[ Vox populi vox Dei ]

2012-10-21

« O CONFORMISMO ... ESSE FILHO DO MEDO... »





Conformismo

Forma de influência social que resulta do facto de  uma pessoas mudar o seu comportamento ou  as  suas atitudes por afeito ou pressão do grupo.

Processos subjacentes ao comportamento conformista

1.A unanimidade do grupo – o conformismo é maior nos grupos em que há unanimidade.

2.A natureza da resposta – O conformismo aumenta quando a resposta é dada publicamente. Esta é a razão do uso do voto secreto, para assegurar o máximo de liberdade e independência na escolha.

3.A ambiguidade da situação – a pressão do grupo aumenta quando não estamos certos do que é  correcto.

4.A importância do grupo – quanto mais atractivo for o grupo para a pessoa maior é a  probabilidade de ela se conformar.

5.A auto estima – as pessoas com um nível mais elevado de auto  estima são  mais independentes do que as que têm uma auto estima mais baixa,  que são,  naturalmente,  mais  conformistas. As razões  que  levam  as pessoas a conformar-se  são as mesma que as levam  a  fazer parte de grupos: a necessidade de ser aceite e de interagir com os outros.















Penso que se julga que o conformismo é uma caracterísitca de personalidade entre outras, havendo assim pessoas mais conformistas e dispostas a conformarem-se do que outras.

Outra forma de colocar as coisas é considerar que o conformismo é um resultado, um produto, que ocorre de forma mais ou menos nítida num contexto relacional e num quadro de relações assimétricas.

Explicando melhor: todos nós, desde pequenos, somos coagidos a uma indispensável socialização. Aprendemos a falar um dada língua, a ter uma posição ereta, a comportarmo-nos de uma certa forma porque quem nos cuida assim o determina.

Somos quem somos porque aderimos, sem alternativa, primeiro a aprendizagens básicas, depois, vida fora e de forma cada vez mais sofisticada, a regras, preceitos, crenças e valores.

Somos conforme se deve ser para um dado grupo de pertença - habitualmente a família - e, durante o percurso de uma vida, vamos mudando de pessoas e grupos e adquirindo as respetivas conformidades que valorizamos ou nos fazem um qualquer sentido.

Assim sendo, e para todos nós, o conformismo dá conta de um processo de adesão, inevitavelmente humano, as normas de outras pessoas ou de grupos. Deste processo natural não damos conta, nem em nós nem nos outros, a não ser que a adesão surja como submissão.






Só quando a vontade de um outro prevalece sobre a nossa, só quando damos conta de que somos ambivalentes ou críticos em relação a comportamentos ou ideias que assumimos como nossos, é que percebemos que estamos a ser submissos.

Porque é que as pessoas se submetem, porque é que não se revoltam, é pois a questão seguinte: a resposta não é difícil, já com tantas interdependências que a maioria das pessoas nem sabe que se pode revoltar!

Enquadrados em grupos, em ideias e em convicções que partilhamos com aqueles de quem gostamos, não temos espaço individual para rejeitar formas de vida que, seguramente, partilhamos com muitos outros.

Há quem ache que se é conformista por falta de imaginação, por ignorância, medo ou passividade - por já não valer a pena!  É verdade... Mas sobretudo é-se conformista pelo receio atávico de se perder pessoas e elos significativos.

Baseado nuns textos académicos sobre psicologia, redigi este apanhado que, de alguma maneira também parece conformista com o statu quo (...)

Por amor aos meus pais e à família, jamais instalei na minha mente emigrar para um país mais ou menos distante, em busca de uma vida alegadamente melhor. Então... e as saudades? Então... e o resto? Então, de forma conformista, ingressei nas fileiras das Forças Armadas, e «emigraram-me» para a guerra das então colónias portuguesas de África! (...) Lá se foi o preconceito das saudades e do tal resto, para o brejo!!

.
 Mafalda, a conhecida "inventora" 
do 
inconformismo


Para que o mundo pule e avance, precisamos de ter a coragem de assumirmos o inconformismo. Indo mais longe, devemos até enveredar pelos caminhos da desobediência...

O inconformismo é o grande motor das descobertas tecnológicas, filosóficas, científicas etc.; é eficaz na luta contra preconceitos negativos, era bom se as pessoas que pertencem a regimes políticos ditatoriais fossem inconformistas e desobedientes!

Acho que, atualmente, é o  caso português ...





2012-09-28

« DO FUTURO PROSAICO... À POESIA INTEMPORAL »



Além do presente, que para muitas pessoas está um sufoco, há ideias de futuro que toldam ainda mais aquilo que acontece aqui e agora.

Como se sabe, a vida é sempre aqui e agora e o que há-de ser são apenas projeções de ideias mais prováveis ou mais improváveis. Do futuro vislumbramos apenas aquilo que as nossas experiências passadas, a nossa específica condição e circunstância, nos permitem levar a crer que pode ser possível.

Mas, mesmo não havendo ainda nenhum futuro, mesmo que se perceba que a graça desta viagem no tempo que é a nossa própria existência reside, sobretudo, no facto de ser uma expedição no desconhecido, a nossa imensa fantasia de controlo - um controlo que nos permite mover com alguma segurança e o convencimento de que sabemos para onde vamos - implica vivermos em estados de enorme ansiedade quando, como agora, é assumido que não temos a menor ideia de como será o mundo daqui a uns tempos. Não sabemos nem como será o nosso estilo de vida, nem que direções as coisas que nos são conhecidas e familiares seguirão. Olhando para trás, recuando apenas as três últimas décadas que são acessíveis à maioria de nós, dá para perceber que o mundo atual não é nada parecido com qualquer das hipóteses que colocávamos antes da "queda" do muro de Berlim, antes do "fim" das grandes ideologias, antes dos computadores domésticos e das tecnologias  de informação e comunicação.

Não sonhávamos com telemóveis e "smartphones" multifunções, não pensávamos possível deslocarmo-nos pelo mundo como depois viemos a fazer, não lobrigávamos hipóteses de o consumo se transformar no que depois foi, não tínhamos as mesmas perspetivas - ou a falta delas - sobre a saúde, a educação, a justiça, as relações entre géneros e entre gerações que acabámos por ter.

Não tínhamos os mesmos costumes nem adivinhávamos o que se seguiria em termos de transformações de mentalidades.

Ou seja, há apenas duas ou três décadas vivíamos inseguros por outras razões e tínhamos do futuro que veio a ser imensas convicções que não se confirmaram.

Faz sentido relembrar isto quando se ouve com frequência que não há futuro.

O futuro espera por nós, mesmo que nós não esperemos nada dele! 







 António Gedeão
Poeta




« Poema do Futuro »

Conscientemente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.

No declive do tempo os anos correm,
deslizam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê, e sorri.
Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corpo imóvel, exhumado
da vala do poema.

Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.
Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo quanto fica,
é tudo quanto resta
de um ser que entre outros seres
vagueou sobre a Terra.

António Gedeão, in 'Poemas Póstumos'







Ary dos Santos

Poeta





O Futuro    

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.








2012-08-19

« DR. SOUSA MARTINS, MÉDICO SANTO... OU SOLIDÁRIO?! »

Foto e estátua do Dr. Sousa Martins
'Escola de Medicina'
(ao fundo)


José Tomás de Sousa Martins (Alhandra, 7 de Março de 1843 — Alhandra, 18 de Agosto de 1897) foi um médico e professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa. Formado em Farmácia e Medicina, trabalhou intensa, e na maioria dos casos gratuitamente, sobretudo no combate à tuberculose.
Orador brilhante, dotado de humor e inteligência, homem de actividade inesgotável e praticante incansável da caridade junto aos mais desfavorecidos, exerceu uma forte influência sobre os colegas de profissão, os alunos e os pacientes que tratou. Esta influência metamorfoseou-se e perpetuou-se no tempo, tendo a figura de Sousa Martins assumido contornos de santo laico, num culto actual, bem visível nos ex-votos colocados em torno da sua estátua no Campo de Santana, em Lisboa, e no cemitério de Alhandra, onde está sepultado. Foi sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa.

Nasceu numa casa da zona ribeirinha de Alhandra a 7 de março de 1843, filho de Caetano Martins, carpinteiro, e de Maria das Dores de Sousa Martins, doméstica, uma família com escassos recursos económicos. Viveu a sua infância em Alhandra, onde completou o ensino primário, então os únicos estudos possíveis naquela vila. Ficou órfão do pai aos 7 anos de idade.

Aos 12 anos de idade foi aconselhado pela mãe a partir para Lisboa, onde um seu tio materno, Lázaro  Joaquim de Sousa Pereira, se tinha estabelecido como farmacêutico, ao tempo proprietário da Farmácia Ultramarina, sita na Rua de São Paulo.
 
Ficou instalado em casa do tio, trabalhando como aprendiz na farmácia, ao mesmo tempo que frequentava o Liceu Nacional de Lisboa. A 1 de Abril de 1856 iniciou oficialmente funções como praticante de botica na Farmácia Ultramarina. Tornou-se exímio manipulador de produtos naturais e adquiriu uma experiência que depois muito valorizou como médico e professor de Medicina.

Terminado o curso liceal, concluiu em 1861 os estudos preparatórios da Escola Politécnica de Lisboa, ingressando seguidamente no curso de Medicina da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e no ano seguinte no curso de Farmácia, onde os conhecimentos que adquirira enquanto praticante de farmácia o ajudaram a terminar em 1864, com 21 anos de idade, o curso de farmacêutico com excelente classificação.

Após a conclusão do curso de Farmácia decidiu continuar estudos e concluiu em 1866, com apenas 23 anos de idade, também na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, o curso de Medicina, apresentando como tese de licenciatura o trabalho intitulado O Pneumogástrico Preside à Tonicidade da Fibra Muscular do Coração.

A 13 de Julho de 1864 foi eleito sócio efectivo da Sociedade Farmacêutica Lusitana, por proposta subscrita por José Tedeschi, assumindo em pouco tempo um papel relevante na vida da instituição, elaborando ao longo da década seguinte múltiplos relatórios e pareceres e publicando vários artigos no periódico Jornal da Sociedade Farmacêutica, órgão oficial daquela associação. Foi durante mais de uma década vogal da Comissão de Saúde Pública da Sociedade, tendo um papel relevante na regulação de diversas práticas farmacêuticas potencialmente perigosas para a saúde pública. A 4 de Agosto de 1874 foi feito membro benemérito da Sociedade, com fundamento na maneira brilhante como desempenhou o difícil e honroso encargo de representante de Portugal no congresso de Viena, nos assuntos de quarentenas e medidas sanitárias.

Em 1867 foi feito sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa.
Concluído o curso médico como aluno brilhante, em 1868 foi nomeado, após concurso público, para o cargo de demonstrador da Secção Médica da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Nesse mesmo ano foi eleito sócio da Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa, iniciando uma carreira ligada ao ensino e investigação na área da Medicina.

No desenvolvimento dessa carreira, em 1872 foi nomeado lente da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa e em 1874 médico extraordinário do Hospital de São José.
 
Entretanto afirmou-se como médico de nomeada e membro relevante de diversas agremiações científicas e cívicas, conquistando um lugar de relevo entre a intelectualidade de Lisboa. Como médico e professor, dava grande importância à componente psicológica e de relação humana da prática médica, ficando conhecido conselho incluído numa das suas lições: Quando entrardes de noite num hospital e ouvirdes algum doente gemer, aproximai-vos do seu leito, vede o que precisa o pobre enfermo e, se não tiverdes mais nada para lhe dar, dai-lhe um sorriso. Mesmo depois da sua morte, as suas lições coligidas foram referência obrigatória durante décadas.

O seu percurso académico e profissional levou-o ao cargo de secretário e bibliotecário da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, catedrático de Patologia Geral, Semiologia e História da Medicina, presidente da Comissão Executiva e da Secção de Medicina da expedição científica à Serra da Estrela organizada em 1881 pela Sociedade de Geografia de Lisboa e director efectivo da Enfermaria de São Miguel no Hospital de São José.

A sua actividade no Hospital de São José, e em particular a importante acção filantrópica que exercia a favor dos doentes mais pobres, afirmou-o como um dos médicos mais prestigiados de Portugal. Ganhou enorme prestígio na luta contra a tuberculose, que então atingia proporções epidémicas em Lisboa, que reforçou ao liderar a expedição científica à Serra da Estrela e ao defender a construção naquelas montanhas de sanatórios destinados à climoterapia daquela doença.
 

A expedição científica à Serra da Estrela foi organizada sob a égide da Sociedade de Geografia de Lisboa, de que Sousa Martins era sócio fundador e vogal do Conselho Central, reunindo em Agosto de 1881 uma plêiade de cientistas e intelectuais que estudaram aquela região portuguesa nas suas vertentes geográfica, meteorológica e antropológica num esforço sem precedentes de exploração sistemática do território português.

O interesse de Sousa Martins na realização da expedição prendia-se com a necessidade de conhecer a meteorologia e as condições sanitárias da região dado a importância então atribuída ao clima no tratamento da tuberculose pulmonar. Essa necessidade levou a que em conjunto com Brito Capelo tivesse requerido ao Governo, em 1882, a instalação de um posto meteorológico na Serra.
 
Na sequência da expedição Sousa Martins defendeu a implantação de Casas de Saúde na região serrana e foi um dos impulsionadores da fundação do Club Hermínio, uma associação de carácter humanitário que criada em 1888 se manteve activa pelo menos até 1892. Sousa Martins foi aclamado sócio honorário e presidente perpétuo pelos membros fundadores. Afirmando-se como uma instituição de solidariedade, o Club Hermínio tinha por finalidades promover o melhoramento das condições naturais da Serra da Estrela, considerada como estação sanitária através do estabelecimento de casas de saúde sob direcção médica, o socorro aos doentes pobres e o exercício de polícia higiénica em todos os pontos da Serra e nas habitações que fossem usados pelos doentes.

No Verão de 1888, com o patrocínio do Club Hermínio e com o apoio entusiástico de Sousa Martins e de Guilherme Teles de Meneses, esteve na Serra da Estrela o médico Basílio Freire, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, que ali assegurou acompanhamento médico gratuito aos doentes que o procuravam.

O principal objectivo de Sousa Martins era a construção de um sanatório na Serra da Estrela que de forma permanente pudesse acolher e tratar doentes com tuberculose pulmonar. Apesar do seu esforço e da sua influência junto da Coroa, já que desde 1888 era médico honorário da Real Câmara de Suas Majestades e Altezas, e do Governo, a iniciativa, aclamada por todos, tardou em materializar-se e o sanatório proposto apenas seria construído após a sua morte.

A construção do sanatório da Guarda, ficou a dever-se à Assistência Nacional aos Tuberculosos, a ANT, instituição que sob a presidência da rainha D. Amélia de Orleães conseguiu reunir os fundos necessários e materializar a construção e equipamento. A inauguração do sanatório, o primeiro a ser construído pela ANT e o terceiro de Portugal, ocorreu a 18 de Maio de 1907, quase uma década após o falecimento de Sousa Martins. A inauguração incluiu uma homenagem àquele pioneiro da luta contra a tuberculose, cuja acção e dinamismo a rainha já evocara 1899 em intervenção pública integrada numa campanha de profilaxia da tuberculose.

Apesar do tempo decorrido após o falecimento de Sousa Martins, em sua homenagem, a nova instituição foi denominada Sanatório Dr. Sousa Martins e por ela passaram muitos milhares de doentes ao longo de mais de meio século de funcionamento. A sua importante acção deixou o nome ligado à zona serrana com tal perenidade que o principal hospital da cidade da Guarda o mantém Sousa Martins como patrono.

Foi também escolhido para representar Portugal em diversos eventos internacionais na área da Medicina: em 1874 foi nomeado delegado à Conferência Sanitária Internacional realizada em Viena; e em 1897 foi delegado à Conferência Sanitária Internacional, realizada em Veneza, onde foi eleito vice-presidente.
 
Adoeceu quando se encontrava em Veneza, regressando a Lisboa muito debilitado. Diagnosticada tuberculose, partiu para a Serra da Estrela à procura de alívio. Aparentemente convalescendo, recolheu-se a Alhandra, onde se instalou numa quinta, propriedade de amigos, tentando recuperar.

A doença agravou-se e aos 54 anos, tuberculoso terminal e sofrendo de lesão cardíaca, Sousa Martins cometeu suicídio, com uma injecção de morfina. Pouco antes, havia confidenciado a um amigo: "A morte não é mais forte do que eu" e "Um médico ameaçado de morte por duas doenças, ambas fatais, deve eliminar-se por si mesmo".

Na mensagem que enviou ao saber da morte de Sousa Martins, o rei D. Carlos I de Portugal afirmou: Ao deixar o mundo, chorou-o toda a terra que o conheceu. Foi uma perda irreparável, uma perda nacional, apagando-se com ele a maior luz do meu reino.
 
D. Carlos I e a Rainha Dª Amélia na inauguração do Sanatório

Também sobre ele, António Egas Moniz, Prémio Nobel da Medicina, disse: Notável professor que deixou, atrás de si, um nome aureolado de prelector admirável, de clínico, de orador consagrado, sempre alerta nas justas da Sociedade das Ciências Médicas.

Por sua vez Guerra Junqueiro considerou-o Eminente homem que radiou amor, encanto, esperança, alegria e generosidade. Foi amigo, carinhoso e dedicado dos pobres e dos poetas. A sua mão guiou. O seu coração perdoou. A sua boca ensinou. Honrou a medicina portuguesa e todos os que nele procuraram cura para os seus males.
 
                                  Monumento ao Dr. Sousa Martins na cidade da Guarda

O principal hospital da cidade da Guarda tem o nome de Hospital Sousa Martins, em homenagem ao trabalho pioneiro de Sousa Martins sobre a tuberculose e climoterapia que conduziu à promoção da Serra da Estrela como área propícia à instalação de sanatórios para o tratamento de tuberculosos. Para além disso, existem vários sítios que homenageiam o Dr. Sousa Martins, entre os quais um concorrido monumento, de autoria de Costa Motta (tio) no Campo de Santana, em Lisboa; um jazigo no Cemitério de Alhandra, onde se encontra sepultado; a Casa-Museu Dr. Sousa Martins, em Alhandra; e o busto do Dr. Sousa Martins, no Largo 7 de Março, na baixa alhandrense. Também a toponímia da cidade da Guarda, à qual o nome de Sousa Martins está associado desde o início do século XX mercê da estrutura sanatorial que ali existiu, o recorda no nome de uma das ruas do moderno Bairro da Senhora dos Remédios. Um pequeno monumento erguido dentro dos muros do antigo Sanatório da Guarda continua, diariamente, a receber preces e agradecimentos e, à semelhança do monumento lisboeta do Campo de Santana, está quase sempre emoldurado de flores e de ex-votos diversos.
 
 
Imagens de culto junto à estátua do Dr. Sousa Martins  em Lisboa
Campo dos Mártires da Pátria

Ao contrário do que muitos pensam, não há nenhum dado que indique que o Dr. Sousa Martins foi um adepto do Espiritismo; contudo, muitos dos seguidores dessa crença atribuem-lhe curas milagrosas por intermédio das suas comunicações mediúnicas.
A 7 de março e a 18 de agosto de cada ano, aniversários do seu nascimento e morte, milhares de devotos visitam e rezam junto da sua estátua em Lisboa, deixando nesse local ex-votos.



1 - Texto retirado de um post do Facebook
2 - Fotos escolhidas na Internet

2012-07-30

«OS FOGOS E AS DISCUSSÕES INCENDIÁRIAS »



Estas são horas de aflição e muitas outras já tem havido: o fogo, assaltante sem carteira profissional e com fúrias desmedidas, tudo leva e nada deixa. O que lhe aparecer pela frente é faca em manteiga neste calor de verão. Por mais que o queiram travar, poucas vezes ele permite que o domem. Nesse combate desigual, um grupo de gente valente lhe faz frente: os voluntariosos soldados da paz, esses homens e mulheres sem medo e cheios de coragem, valentia, bravura, entusiasmo e solidariedade.

Com experiência, dedicação e saber, tudo fazem para salvar os nossos bens e haveres e até os nossos corpos. Entregues de alma e coração a essa nobreza de funções, para essa gente não há dia, nem noite, sábados ou domingos, férias ou tempo de trabalho, cama ou jardim que impeça a ida serena, calma,  sempre altruísta, decidida, responsável e arrojada.

Dizemos isto, porque conhecemos bem a "massa" com que é feito este naipe de nossos irmãos, o mais puro que há nas nossas sociedades. Vimo-los correr para o fogo, quase sem se despedirem da família. Assistimos a idas suas para a estrada, mal a sirene tocava, porque o seu sangue lhes dizia que outro se vertia no alcatrão e tudo era preciso fazer para evitar que se derramasse de todo. Sabemos que deixavam de dormir para acudir a quem sofrera um AVC, ou uma simples indisposição.




Contactamos com as suas múltiplas idas para a serra a arder, sem horário de partida, nem de chegada. Por tudo isto, compreendemos a revolta e os berros que dão, quando se vêem no terreno de combate aos incêndios enquadrados e comandados por quadros de estufa, por gente de farda reluzente e ar de cidade, a quem falta esta mística do voluntariado conhecedor e a quem sobram galardões e bonés estrelados. Se nada temos contra estas estruturas, também pouco nos dizem, a nós que temos nos Bombeiros Voluntários a nossa referência maior,  no que toca à luta tenaz e heróica contra fogos florestais.

Ano após ano, é sempre a mesma coisa: a Autoridade Nacional da Protecção Civil [ANPC] vai, em bons automóveis, para aquilo que chamam o teatro das operações; munidos de telemóveis e rádios topos de gama, de mapas psicadélicos, em carros-sala de comando, tudo querem controlar. Mas, lá no fundo da mata, onde o fogo queima e os tojos ardem, onde as árvores  rebentam com tanta chama e as fagulhas traem as trajetórias previstas, que o vento não se compadece com a maravilha dos computadores, lá, andam os nossos Bombeiros, os da pá e da picareta, da mangueira e das máscaras, se as há, aliás...

É sempre assim. Por aquilo que sabemos e por aquilo que vemos em cada fogo, escusam de nos vir com conversas de treta porque quem sabe da poda é o podador. Neste caso, o Bombeiro e o seu Comando. Ponto final!





Chega de experiências de gabinete. Em incêndios, a liderança das operações só pode ter, na sua cabeça, homens de farda voluntária, de tarimba feita de muita dor e muita prova de esforço em pleno mato e terreno de suas terras. Nada disso se passa  com quem vem do ar condicionado, por mais  respeito que devamos ter por esse pessoal de fardas vistosas. Ali chegados, é o desastre completo: nada conhecem de caminhos, nada sabem das pedras  que podem encontrar, dos valados a atravessar. Os traços azuis das cartas são muito bonitos, mas não passam de desenhos virtuais!

Compreende-se, por isso, os desabafos de Jaime Soares, Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, quando diz, no rescaldo dos terríveis incêndios da Madeira e do Algarve,  que toda esta estrutura, "ultrapassada, burguesa e elitista" (a ANPC), tem de ser repensada e refundada. Acrescentamos: extinta, de alto a baixo.




Contrapondo uns Bombeiros solidários e anónimos, mas voluntariosos e determinados, dá a receita ideal. 

Deixa no ar ainda outras óbvias conclusões: à falta de corretas medidas de prevenção, planeamento e ordenamento florestal se deve o descalabro dos incêndios anuais.

Podemos ainda trazer outros argumentos para cima da mesa desta urgente (e sempre adiada) discussão: como se não aplica, nem que seja pela prevista medida coerciva, a lei da limpeza de cinquenta metros em redor de moradias, o perigo para as nossas casas está sempre à espreita!

Como muito há a fazer, tudo aquilo que só apareça em tempos de calor cheira a esturro e terra queimada, o melhor, o ideal, a prevenção autêntica, é tarefa de um ano inteiro.

E o Comando das Operações, na altura das grandes refregas, pertence aos Bombeiros e a mais ninguém!

Quem vier de outros quadrantes, que se apresente para colaborar, nunca para mandar!...