[ Vox populi vox Dei ]

2010-11-30

« 1935 - O ANO DA MORTE... DE RICARDO REIS »

FERNANDO PESSOA MORREU, FAZ HOJE 75 ANOS, LEVANDO CONSIGO
OS
HETERÓNIMOS

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DEIXOU-NOS IMENSA OBRA
e a
PORTUGALIDADE

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TUDO QUE CESSA É MORTE, E A MORTE É NOSSA

SE É PARA NÓS QUE CESSA. AQUELE ARBUSTO

FENECE, E VAI COM ELE

PARTE DA MINHA VIDA.

EM TUDO QUANTO OLHEI FIQUEI EM PARTE.

COM TUDO QUANTO VI, SE PASSA, PASSO,

NEM DISTINGUE A MEMÓRIA

DO QUE VI DO QUE FUI.

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Ricardo Reis








Da Capela do Cemitério dos Prazeres - Lisboa - para jazigo de família, partiu o corpo do poeta.
Eram onze horas
do dia
30 de Novembro de 1935

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.30 de Novembro de 1935 - «Lisboa foi surpreendida pela notícia da morte brusca de FERNANDO PESSOA, um dos maiores Poetas de Portugal e uma das grandes figuras da sua geração. O prestígio do autor de "ORPHEU" e da "MENSAGEM" era imenso nos nossos meios intelectuais. Deixa uma obra notável, em grande parte inédita, e cujo nome irá crescendo à medida que o tempo for passando... representa uma perda irreparável para a inteligência nacional».

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- Comunicação da morte do Poeta, dada pelo Semanário "BANDARRA".

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{ÚLTIMA FRASE ESCRITA PELO PUNHO DO POETA NO DIA DA MORTE:

.«I know not what tomorrow will bring »}


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[.[Pensamento do dia, para 30 de Novembro de 2010]

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"É talvez o último

dia da minha vida.

Saudei o Sol, levanto

a mão direita, mas

não o saudei dizendo-lhe

adeus. Fiz sinal de

gostar de o ver ainda,

mais nada."

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Fernando Pessoa


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REPRODUÇÃO DA NOTÍCIA DA MORTE E ENTERRO DADA PELO “DIÁRIO DE NOTÍCIAS”
.MORREU FERNANDO PESSOA

(Grande Poeta de Portugal)

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«Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da «Mensagem», poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se tem escrito, foi ontem a enterrar.

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Surpreendeu-o a morte, num leito cristão do Hospital de S. Luiz, no sábado à noite. A sua passagem pela vida foi um rastro de luz e de originalidade. Em 1915, com Luiz de Montalvor, Mário de Sá-Carneiro e Ronald de Carvalho — estes dois já mortos para a vida — lançou o «Orpheu», que tão profunda influência exerceu no nosso meio literário, e a sua personalidade foi-se depois afirmando mais e mais.

Do fundo da sua «tertúlia» a uma mesa do Martinho da Arcada, Fernando Pessoa era sempre o mais novo de todos os novos que em volta dele se sentavam. Desconcertante, profundamente original e estruturalmente verdadeiro, a sua personalidade era vária como vário o rumo da sua vida. Ele não tinha uma actividade «una», uma actividade dirigida: tinha múltiplas actividades.

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Na poesia não era só ele: Fernando Pessoa; ele era também Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. E era-os profundamente, como só ele sabia ser. E na poesia como na vida. E na vida como na arte.

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.Tudo nele era inesperado. Desde a sua vida, até aos seus poemas, até à sua morte. Inesperadamente, como se se anunciasse um livro ou uma nova corrente literária por ele idealizada e vitalizada, correu a notícia da sua morte. Um grupo de amigos conduziu-o ontem a um jazigo banal do Cemitério dos Prazeres. Lá ficou, vizinho de outro grande poeta que ele muito admirava, junto do seu querido Cesário, desse Cesário que ele não conhecera e que, como ninguém, compreendia.

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Se Fernando Pessoa morreu, se a matéria abandonou o corpo, o seu espírito não abandonará nunca o coração e o cérebro dos que o admiravam. Entre eles fica a sua obra e a sua alma. A eles compete velar para que o nome daquele que foi grande não caia na vala comum do esquecimento.

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Tinha 47 anos o poeta que ontem foi a enterrar. Quarenta e sete anos e um grande amor à Vida, à Arte, à Beleza. Quando novo, acasos do Destino, a que ele obedecia inteiramente — Fernando Pessoa teósofo, cristão, que conhecia todas as seitas religiosas e as negativistas, pagão como só os artistas sabem ser, Fernando Pessoa obedecia cegamente ao Destino — levaram-no para a África do Sul. E na Universidade do Cabo cursou o inglês. E de tal maneira estudou a língua que Shakespeare e Milton imortalizaram que, anos passados, apresentava aos «cercles» literários da serena Albion quatro livros de poemas – «English Poems, I, II, III, IV»; «Antinuous» e «35 Sonnets». E num concurso de língua inglesa alcançou o primeiro prémio.

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Depois, uma vez em Portugal, a sua actividade literária aumentou. É de então que data a sua colaboração na «Águia», onde o seu messianismo metafísico, num célebre e elevado estudo, anunciou o aparecimento do Super-Camões da literatura portuguesa.

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1915. «Orpheu». Movimento intenso de renovação. Entretanto, colabora no «Centauro», «Exílio», «Portugal Futurista», «Contemporânea». Começa a ser amado e compreendido.

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1924. Funda com Rui Vaz a revista «Athena». Depois, de então para cá, a sua actividade multiplica-se. Colabora em revistas modernistas, como «Presença», «Momento» e, há um mês ainda, no «Sudoeste», que Almada Negreiros fundou com notável desassombro. Traduziu Shakespeare e Edgar Poe. Estas são, em linhas muito esquemáticas a sua personalidade.

Quem o quiser compreender folheie a sua obra vasta e dispersa.

Começará a amá-lo.




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. .O ELOGIO FÚNEBRE

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O Capitão Caetano Dias, cunhado do poeta, representava a família. Em frente do jazigo que Fernando Pessoa passa a habitar, Luís de Montalvor, seu companheiro de 34 anos de vida literária, proferiu simples e emotivas palavras em nome dos sobreviventes do grupo «Orpheu».

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E disse:

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«Duas palavras sobre o trânsito mortal de Fernando Pessoa. Para ele chegam duas palavras, ou nenhumas. Preferível fora o silêncio, o silêncio que já o envolve a ele e a nós, que é da estatura do seu espírito.

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Com ele só está bem o que está perto de Deus. Mas também não deviam, nem podiam, os que foram pares com ele no convívio da sua Beleza, vê-lo descer à terra, ou antes, subir, ganhar as linhas definitivas da Eternidade, sem anunciar o protesto calmo, mas humano, da raiva que nos fica da partida.

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Não podiam os seus companheiros de “Orpheu”, antes os seus irmãos do mesmo sangue ideal da sua Beleza, não podiam, repito, deixá-lo aqui, na terra extrema, sem ao menos terem desfolhado, sobre a sua morte gentil, o lírio brando do seu silêncio e da sua dor.

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Lastimamos o homem, que a morte nos rouba, e com ele a perda do prodígio do seu convívio e da graça da sua presença humana. Somente o homem, é duro dizê-lo, pois que ao seu espírito e ao seu poder criador, a esses deu-lhes o Destino uma estranha formosura, que não morre.

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O resto é com o génio de Fernando Pessoa»








2010-11-29

« PENSANDO... nas PALAVRAS do NOBEL »

JOSÉ SARAMAGO



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"DEIXAR DE SER"

Quando a esquerda chega ao poder, não usa as razões pelas quais lá chegou. A esquerda deixa de sê-lo muitas vezes quando chega ao poder e isso é dramático.


In: Outros Cadernos de Saramago
Novembro 29, 2010 por Fundação José Saramago


.[ DIVULGAÇÃO ]

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.«AS PALAVRAS DE SARAMAGO»
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Livro editado por Fernando Gómez Aguilera
Edição Companhia Das Letras


.2010

« Único escritor de língua portuguesa a ganhar o prémio Nobel, José Saramago (1922-2010) é um exemplo perfeito do intelectual engajado preconizado pelo autor de As palavras, Jean-Paul Sartre.

Com efeito, a intervenção na esfera pública, o comprometimento com uma visão crítica do mundo, a defesa de ideias muitas vezes polémicas, a indignação diante das injustiças e desigualdades económicas e sociais são características marcantes de alguém que jamais separou o escritor do cidadão e sempre disse com todas as palavras o que pensava.

Este livro, editado por Fernando Gómez Aguilera, biógrafo espanhol de Saramago, traz uma ampla selecção de declarações do escritor extraídas de jornais, revistas e livros de entrevistas, publicados em Portugal, no Brasil, na Espanha e em diversos outros países, da segunda metade da década de 1970 até março de 2009.

Os textos estão organizados cronologicamente no interior de núcleos temáticos que abrangem as questões mais recorrentes nas manifestações do escritor. A primeira parte, centrada na pessoa José de Sousa Saramago, reúne comentários sobre sua infância, a formação autodidata, a trajetória pessoal, os lugares onde morou, bem como reflexões sobre si mesmo - o pessimismo, a indignação, a coerência, a primazia da ética - que traçam o perfil de um escritor sempre disposto a praticar a introspecção e a compartilhar seu pensamento com a opinião pública.

A segunda parte, em que vem para o primeiro plano a figura do escritor, traz reflexões sobre o ofício literário que mostram sua plena consciência dos procedimentos romanescos, concepções pouco ortodoxas para um comunista sobre as relações entre literatura e política - “não vou utilizar a literatura para fazer política” - e o papel do escritor na sociedade: “se o escritor tem algum papel, é intranquilizar”.

Na terceira parte, quem fala é o cidadão José de Sousa Saramago, o crítico, entre outras coisas, da globalização económica, do “concubinato” dos meios de comunicação com o poder, do consumismo, do comunismo soviético, da paralisia da esquerda incapaz de inovar, do conservadorismo da Igreja católica, da postura de Israel em relação aos palestinos e do irracionalismo generalizado do mundo capitalista.

Sua voz clama pela democracia social plena - não apenas formal e eleitoral -, pelo respeito integral aos direitos humanos e pelo sagrado direito de espernear: “Ao poder, a primeira coisa que se diz é não”.

As palavras de Saramago compõe o retrato falado de um escritor que exerceu seu ofício com o profissionalismo de um operário, a pertinácia de um militante político, a consciência de um cidadão e a visão ampla de um verdadeiro intelectual.»


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Texto de: Fundação José Saramago


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ESTA POSTAGEM FARÁ MAIS SENTIDO, SE ACEDER AO SEGUINTE "LINK":

















2010-11-27

« A MINHA AERONOSTALGIA... AGUDA »

Faz anos... que disse adeus às Asas...



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SEM PALAVRAS (...) SÓ O «BALLET»... e o BELO CANTO!

2010-11-26

Alaúde: Das Cantigas de Santa Maria ao Fronimo



ALAÚDE


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2010-11-25

« RÓMULO (...) GEDEÃO: O ALQUIMISTA da POESIA »


Prof. Rómulo de Carvalho
v/s
Poeta António Gedeão



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Rómulo de Carvalho [António Gedeão] foi professor, pedagogo e autor de manuais escolares, historiador da ciência e da educação, divulgador científico e poeta.

Rómulo Vasco da Gama de Carvalho nasceu em 24 de Novembro de 1906, na Rua do Arco do Limoeiro em Lisboa. Filho de José Avelino da Gama de Carvalho, natural de Tavira, e de Rosa das Dores Oliveira Gama de Carvalho, natural de Faro. Fez a instrução primária no Colégio de Santa Maria, em Lisboa. Entre 1917 e 1925 estudou no Liceu Gil Vicente.

Em 1925 matriculou-se no Curso Preparatório de Engenharia Militar da Faculdade de Ciências. Em 1928 mudou-se para o Porto, onde se matriculou no curso de Ciências Físico-Químicas, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, que concluiu em 1931.

Passados três anos realizou o Exame de Estado para o Ensino Liceal, iniciando a actividade docente no Liceu de Camões (Lisboa), continuando no Liceu D. João III (Coimbra) e, depois no Liceu Pedro Nunes (Lisboa), sendo aqui Professor Metodólogo a partir de 1958. A partir de 1946 foi um dos directores da Gazeta de Física, órgão da Sociedade Portuguesa de Física, cargo que exerceu até 1974.

"António Gedeão [Rómulo de Carvalho] só aos cinquenta anos surge como poeta, na plenitude dos seus dons, e vem inserir-se num espaço literário em que Miguel Torga, Vitorino Nemésio, José Régio, Sofia de Mello Breyner Andresen ocupam já uma posição cimeira e em que se afirmaram ou começam a afirmar-se talentos tão diversos como os de Jorge de Sena, Ruy Cinatti, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Ramos Rosa, David Mourão-Ferreira.”



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Mãezinha



A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.


Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.


28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido

desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)
Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.


Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.


Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.


Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.

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A que sobeja

chama-se Rosinha.

Foi essa que o meu pai levou à Igreja.

Foi a minha Mãezinha.

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Poema de: António Gedeão














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Imagens in Net




2010-11-24

« A UNIÃO FAZ A FORÇA: GREVE GERAL ! »



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A CGTP e a UGT estiveram juntas [Greve Geral] no dia 28 de Março de 1988, em protesto contra o «Pacote Laboral», iniciativa do Governo então chefiado pelo Prof. Cavaco Silva. Dessa vez, os grevistas obtiveram uma vitória relativa. Apesar de aprovado pela maioria absoluta do PSD [Partido Social Democrata] que apoiava o Executivo, em função da Greve Geral, o Diploma foi enviado pelo então Presidente da República, Dr. Mário Soares, para o Tribunal Constitucional, que "chumbou" algumas medidas consideradas inconstitucionais.
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Vinte e dois anos volvidos, nova Greve Geral junta as duas Centrais Sindicais, mobilizando os trabalhadores para uma acção eventualmente maior do que a que foi organizada em 1988, considerando os problemas de agora serem enormes, resultantes da má gestão que se tem vindo a arrastar ao longo de décadas.
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Se nos interrogarmos se esta greve geral vai mudar alguma coisa, basta lembrar que a outra, que uniu as duas centrais sindicais em 88, suscitou dúvidas a Cavaco Silva quanto à sua dimensão e eficácia, mas, confessou, mais tarde, que tinha sido um erro desvalorizá-la! O Tribunal Constitucional dera razão ao povo!
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As pessoas estão cansadas da impunidade política que tem feito regra no nosso país. Neste momento, pelos piores motivos, os olhos e os media de todo o mundo estão postos em nós, atentos a esta greve. Esta, é também uma maneira de os portugueses dizerem aos "mercados" que as medidas de contenção não podem ser aplicadas de forma desumana, sem atenção às situações de miséria que já se criaram e se podem criar ainda mais, em Portugal.
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É grande o desafio das centrais sindicais para mobilizar os trabalhadores sem vínculo. É preciso que os trabalhadores percam o medo de serem sindicalizados, pese embora as novas gerações viverem uma precarização laboral sem precedentes! Será exigível que os sindicatos se tornem menos institucionais, resolvendo-se tudo mais fora dos gabinetes: o Sindicalismo perde a força se não for para a rua ouvir os trabalhadores e amplificar-lhes a voz!
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É na rua que se demonstra o peso específico da angústia e da precaridade de vida do povo trabalhador. E quanto mais depressa se recuperar esta consciência, melhor será o clima reivindicativo, orientado e disciplinado pelos sindicatos, contornando aspectos previsíveis de grande agitação social.
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É preocupante encontrar as forças policiais a reforçarem o seu equipamento bélico pessoal e motorizado, a pretexto deste, ou... daquele evento! (...)
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Melhor seria que, a classe política decidisse dar a mão aos povos, em vez de se trancar em condomínios bunkers... e deslocar-se por todo o lado rodeada de "bodyguards" (...)
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É visível que o sacrifício exigido não é feito por todos!... o que só amplia o sentimento de revolta das populações (...)

Alguém, um dia, disse: "Numa casa onde não há pão para todos... ninguém tem direito a sobremesa!" (...) e, ou, ainda:
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« Ou há moralidade... ou comem todos!... »

2010-11-19

« CARTA ABERTA... à EUROPA FECHADA »





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Parece bastante hipócrita a tenacidade com que a Europa procura evitar a chegada de imigrantes africanos, que não são outra coisa senão o resíduo patético das suas invasões coloniais de vários séculos.
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Esperará por acaso a Europa que, depois de séculos saqueando a África, despojando-a da sua cultura, dos seus recursos materiais e humanos, de infectá-la com a sua febre perniciosa de consumo, vai poder encarar este novo milénio como uma espécie de fortaleza armada e compacta, em cujo interior, a fome e o desespero se alastram?
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No conto de Edgar Allan Poe "A Máscara da Morte Vermelha", é simbolizada a futilidade da intenção do príncipe de se fechar no seu palácio, dando festas, até que a peste passe! A morte acabou por passar (...)
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A Europa é rica graças, essencialmente, a tudo o que levou de África. Por acaso esperam que os africanos famintos fiquem padecendo da miséria resultante dos latrocínios que sofreram, enquanto as sociedades europeis desfrutam de altos níveis de qualidade de vida?
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Acreditam que é tolerável que quem os roubou, matou e violou por centenas de anos venha pontificar e dar-lhes lições sobre moral internacional e direitos humanos?

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Vocês, ingleses, não se lembram dos massacres no Kenya, dos despojos na Rodésia?
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Não se lembram, franceses, o quanto roubaram em Dakar e na Costa do Marfim?
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Não se lembram, alemães, dos campos de concentração na Namíbia e dos crânios do povo guerreiro dizimado que ainda conservam no Museu de Medicina de Berlim?
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Não se lembram, belgas, das atrocidades que fizeram no Congo?
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Não se lembram, portugueses, das escavações depredadoras que fizeram em busca do ouro e dos diamantes de Angola, das caçadas de escravos também em Moçambique?
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Não foram a vossa cobiça e a vossa vaidade ridícula, europeus, que regaram com tanto sangue de crianças inocentes os diamantes da Serra Leoa?
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E agora dão-se ao luxo de repelir os desesperados, de fechar-se e de deportar os fugitivos que chegam às suas costas marítimas, porque dão mau aspecto às suas 'glamourosas' praias mediterrânicas!?
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Se a Europa fosse coerente com as suas próprias políticas de direitos humanos, teriam que acolher com os braços abertos todos os africanos e pedir-lhes perdão por todas as ofensas, oferecendo-lhes repartir aquilo que levaram das suas terras.
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E o mais curioso é que estes embandeirados pela angústia não pedem o que lhes pertence por direito!
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Apenas pedem as migalhas de uma esmola, vendem bujigangas na via pública, entregam jornais ou lavam automóveis, trabalham no duro na construção civil, nas estradas... e, mesmo assim, não os querem...!
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É um espectáculo demasiado doloroso, demasiado triste que no centro da vossa grande civilização se mostrem os rostos obscuros das vítimas que a tornaram possível. A vossa cegueira é admirável, a vossa hipocrisia é criminosa, a vossa baixeza é formidável.
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Meditem longamente sobre o que estão fazendo, europeus. Vocês, que fizeram História, seriam demasiado estúpidos se esquecessem o que alegadamente têm obrigação de ter aprendido (...)

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Todo o poder de Roma não impediu a queda do seu Império às mãos dos bárbaros famintos da Germânia e do Tártaro!
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Toda a majestade da Britânia se curvou sem atenuantes perante as massas hindús lideradas por um homenzinho de aparência insignificante [Gandhi], mas com um grande coração.
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Despertem desse vosso sonho torpe e da vossa fantasia narcótica. O mundo ruge desesperado à vossa volta. Quanto tempo mais pensam que poderão fingir não ouvir?

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A Europa deseja permanecer fechada enquanto uma África saqueada se dessangra... como a América Latina... como o Oriente de "segunda" categoria...
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Não se pode aceitar que tanta beleza nas artes tenha surgido de corações tão duros... Certamente a Europa abrirá o seu coração, as suas portas...
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Certamente algum dia... aprenderá a tratar todos os seres humanos... como iguais...



Vídeo sobre: MISÉRIA E POBREZA NA ÁFRICA...


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-Autor desconhecido.
[Extraído de power point]
-Imagens do texto e da Net

2010-11-17

« A NATO... na ' VIA ' MEDROSA... do FIM!...»





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Passando pela Estrada da Medrosa em Oeiras, a caminho da Torre, não se imagina que ali mesmo ao lado há centenas de pessoas a trabalhar em dois pisos debaixo do chão, num "bunker" húmido, escuro e apertado, construído no tempo da Guerra Fria para resistir a qualquer ataque.
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É no famoso "bunker", longe dos olhares mais indiscretos e curiosos que trabalha a grande maioria dos 300 funcionários (sobretudo militares) de 21 nacionalidades que fazem parte do Allied Joint Force Command Lisbon.
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Ao fim de mais de 40 anos de existência (foi fundado em 1967), o Comando Operacional da Aliança Atlântica em Portugal corre agora o risco de ser fechado ou descer de nível para comando naval, em nome de uma reforma da estrutura da Organização. Diz quem já entrou no "bunker" que é uma estrutura ultrapassada onde o metro quadrado por pessoa é bem inferior às regras actuais da NATO.
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É um resquício da Guerra Fria. Hoje só continua a ser usado por falta de espaço à superfície, mas de acordo com as novas directivas da NATO já não deveria ter pessoas em permanência lá debaixo! As pessoas pensam que existem ali 'submarinos', mas são gabinetes normais debaixo do chão. Lá em baixo há geradores, meios de comunicação e sobrevivência, filtragem de água e ar para sobreviver em caso de ataque. Mas, hoje, essa 'ameaça' já não se põe (...)
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Se o Comando sobreviver à reestruturação, serão feitas obras e a maior parte das pessoas virá para a superfície. Apenas o Centro de Operações ficará no "bunker" porque é muito pesado movê-lo e por razões de segurança.
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Mas, afinal, o que faz ao certo o Comando da NATO em Oeiras? Enquanto os comandos "rivais" de Brunssum, na Holanda, e de Nápoles, em Itália, têm uma estrutura três vezes maior (cerca de mil indivíduos) e a seu cargo as operações do Afeganistão e da Bósnia, respectivamente, Portugal concentra-se mais em África. Sobretudo na Operação Ocean Shield, contra a pirataria no Corno de África, com a presença de cinco navios e um submarino, e a Operação NS2AU, de apoio à União Africana.
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Portugal é o único país hospedeiro que paga para ter um Comando da NATO no seu território!... Uma factura de cerca 600 mil euros, o equivalente a 10% dos custos anuais do Quartel-General, que no total ascendem a seis milhões.
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«Nos outros comandos, é a NATO que paga à Holanda e à Itália pela renda do local», diz o 'Chief of Staff' português - Contra-almirante Pires da Cunha -, sublinhando outras vantagens que podem pesar a favor de Oeiras: o Comando está numa capital europeia, com as Embaixadas por perto, o país é estável, seguro, tem bom clima e um baixo custo de vida!
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Ainda no presente, na dita Estrada da Medrosa, o Comando da NATO é uma estrutura bem protegida por arame farpado e câmaras de vigilância. Os visitantes são recebidos por militares armados e na recepção saltam à vista documentos presos na parede, sobretudo um que diz "Ataques Terroristas" em letras garrafais. Do outro lado do detector de metais, outros militares de escala de serviço encarregam-se da tarefa de anfitriões para uma visita guiada.
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Por trás do edifício principal, no cimo de uma pequena colina (antes palco de um Forte Militar nas guerras napoleónicas), saltam à vista várias antenas e guaritas em betão com portas de ferro. Por baixo está o intrigante "bunker system", o "coração" do Comando onde são monitorizadas as operações de 24 horas por dia e mantido contacto com todo o mundo. A entrada não é secreta, mas também não está à vista e só é acessível a pé.
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Actualmente, um grupo de trabalhadores muda as enormes letras de pedra com as iniciais do Comando; ao longo de mais de 40 anos, o Comando de Oeiras mudou de nome várias vezes, a última em 2009!... Desta feita, se descer de nível, esta obra será em vão... pois poderá receber novo «crisma»!
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Há alguma ansiedade e é inevitável que a reforma da NATO crie ruído na Cimeira de Lisboa. Se houver muitas vozes dissonantes, a cimeira poderá ser um fracasso. Parece certo que o número de Comandos vai ter de ser reduzido. São muitos e a gestão é complicada e burocrática.
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O Analista do Instituto e Estudos Estratégicos da Universidade Católica - Miguel Monjardino - diz que um país com uma fachada Atlântica como a de Portugal tem interesse [?!] em manter um Comando que permita explorar essa mais-valia. Desconhece é se ainda se vai a tempo e que apoios teremos na cimeira!
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Parece que, Portugal... tem o facto de já não ter muitos recursos militares para contribuir para a NATO!
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Pelos vistos... Portugal paga para pertencer ao Clube, e os outros 'Sócios' em "Assembleia-Geral", ainda se podem fazer 'esquisitos'!...
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Por mim... prescindo, desde sempre... desta "Honra"!

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PAZ SIM!! NATO (OTAN) NÃO!! Manif. dia 20 de Novembro p.f.



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Depois da «Cimeira»
Limpar é Preciso!












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(Adaptado do Artigo de Bárbara Silva
do Diário Económico - de 15 p.p.)
Fotos In Net

2010-11-16

« MEDJUGORJE... A ' EVOLUÇÃO na CONTINUIDADE' de FÁTIMA »

Videntes de Fátima
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Os Pastorinhos
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(Portugal)
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Videntes de Medjugorje
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(Ex-Jugoslávia)


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Em 17 de Março último, a Congregação para a Doutrina da Fé instituiu uma Comissão Internacional de estudos sobre Medjugorje sob a presidência do Cardeal Camilo Ruini. É uma comissão composta por cardeais, bispos, peritos e especialistas que trabalharão de forma confidencial sendo os resultados do seu estudo usado para as necessidades da Congregação.
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Para a maior parte dos católicos esta notícia pouco significou mas para muitos foi um momento de alegria e de esperança após a visita do Cardeal Schonborn a Medjugorje na última quadra natalícia, que se avizinha.
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Para todos a quem o estranhíssimo nome desta aldeia pouco significa, redigimos estas linhas.
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Medjugorje - palavra aparentemente tão difícil - significa «entre colinas» em servo-croata e já foi aportuguesada no Brasil como Mediugorie. Esta pequena aldeia situa-se na república da Bósnia e Herzegóvina [antiga Jugoslávia].
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Tal como Fátima, Medjugorje situa-se numa zona montanhosa e pobre, mas profundamente católica embora esteja num país predominantemente muçulmano.
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Desde o dia 25 de Julho de 1981 que cinco adolescentes e uma criança de 10 anos (agora todos adultos, casados e com família), têm uma experiência espiritual extraordinária: dizem ver Maria, a mãe de Jesus, que traz um urgente pedido de conversão para a humanidade, correndo esta um grave risco se não atender aos solícitos pedidos pela Virgem.
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Ela diz que estas aparições continuam as da Cova da Iria - em Fátima - anunciando assim, de novo, o triunfo do Imaculado Coração já aqui previsto.
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Mas tal como em Fátima, se os pedidos não forem atendidos, gravíssimo mal ameaça a humanidade antes do Triunfo da Imaculada.
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Dez são os segredos que serão anunciados pelo Reverendo Padre Petar Ljubicic, três dias antes de acontecerem. Após o décimo segredo, virá o triunfo da Mãe Imaculada.
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Que pede a Mãe a estes videntes? Mais ou menos o mesmo que vem pedindo uma e outra vez:
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1) Reza diária do Rosário com amor e alegria.
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2) Participação diária na Santa Missa, ou se tal não for possível, pelo menos deve ser salvaguardada a participação dominical, não devendo ser esquecida a comunhão.
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3) Pede-se a Confissão mensal que deverá ser feita com o objectivo interior de conversão permanente. Mas, caso se cometa um pecado grave não se deve esperar pela confissão do mês seguinte devendo fazer-se a confissão logo a seguir.
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4) A Bíblia deverá ser lida diariamente, vivenciando cada texto lido durante o dia. Nas quintas-feiras dever-se-á meditar os versículos 24 a 34 do Evangelho segundo São Mateus.
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5) Dever-se-á jejuar a pão e água nas quartas e sextas-feiras de todas as semanas do ano. Esse jejum deverá ser feito com muita oração e imenso amor.
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Esses são os pedidos que os videntes Ivanka, Mirjana, Vicka, Marija, Ivan e Iakov nos apresentam vindos da Senhora que ali aparece como Rainha da Paz.
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Muitos milagres têm acompanhado as aparições durante todos estes anos (elas - as aparições - continuam a ocorrer diariamente às 17 horas e 40 minutos no Inverno e, uma hora mais tarde, no Verão), mas o maior de todos os milagres tem sido a conversão interior dos milhares de peregrinos que por Medjugorje passam (...)

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Recolhemos a maior parte destas informações num folheto encontrado na caixa do correio, as quais adaptámos e desenvolvemos para a redacção deste 'post'.
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Depois, por se achar a matéria algo incompleta quanto a mais pormenores, pesquisámos alguma coisa e... surpreendemo-nos com múltiplos filmes no YouTube, sobre o assunto!
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Ficámos com a sensação « déjà vu »... e, perante o metralhar constante de agradar ou não aos "Mercados" para evitar o "Abismo", dar voltas e voltas na cama carregadinho de insónias e cansaço com medinho do papão do FMI, dividimo-nos na decisão de aceitar o que o Poder exige de nós, ou defendermo-nos com esta nova Edição do Milagre do Sol.



.MENSAGEM de MEDJUGORJE!...


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EVOLUÇÃO na CONTINUIDADE das... APARIÇÕES...



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2010-11-14

«O Sr. OLÁ terá dito: "ADEUS, AMIGOS!... SEJAM FELIZES... POR MIM!" »

JOÃO MANUEL SERRA
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O ' Senhor do Adeus'
ou
'Senhor do Olá'...
como gostava mais que lhe chamassem

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(1930-2010)
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.Do Jornal DESTAK

Autoria de: João Manuel Serra

Morreu o "Senhor do Adeus"

11 | 11 | 2010 10.11H

Figura incontornável da cidade de Lisboa - que acenava a quem passava pela zona do Saldanha apenas porque acreditava que, dessa forma, fazia os lisboetas mais felizes - João Manuel Serra faleceu ontem aos 80 anos.

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FILMADO no Bairro do RESTELO em Lisboa

Luis Miguel Mota | lmota@destak.pt

Todos os dias, o Senhor do Adeus andava pelas ruas de Lisboa acenando a quem passava, cumprimentando com um adeus bem contente os carros que lhe buzinavam, também eles retribuindo o aceno.

A explicação para o modo de vida peculiar disse-o um dia numa entrevista que, depois da morte da mãe, era a sua forma de afugentar a solidão «essa senhora é uma malvada, que me persegue por entre as paredes vazias da casa. Para lhe escapar, venho para aqui. Acenar é a minha forma de comunicar, de sentir gente».

João Manuel Serra nasceu em 1930 e era um amador de cinema, indo todos os domingos ao Corte Inglês ver e discutir os filmes com os amigos.

Tornaram-se célebres, as tertúlias semanais que partilhava com o amigo Filipe Melo (músico de jazz, realizador e autor de banda desenhada) que depois este comentava no blogue O Senhor do Adeus.

Ontem à noite, em vez da habitual crítica de João, foi uma despedida que Filipe Melo publicou:

«Todos os dias, o João dizia adeus às pessoas. Era assim que assim fazia as pessoas felizes e que as pessoas lhe retribuíam essa felicidade. Era um dos meus melhores amigos, e terei muitas saudades das nossas idas ao cinema e de o ver a sorrir e a trazer alegria a todos os que o rodeavam».

João Manuel Serra assinava também uma rubrica de cinema no programa A Rede, do Canal Q, "apareceu" na banda desenhada As Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy (de Filipe Melo e Juan Cavia), e participou no filme I’ll See You In My Dreams e na série de televisão O Mundo Catita.

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VÍDEO COM UM FADO DEDICADO ao... "Senhor do Adeus" ...



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In: Arquivo do Blogue
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Sábado, 5 de Março de 2005

O Homem que diz Adeus

Recebi este texto através de uma boa amiga (obrigado, Patrícia), e não resisti a publicá-lo. Tentei saber a origem, não consegui, por isso limito-me a agradecer ao anónimo autor por nos lembrar algo tão óbvio e ao mesmo tempo tão ignorado, que é o facto de todos os rostos guardarem uma história, feita de vivências e sentimentos que o tempo ameniza mas não apaga, e que até actos que a olho nú nos causam espanto e admiração, podem ter fundamento no vazio do coração de alguém. Não andará também o nosso, por vezes, mais vazio do que devia?


Quem não conhece o Homem que diz Adeus...

Para quem não o conhece, é imperativo passar no Saldanha por volta das 23h e desfrutar de um momento que já faz parte da “nossa” cidade! Como é possível um simples gesto proporcionar um momento, apesar de um pouco “estranho”, agradável para quem passa... afinal se não fossem estas “pequenas” diferenças, a vida seria sempre igual... O homem que diz adeus.


É ele o homem que noite após noite acena aos carros que passam na Avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa. É por ele que tocam as buzinas, que se atiram beijos e sorrisos, que se gritam «boas noites!» e «adeus!», numa «onda de comunicação» que já dura à três anos e que nem se sabe explicar muito bem como começou. Numa cidade de estranhos em mundos fechados este é o seu «milagre». E é também o seu remédio. Há quem lhe chame o «senhor do adeus». Mas «senhor» é coisa que detesta que lhe chamem.


Aos 72 anos, João Manuel Serra tem a inocência de uma criança, o espírito de um jovem, mas o olhar nostálgico de um ancião que sente «ter aprendido com a vida tarde demais». A sua roupa clássica e a ondulação do cabelo grisalho disfarçada com gel, dão-lhe um ar meio aristocrático, que já faz parte da paisagem do Saldanha. Todos o conhecem e quem trabalha nas redondezas sabe o seu percurso de cor.


«Chega por volta das onze, meia-noite... Começa pela zona do Monumental, vai descendo a rua até ao Marquês e depois sobe, parando sempre em pontos estratégicos. Nunca falha.». Arménio é chefe de mesa na marisqueira Maracanã e já lhe serviu alguns jantares. «É muito simpático. Quando passa aqui, acenamos-lhe pela janela. Só não sei: porque é que faz isto?».


João começa por dizer que não sabe bem, mas, a pouco e pouco, interrompendo sempre para acenar, vai desvendando o mistério. Tudo começou há três anos e meio, depois da morte da mãe, com quem vivia. Precisava de se distrair, incomodava-o a ideia de estar sozinho em casa. Um dia, aconteceu. Já reparara que as pessoas o cumprimentavam sem razão, nos centros comerciais e, sem saber como nem porquê, surgiu o primeiro aceno na estrada. Depois veio outro e outro, e o caso virou fenómeno.


«No início era só rapaziada nova, mas depois contagiei todo o tipo de gente», explica sem esconder um certo orgulho.


Graças ao seu «milagre», já deu entrevistas para a televisão e para os jornais, apareceu em dois filmes e até num teledisco. «Sempre quis ser actor mas nunca me deixaram...». Ou nunca teve coragem de tentar.


Algumas dezenas de acenos mais tarde, já não é um João risonho e despreocupado, «com imensos amigos» com quem vai «ao teatro e ao cinema», que fala por detrás dos óculos de massa negra. Nos olhos cinzentos, estão duas lágrimas contidas. Pelo passado, pelo presente e por um futuro que não chega. Com um raciocínio de fazer inveja aos mais novos, o louco, o excêntrico, transforma-se lentamente num avô contador de histórias, que lê Agatha Christie para combater o medo ao andar de avião, que não tem telemóvel porque detesta máquinas e que não vê televisão.


João nasceu no seio de uma família nuito rica. Até aos dez anos, viveu num enorme palacete da Tomás Ribeiro, cobiçado mesmo pelo próprio Gulbenkian. «Que saudades tenho desse tempo... A casa estava sempre cheia de família e amigos...».


Mimado desde bebé, fez a instrução primária toda em casa, com um professor particular, pois no primeiro dia de aulas no Colégio Parisiense chorou tanto que os pais não tiveram coragem de o mandar de volta. «Fui criado numa redoma de vidro», confessa, explicando: «Naquela época era tudo muito diferente, havia muitos tabus.». Depois do divórcio dos seus progenitores, quando tinha 13 anos, João foi morar para o Restelo com o pai. Por ele, inscreveu-se em Direito, mas depressa desistiu, «era muito chato».


Depois de uma igualmente curta passagem pelo curso de Histórico-Filosóficas, o pai, «que não sabia que fazer» com ele, mandou-o para Londres com o irmão. «Foram três anos fantásticos. Tinha um grupo de amigos fabuloso, com quem viajei imenso. Teria lá ficado, se não fosse tão agarrado à família...». Sem quase pôr os pés nas aulas, regressou a Portugal e, depois da morte do pai, pouco tempo depois, foi morar com a mãe, de quem não se separou até ao último dia da sua vida. «Viajámos muito os dois. Todos os anos íamos a Paris e Madrid. Conheço a Europa inteira, excepto a Grécia...».


E o olhar perde-se num momento só dele, como se pensasse alto. Quando a mãe morreu, «ficou desasado». E talvez por isso esteja todas as noites a «comunicar».


Admite que o que faz «não é muito normal», mas não passa sem isso. É o remédio que lhe permite disfarçar a solidão que o consome e o faz olhar para o passado com arrependimento, por não ter ousado viver a sua vida em vez da dos outros.


«Ás vezes penso que foi tudo inútil...»
No baú dos sonhos perdidos, jaz o curso que não tirou, o trabalho que nunca fez, os filhos que não teve e, pior, o grande amor que nunca conheceu. «Sinto-me só. Incompleto. Como se algo estivesse a falhar.».

E assim lacrimeja quando vê um casal idoso de mãos dadas, ou quando dois rapazes, que diz «reconhecer do subconsciente», param o jipe para tirar uma fotografia com ele.


«Encontramo-nos no céu», repete, aludindo ao que um diplomata ucraniano lhe disse uma vez.


O homem do lixo atira-lhe o derradeiro aceno da noite.


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Num aceno de simpatia... disse-me adeus.

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Não conheci este homem na zona cosmopolita do Saldanha em Lisboa. Foi noutro bairro lisboeta - o Restelo -, onde, pela primeira vez, em Maio passado, o vi acenando para os carros que circulavam.
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Parei e perguntei-lhe se precisava de alguma coisa. Que não!... Estava simplesmente a cumprimentar - quem passava...!
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E continuei a passar todos os dias por aquela artéria do Restelo, acenando-lhe, até ao dia 1 de Julho p.p., data que me marcou - e «desasou» também - pelo mesmo motivo que, alegadamente, o levou àquele comportamento (...) de nos dizer adeus... a todos!



Adeus...
Companheiro







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Publicado p/ registo nesta minha
"gaveta" de memórias pessoais.
Vídeos: YouTube
Imagens: Seleccionadas na Net
Fontes: Identificadas no texto