homem do mundo, um amigo de Portugal e um dos moçambicanos mais famosos.


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MALANGATANA VALENTE NGWENYA nasceu a 06 de junho de 1936 em Matalana, uma povoação do distrito de Marracuene, às portas da então Lourenço Marques, hoje Maputo. Foi pastor, aprendiz de curandeiro (tinha uma tia curandeira) e mainato (empregado doméstico).

A mãe bordava cabaças e afiava os dentes das jovens locais (uma moda da altura), o pai era mineiro na África do Sul. Com a mãe doente e um pai ausente, Malangatana foi viver com o tio paterno e estudou até à terceira classe. Só. Aos 11 anos começou a trabalhar porque já era “adulto” e podia fazer tudo, de cuidador de meninos a apanha-bolas no clube de ténis.

Nos últimos 50 anos foi também muito mais do que pintor. Fez cerâmica, tapeçaria, gravura e escultura. Fez experiências com areia, conchas, pedras e raízes. Foi poeta, ator, dançarino, músico, dinamizador cultural, organizador de festivais, filantropo e até deputado, da FRELIMO, partido no poder em Moçambique desde a independência.

Ainda que o seu lado político seja o menos conhecido, é nítido o seu posicionamento à esquerda, a sua militância na luta pela liberdade e a  simpatia pelo Partido Comunista Português.

 Malangatana chegou a estar preso, pela PIDE, acusado de pertencer ao então movimento de libertação FRELIMO, sendo libertado ao fim de 18 meses, por não conseguirem provar qualquer vínculo à resistência colonial.

 Malangatana viveu parte da sua adolescência junto dos colonos portugueses, os mesmos que o iniciaram na pintura, primeiro o artista plástico e biólogo Augusto Cabral (morreu em 2006) e depois o arquiteto Pancho Guedes.

Augusto Cabral era sócio do Clube de Ténis, onde trabalhava um tio do pintor. “Um apanha-bolas nas partidas de ténis era um tal Malangatana Ngwenya (crocodilo), que, no fim de uma tarde de desporto, se acercou de mim para me pedir se, por acaso, eu não teria em casa um par de sapatilhas velhas que lhe desse”, contou Augusto Cabral em 1999.

O pintor iria “nascer” nessa noite, quando Malangatana foi a casa de Augusto Cabral e o viu a pintar um painel. “Ensine-me a pintar”, pediu. E Augusto Cabral deu-lhe tintas, pincéis e placas de contraplacado. “Agora pinta”, disse ao jovem, ao que este perguntou: “pinto o quê?”. “O que está dentro da tua cabeça”, respondeu Augusto Cabral.

O jovem viria a ter também o apoio de outro português, o arquiteto Pancho Guedes, que lhe disponibilizou um espaço na garagem de sua casa de Maputo e lhe comprava dois quadros por mês, a preços inflacionados. Em poucos meses Malangatana quis fazer uma exposição e foi, para espanto confesso de Augusto Cabral, um enorme sucesso.

Nas pinturas, nessa altura e sempre, Matalana, onde nasceu e cresceu e onde frequentou a escola da missão suíça de até à segunda classe. Menino pastor, agricultor, caçador de ratos com azagaia, viria a estudar só mais um ano. Fica-lhe Matalana no pincel, a opressão colonial, a guerra civil. A paz reflecte-se numa pintura mais otimista e nos últimos anos foi um carácter mais sensual que a caracterizou.

E sempre o quotidiano. “Há sempre um manancial de temas a abordar. São os acontecimentos do mundo, às vezes tristes, outras alegres, e eu não fico indiferente. Seja em Moçambique, ou noutra parte do mundo, a dor humana é a mesma", disse numa entrevista à Lusa, ainda recentemente.

Já homem, com a pintura como profissão, confessou ao jornalista Machado da Graça que sentia grande aproximação com os artistas portugueses desde os anos 70, quando foi pela primeira a Portugal, como bolseiro da Gulbenkian.

Entre 1990 a 1994 foi deputado da FRELIMO e ao longo de décadas ligado a causas sociais e culturais. Foi um dos criadores do Museu Nacional de Arte de Moçambique, dinamizador do Núcleo de Arte, colaborador da UNICEF e arquiteto de um sonho antigo, que levou para a frente, a criação de um Centro Cultural na “sua” Matalana.

E exposições, muitas, em Moçambique e em Portugal mas também mundo fora, na Alemanha, Áustria e Bulgária, Chile, Brasil, Angola e Cuba, Estados Unidos, Índia… Tem murais em Maputo e na Beira, na África do Sul e na Suazilândia, mas também em países como a Suécia ou a Colômbia.

Contando com as obras em museus e galerias públicas e em coleções privadas, Malangatana vai continuar presente praticamente em todo o mundo, parte do qual conheceu como membro de júri de bienais, inaugurando exposições, fazendo palestras, até recebendo o doutoramento honoris causa, como aconteceu recentemente em Évora, Portugal.

Foi nomeado Artista pela Paz (UNESCO), recebeu o prémio Príncipe Claus, e de Portugal levou também a medalha da Ordem do Infante D.Henrique. 

Em Portugal morreria também o pastor, mainato e pintor. 
Malangatana. Valente.






- Texto selecionado no Destak, adaptado 
  e acrescentado.
- Fotografias escolhidas na Net.