[ Vox populi vox Dei ]

2010-10-27

« LISBOA, MENINA E MOÇA... "Vai Casar a Avenida"!... »

O POETA CHIADO
António Ribeiro Chiado
(1520 - 1591)
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Em cima e em baixo: duas vistas
do
Largo do Chiado
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O "snob" e atrevido Chiado pediu namoro à pacata e burguesa Avenida. Ninguém saberia do caso se o Largo da Anunciada não começasse, cheio de ciúmes, a mover influências para afastar de um matrimónio breve as duas mais chiques e elegantes artérias citadinas.
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"Monsieur" Chiado é um rapaz ligeiramente aristocrata, conversador, cheio de espírito, petulante por vezes, mas sempre cavalheiro. Já lhe alvejam uns fios prateados na cabeleira, farta, de poeta. Isso, porém, dá um ar de dignidade ao seu rosto ingénuo, sonhador, romântico, de mancebo. Vivendo no deslumbramento que encanta os poetas, conhecendo tantas mulheres bonitas, 'monsieur' Chiado, para todas, em êxtase, tem um sorriso. Sendo galanteador - é discreto. Diz os bons dias às moças apressadas, tira o chapéu, respeitoso, às damas chiques que vão ao chá, sorri à turba que passa indiferente, e à noite, cansado, antes de se deitar, ainda recita ao Camões o último poema de Outono. Julgavam os entendidos, os eruditos ratos de bibliotecas e arquivos, que o Chiado morria solteiro. Supunham, até, que ele tinha mandado guardar um aposento na Ordem Terceira, onde acabaria os seus dias, a olhar o Tejo, quando, no decorrer dos séculos, o cubículo onde vive fosse para obras. Puro engano! Chiado rejuvenesce - é eterno. E porque havia ele de ficar solteirão, agora que há abono de família para tudo e todos? (...)
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Mas quero aqui garantir que este casamento, a realizar-se, não é por conveniência, nem esconde interesses. Talvez afinidades. Isso, sim. A poesia dá-se com a liberdade. E depois pergunta-se - quem é a Senhora Avenida, para rejeitar um partido destes? Não é ela, afinal, a Avenida da Liberdade?


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Avenida da Liberdade
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Em cima e em baixo: duas perspectivas
da
Avenida da Liberdade

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Ela não tem título - é burguesa, pacata, com o espírito entaipado entre prédios de mais de cinco andares! Além disso, desde há muito tornou-se cinéfila. Conheceu o Éden, Condes, S. Jorge, Tivoli... etc.! Quando quer ter espírito empreendedor, vai admirar os restos do Parque Mayer e admirar os esforços de reconstrução que por ali se desenvolvem! O papá da Avenida da Liberdade, o sr. Rossio, é um negociante. É um homem prático de comércio que até já quis, em tempos que já lá vão, a água dos lagos para vender capilé, e as antigas barracas da Carris para quiosques de jornais. Os tempos modernos acabaram com isso e também com os carros eléctricos! Foi pena; todavia, o sr. Rossio preferiu casar com a libertina Rotunda a acasalar-se com a Praça do Comércio. E não lhe caíram os parentes na lama! A Rotunda, que andava sempre com a populaça em festas rijas, aburguesou-se. Tirou o lenço, pôs as visitas sem gravata fora de casa e vai disto: envolveu-se num tapume de obras, caboucos para ali, caboucos para acolá, e vão lá vê-la! Usa chapéu, está "rafinnée", mora num quinto andar de prédio com elevador. Julgo até que é mais conhecida por 'madame' Rotunda, desde que se divorciou do marido, que teima em dar à língua no Café da Brasileira - e a fazer negócios à porta do Café Gelo. A 'pequena' Avenida, pequerrucha, de mama, como Eça de Queiroz a encontrou, teve a sorte de ser operada por um grande cirurgião, o Rosa Araújo. A ele deve a vida, sem dúvida. Tinha um grande 'tumor' na espinha - o Passeio Público. Foi necessário lancetá-la - e sem anestesia. Depois, o resto foi fácil.
A pequerrucha começou a andar. A 'madame' Rotunda, encantada com a filha, que cada vez fugia mais ao pai, abriu-lhe os braços. A criança medrou - e hoje, já maior, é isto que se vê.
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E a verdade, aqui entre nós, é que a Avenida teve muitos pretendentes. Sabe-se que o duque de Ávila lhe fez a corte. O marquês Sá da Bandeira mandou-lhe, do jardim, muitas flores e cartões perfumados.
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Depois da aristocracia, gente de estirpe, alta-finança e comércio, sábios e economistas, quiseram desposar a mais famosa dama de Lisboa.


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O Rossio e seus encantos arquitectónicos mundialmente conhecidos
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ROSA ARAÚJO
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(1840-1893)
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Presidente da Câmara
Obreiro da Avenida

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MONUMENTO QUE DISTINGUE ROSA ARAÚJO COMO «CIRURGIÃO»
da
Avenida da Liberdade
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O Cais do Sodré e Estátua ao Duque da Terceira

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A todos, porém, se esquivava, com um sorriso. O poderoso Cais do Sodré ofereceu-lhe um paquete e o estuário do Tejo até à barra.
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O Campo das cebolas avistou-se com a "madame" Rotunda e disse-lhe, com a mercadoria à vista, em Santa Apolónia, que se a bela Avenida casasse com o seu filho, o Terreiro do Trigo, lhe dava um comboio cheio de géneros e uma grande quota mos vastos armazéns. Mas a pobre senhora, apesar de ambiciosa, disse logo que a pequena era maior e vacinada, já respondia perante o Código e tinha independência para resolver.
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Ainda mandaram o S. Pedro de Alcântara, bom pregador, falar com ela - mas a Avenida não cedeu. Estava na sua: só casaria por amor. Ela queria ser como a Rua dos bem-Casados.
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E os anos passaram, e de matrimónio nada. As brigas pelo amor da famosa Avenida nunca mais pararam. Em dada altura, muito gritou o Socorro, quando viu o Martim Moniz de espoleta artilheira, derrubar o velho Marquês de Alegrete, em plena Mouraria, por ciúme da Avenida!


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.Pois a partida vai ser ganha pelo Chiado. É ele , na realidade, que merece o coração da bela Avenida. Disse o Fala-Só que o casamento foi marcado para o dia de outro grande acontecimento: a inauguração da ponte sobre o Tejo. Ainda bem. Assim já os noivos podiam ir à Outra-Banda, sem o perigo de enjoar nos barcos cacilheiros.
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Parece que a madrinha da Avenida, a srª. Dª. Glória (quem sobe pela Glória, pára na Misericórdia) foi perguntar aos Fiéis de Deus se o casamento pode ser civil. Não tem grande fé. Acha "monsieur" Chiado muito frívolo, abonecado, um marido apenas para levar às compras. Na sua opinião, a rapariga devia ter escolhido um homem possante, enérgico, como o Campo de Santana ou o Largo do Leão. Mas gostos são gostos. Se for verdade nós, havemos de encontrar os papéis à porta do Jardim... do Regedor. O Chiado pode levar uma bonita representação.
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Dois padrinhos gloriosos: Capelo e Ivens. A Rua do Alecrim e das Flores decorarão o ambiente. A Horta Seca - essa, coitada não pode fornecer a hortaliça para o jantar. A Rua do Norte promete estar calada, para que não sopre o vento. A Rua das Chagas, mais acima, manda um telegrama, porque fica de cama a mudar os pensos. O Poço dos Negros não será convidado, por questões reaccionárias. Abrem o cortejo, de branco, os Anjos. A Praça da Alegria contará anedotas - e o Quebra Costas, por ser desordeiro, vai ao lado do Guarda-Mor.
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O Menino de Deus pegará na cauda da noiva, se ela autorizar. D. António Prior do Crato, por especial deferência, lançará a benção. Para maior realce do acto, o largo do Andaluz fornece, com redução de preços, os watts da energia eléctrica.
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Certamente que muitos convidados ficarão esquecidos, e outros terão sido recordados pelos seus nomes antigos! Santa Bárbara, por exemplo, só será lembrada se houver trovoada e o Areeiro, ainda pobre, sem fato de cerimónia, só vem à boda se arranjar, nos transportes públicos, um lugar.
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Mas isto é deitar contas à colheita - e ainda agora a semente foi à terra! Que é verdade - o namoro, sabe-se. Foi o Largo da Anunciada que o disse. Esperemos pois. Nada de precipitações!
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A Boa Vista, quando enxergar alguma coisa, há-de dizer. E, até lá, deixemos o Chiado e a Avenida viverem, sonhando, o seu idílio (...)

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Vídeo YouTube

Lisboa, Menina E Moça ...
Poema: Ary dos Santos
Voz: Carlos do Carmo
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Adaptado de: Crónica de Lisboa pitoresca
Monsieur Chiado vai casar...[ por Manuel
Martinho].
in: Século Ilustrado de 1947NOV29
Imagens: Net

2010-10-23

«O "Dia de São Nunca à Tarde" do ORÇAMENTO DE ESTADO »

Palácio da Assembleia da República Portuguesa


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O Parlamento




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História Interminável do Orçamento de Estado/ 2011


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Aprovem o Orçamento quanto mais não seja para ficarem com a consciência mais tranquila e sossegarem os especuladores internacionais.
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Mas tomem bem nota disto: o Orçamento, além de, eventualmente, terrivelmente injusto, não vai resolver problema nenhum da Economia portuguesa.
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Daqui a uns meses está tudo na mesma e retoma-se a lamúria habitual para encontrar novas soluções e alternativas.
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Não é com pessoas desmotivadas que se seguram Empresas, nem é com um Povo revoltado que se recupera um País!
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O mal está sentado em dois 'sofás' à espera que alguém o desinstale. Num deles senta-se o marasmo nacional, em que cada um faz o menos possível! No outro, aparentemente adormecidos, cochicham os abutres do costume, sempre prontos para meter ao bolso os prémios, alcavalas, indemnizações e outras mordomias que criam para si próprios, para os amigos e "boys" em geral!
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Enquanto uns não produzirem mais e outros comerem menos, não há Orçamento que nos valha!


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O velho símbolo da Economia


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POEMA

«DEVIA MORRER-SE DE OUTRA MANEIRA»

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Devia morrer-se de outra maneira.

Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.

Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados,

fartos do mesmo sol, a fingir de novo todas as manhãs,

convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite

para o ritual do Grande Desfazer:

"Fulano de tal comunica a V. Exa. que vai transformar-se

em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio".

E então, solenemente, com passos de reter tempo,

fatos escuros,olhos de lua de cerimônia,

viríamos todos assistir à despedida.

Apertos de mãos quentes.

Ternura de calafrio.

"Adeus! Adeus!"

E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,

numa lassidão de arrancar raízes...

primeiro, os olhos... em seguida, os lábios...

depois os cabelos... a carne, em vez de apodrecer,

começaria a transfigurar-se em fumo...

tão leve... tão subtil... tão pólen...

como aquela nuvem além... vêem?




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Poema de:
- José Gomes Ferreira







UM "COBRADOR"

2010-10-15

« ADOPÇÃO... AMOR SEM FRONTEIRAS (...) »


ADOPTEM-NOS
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Não tinham conseguido ter filhos. Por isso resolveram ir a uma dessas instituições que recolhem crianças abandonadas manifestar o seu desejo de adoptarem uma criança.
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Os responsáveis da instituição, enquanto tratavam da papelada, foram avisando que se tratava de um processo moroso e nada simples. Mas, quando foi feita a pergunta sobre que preferências tinha o casal quanto à criança a adoptar, o processo descomplicou-se bastante. É claro que não se poderiam evitar umas quantas maçadas em forma de papel... mas a preferência que o casal manifestara era tão estranha, tão insólita... Talvez não fosse assim tão difícil.
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Tinham dito: «Queremos ficar com uma criança que ninguém deseje; aquela que tenha menos hipóteses de ser adoptada. Não nos importa que seja deficiente. E, se puderem ser duas, melhor»...
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Tão estranho... tão inusitado (...)
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E... no entanto... tão natural, tão lindo. Tão verdadeiramente de acordo com a nossa natureza.
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Já nos parece estranho ver uma manifestação de amor. Já nos parece estranho que alguém olhe para uma criança como um enorme poço vazio que é preciso encher gota a gota, balde a balde. Com sacrifício e dor. Sem compensações, sem exigir nada em troca - o amor não tem outra compensação que não o próprio amor.
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Lemos há muito tempo, num qualquer livro de poesia, dois versos que de vez em quando nos vêm à cabeça, a propósito de muitas coisas a que vamos assistindo. Não nos lembramos quem os escreveu, nem com que intenção foi escrito o poema de que faziam parte, o qual, de resto, esquecemos totalmente. Mas os versos falam, mesmo sem a sua moldura original:

. «Tanto de amor se disse / que não sei como dizer que amor é outra coisa ».
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Tanto de amor se tem dito, que é quase como um acto obsceno falar, ou escrever, sobre o amor.
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Os homens descobriram há muitos séculos que o amor é o mais importante de tudo; que é ele que move o Mundo; que é ele que guia os passos dos humanos; que nada mais interessa. Mas temos assistido a uma mudança subterrânea: continuaram a dar a mesma importância ao amor, mas mudaram subtilmente o conteúdo da palavra.
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Chamaram amor a outras coisas, à superfície do amor, à escória do amor. Construíram uma mentira gigantesca!
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Têm chamado amor a coisas nas quais não conseguimos descobrir senão egoísmo, equilíbrios de egoísmos, negócio!...
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Quem diz que amou só porque sentiu prazer, não entende nada de amor. Porque quer colher, enquanto o amor é uma força que leva a semear.
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Quem dá porque quer receber, ou quem dá só enquanto dar não dói, é um comerciante. Calcula. O que equivale a dizer que nunca amou! E que a pessoa amada é uma mercadoria - sujeita, como as mercadorias, a critérios de qualidade e a prazos de validade.
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Se nada interessa senão o amor, e se o amor é isto, temos aqui uma explicação para tantas coisas tristes que temos observado em nós e à nossa volta (...)

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Título do vídeo escolhido: «Adoptem-nos...»



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De mãos dadas...

2010-10-05

« O ANIVERSÁRIO da IMPLANTAÇÃO da REPÚBLICA »

Painel (22x5 metros) junto ao tecto do Hemiciclo
da
Assembleia da República
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(Pintura de Veloso Salgado)
R E P U B L I C A N I S M O




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Para perscrutar o sentido mais fundo do republicanismo, há que situá-lo no contexto histórico português, ou seja, nas suas relações com o liberalismo. Nesta perspectiva, afigura-se legítima a asserção de que o republicanismo português já existia, latente, na corrente esquerdista das Cortes Gerais de 1820, na ideologia setembrista e na rebelião patuleia.
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Porém, sobretudo, ele é originário, matricialmente e no contexto europeu, da tríade liberdade, igualdade e fraternidade, que a Revolução Francesa tornou estandarte das esperanças progressistas no decurso do séculoXIX.
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O republicanismo pretendia superar o compromisso institucionalizado pela monarquia constitucional, que, em seu parecer, corromperia as virtualidades - e as virtudes - liberais no estabelecimento de um regime que efectivasse, por uma vez, quer a liberdade, quer a igualdade, quer a fraternidade, nas suas mais profundas relações intrínsecas.
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Queria que o governo do Estado fosse feito pelo povo e para o povo. Com a fundação do Partido Socialista Português, dá-se a bifurcação do republicanismo nas vias divergentes do liberalismo e do socialismo e a nebulosa republicana em busca de uma ideologia viável, apresentava um leque de tendências.
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Mas o republicanismo unitário triunfou, e entendidos os homens entre si e estabelecido um campo comum ideológico, iniciou-se a obra de propaganda e da conquista da paixão popular para o republicanismo.
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Em boa verdade, a partir deste momento o republicanismo é tão-só um liberalismo que, buscando incorporar uma mística patriótica, concebe a « ideia dum ressurgir da pátria portuguesa ».



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A REPÚBLICA


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JOSÉ RELVAS
(1858-1929)


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José Relvas, a voz que proclamou a República
da varanda da
Câmara Municipal de Lisboa
na manhã de
5 de Outubro de 1910





José Mascarenhas Relvas, abastado agricultor ribatejano com espírito de político, cerrou fileiras na Ala do Radicalismo como graduado do Partido Republicano e foi eleito membro do Directório do mesmo, no Congresso de Setúbal de 1909.
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Com Magalhães Lima, foi encarregado da missão de esclarecer alguns Governos estrangeiros acerca da possível implantação da República em Portugal.
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Foi Chefe do primeiro Governo nitidamente republicano que então se formou, e até à sua morte manteve-se sempre fiel às ideias que o fizeram abraçar o Partido Republicano, não só por ideologia ou por simpatia, mas com a determinação de fazer uma Revolução.








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Verso de moeda de 20 centavos de 1913
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José Relvas fixou a orientação financeira das novas instituições
e regulamentou o novo sistema monetário a que chamou
ESCUDO

2010-10-02

« POESIA OUTONAL em PROSA, de BERNARDO SOARES »

BERNARDO SOARES [semi-heterónimo de Fernando Pessoa]
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(Detalhe de escultura em betão, da autoria do artista plástico António Seco)




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Obra composta por Bernardo Soares




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.Bernardo Soares, o semi-heterónimo de Fernando Pessoa, é ajudante de Guarda-livros na cidade de Lisboa, escreve sem encadeamento narrativo claro, sem factos propriamente ditos e sem noção de tempo definida.
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Foi nesta Obra que Fernando Pessoa mais se aproximou do género romance. Sob aquele nome, escreveu os 'Fragmentos' mais tarde reunidos em "O Livro do Desassossego", do qual transcrevo este excerto:
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" Prefiro a prosa ao verso, como modo de arte, por duas razões, das quais a primeira, que é minha, é que não tenho escolha, pois sou incapaz de escrever em verso. A segunda, porém, é de todos, e não é - creio bem - uma sombra ou disfarce da primeira. Vale pois a pena que eu a esfie, porque toca no sentido íntimo de toda a valia da arte.
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Considero o verso como uma coisa intermédia, uma passagem da música para a prosa.
(...)
Na prosa falamos livres. Podemos incluir ritmos musicais, e contudo pensar.
(...)
Um ritmo ocasional de verso não estorva a prosa; um ritmo ocasional de prosa faz tropeçar o verso."

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Com o devido respeito pela memória desta insigne figura da Literatura portuguesa, na minha qualidade de seu ex-vizinho - morámos na mesma rua muito embora em épocas diferentes -, vou , sem o desfeitear, citar um Poema dele (de 1933), que "contraria" esta falta de " jeito" para o verso:


.« I S T O »
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Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

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Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

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Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério de que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

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.O que é que podemos fazer... quando nos propomos lidar com Génios... na tentativa de os interpretar e estudar?!
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Simplesmente... admirá-los!...


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O OUTONO

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Atrás dos primeiros menos-calores do estio findo vieram, nos acasos das tardes, certos coloridos mais brandos do céu amplo, certos retoques de brisa fria que anunciavam o outono.

Não era ainda o desverde da folhagem, ou o desprenderem-se das folhas, nem aquela vaga angústia que acompanha a nossa sensação da morte externa, porque o há-de ser também a nossa. Era como um cansaço do esforço existente, um vago sono sobrevindo aos últimos gestos de agir. Ah, são tardes de uma tão magoada indiferença, que, antes que comece nas coisas, começa em nós o outono.


Cada outono que vem é mais perto do último outono que teremos, e o mesmo é verdade do verão ou do estio; mas o outono lembra, por o que é, o acabamento de tudo, e no verão ou no estio é fácil, de olhar, que o esqueçamos. Não é ainda o outono, não está ainda no ar o amarelo das folhas caídas ou a tristeza húmida do tempo que vai ser inverno mais tarde. Mas há um resquício de tristeza antecipada, uma mágoa vestida para a viagem, no sentimento em que somos vagamente atentos à difusão colorida das coisas, ao outro tom do vento, ao sossego mais velho que se alastra, se a noite cai, pela presença inevitável do universo.


Sim, passaremos todos, passaremos tudo. Nada ficará do que usou sentimentos e luvas, do que falou da morte e da política local. Como é a mesma luz que ilumina as faces dos santos e as polainas dos transeuntes, assim será a mesma falta de luz que deixará no escuro o nada que ficar de uns terem sido santos e outros usadores de polainas.

No vasto redemoinho, como o das folhas secas, em que jaz indolentemente o mundo inteiro, tanto faz os remos como os vestidos das costureiras, e as tranças das crianças louras vão no mesmo giro mortal que os ceptros que figuraram impérios.

Tudo é nada, e no átrio do Invisível, cuja porta aberta mostra apenas, defronte, uma porta fechada, bailam, servas desse vento que as remexe sem mãos, todas as coisas, pequenas e grandes, que formaram, para nós e em nós, o sistema sentido do universo.

Tudo é sombra e pó mexido, nem há voz senão a do som que faz o que [o] vento ergue e arrasta, nem silêncio senão do que o vento deixa. Uns, folhas leves, menos presas de terra por mais leves, vão altas do rodopio do Átrio e caem mais longe que o círculo dos pesados. Outros, invisíveis quase, pó igual, diferente só se o víssemos de perto, faz cama a si mesmo no redemoinho. Outros ainda, miniaturas de troncos, são arrastados à roda e cessam aqui e ali.

Um dia, no fim do conhecimento das coisas, abrir-se-á a porta do fundo e tudo o que fomos - lixo de estrelas e de almas - será varrido para fora da casa, para que o que há recomece.


Meu coração dói-me como um corpo estranho. Meu cérebro dorme tudo quanto sinto. Sim, é o princípio do outono que traz ao ar e à minha alma aquela luz sem sorriso que vai orlando de amarelo morto o arredondamento confuso das poucas nuvens do poente.

Sim, é o princípio do outono, e o conhecimento claro, na hora límpida, da insuficiência anónima de tudo. O outono, sim, o outono, o que há ou o que vai haver, e o cansaço antecipado de todos os gestos, a desilusão antecipada de todos os sonhos.

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Que posso eu esperar e de quê? Já, no que penso de mim, vou entre as folhas e os pós do átrio, na órbita sem sentido de coisa nenhuma, fazendo som de vida nas lajes limpas que um sol angular doura de fim não sei onde.


Tudo quanto pensei, tudo quanto sonhei, tudo quanto fiz ou não fiz - tudo isso irá no outono, como os fósforos gastos que juncam o chão em diversos sentidos, ou os papéis amarrotados em bolas falsas, ou os grandes impérios, as religiões todas, as filosofias com que brincaram, fazendo-as, as crianças sonolentas do abismo.

Tudo quanto foi minha alma, desde tudo a que aspirei à casa vulgar em que moro, desde os deuses que tive ao patrão Vasques que também tive, tudo vai no outono, tudo no outono, na ternura indiferente do outono.

Tudo no outono, sim, tudo no outono…



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In: «Livro do Desassossego» de Bernardo Soares



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