[ Vox populi vox Dei ]

2010-01-30

« HINO À MÃE NATUREZA »


".NATURA NON FACIT SALTUS."
- Aforismo de Leibniz -
(Ensaios, IV, 16)
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Ode à Mãe
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.A Natureza é a mãe
Mais generosa e severa
Ao céu Ela faz chorar
E ao Sol manda germinar
As flores na Primavera
As lágrimas que o céu derrama
Que fazem encher os rios
Com águas a murmurar
Correndo de par em par
Regando a terra, raízes
Das árvores no pomar
E para todas as plantas
Deixa a terra a hidratar
Para o seu fruto crescer
Que no útero da terra
Ainda luta para nascer
E quando chega a Primavera
Com o Sol a abençoar
Em todo o seu esplendor
Faz as plantas florir
O fruto amadurecer
As flores desabrochar
Com seu divino calor
As aves a procriar
Nos seus ninhos com amor
Faz as abelhas zumbir
Trabalhando com rigor
Que para o mel produzir
Colhem o néctar da flor
E é toda esta riqueza
Que a nossa mãe Natureza
Nos oferece por amor
Pois nunca ninguém pagou
Com o cifrão que o Homem inventou
Este tamanho Valor.
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Texto: Autoria do Alfobre
Imagens: Seleccionadas na Net

2010-01-29

« DIGAM,... de VOSSA JUSTIÇA ...! »


OS CAMINHOS
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O CHE

Nem um tanque
nem uma bomba de hidrogénio
nem todas as bolitas do mundo
luta em todas as partes
e em todas as partes
florescem as figueiras
do rio baixam montões de guerrilheiros
em Figueira do Rio dizem que o mataram
Che comandante
nós somos o caminho
e tu o caminhante
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.« A 15 de Janeiro de 1967, o poeta-guerrilheiro sandinista Leonel Rugama foi abatido num combate desigual contra as forças do ditador Anastázio Somoza.
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Não se rendeu ao inimigo, que foi armado pelo imperialismo e naquela altura impunha a ferro e fogo o domínio sobre os povos da América Central, sobre a Nicarágua.
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É desse poeta-guerrilheiro o poema ao Che que hoje faço lembrar por duas razões:
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Primeiro, por que o Che é de todo o mundo, mas muito particularmente dos dois lados mais sofridos do Atlântico Sul, precisamente quando as ditaduras fascistas e coloniais se impunham aos povos da América Latina e de África em plena década de 60.
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O Che após a gesta da Revolução Cubana, deu a sua contribuição à luta em África e na América Latina, até ao seu último suspiro, como um heróico comandante guerrilheiro.
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Depois por que deste lado do Atlântico três anos e alguns dias depois da morte de Leonel Rugama, a 27 de Janeiro de 1970, outro guerrilheiro, Rafael Zembo Faty, “Veneno”, tombava duma forma invulgar: para não se render às forças colonialistas portuguesas que haviam conseguido destroçar a coluna de que era comandante, como não possuía mais munições, suicidou-se com arma branca.
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Hoje aqueles que perfilham a lógica construída com sentido de vida sabem de onde vêm, que sementes estão na sua origem e como tudo começou desde Espanha, mesmo que muitos dos que tombaram no “Terceiro Mundo”, (na América Latina, em África e no Sudeste Asiático) não se conhecessem entre si, mas sentissem o que os unia para além da geografia.
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40 anos depois, ao recordar Leonel Rugama e Rafael Zembo “Veneno”, não basta vincar seu heroísmo, sua fidelidade, sua solidariedade disposta ao extremo e sua fé inquebrantável que superou o sopro de suas individualidades tão invulgarmente destemidas.
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O poder avassalador daqueles que manipulam a “alta finança” tem gerado as políticas da lógica capitalista neo liberal, com todo o cortejo de injustiças, de desigualdade, de egoísmo, de miséria e de morte para a grande maioria da humanidade, ao mesmo tempo que afectam cada vez mais a natureza, a Mãe Terra.
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Ganhar consciência dos artificiosos fenómenos que atingem de forma tão drástica o homem e a natureza através de inteligentes ideologias que promovem a educação, a saúde, o equilíbrio ambiental e a paz, é hoje tão essencial quanto há 40 anos era essencial lutar de armas na mão contra as ditaduras e o colonialismo.
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Na Nicarágua a Frente Sandinista honra a história e os seus mortos guerrilheiros com sua participação no quadro duma ALBA que é uma esperança para todos os deserdados da Terra.
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Em Angola, mesmo com um MPLA esvaziado do original sentido histórico de movimento de libertação, mesmo que oficialmente não se recorde o comandante “Veneno”, aqueles que têm memória mesmo nunca o tendo conhecido pessoalmente, retemperam no seu exemplo as suas forças e ganham fôlego para as batalhas que se seguirão contra a mentalidade neo liberal que se vai instalando na pátria de Agostinho Neto.
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No Brasil, dez anos depois faz-se o balanço do Fórum Social Mundial e equacionam-se inteligência e esforços para a década que aí vem por que “um outro mundo é possível”!
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Che comandante
nós somos o caminho
e tu o caminhante »
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POR: Martinho Júnior
[IN: Posted by Fábrica dos Blogs at Sexta-feira, Janeiro 29, 2010 ]

« AVISO À NAVEGAÇÃO da BLOGOSFERA »

Desafio a que adivinhem que estátua é esta, e onde se encontra?

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SORRIR SEMPRE PERANTE A PEQUENEZ DA PREPOTÊNCIA

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Anomalias informáticas têm privado os elementos da Fábrica dos Blogs de publicar normalmente em todos os seus blogues, por esse motivo temos reduzido as publicações. O problema está a ser resolvido e contamos brevemente recuperar a normalidade. Se acaso isso não se verificar passaremos a publicar de um dos nossos blogues associados a indicar.

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Evidentemente que este incidente não é o primeiro nem há-de ser o último, estamos preparados para isso e aceitamos com desportivismo os que nada mais têm para fazer do que odiar e pretender cortar a liberdade de expressão aos que estão com a razão. Mostram quem são, uns merdas lacaios dos que prejudicam milhões de seres humanos. Uns merdas que levam exploração, guerras, fome e miséria aos povos que oprimem ou que querem simplesmente domar.

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Ao colectivo da Fábrica dos Blogs não será fácil demoverem-nos de que consigam seus propósitos. A Fábrica dos Blogs não vai fechar só porque a querem calar, continuará até que a voz nos doa - para isso tomamos pastilhas de menta recheados de verdade, clarifica a voz.

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Obrigado aos que estão solidários connosco. Voltaremos à normalidade, talvez mais rápido que se possa admitir.

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Perante a prepotência dos mal formados sorrimos sempre, olhar a sua pequenez intelectual faz com que também por isso saibamos estar com a razão. Lutaremos sempre contra a prepotência.

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Posted by Fábrica dos Blogs at
Sexta-feira, Janeiro 29, 2010

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Legenda:

Texto integral de: Fábrica dos Blogs (Haja solidariedade com esta denúncia!)

Imagem: Câmara Municipal de Lisboa (aguardam-se "adivinhas")


2010-01-28

« ... BOBBY..., CANIS FIDELIS ! »






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Em 1864, em Edimburgo, Escócia, vivia um idoso homem chamado John Gray. Durante toda vida tinha sido um fiel pastor de ovelhas, enfrentando bravamente perigos e intempéries para defender o rebanho.
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Com quase setenta anos, ainda conservava o coração e a habilidade de um pastor, mas não a saúde necessária. Suas pernas já não podiam escalar as pedras para resgatar uma ovelha ou para espantar um predador. E embora a família para quem trabalhava gostasse muito dele, as finanças iam mal e não podiam conservá-lo.
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Assim, mancando por fora e magoado por dentro, lá se foi ele de comboio, deixando a sua terra natal rumo a um novo lar na cidade.
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Gray fazia um pouco de tudo e ganhou muitos amigos naquela cidade de mercadores. Eles gostavam do velho Gray pelo seu sorriso simpático, e por suas habilidades nos mais variados trabalhos.
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Mas, apesar de tantos amigos, sua família era constituída apenas por ele e um cachorrinho Fox Terrier – ou Skye Terrier - que ele adoptou com o nome de Bobby.
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John Gray e Bobby eram inseparáveis e estavam sempre juntos na rotina de passar pelas lojas em busca de biscates. Todos os dias eles começavam pelo restaurante local, onde recebiam de comer em troca dos serviços de Gray.
Depois, continuavam de porta em porta, até que, finalmente, à noite, os dois voltavam para um sotão que lhes servia de refúgio.
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Dizem que muitas pessoas pressentem quando a morte lhes bate à porta. Foi assim com John Gray.
Já havia passado quase um ano desde que chegara à cidade. Agora, em pleno Verão, as colinas estavam em flor. Um dia, ao amanhecer, ao invés de levantar, o velho Gray puxou sua cama até perto da janelinha do quarto.
E lá ficou, olhando as montanhas distantes de sua amada Escócia.
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Bobby - disse ele afagando o pêlo escuro e denso do cachorro, com a mão que agora só tinha a força do amor -, é tempo de eu partir... Eles não conseguirão afastar-me novamente da minha terra.
Sinto muito, camarada, mas vais ter de te cuidar sozinho daqui por diante.
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John Gray [vitimado pela tuberculose], foi enterrado no dia seguinte num lugar pouco comum para pobres. Por causa do lugar onde morreu e da necessidade de ser enterrado rapidamente, os seus restos mortais foram colocados num dos cemitérios mais nobres de Edimburgo, o Cemitério de Greyfriar.
Entre os grandes e mais nobres homens da Escócia, foi enterrado um homem comum e simples. Mas é aqui que nossa história começa.
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Na manhã seguinte, o pequeno Bobby apareceu no mesmo restaurante que ele e Gray visitavam cada manhã. A seguir, ele fez a ronda das lojas, como ele e Gray sempre haviam feito. Isto aconteceu dia após dia. Mas à noite, o cachorrinho desaparecia e somente reaparecia no restaurante no dia seguinte.
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Amigos do velho Gray interrogavam-se onde o cachorro ia dormir, até que o mistério foi resolvido. Cada noite, Bobby não ia à procura de um lugar quente para dormir, nem mesmo de um abrigo para o proteger do frio e da chuva constantes da Escócia.
Ele ia até ao cemitério Greyfriar e tomava posição ao lado do seu dono.
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O guarda do cemitério enxotava o cachorro cada vez que o via. Afinal, existia uma ordem expressa, proibindo a entrada a cães nos cemitérios. O homem tentou consertar a cerca e até pôs armadilhas para caçar o cão. Finalmente, com a ajuda do chefe da Polícia, o pequeno Bobby foi capturado e preso por não ter “licença”.
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E uma vez que ninguém podia apresentar-se como legítimo dono daquele cachorro, parecia que Bobby teria de ser abatido.
Amigos do velho John Gray e de Bobby, que souberam do caso, foram até à Câmara local a favor do cão. Finalmente, chegou o dia, quando o caso deles iria ser presente às altas instâncias camarárias de Edimburgo.
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Seria quase um milagre salvar a vida de Bobby, sem mencionar o tornar possível, para aquele cão fiel, poder ficar perto do túmulo de seu amigo.
Mas foi exactamente o que aconteceu, como um acto sem precedentes na História da Escócia.
Antes que o juiz pudesse dar a sentença, uma horda de crianças entrou na sala de audiência. Moeda por moeda, aquelas crianças conseguiram a quantia necessária para a licença de Bobby.
O Presidente da Câmara ficou tão impressionado pela afeição das crianças pelo animal, que concedeu a ele um título especial, tornando-o património da Cidade, com uma coleira declarando este facto.
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Bobby pôde então correr livremente, brincando com as crianças durante o dia. Mas, cada noite, durante catorze anos, até que morreu em 1879, aquele amigo leal manteve guarda silenciosa no cemitério de Greyfriar, bem ao lado do dono.
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Como a religião não permitia que o animal fosse sepultado em cemitério de gente, tomaram-se diligências, e foi possível enterrá-lo próximo do portão do cemitério.
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Quem um dia for a Edimburgo, poderá ver a estátua de Bobby naquele cemitério, passados mais de 120 anos, após a sua morte;
e, também, uma nobre e acusatória mensagem ao chamado “Homo sapiens” ...
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«Que a sua Lealdade e Devoção sejam uma lição para todos nós...»


2010-01-27

«PASTOR DOMINGOS E O SEU CÃO PILOTO»


.Foi numa deslocação ao Alentejo que conheci o senhor Domingos. Conheci-o naquela tarde e nunca mais o vi. É possível até que já tenha falecido; ele era já muito idoso nessa altura, mas não consegui esquecê-lo e ainda hoje o vejo apoiado ao cajado, uma manta rota sobre as costas curvadas, o rosto magro e cheio de rugas, a barba rala e aqueles olhos encovados, muito claros, que nos olhavam com uma expressão amiga, como se nos conhecêssemos há muito tempo e entre nós não pudesse haver segredos.
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Era pastor de uma herdade onde eu estava de visita, devido a uma actividade profissional que exerci numa empresa agro-pecuária como conselheiro, e foi o acaso de uma venda de gado que proporcionou o nosso encontro. Vendedor e compradores tinham decidido ir apartar as ovelhas para uma próxima feira e lá fui com eles ao monte, onde, próximo, o gado andava na pastagem.
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Pareceu-me que ele simpatizou logo comigo e enquanto os outros foram tratar do negócio ficámos os dois a conversar, ele apoiado no cajado, eu encostado num chaparro à sombra. Ao começo pouco dissemos. Falou-se do tempo, do gado, das crias, mas a conversa parecia a cada momento emperrar. Habituado à solidão, as palavras saiam-lhe com custo e os silêncios prolongavam-se, sem que isso parecesse incomodá-lo, como me acontecia. Foi precisa a chegada de um novo personagem para tudo se normalizar entre nós e eu conhecer verdadeiramente o "tio" Domingos. Essa personagem foi o "Piloto".
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Chegou vagarosamente junto do idoso, veio depois cheirar-me e por fim sentou-se, cabeça baixa, olhos mortiços. Vi o "tio" Domingos fazer-lhe uma festa na cabeça e com tanta ternura foi feita a carícia que isso me impressionou.
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- Vá, amigo, descansa um bocado - disse ele, com voz branda.
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Depois tirou da sacola um grande naco de pão, perguntou-me se era servido e, partindo-o ao meio deu a parte maior ao cão e começou a trincar o resto.
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Tudo aquilo tinha sido feito com tal simplicidade que o gesto ficou-me nos olhos e quase me comoveu. Não que fosse extraordinária a partilha, mas ela pareceu-me vir tocada de tanta ternura que fiquei a olhar os dois com muita simpatia. Já não sei se naquele momento disse alguma coisa, ou se ele adivinhou o que se passava comigo, mas os olhos brilharam-lhe de um fulgor estranho e a expressão modificou-se-lhe.
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- O senhor gosta de cães, não gosta?... - perguntou.
Disse-lhe que sim e na cara encarquilhada de rugas vislumbrei um sorriso de compreensão.
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- Eu só gosto deste... - disse, num encolher de ombros, onde parecia haver um desalento. - Somos companheiros há dezoito anos...
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E o "tio" Domingos começou a falar. Agora já não era nada aquilo que ali via: o "Piloto" fora o melhor cão de pastor que conhecera. Era vê-lo quando era novo; não havia ovelha que saísse do rebanho, nem um palmo de terra adiante, chegava a trazê-las quase de rastos, os pelos presos ao dentes! Sim, aquilo é que era um cão pastor, fiel! E o cuidado que ele tinha com as crias?... Era vê-lo a defendê-las das marradas de alguma ovelha brincalhona... não, como aquele, não havia outro!...
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- Estamos velhos os dois... mas não quero mais nenhum... - e o "tio" Domingos limpava com a manga do blusão talvez um pingo do nariz, não sei, ou alguma lágrima indiscreta.
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Eu ouvia-o, e era comovente aquela amizade. Anos e anos, longe de tudo e de todos, o céu e a planície sempre nos olhos, e ele e o 'Piloto' juntos, como dois companheirps que se amparam na solidão. Mas havia uma tragédia. O "tio" Domingos sabia bem como o pobre cão estava velho. Mais um mês, mais dois, talvez um ano, e seria o fim: a morte. Que faria ele depois?... Não era um cão que morria, era um companheiro que ninguém podia substituir.
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- Não... o senhor não pode saber o que é... é preciso ter vivido como eu vivi com ele... e o "tio" Domingos olhava o 'Piloto', abanando a cabeça desalentado, um nó na garganta a impedi-lo de falar.
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- Ele compreende tudo o que digo, acredite... temos conversas longas os dois e eu sei que ele me entende... até adivinha que estou doente... vem para o pé de mim, lambe-me as mãos, como se estivesse a dizer-me: deixa-te estar... eu vou, eu sei que não estás bem... fica aí, eu vou. Não. O senhor não pode compreender... quando ele morrer, fico para aqui perdido, sem ninguém...
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Foi nesse momento que lhe vi uma lágrima deslizar pelas faces cansadas. Era Verdade. O senhor Domingos chorava.
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- Não. Quando ele se acabar, ninguém vai tomar o seu lugar. Não quero!... Prefiro ficar sozinho...
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E num gesto de cansaço, onde havia toda aquela ternura humana que existia dentro dele, e que era grande, fez uma festa no velho cão, que, como num mudo agradecimento, se encostou a ele.
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- Não... depois de ti, meu amigo, não quero mais nenhum... está descansado... tu sabes que é verdade...
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No rosto do "tio" Domingos havia lágrimas ao dizer aquilo (...)
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Nunca mais o esqueci.

2010-01-26

« SARA (a egípcia)... A SANTA dos CIGANOS »

SANTA SARAH KALI
- escrava indiana ou egípcia -
[Considerada Padroeira dos Ciganos]
Crença que remonta aos primórdios
do
Cristianismo




Pintura a óleo, Col. Museu do Chiado - Lisboa - Portugal
Autor: Eduardo Viana (1891-1967)
Título da Obra: «Pousada de Ciganos»
(Também já foi chamada: «Acampamento de Ciganos»)

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O pintor Eduardo Viana foi discípulo de Veloso Salgado e de Columbano Bordalo Pinheiro na escola de Belas Artes de Lisboa. Foi Artista da primeira geração modernista portuguesa.
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O tema da obra expõe como em tempo se deslocavam os ciganos pelos caminhos, nómadas, montados em animais subalimentados, eles próprios desprovidos de condições de vida. Neste ambiente retratado pelo nosso ilustre pintor de arte, vamos instalar a acção da peregrinação religiosa em intenção da Santa Padroeira Sara, mãe dos Ciganos, considerada padroeira do povo cigano numa tradição - crença - que remonta ao início do cristianismo.
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Os primeiros cristãos eram perseguidos pelos romanos e Sara, uma escrava indiana ou egípcia (não se sabe ao certo) 'propriedade' de José de Arimatéia, foi capturada juntamente com as três Marias (Maria Madalena, Maria Salomé e Maria Jacobé).
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As quatro mulheres foram colocadas num barco que foi lançado ao oceano, sem remos nem provisões. Por milagre, após mais de um mês vagando sem rumo no mar, o barco aportou em Laguendoc, no Sul da França, na ilha de Camargue, um local que seria conhecido mais tarde como Saintes Maries-de-La-Mer [Santas Marias que vieram do Mar].
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Um grupo de ciganos que vivia por ali, socorreu as quatro mulheres e elas, em troca, levaram ao grupo ensinamentos de Jesus, trazendo para eles a doutrina cristã.
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Após a partida das chamadas "Três Marias", conta a História que Sara continuou convivendo com os ciganos e passou a ser chamada de SARA KALI, a palavra "Kali" significa "negra" na língua romani, ou români - idioma dos Rom e dos Sintos, povos nómadas conhecidos pela designação de ciganos; ramo indo-ariano do grupo linguístico indo-europeu. Não deve ser confundido com as línguas latinas 'romeno' e 'romanche'.
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Poucos anos depois da morte de Jesus, José de Arimatéia fugiu da Palestina, levando consigo a Maria Salomé, Lázaro e as suas irmãs Maria e Marta.
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Esse grupo aportou na costa francesa na foz do rio Ródano, a partir de onde Lázaro realizou um trabalho apostólico por toda a província romana da Gália; o local tornou-se, por isso, um dos centros de peregrinação da Europa Medieval.
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O resultado do encontro da religião antiga com as novas crenças cristãs foi o surgimento, na região, do culto de uma santa negra, provavelmente o sincretismo da Grande Mãe-Terra pré-cristã com a Virgem Maria (o que foi muito comum na Europa , durante a Idade Média).
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De acordo com uma lenda, o grupo de José de Arimatéia trouxera uma escrava negra chamada Sara; outra versão diz que Sara era uma habitante do lugar que acolheu os exilados, seja como for, cresceu na região da Camargue o Culto de Santa Sara.
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Como em todas as matérias de culto religioso, as dúvidas, os mistérios e o desconhecimento da génesis das crenças levam, todavia, as pessoas a aceitarem sem discussão as incongroências alegadamente históricas, e assumirem-nas como mistérios dogmáticos. Assim, temos que enquanto as crenças espirituais ciganas são pagãs de natureza, a maioria dos ciganos foram batizados, e respeitam a parte essencial da religião cristã.
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Voltando às movimentações peregrinas de milhares de ciganos em devoção à sua Santa, vamos encontrá-los durante toda uma noite, na cripta da Igreja-fortaleza de Saintes-Maries-de-la Mer, onde repousam as relíquias da sua patrona Sara, reunidos para rezar. Fiéis à tradicional peregrinação de Maio, as caravanas características deste povo nómada cobertas de pó, puxadas por cavalos esqueléticos, vindo de todos os cantos da Europa depois de terem vencido dificuldades sem conto na deslocação.
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Esta narrativa escrita neste início do século XXI pretende - lembremos -, dar vida ao ambiente recriado pelo pintor Eduardo Viana, tirando-os da tela a óleo pintada e colocando-os na estrada e na senda do seu fervor religioso no tempo, e na sua época.
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Vamos portanto encontrar nos terrenos que rodeiam a Câmara Municipal da pequena aldeia, as carroças quase desmanteladas, alinhadas ao lado de sumptuosos automóveis. Depois, os recém chegados ocuparam em vagas de assalto o santuário que contém os restos de Maria Jacobé, Maria Salomé e as recordações de Sara que, cada vez mais a tradição a identifica como sendo a egípcia. À sombra da cripta, os ciganos gemeram, choraram, cantaram melodias estranhas a que chamam cânticos.
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Quando rompeu a luz da madrugada, ouviu-se uma explosão de entusiasmo, em gritos de «Vivam as santas Marias!»; «Viva Santa Sara!».
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Por uma porta da Igreja, ornada de flores de papel da peregrinação do ano anterior, as urnas preciosas são trazidas para junto da multidão. É o momento de grande expectativa e emoção. Por toda a parte, as mãos estendem-se para tocar as relíquias. Os «rabomins», conforme eles próprios se intitulam, procuram beijar os cofres sagrados.
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Um turbilhão frenético sacode xailes multicolores. Por entre o fumo do incenso, distinguem-se rostos morenos, cujos olhos se revolvem em êxtase. Massas ondulantes de cabelos negros agitam-se num frenezim furioso. E ritmadas pelo bater de pesados braceletes, as manifestações redobram de intensidade: «Santa Sara! Santa Sara!».
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No fim da missa, começa a procissão. As estátuas das santas são trazidas até à praia, onde os guardas da Camargue, descendo dos seus cavalos e entrando na água, até aos joelhos, as imergem. Num barco florido reservado ao clero, o Arcebispo benze o mar e os peregrinos. Logo que as urnas voltam para a Igreja, por entre os gritos e as exclamações ensurdecedoras, redobram as rezas e os cânticos. E quando o azul da noite cai docemente do céu, eleva-se no ar a fumaça dos pequenos acampamentos.
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Em volta das marmitas, ao lado dos cavalos e de cães desnutridos, de crianças seminuas de ventres dilatados como odres, os ciganos cantam, bebem e dançam.
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Vozes roucas rompem em canções nasaladas e voluptuosas. Acordes de guitarras são levados para longe, pelo vento. Às vezes, estala o ruído de um zaragata, mas a festa continua...
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Aos primeiros alvores do dia, as caravanas reorganizam-se e reiniciam a sua eterna viagem, através da poeira dos caminhos da Europa.
Assim decorreriam os rituais, no tempo em que o nosso pintor elaborou o quadro; todavia, brevemente outra peregrinação vai ter lugar e pouco estará modificado!
Os guitarristas irão tocar ininterruptamente, nem todas as jovens satisfarão os presentes mas todas elas sabem e irão dançar, abandonarão as roulottes e os automóveis para se lançarem na cripta em histeria religiosa e, logo após um clérigo qualquer ter abençoado o mar, as mulheres lançar-se-ão nas águas purificadoras por entre as ondas, dançando com alegria e muita superstição!...
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Os ciganos, para obterem as graças do céu, irão rezar como sempre a Maria Salomé, a Maria Jocobé e...
a SARA,... a Egípcia.
(Fotos: in net)

2010-01-22

« BALANÇO do "DEVE & HAVER" ... FILIAL »





.« (...) Eu creio na justiça, mas defenderei a minha mãe antes da justiça ... »
(ALBERT CAMUS).




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Obrigado porque tiveste na tua vida um lugar para a minha vida, renunciando a tantas coisas boas que poderias ter saboreado. Porque - mais do que isso - fizeste da tua vida um lugar para a minha. E de muitas maneiras morreste para que eu pudesse viver:
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Porque não eras corajosa, mas tiveste a coragem de embarcar numa aventura que sabias não ter retorno.
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Porque não fizeste as contas para avaliar se a minha chegada era conveniente: abriste simplesmente os braços quando eu vim.
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Porque não só me aceitaste como era, como estavas disposta a aceitar-me fosse eu como fosse. Porque dirias "o meu filhinho" mesmo que eu tivesse nascido deformado e me contarias histórias ainda que eu tivesse nascido sem orelhas. E me levarias ao colo mesmo que eu fosse leproso. E, mesmo com tudo isso, me mostrarias com orgulho às tuas amigas. Porque seria sempre o teu bébé lindo.
Devo-te isso, embora não tenha acontecido, porque o farias.
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Obrigado porque não tiveste tempo para visitar as capitais da Europa. Porque as tuas amigas usavam um perfume de melhor qualidade que o teu. Porque, sendo mulher, chegaste a esquecer-te de que havia moda.
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Porque não te deixei dormir e estavas sorridente no dia seguinte. Porque foste muitas vezes trabalhar com manchas de leite na blusa. Porque me sossegaste dizendo "não chores, filho, que a mãe está aqui", e estar no teu regaço era tão seguro como dormir na palma da mão divina.
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Obrigado porque não tiveste vergonha de mim quando eu fazia birras nos museus, ou me enfiava debaixo da mesa do restaurante porque queria um gelado antes da comida. E porque suportaste que eu, na adolescência, tivesse vergonha de que os meus amigos me vissem contigo na rua.
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Obrigado porque fizeste de costureira e aprendeste a fazer bolos. Porque fizeste roupas e máscaras para as festas da escola. Porque passaste uma boa parte dos fins-de-semana a ver jogos de futebol para que - quando eu perguntasse "viste-me, mãe, viste-me?" - pudesses responder com sinceridade e orgulho "é claro que te vi !".
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Obrigado pelas lágrimas que choraste e nunca cheguei a saber que choraste. Obrigado porque ralhaste comigo quando me portei mal nas lojas, quando bati os pés com teimosia, quando "roubei" batatas fritas antes de o jantar estar servido, quando atirei a roupa suja para um canto do quarto. Obrigado por me teres mandado para a escola quando não me apetecia e inventava desculpas. E por me teres mandado fazer tarefas da casa que tu farias melhor e mais depressa.
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Obrigado por teres mantido a calma quando eu num dia de chuva fui arranjar a bicicleta para a cozinha. Obrigado por teres querido conhecer os meus amigos, e por todas as vezes que não me deixaste sair à noite sem saberes muito bem com quem ia e onde ia.
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Obrigado porque eu cresci e o teu coração parece ter também crescido. Porque me deste coragem. Porque aprovaste as minhas escolhas, e te mantiveste a meu lado apesar de ter passado a haver a distância. Porque levantas a cabeça - mesmo sabendo que eu estou muito longe - quando vais na rua e ouves alguém da multidão chamar: "mãe!".
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Obrigado por guardares como tesouros os desenhos que fiz para ti na escola quando era o Dia da Mãe. E por ficares à janela a ver partir o carro, quando me vou embora, comovendo-te com os meus sinais de despedida.
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Obrigado - já agora... - por não teres esquecido quais são os meus pratos favoritos; por a arrecadação da tua casa poder ser uma extensão da arrecadação da minha casa; por teres ainda nos mesmos sítios as minha bugigangas ...

2010-01-21

« O LEVANTAR dos OSSOS de GARCIA LORCA »

Federico Garcia Lorca

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Arqueólogos, políticos locais e nacionais, escritores e voyeurs com gosto pelo macabro andam há anos empenhados na recuperação das ossadas de Federico García Lorca, fuzilado perto de Granada, nos primeiros meses da Guerra Civil de Espanha.

A demanda, longe de ser consensual mesmo entre os familiares do poeta, funciona, no entanto, como um excelente símbolo da relação, necessariamente tensa, que a democracia espanhola estabelece com o conflito de 1936-39 e com a ditadura de Franco.

Não se trata, porém, de questionar apenas o funcionamento das instituições que vigoraram no país entre 1939 e 1975, nem da luta sem quartel entre os esbirros fascistas e os que se lhes opunham.

Em Espanha, como em Portugal, a ditadura, sustentada sobre a influência social da Igreja Católica, soube imiscuir-se na intimidade dos cidadãos, no modo como pensavam, trabalhavam e amavam. Moldou-lhes espíritos e corpos com a eficácia do oleiro na sua roda.

A ficção contemporânea espanhola (na literatura, mas também no cinema) reflecte exaustivamente sobre este trabalho quase eugénico sobre as consciências.

Recorda-se, por exemplo, o belíssimo O Mundo, de Juan José Millás (editado em Portugal pela Planeta, chancela que, em breve, nos trará outro livro do escritor, Os Objectos Chamam-nos), em que, através de um processo narrativo indiciador de simultaneidade, fica demonstrada a continuidade dessa repressão, muito depois dela ter terminado, no tempo e no espaço.

Sentado à secretária, enquanto escreve, Millás ainda sente, em qualquer parte de si, a chuva que o encharcou até quase à pneumonia no dia em que, desesperado, fugiu à violência de uma academia de padres para alunos com pouco aproveitamento. O fascismo era também isto.

Este confronto com memórias muito dolorosas (presente em autores como Antonio Muñoz Molina, Cármen Martín Gaite, Montserrat Roig ou Juan Luís Cebrián, entre outros) domina também Anatomía de un Instante, de Javier Cercas (autor de Os Soldados de Salamina, este sobre um episódio particular da Guerra Civil de Espanha).

Considerado pelo suplemento "Babelia" do El Pais melhor livro espanhol de 2009, pega no momento em que, em plena transição para a democracia, Espanha poderia ter regressado às trevas: 23 de Fevereiro de 1981, quando Antonio Tejero irrompeu pelo Congresso dos Deputados, em Madrid, disposto a desencadear o golpe de Estado.

Considerando que a realidade superava amplamente a ficção, Javier Cercas pegou na coragem de três homens que não se submeteram às ordens de Tejero: Adolfo Suárez, então presidente do Governo, Gutiérrez Mellado, ministro da Defesa, e Santiago Carrillo, líder do Partido Comunista Espanhol.

De onde se conclui que, desse confronto com um passado obscuro, não nasce apenas a melancolia pelo tempo injustamente perdido, mas também uma certa forma de redenção.

E muito boa literatura.




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(in: Texto e Imagem do blog JL)

2010-01-18

«VOLTAIRE,... SISMO &TRAGÉDIAS do HAITI»


Voltaire, François-Marie Arouet
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Salteador ameaça cidadão sobrevivente no Haiti
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Marginais em fuga no Haiti







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VOLTAIRE, pseudónimo de François-Marie Arouet (1694-1778) [adoptou o anagrama quando de uma das suas encarcerações na Bastilha].
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Escritor e Filósofo francês, contrário a todo o fanatismo, lutou para eliminar os defeitos da religião e da sociedade da sua época, e opôs-se firmemente à intolerância das religiões organizadas.
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De produção literária até então nunca igualada por qualquer escritor, cultivou todos os géneros e em todos conseguiu ser superior. Exerceu enorme influência literária e social, tanto pela energia com que defendia contra a intransigência religiosa as causas que lhe pareciam justas, como pelo carácter fundamental das suas obras.

É o escritor francês por excelência, claro, límpido, preciso, espirituoso e elegante.

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Predicou uma religião natural, teísta. Em ética, as suas opiniões obedecem à sua crença no carácter universal da moral e é, considerado ídolo da burguesia liberal e anticlerical.

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"O Poema sobre o Desastre de Lisboa" foi uma reflexão sobre cataclismos, motivado pela sua emoção face ao terramoto de 1755 .

.Esta é uma das peças do seu fecundo trabalho, traduzido em Obras que o reconheceram num autêntico «patriarca» do Século XVIII (...)


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O Poema do Desastre de Lisboa, em francês:
.(desastre agora geminado com o Haiti)




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(...) Ces femmes, ces enfants l'un sur l' autre entassés,
Sous ces marbres rompus ces membres dispersés;
Cent mille infortunés que la terre dévore,
Qui, sanglants, déchirés, et palpitants encore,
Enterrés sous leurs toits, terminent sans secours
Dans l' horreur des tourments leurs lamentables jours!
Aux cris demi-formés de leurs voix expirantes,
Au spectacle effrayant de leurs cendres fumantes,
Direz-vous: "C' est l' effet des éternelles lois
Qui d' un Dieu libre et bon nécessitent le choix"?
Direz-vous, en voyant cet amas de victimes:
"Dieu s' est vengé, leur mort est le prix de leur crimes"?
Quel crime, quelle faute ont commis ces enfants
Sur le sein maternel écrasés et sanglants? (...)



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Tradução do Poema [por Vasco Graça Moura]




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(...) Ó infelizes mortais! Ó deplorável terra!
Ó agregado horrendo que a todos os mortais encerra!
Exercício eterno que inúteis dores mantém!
Filósofos iludos que bradais «Tudo está bem»;
Acorrei, contemplai estas ruínas malfadas,
Estes escombros, estes despojos, estas cinzas desgraçadas,
Estas mulheres, estes infantes uns nos outros amontoados
estes membros dispersos sob estes mármores quebrados
Cem mil desafortunados que a terra devora,
Os quais, sangrando, despedaçados, e palpitantes embora,
Enterrados com seus tectos terminam sem assistência
No horror dos tormentos sua lamentosa existência!
Aos gritos balbuciados por suas vozes expirantes,
Ao espectáculo medonhos de suas cinzas fumegantes,
Direis vós: «Eis das eternas leis o cumprimento,
Que de um Deus livre e bom requer o discernimento?»
Direis vós, perante tal amontoado de vítimas:
«Deus vingou-se, a morte deles é o preço de seus crimes?»
Que crime, que falta cometeram estes infantes
Sobre o seio materno esmagados e sangrantes?
..............................................................................

"O Haiti, que não é mais, teve ele mais vícios
Que Londres, que Paris, mergulhadas nas delícias?
O Haiti está arruinado, e dança-se em Paris." (...)

.Voltaire (excerto, adaptado)



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Entretanto, como se tudo não fosse suficientemente insuportável e dantesco, membros de 'gangs'
armados que já controlaram a maior favela do Haiti como senhores mandantes, voltaram ao local depois do terramoto de terça-feira, que destruiu a Penitenciária Nacional, permitindo que mais de 3.ooo detidos fugissem.
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A pacificação de Cité Soleil foi uma das poucas vitórias do Presidente René Préval, desde que assumiu o cargo em 2006, até que o tremor desvastou Port-au-Prince.
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Elementos policiais que pediram para não serem identificados, declararam que é natural que eles - os gangs - regressem à favela, como "senhores da guerra" da Cité Soleil.
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Se a violência em larga escala surgir, no meio do caos e dos saques que estão crescendo a cada hora, isso pode representar um grande desafio aos esforços para restabelecer a Lei e a Ordem na capital haitiana.
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Os líderes dos gangs de Cité Soleil são criminosos perigosos, que servem de inspiração para lendas urbanas e populares músicas "rap" haitianas.
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Montados em motos e brandindo carabinas e pistolas que podem ter sido tomadas dos guardas durante o terramoto, os membros dos gangs incluem um assassino frio, conhecido pelo "Blade".
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Parece que invadiram o Ministério da Justiça na manhã de sábado, e queimaram o local para destruir quaisquer registos das suas prisões e de processos judiciais.
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Assim, violência e saques aumentam progressivamente no Haiti, também devido à dificuldade do acesso a alimentos e água, para as vítimas da catástrofe.

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Ouvi o Presidente Hugo Chavez exteriorizar algum desencanto por observar a chegada de forças militares ao território haitiano.
Parece que a situação é deveras grave em todos os aspectos e, também, em termos de segurança. Não são apenas os desesperados e esfomeados que se indisciplinam para conseguirem mais do que aquilo a que tiverem direito! Há algo mais a prevenir.

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A assistência está a ser prestada de forma caótica. As brigadas de apoio chegam e atiram o que levam aos haitianos esfaimados. Depois, aplica-se a lei do mais forte: os de maior estatura e mais lestos conseguem arrecadar quase tudo. Para os mais carenciados - velhos, feridos e outras pessoas impossibilitadas - pouco ou nada resta.
Impõe-se mais eficácia na coordenação entre as várias agências da ONU envolvidas nesta gigantesca Operação humanitária. Em nome de um povo que há muito ultrapassou os limites do suportável em termos de sofrimento.
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Reiterando VOLTAIRE, diríamos:
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- Mas que raio de mal... é que fizeram a Deus!?


















2010-01-16

A MORTE COMANDA O HAITI...

Um país ruiu e agora é uma imensa vala comum
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Sobrevivente espera que a resgatem
do amontoado de pedras e pó
em Port-au-Prince




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Sismo no Haiti



.Um sismo de magnitude 7.0 na escala de Richter atingiu o Haiti a 12 de Janeiro. Trinta segundos bastaram para destruir quase totalmente a capital Port-au-Prince. A maioria dos edifícios ficou destruída, desde o palácio presidencial a hospitais e prisões. A Cruz Vermelha Internacional estima que três milhões de haitianos tenham sido afectados. O Governo do Haiti calcula que tenham morrido 100 mil pessoas.




.>o<.
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A seguir, para ajudar na amplificação dos apelos das instituições de solidariedade, transcrevemos integralmente o texto publicado pelo blogue:



. http://www.lobadasestepes.blogspot.com/







« Por Haiti :

A ajuda humanitária começou a chegar ao Haiti e com ela muitas ONGs e não só que solicitam apoio financeiro. AMI, Cruz Vermelha, Caritas.

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Hoje [14.01.10] recebi dois nibs que passo a divulgar:

.«Cáritas Ajuda Haiti NIB 003506970063000753053».

«A UNICEF Portugal lançou um apelo de recolha de fundos para a ajuda humanitária para as crianças e suas famílias afectadas pelo sismo no Haiti.

.Os donativos podem ser efectuados:
Em
www.unicef.pt
.
Nas Caixas Multibanco:
.
Menu “Transferências”, Seleccionar “Ser Solidário”, Optar por “UNICEF”

.
(Para obter o comprovativo do donativo, válido para efeitos fiscais, seleccionar a opção “Factura” e introduzir o Número de Contribuinte).

.
Por Cheque endereçado ao
Comité Português para a UNICEF
Av. António Augusto de Aguiar, 56 – 3º Esq.
1069-115 Lisboa

.
Por depósito ou transferência bancária para a
.
Conta na Caixa Geral de Depósitos:

.
NIB 0035 0097 000 1996 1303 1»






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Parecer do Alfobre:

- A ajuda internacional está a chegar ao Haiti. Nas próximas acções, a prioridade é resgatar sobreviventes dos escombros e atender à população cuidados de saúde, mantimentos e abrigo.

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A Ilha está transformada num imenso cemitério resumido a uma vala comum de milhares de mortos, resultando a necessidade imperiosa de sepultar cadáveres como prioridade sanitária.
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Quase todos os anos, desde o início do Século XX, o Haiti é assolado por um desastre natural! Já registou cerca de cem ciclones, tempestades tropicais, inundações e deslizamentos...
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Este sismo, é considerado o pior dos últimos dois séculos e destruiu o processo de reconstrução da ilha, que tem sido sacudida por constantes tragédias.

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Como no tempo do português Marquês de Pombal, ainda só Sebastião Carvalho e Melo na hora do drama do nosso terramoto de 1755, há que adoptar a frase decisória - muito embora apócrifa - do 3º Marquês de Alorna, General Pedro d'Almeida:

.«SEPULTAR OS MORTOS, CUIDAR DOS VIVOS E FECHAR OS PORTOS»!


.-Sepultar os mortos, porque não adianta ficar reclamando e chorando o passado.
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-Cuidar dos vivos significa pois, enterrar o passado, para se poder acautelar o presente.Cuidar de quem ficou vivo; cuidar do e de quem sobrou.
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- Fechar os portos é concentrar-se na reconstrução, no novo..., prevenir-se o futuro.







.OBS:
Pedido de ajuda humanitária in:
- blog, Loba das Estepes
-Fotos: selecção na Net
-Outros textos: Alfobre


2010-01-12

«"LA PIETÁ": MENSAGEM da PEDRA TERNURA»

« "La Pietá" - A Pedra que é uma ternura »
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Desenho conservado na Igreja de S. Pedro,
indicando a "cripto-escultura" que se observa
em especiais condições de iluminação
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Grande plano do busto esculpido e acima desenhado

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MIGUEL ÂNGELO (com apenas 23 anos de idade) ficou tão apaixonado por esta sua primeira grande obra de escultura, que deixou gravado o seu nome na faixa que atravessa o seio da Virgem Maria, o que não acontece em nenhuma outra obra sua. Alguém definiu a maravilhosa obra como «A pedra que é uma ternura».
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Ao perguntarem a Miguel Ângelo porque é que tinha esculpido o rosto da Mãe tão jovem como o do Filho, respondeu:
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« As pessoas apaixonadas por Deus... nunca envelhecem ».


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Ocupando-se, num artigo publicado no «Tempo» [1953] de Milão, de «La Pietá», de Miguel Ângelo, o escritor L.T. Quattrociocchi estabelece uma pergunta ou propõe um problema interessante, a propósito de dois vultos que figuram, sem notável evidência, na obra prima do genial artista. Vejamos:

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Observando atentamente a escultura, revela-nos ela, nas dobras da roupagem correspondente ao peito da Madona, duas cabeças que, com impressionante evidência, apareceriam, se a observação pudesse ser feita com iluminação radiante do alto e da direita, como requereria a postura do Cristo e como naturalmente o desejaria o escultor.
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Numa dessas cabeças, a do lado esquerdo da Virgem é a de uma criança, a do lado direito um crânio.
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Os dois vultos encontram-se quase no centro do grupo e o olhar parece voltar-se para o observador. A parte superior é quase em pleno relevo: a fronte, as arcadas arbitrárias, a base do nariz, e os zigomas. A parte inferior é, contrariamente, tapada e confunde-se com as dobras da roupagem, indicando, porém, claramente, a sombra da boca, as fossas nasais e o mento.

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O que teria querido significar Miguel Ângelo com os dois vultos?

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A iluminação do grupo, que não parece ser a mais indicada e, principalmente, a excessiva distância e a altura a que fica de quem o olha, não deixam apreciar, no seu justo valor, o modelado de Cristo e a expressão do vulto de Madona.

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Com um binóculo, as coisas melhorariam um pouco e os pormenores, que à primeira vista escapam, poderiam apreciar-se melhor.

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Não é caso para nos assombrarmos que as duas cabeças não hajam sido até agora mais notadas: o fenómeno explica-se, reflectindo-se em que o panejamento á a parte menos importante da «Pietá». É possível que o artista não tenha querido distinguir, propositadamente, estas duas cabeças, escondidas na roupagem, mas facto definitivo e acentuado que não deve, na opinião de Quattrociocchi, atribuir-se a qualquer bizarria. E volta a pergunta sobre a intenção que presidiu à realização das duas cabeças.

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Em reforço do problema posto, Quattrociocchi, continua:
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«Não faltam alegrias nas obras de Miguel Ângelo. De seu próprio punho deixou ele esta estranha explicação das figuras da tumba Medicis: - O dia e a noite conversam e dizem: com a nossa veloz corrida conduzimos à morte o Duque Giuliano; é justo experimentar a vingança. E essa vingança é esta: é que tendo nós morto, também morto nos há tomado a nós a luz».

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E conjugam bem esse o seu feitio solitário introduzir quase escondidamente uma reflexão pessoal na obra em execução: pense-se no dolente auto-retrato na pele do S. Bartolomeu do Giudigio da Capela Sistina! Miguel Ângelo esmagado pela sorte adversa e pelos inimigos.

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A alegoria contida nos dois vultos da «Pietá» pode significar a caducidade dos seres humanos: o próprio Cristo se não subtrai a semelhante lei, pelo facto de ter querido nascer e morrer como
homem, antes de ressurgir como Deus.

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Nessas duas caras que misteriosamente afloram do peito da Virgem, Miguel Ângelo quis talvez exprimir o fatal parentesis que se abre com o nascimento e se encerra com a morte, e para condizer com a linguagem oculta impressa na pedra pelos artesãos pedreiros do escopro e martelo, conhecidos por «maçons», que gravavam na pedra das construções dos templos as suas mensagens filosóficas através de imagens e símbolos, até há pouco quase indecifráveis.











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Autoria do Alfobre:
Extra textos,Traduzido e adaptatado
de artigo do «Tempo»/Milão - 1953
c/foto do desenho.

Fotos: Escolhidas na Net

2010-01-10

« LENDA e MARTÍRIO... de CHE GUEVARA »






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Na tarde de 9 de Outubro de 1967, o sargento boliviano Mário Teran, após ter bebido umas cervejas, dirigiu-se de arma de fogo em punho para o gabinete da Escola de La Higuera, onde estava, de mãos atadas, o homem mais procurado pelas Forças Armadas de vários países latino-americanos.

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O prisioneiro levantou-se e perfilou-se diante do sargento Teran. Terá havido uma áspera troca de palavras. Depois, vários tiros soaram, e o corpo aprisionado caiu para sempre: era Ernesto «Che» Guevara - o homem que tinha 'passado à clandestinidade ', após ter apresentado a "Carta de demissão" a Fidel de Castro num discurso público (dedicado ao povo cubano), em 2 de Outubro de 1965.
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A última aventura revolucionária de «Che» durara onze meses, nas selvas e campos da Bolívia. A sua alucinante epopeia revolucionária junto dos povos do Terceiro Mundo, mormente os da América Latina, durara mais de treze anos.

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Guevara, o romântico estudante de medicina argentino que desde criança empreendeu viagens aventurosas através do seu continente; o jovem que resistiu às primeiras desilusões revolucionárias na Guatemala e na Bolívia; o Licenciado em Medicina que se entusiasmou com os projectos dos exilados cubanos chefiados por Fidel de Castro, mesmo depois do fracasso de Moncada; o guerrilheiro estratega da Sierra Maestra; o economista e financeiro da jovem república revolucionária cubana; o orador incendiário das altas tribunas internacionais; o «herói» mitológico da juventude insatisfeita de todos os países...
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... que o não deixou perecer para sempre..., às balas disparadas pelo sargento Teran!

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Che Guevara: revolucionário puro, ou místico-romântico? Comunista ou anti-comunista? Santo ou Vilão?

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Os heróis mortos são convenientes!
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Desde a morte de Che Guevara, o Governo de Fidel de Castro e os partidos comunistas de orientação moscovita, transformaram o seu nome num símbolo do militante comunista.
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Atrás desta fachada de oratória, manifestos e panfletos, mantêm-se porém, as realidades do desacordo.
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Vivo, Che era um desafio a Fidel de Castro, um irritante, uma perturbação e um perigo; morto, a sua memória poderia servir para conquistar apoio e contrapor a dúvidas e murmúrios anti-governamentais.

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Vivo, Che era um obstáculo para Moscovo e para os seus partidários latino-americanos, uma fonte de novas cisões no já muito dividido movimento comunista; morto, o seu nome pode fazer companhia a outras figuras históricas - como a de Rosa Luxemburgo - que discordaram da política de Moscovo, mas acabaram por se transformar em convenientes símbolos de martírio.

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Não faltam tatuagens, bandeiras, "pins", o «logo» em tudo o que é visível...!! Até nos braços tatuados [e picados] do futebolista Diego Maradona...!

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Não!... isto pode parecer muito engraçado,.... mas não é sério...!

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Os mitos e as lendas, podem arrastar-se para terrenos pantanosos, evocando-se o nome
de... [ ]... em vão...!


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Não vou " adormecer"... por aqui" (...)
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Planeei no quadro idealista do Alfobre... falar de figuras que marcaram época... distinguiram-se da vulgaridade do 'penso... logo, existo...' e, deixando obra para continuar, são, contudo manipulados por oportunistas que os usam como aríetes para abriem novas portas, noutras muralhas que eles nunca defenderam (...)

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Tenho material preparado para poder argumentar sobre Fidel, Cuba, e um manancial que é do conhecimento de todos.... mas, penso que fazem o favor de esquecer!
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Antes de [re] apresentar um poeta e um trabalho da sua Obra, deixo no ar que Cuba deve ser vista de forma mais inteligente pelas diversas orientações políticas internacionais.

. Até aos próximos posts sobre a questão..., é necessário ir reflectindo o porquê de Cuba ter sido tão visitada por insignes figuras do "panteão" político internacional..., incluindo o anterior Papa, de quem Fidel... se despediu..., chorando!
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Até depois...!


Consumado o assassinato de Ernesto Guevara, vou dar voz... à forte expressão poética e também declamatória de, NICOLÁS GUILLÉN, no seu poema de 15 de Outubro de 1967, intitulado:




.CHE COMANDANTE.



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No porque ayas caído
tu luz es menos alta.
Un caballo de fuego
sostiene tu escultura guerrillera
entre el viento y las nubes de la Sierra.
No por callado eres silencio.
Y no porque te quemen,
porque te disimulen bajo tierra,
porque te escondan
en cementérios, bosques, páramos,
van a impedir que te encontremos,
che Comandante,
amigo.

.
Con sus dientes de júbilo
Norteamérica rie. Mas de pronto
revuélvese en su lecho
de dólares. Se le cuaja
la risa en una máscara,
y tu gran cuerpo de metal
sube, se disemina
en las guerrillas como tábanos,
y tu ancho nombre herido por soldados
ilumina la noche americana
como una estrella súbita, caída
en medio de una orgia.
Tú lo sabias Guevara,
pero no lo dijiste por modestia,
por no hablar de ti mesmo,
che Comandante,
amigo.


.
Estás en todas partes. En el índio
hecho de sieño y cobre. Y en el negro
revuelto de espumosa nuchedumbre,
y en terrible desamparo
de la banana, y en la gran pompa de las
[pieles,]
y en el azúcar y en la sal y en los cafetos,
tú, móvil estatua de tu sangre como te
derribaron,
vivo, como no te querían,
che Comandante,
amigo.


.
Cuba te sabe de memoria. Rostro
de barbas que clarean. Y marfil
y aceituna en la piel de santo joven.
Firme la voz que ordena sin mandar,
que manda compañera, ordena amiga,
tierna y dura de jefe camarada.
Te vemos cada dia ministro,
cada dia soldado, cada dia
gente llana y difícill
cada dia.
Y puro como un niño
o como un hombre puro,
che Comandante,
amigo.


.
Pasas en tu descolorido, roto, agujerado
traje de campaña
El de la selva, como antes
fue el de la Sierra. Semidesnudo
el poderosp pecho de fusil y palabra,
de ardiende vendaval y lenta rosa.
No hay descanso.
Salud Guevara!
O mejor todavia desde el hondón
americano:
Espéranos. Partiremos contigo. Queremos
morir para vivir como tú has muerto,
para vivir como tú vives
che Comandante,
amigo.











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Poema: do Autor, Nicolás Guillén.
Imagens: selecção na Net


2010-01-08

POR ÁGUA ABAIXO...




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Corri blogues, calcorreei comentários... sinto um clima de que me apetece despedir...! As coisas, as palavras, têm cheiro a oco!... por aqui... por ali... tudo parece água corrente, insalubre... rio abaixo... rumo ao Mar (...)
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«TANTO, TANTA... POUCO, NADA...»
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Tanta água tanta
água
Tejo acima
Tejo abaixo
Tanta mágoa tanta
mágoa
peito acima
peito abaixo
.
Tanta doca tanta
seca
sem barcos acima
nem barcos abaixo
Tanto homem tanto
homem
seco de água
já sem lágrimas
.
Tanta água tanta
retida
à espera de barcos
Tanta fome tanta
retida
à espera de pão
.
Tantos meses tantos
meses
sem ganhar o pão
Tantos filhos tantos
filhos
minguando à fome
.
Tanta traição tanta
traição
comandada por cima
sofrida por baixo
Tanta aflição tanta
aflição
ignorada por cima
calada por baixo
.
Tanta vontade tanta
vontade
de pôr fim à vida
desprezada por cima
Tanta luta tanta
luta
pelo pão pela vida
forjada em baixo
.
Tantas mãos tantas
mãos
unidas cerradas
Tantos braços tantos
braços
erguidos bandeiras
.
Tanta bandeira tanta
bandeira
negra de fome
vermelha de luta
Tanta certeza tanta
certeza
de justo amanhã
de justo castigo
para quem de cima
espezinha os de baixo
esquecidos que em baixo
sem esforço de cima
é que andam os homens
fazendo o futuro
da doca da Vida.

.Legenda:

- Foto: escolhida na Net

- O resto: é fruto da vida


2010-01-06

« COMO... ESCREVER NA " PEDRA..." !? »




.HETERODOXIA ORTOGRÁFICA.
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.«Na semana passada, um editorial do PÚBLICO veio declarar que este jornal rejeita o acordo ortográfico estabelecido entre os países de língua portuguesa, pelo que continuará a seguir a antiga norma ortográfica (respeitando, porém, a liberdade de opção dos seus colaboradores).
. Como leitor deste jornal desde o início e como colaborador regular desde há mais de uma década, discordo desta posição (a que, aliás, não auguro grande duração), tanto mais que são improcedentes os argumentos que a sustentam.
.
Antes de mais, importa lembrar que se trata de um tratado internacional (acordado em 1990), que se tornou norma jurídica obrigatória nos países que o ratificaram juntamente com o protocolo adicional de 2004 respeitante à sua entrada em vigor, entre os quais se contam desde já o Brasil, Cabo Verde e Portugal (esperando-se que a breve trecho os demais países lusófonos o façam).
.
Entre nós, sucede até que os tratados internacionais são de aplicação direta na ordem interna, sem necessidade de serem transpostos por lei nacional, e têm mesmo força superior às leis internas, que não os podem contrariar.
.Não estamos portanto perante uma simples recomendação ou orientação, sem força vinculativa, cujo seguimento fique à livre disposição dos destinatários. Tal como em relação às leis, a discordância não legitima o seu incumprimento.
. A obrigatoriedade da reforma ortográfica da Língua Portuguesa vale desde logo para as publicações oficiais e para os serviços públicos, incluindo o ensino oficial (ou equiparado), de acordo com o calendário estabelecido pelas normas de implementação que sejam estabelecidas internamente.
Embora nada impedisse que a reforma ortográfica seja tornada formalmente obrigatória para outros veículos institucionais da língua, nomeadamente os órgãos de comunicação social, não é provável que tal suceda.
.Todavia, compreende-se mal que os media não se considerem vinculados pela ortografia legalmente vigente. Independentemente da obrigação jurídica, há a responsabilidade social da imprensa.
.Se existe uma norma oficial, não se justifica que os órgãos de comunicação social contribuam para o estabelecimento de uma confusão duradoura em matéria ortográfica.
. São conhecidos os argumentos dos opositores ao acordo ortográfico, mil vezes repetidos, mil vezes refutados. Obviamente, não há normas ortográficas incontroversas. A ortografia é sempre um compromisso. Todas as anteriores intervenções oficiais nas regras ortográficas, tanto as unilaterais (como a de 1911, que iniciou a divergência ortográfica entre o Português europeu e o Português do Brasil), como as internacionalmente acordadas, encontraram sempre opositores, seja em nome de um conservadorismo assumido, seja em nome de argumentos mais ou menos ponderosos.
.Todavia, a atual reforma ortográfica pode reivindicar a seu favor dois fatores de que as anteriores não beneficiaram. Por um lado, desde a sua elaboração até à sua entrada em vigor, passando pela sua aprovação e ratificação, o acordo ortográfico levou mais de duas décadas de intensas discussões académicas e políticas.
.Nunca uma reforma ortográfica do Português foi tão intensamente nem tão duradouramente debatida como esta. Em segundo lugar, pela primeira vez, uma revisão ortográfica do Português envolveu desde a sua aprovação inicial todos os países que têm o Português como língua oficial - embora alguns ainda o não tenham ratificado internamente -, não sendo mais, como nos casos anteriores, uma medida unilateral de Portugal ou do Brasil, ou um acordo a dois. Isso traduz explicitamente o novo estatuto do Português como língua plurinacionalmente partilhada, sem donos nem senhores privativos.
. Ao contrário do que sustenta o PÚBLICO, uma das características das grandes línguas plurinacionais está na sua fundamental identidade ortográfica, seja ela imposta por via de acordos internacionais entre Estados ou entre autoridades linguísticas nacionais (como sucede com o Francês, o Espanhol e o Alemão), quer seja resultante de um processo orgânico, como sucede com o Inglês, sendo muito escassas as divergências ortográficas entre o Inglês britânico e o Inglês norte-americano.
. Em todos os casos, a identidade ortográfica (ressalvadas algumas exceções) coexiste com numerosas variantes de pronúncia nacionais.
. Com o Português sucedia que, para além de óbvias divergências fonéticas (caso notório de "facto" e "fato" ou "jacto" e "jato", nas versões euro-africana e brasileira, respetivamente) permaneciam inúmeras divergências ortográficas para os mesmos termos (de que as consoantes mudas no Português europeu constituíam o caso mais notório).
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A reforma ortográfica institui uma norma tanto quanto possível única para a escrita do Português, sem prejuízo, porém, como não poderia deixar de ser, dos casos em que se não trata de simples divergência ortográfica mas sim de divergência fonética.
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Para além dos casos mencionados de dupla grafia, podem referir-se vários outros, entre eles o caso de "Antônio" e "António", que o PÚBLICO precipitadamente invoca como prova da inconcludência da reforma, ao permitir duas grafias para a mesma palavra.
.
Ora, uma convergência ortográfica não poderia nunca aproveitar para forçar uma uniformidade fonética, onde ela não existe na língua falada.
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À ortografia o que releva da ortografia.
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Mesmo um jornal de referência pode obviamente invocar um "direito de resistência" às leis ou acordos internacionais de que discorda.
.Duvida-se porém, no caso vertente, que o conservadorismo ortográfico seja prova de heterodoxia virtuosa. »
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.(in: blog - O Jumento)
Imagens: da Internet