[ Vox populi vox Dei ]

2012-07-30

«OS FOGOS E AS DISCUSSÕES INCENDIÁRIAS »



Estas são horas de aflição e muitas outras já tem havido: o fogo, assaltante sem carteira profissional e com fúrias desmedidas, tudo leva e nada deixa. O que lhe aparecer pela frente é faca em manteiga neste calor de verão. Por mais que o queiram travar, poucas vezes ele permite que o domem. Nesse combate desigual, um grupo de gente valente lhe faz frente: os voluntariosos soldados da paz, esses homens e mulheres sem medo e cheios de coragem, valentia, bravura, entusiasmo e solidariedade.

Com experiência, dedicação e saber, tudo fazem para salvar os nossos bens e haveres e até os nossos corpos. Entregues de alma e coração a essa nobreza de funções, para essa gente não há dia, nem noite, sábados ou domingos, férias ou tempo de trabalho, cama ou jardim que impeça a ida serena, calma,  sempre altruísta, decidida, responsável e arrojada.

Dizemos isto, porque conhecemos bem a "massa" com que é feito este naipe de nossos irmãos, o mais puro que há nas nossas sociedades. Vimo-los correr para o fogo, quase sem se despedirem da família. Assistimos a idas suas para a estrada, mal a sirene tocava, porque o seu sangue lhes dizia que outro se vertia no alcatrão e tudo era preciso fazer para evitar que se derramasse de todo. Sabemos que deixavam de dormir para acudir a quem sofrera um AVC, ou uma simples indisposição.




Contactamos com as suas múltiplas idas para a serra a arder, sem horário de partida, nem de chegada. Por tudo isto, compreendemos a revolta e os berros que dão, quando se vêem no terreno de combate aos incêndios enquadrados e comandados por quadros de estufa, por gente de farda reluzente e ar de cidade, a quem falta esta mística do voluntariado conhecedor e a quem sobram galardões e bonés estrelados. Se nada temos contra estas estruturas, também pouco nos dizem, a nós que temos nos Bombeiros Voluntários a nossa referência maior,  no que toca à luta tenaz e heróica contra fogos florestais.

Ano após ano, é sempre a mesma coisa: a Autoridade Nacional da Protecção Civil [ANPC] vai, em bons automóveis, para aquilo que chamam o teatro das operações; munidos de telemóveis e rádios topos de gama, de mapas psicadélicos, em carros-sala de comando, tudo querem controlar. Mas, lá no fundo da mata, onde o fogo queima e os tojos ardem, onde as árvores  rebentam com tanta chama e as fagulhas traem as trajetórias previstas, que o vento não se compadece com a maravilha dos computadores, lá, andam os nossos Bombeiros, os da pá e da picareta, da mangueira e das máscaras, se as há, aliás...

É sempre assim. Por aquilo que sabemos e por aquilo que vemos em cada fogo, escusam de nos vir com conversas de treta porque quem sabe da poda é o podador. Neste caso, o Bombeiro e o seu Comando. Ponto final!





Chega de experiências de gabinete. Em incêndios, a liderança das operações só pode ter, na sua cabeça, homens de farda voluntária, de tarimba feita de muita dor e muita prova de esforço em pleno mato e terreno de suas terras. Nada disso se passa  com quem vem do ar condicionado, por mais  respeito que devamos ter por esse pessoal de fardas vistosas. Ali chegados, é o desastre completo: nada conhecem de caminhos, nada sabem das pedras  que podem encontrar, dos valados a atravessar. Os traços azuis das cartas são muito bonitos, mas não passam de desenhos virtuais!

Compreende-se, por isso, os desabafos de Jaime Soares, Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, quando diz, no rescaldo dos terríveis incêndios da Madeira e do Algarve,  que toda esta estrutura, "ultrapassada, burguesa e elitista" (a ANPC), tem de ser repensada e refundada. Acrescentamos: extinta, de alto a baixo.




Contrapondo uns Bombeiros solidários e anónimos, mas voluntariosos e determinados, dá a receita ideal. 

Deixa no ar ainda outras óbvias conclusões: à falta de corretas medidas de prevenção, planeamento e ordenamento florestal se deve o descalabro dos incêndios anuais.

Podemos ainda trazer outros argumentos para cima da mesa desta urgente (e sempre adiada) discussão: como se não aplica, nem que seja pela prevista medida coerciva, a lei da limpeza de cinquenta metros em redor de moradias, o perigo para as nossas casas está sempre à espreita!

Como muito há a fazer, tudo aquilo que só apareça em tempos de calor cheira a esturro e terra queimada, o melhor, o ideal, a prevenção autêntica, é tarefa de um ano inteiro.

E o Comando das Operações, na altura das grandes refregas, pertence aos Bombeiros e a mais ninguém!

Quem vier de outros quadrantes, que se apresente para colaborar, nunca para mandar!...


2012-07-07

« O REGRESSO AO FUTURO DA EUROPA »

A queda de Roma


Desde os primeiros tempos, que o progresso da humanidade tem sido contínuo. No entanto, em 410 da nossa era produziu-se um evento de efeitos devastadores.

Nesse ano Roma foi destruída e saqueada pelos bárbaros. A queda de Roma abre um período terrível na História que irá durar séculos.

A Europa só volta a recuperar o equilíbrio com a coroação de Hugo Capeto em 987, data que oficialmente abre a Idade Média.

Podemos afirmar que neste período a civilização desapareceu da face da terra. A chama apenas se manteve acesa em Constantinopla, que caiu às mãos dos otomanos a 29 de maio de 1453.



Os bárbaros


Os bárbaros chegaram à China, pois os chineses, tal como os romanos, chamavam bárbaros a todos aqueles que viviam para além das "limes" ou da Grande Muralha, no caso da China.

Os hunos eram caçadores e criadores de gado, que habitavam as grandes estepes do planalto euro-asiático. Átila, o seu temível chefe (395 - 453), ainda nos faz tremer.

São eles que explicam o aspeto asiático de húngaros, búlgaros e mesmo alguns russos [Lenine tinha os olhos em bico].




"Luzes de Constantinopla e da Igreja Católica"


Roma exercia um enorme fascínio sobre estes povos, chegando mesmo a integrá-los nas suas legiões.

A Europa caminha hoje a passos largos para uma situação semelhante.

Qual foi pois a razão da catástofre de 410, que tanto impressionou o próprio Santo Agostinho? É preciso entender que nessa época a superioridade militar de Roma baseava-se no seu modelo de gestão e organização, pois as armas eram praticamente as mesmas...

Individualmente os bárbaros eram superiores, e essa superioridade perdurou até à descoberta dos canhões, nos princípios da Idade Média.

Quando os sedentários se desorganizam,  ficam à mercê dos nómadas.

Roma, que se defendia com 30 legiões e não tinha inimigos à altura, autodestruiu-se!

Sabemos que a partir do século III a classe dirigente prefere os banhos e as discussões estéreis ao trabalho e à conquista. E nenhuma sociedade resiste ao egoísmo e individualismo. Os governos têm de dar a impressão de se preocupar com a coisa pública, ou melhor, devem preocupar-se  mesmo, sob pena de não conseguirem explicar os seus privilégios ao povo.

Chateaubriand definiu bem esta situação: "Uma classe dirigente conhece três fases sucessivas, a da superioridade, a dos privilégios e a das vaidades. Saindo da primeira, degenera na segunda e desfaz-se na terceira".

O desaparecimento de uma classe dirigente pode arrastar a sociedade para o abismo. Aquando da revolução francesa em 1789, a alta burguesia estava preparada para substituir a nobreza.

Em Roma isso não aconteceu. A virtude, o respeito pela lei, a coragem militar, o sentido de grandeza, tudo isso se desvaneceu.

Há pois uma espécie de implosão, uma regressão civilizacional. Temos de ter consciência de que o progresso não é automático. Desde os faraós, que o homem não parava de progredir...

Mas... em 410 dC... tudo parou!

As belas cidades e vilas romanas rapidamente passaram a ruínas... É preciso notar que estas ruínas não são naturais!

Há templos hindus com mais de 5.000 anos que se encontram impecáveis, a catedral de Notre Dame está permanentemente em restauro, mas no dia em que ficar em ruínas, isso significa que a civilização francesa desapareceu.

As magníficas ruínas romanas têm pois a missão de nos relembrar a implosão do império romano.



« Drakkars »



A anarquia mata muito mais do que a guerra, as guerras púnicas foram terríveis mas não afetaram a civilização, ao invés a queda de Roma arrastou consigo o Ocidente.

Graças à demografia histórica e às fotos aéreas que nos dão uma ideia da localização das populações, sabemos hoje que a Gália romana contava com cerca de 10 milhões de habitantes, pouco depois com os merovíngios não passava dos 3 milhões, a população regredira 70% pois, como já dissemos, a insegurança traz consigo a morte das cidades e do comércio [da economia como é mais moderno dizer].

Roma passou de um milhão para 10.000 habitantes! (...) Os bárbaros deixaram a marca na Europa, emprestando os seus nomes a numerosas nações.

Os francos ocuparam a Gália que se passou a chamar França, os anglo e os saxões que eram germanos batizaram a Inglaterra, [alguns "bretões", para fugirem aos anglo-saxões, instalaram-se na ponta ocidental de França, dando origem à Bretanha, salvando assim o gálico ou bretão], a própria Alemanha perpetuou o nome dos alamanos.

Alguns bárbaros eram marinheiros, os Vikings (suecos, noruegueses, dinamarqueses) caem nesta categoria, assim como os Normandos, "homens do norte", que aperfeiçoando a galera mediterrânica semearam a morte e o terror pelas costas do Mar do Norte.

O comércio entre o Báltico e o Mar Negro foi um monopólio sueco durante séculos, a guarda de honra bizantina era sueca, os célebres "varégues".

Os normandos instalaram-se na Normandia, que lhes será dada mais tarde pelo rei carolíngio no tratado de Saint-Clair-sur-Epte em 911, toda a Normandia tem pois vestígios dinamarqueses, o cabo de la Hague (Copenhaga), ou por exemplo "floor" latinizada em flor.

Cristianizados os normandos e sob o comando de Guilherme o Conquistador, conquistam a Inglaterra aos seus primos afastados, os anglo-saxões, em 1066.

Partem depois para a Sicília, onde fundam reinos cristãos, e serão vistos mais tarde em Jerusalém à frente das Cruzadas.




Os Mongóis pretenderam a Europa para fazer dela uma enorme coutada de caça



Por volta de 982, um explorador norueguês descobre um imenso território que por ser verde batiza de "groenland". A Gronelândia arrefece e estes agricultores/navegadores abandonam a ilha, partindo uns para a Islândia, onde apenas encontram alguns monges e eremitas, e outros para o Labrador, o estuário de São Lourenço na América do Norte.

Descem depois provavelmente até às Caraíbas...

De resto, quando Cortés chega ao México, o imperador Montezuma diz-lhe que eles não são os primeiros a chegar, teriam sido precedidos por grandes marinheiros louros, navegando em barcos com enormes serpentes esculpidas na proa.

Talvez tenham sido os «drakkars» a descobrir a América cinco séculos antes de Colombo.

Essa descoberta cai em saco roto, pois apesar de bons navegadores eram fracos em geografia e cartografia, e a própria Europa, em plena anarquia, não estava preparada para dar apoio a estas descobertas...

Apesar do descalabro, houve várias luzes que se mantiveram acesas: Constantinopla e a Igreja Católica. 

Hoje, podemos colocar a seguinte questão: se a civilização ocidental se desmoronasse, qual seria o seu refúgio, quem a iria reconstituir? 

Deixamos este raciocínio a quem tiver a paciência e a amabilidade de nos estar a ler...

A civilização é um milagre, a sua reconstrução ... outro milagre ainda maior!

Basta um alfinete para a fazer implodir. Esse alfinete no século III foram os bárbaros. Qual será hoje o alfinete?

Houve já nos primórdios da Idade Média uma última vaga de invasões vindas das estepes euro-asiáticas.

Gengis Khan, um pagão nómada, e os Mongóis conseguiram juntar os cavaleiros dispersos da Sibéria (1115-1227) e partiram de Karakorum à conquista do mundo.

No entanto os mongóis pararam à porta da Europa, que começava a sair do seu longo "sono". Os mongóis, ao contrário dos bárbaros germânicos, não sentiam qualquer espécie de fascínio pelo Ocidente, queriam apenas transformar a Europa numa imensa coutada de caça.

Tudo não passou de um sonho fulgurante que acabou por se dissipar perante o fogo dos canhões do Czar da Rússia.

Foi com a artilharia que os sedentários venceram de vez os nómadas...

E assim,  chegamos às portas da Idade Média!

Todos os impérios da História só tiveram ciclos ativos de duração limitada, até ao dia em que a sua expansão e as suas contradições internas os conduziram ao fracasso.

A Europa já superou tentativas para uniformizar o continente. Mas todas tinham em comum a arrogância de quererem fazer tudo, e nenhuma delas teve êxito duradouro.

Está-se a construir uma arquitetura não-democrática a partir de estruturas políticas não eleitas! Assim, foram-se abolindo as diferenças e estabelecendo regras de uniformização, com o argumento dos interesses do comércio livre.

É uma teia onde não se sabe quem manda. É esse poder anónimo,  não eleito, que se escuda por detrás de um série de leis (?) impostas aos diferentes países.

Assim... como todos vemos... a derrocada é previsível,  e não se entende que espécie de Europa se está a produzir...

Sem fatalismos, se não tivermos por aí outra invasão da barbárie, teremos pelo menos o regresso da Idade Média!



2012-06-20

« O SEXO DOS ANJOS NA ESPIONAGEM »

KIM PHILBY
Agente britânico dos Serviços Secretos
Espião da URSS

Harold Adrian Russell " Kim " Philby
(1912 - 1988)



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A 25 de Maio de 1951, os serviços de segurança britânicos preparavam-se para acusar Donald Maclean, um alto diplomata, de espionagem a favor dos Russos. O dia 25 era uma sexta-feira e decidiram esperar até segunda-feira seguinte para o prenderem. Nessa noite, Maclean desapareceu, assim como Guy Burgess, outro importante diplomata. Era óbvio que tinham fugido para a Rússia. Pior ainda, alguém altamente colocado nos serviços secretos britânicos os informara. Era essencial encontrar o «terceiro homem».
As suspeitas caíram sobre Harold «Kim» Philby, um dos oficiais superiores do MI 6 (serviços secretos). Philby foi interrogado durante diversos meses e, apesar de se não ter provado nada contra ele, foi obrigado a demitir-se. Em 1955, um membro do Parlamento afirmou em sessão parlamentar que Philby foi interrogado por jornalistas de todos os principais jornais britânicos. Mas quer nos julgamentos públicos, quer nos privados, Philby afirmou sempre que estava inocente.

Muitos dos seus antigos colegas do MI 6 achavam que Philby fora demasiado castigado. Alguns pensavam que o haviam derrubado por rivalidade. Em 1956 foi enviado para Beirute como jornalista do 'The Observer': e há também quem pense que para trabalhar para o MI 6. Depois de actuar cinco anos em Beirute, Philby desapareceu subitamente. Pouco tempo depois foi anunciado que fugira para a Rússia. Nas suas palavras, regressava «são e salvo». Na realidade, Philby era o «terceiro homem». Há trinta anos que era agente comunista.

Num dia de Setembro de 1961, o ano da fuga de Philby, um russo de aparência elegante passeava-se numa avenida de Moscovo e parou junto de um parque infantil onde brincavam algumas crianças. Sorriu e ofereceu a uma delas uma caixa de chocolates. Quando o homem se foi embora, a criança levou a caixa à mãe, que estava sentada num banco ali perto. A mãe era mulher de um diplomata britânico na Embaixada de Moscovo. A caixa continha quatro rolos de filme de documentos secretos dos próprios serviços secretos russos. O homem era o Coronel Oleg Penkovsky, um Oficial do G.R.U. (serviços secretos militares soviéticos).



 Coronel Oleg Penkovsky
Oficial dos Serviços Secretos Soviéticos
Espião a favor do Ocidente


Penkovsky era espião pelo Ocidente. O seu principal contato era um homem de negócios inglês chamado Greville Wynne, cujo trabalho o levava frequentemente a Moscovo. Através de Wynne, os serviços secretos americanos e britânicos forneceram a Penkovsky dinheiro, uma câmara fotográfica miniatura 'Minox' e um receptor de rádio. Em dezoito meses, Penkovsky conseguiu passar 5.000 fotografias de documentos militares e secretos. Os filmes eram passados por contato directo, como foi descrito acima, e também por meio de «marcos de correio mortos» [gíria denominativa de pessoas que oficialmente não existem].





 A mítica câmara fotográfica «Minox»
ferramenta de espionagem da época


Em Outubro de 1962, enquanto Penkovsky planeava escapar para o Ocidente definitivamente, foi preso em Moscovo. Wynne foi raptado na Hungria e trazido para a Rússia. Foram julgados e considerados culpados. Penkovsky foi condenado à morte e Wynne a oito anos de prisão, mas Whynne nunca chegou a cumprir a pena. Em 1964 foi trocado pelo espião russo «Gordon Lonsdale».

Muito embora o Coronel Penkovsky tenha sido condenado à morte e dado com tendo sido executado, acredita-se que o mantiveram vivo, muito embora preso algures na Rússia. Desígnios da espionagem de alta escola!

Kim Philby gozou merecidamente a sua reforma, oferecida pelo regime soviético como gratidão pelos serviços prestados. Inclusivamente foi homenageado numa emissão de selo de correio conforme em baixo se ilustra em fotografia.


 Selo de Correio russo
homenageando Kim Philby pelos serviços
prestados à URSS


 Kim Philby clamou a sua  inocência perante os jornalistas em 1955.  Philby, Guy Burgess e  Maclean,   tinham andado juntos na Universidade de Cambridge, onde se tornaram comunistas. Todos os três foram recrutados como espiões comunistas pouco tempo depois, nunca se sabendo por quem.

Philby devia manter-se «adormecido» isto é, não deveria atuar até ter alcançado uma posição que pudesse ser de verdadeiro valor.
Ao longo da segunda guerra mundial, foi subindo na carreira dos serviços secretos britânicos. Incrivelmente, chegou a chefiar o departamento que tratava dos assuntos dos serviços secretos russos!
Será que os serviços secretos britânicos foram mesmo ludibriados? Ou tinham esperança de que ele se traísse, ou a outros, se fosse deixado à solta?

O agente Philby desde há muito tinha "curriculum" e consciência política. Em 1937 tinha viajado para Espanha, Sevilha, como jornalista "freelancer" e, já como agente duplo, dava informações ao MI 6 britânico, e à URSS que as transmitia ao Exército Republicano espanhol. Tendo escapado miraculosamente ( ferido na cabeça) duma operação de combate, o General Francisco Franco condecorou-o com a medalha da Cruz Vermelha de Mérito Militar, no dia 2 de março de 1938. Aquela distinção, favoreceu-o na infiltração no seio das tropas falangistas e maior acesso às informações das estratégias da guerra civil.


Condecoração espanhola 
que 
Kim Philby recebeu



 Só muito raramente os homens da «polícia secreta» inglesa saiem da sombra. Poucas pessoas - além dos seus superiores imediatos - sabem o que eles realmente fazem. Se se metem nalgum sarilho, não podem contar com qualquer auxílio oficial. E, as próprias mulheres estão convencidas de que eles são homens iguais aos outros, apenas com um horário de trabalho um pouco estranho...
Na pequena tabacaria da aldeia aquela manhã era uma manhã igual a todas as outras, até o homem alto entrar. Mostrou um cartão à mulher que estava atrás do balcão e disse-lhe para fechar a loja. Depois de o último cliente ter saído, começou a interrogar a proprietária acerca das ideias politicas do filho, de 18 anos. Quando o interrogatório terminou, hora e meia mais tarde, a mulher soluçava.
Em alguns países este incidente seria vulgar. Porém, a cena passava-se no Surrey, Inglaterra, em 1967...
O homem em questão era um investigador local; contudo, o trabalho que executava naquela ocasião era bastante fora do comum. Na realidade trabalhava diretamente para a Divisão Especial... A Divisão Especial - a organização que, em Inglaterra, mais se aproxima de uma verdadeira polícia secreta - só muito raramente sai da sombra. De facto, a meia dúzia de homens «sem rosto» que se encontravam na parte de trás da sala do tribunal de Old Bailey, de Londres, quando o oficial da RAF (Força Aérea) Douglas Britten, foi condenado a 21 anos de prisão por espionagem, apareciam pela primeira vez em público, desde um outro caso similar 8 anos antes.

Poucas pessoas, incluindo a polícia ortodoxa, estão a par do verdadeiro papel da Divisão Especial. Na realidade esta é o braço executivo do serviço secreto britânico. É quem efectua as prisões depois dos casos terem sido resolvidos pelos serviços de contra-espionagem.
Porém, desde a reorganização total efectuada em 1961, a Divisão Especial tornou-se igualmente numa força de polícia política que mantém sob vigilância as pessoas cujas simpatias esquerdistas possam, em certas circunstâncias, representar um perigo para a segurança nacional.
Desde a fundação do Partido Comunista Britânico, em 1920, a Divisão Especial sempre prestou redobrada atenção às actividades, mas as modificações realizadas em Junho de 1961, quando da reorganização, aumentaram eficazmente a sua capacidade no combate das actividades ditas subversivas. A rede foi-se propagando através da província e cada subdivisão regional que, ao princípio dispunha apenas de dois ou três elementos no máximo, passou a mais do dobro, incluindo o inspector, dois sargentos e investigadores.

Embora a sua tarefa só muito raramente venha a público, a Divisão Especial mantêm-se em constante actividade. Por cada ameaça ou suspeita de ameaça que chega aos jornais, há dúzias delas que permanecem em segredo. Os serviços são também responsáveis pela protecção dos dignatários que visitam a Grã-Bretanha. Grande parte do trabalho deles é aborrecido e rotineiro: verificar chegadas e partidas nos aeroportos, ou entrevistar forasteiros suspeitos de actividades irregulares.

Raramente os membros da Divisão Especial são chamados a intervir na destruição e detenção de redes de espionagem. É o MI 5 que recolhe as provas e depois as entrega à Divisão Especial para realizar as prisões.
O facto de estes serviços - na prática uma polícia que ninguém conhece - poderem exercer consideráveis pressões sobre a população, poderia levar a crer que a invejável posição da Inglaterra como país livre no mundo moderno não passa de um mito.

Passam a mensagem que acontece exactamente o contrário, pois actuam unicamente contra aqueles que constituem uma ameaça para a segurança e liberdade, um valor inestimável que os cidadãos em geral tanto preservam!


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 Kim Philby gozando a reforma de velhice 
na 
Rússia

Falta esclarecer em que ponto ficará salvaguardada a liberdade de expressão e de pensamento (...)
Apenas como apontamento académico e mera concepção histórica, lembro que a espionagem consiste em obter e passar informações secretas. É uma arte muito antiga que perdurou até aos nossos dias. Os primeiros registos humanos contêm relatos de missões de espionagem.

A China antiga, o Egipto e a Roma Imperial de Júlio César transformaram a espionagem numa actividade "requintada" e tornaram os espiões tão velhos como os segredos humanos.

Agentes duplos, redes de espiões e passadores de informações falsas são personagens dessa grande "indústria" moderna que é a espionagem.

O nosso amado Rei D. João II - o Príncipe Perfeito -, monarca hábil, justo e tolerante (apunhalou Dom Diogo, Duque de Viseu!), é considerado uma das mais gloriosas figuras da História de Portugal, até na dinâmica dos descobrimentos e não foi alheio a ter usado e aproveitado a espionagem internacional em larga escala.

"Kim" trabalhou para o NKVD e, depois da extinção desta organização, para o KGB que lhe sucedeu. Há quase dois anos que tenho a intenção de escrever um post sobre os serviços secretos soviéticos que vieram depois da polícia czarista Ochrana. Tenho evitado fazê-lo para não ferir susceptibilidades. Penso que com isenção poderei falar dos factos, sem com isso melindrar ideologias que estão acima de quaisquer atos menos correctos, que qualquer organização policial de natureza política sempre incorreu, e incorrerá.

Estou a lembrar-me de episódios recentes de espionagem passados entre nós, e que, aos poucos, vão tentando branquear até ao apagamento da proverbial memória curta dos portugueses!...
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Como este post não é propriamente uma tese de doutoramento, não adianto mais pormenores muito embora de interesse histórico, e vou terminar com um pedido de opinião: será que a Espionagem e os seus Agentes são mesmo um mal necessário?


2012-06-06

«MARTIN LUTHER KING - UM SONHO ADIADO...»

Um dos «graffiti» que fotografei de telemóvel num bairro "difícil" dos arredores de Lisboa
homenageando 
Martin Luther King
(1929 - 1968)
[Lutador pela integração dos negros pela via pacífica]



Há cerca de duzentos anos, quando o negro era uma coisa, um objeto pertencente ao senhor branco, alguns donos de escravos  possibilitaram aos servos os meios através dos quais pudessem comprar o seu resgate e se tornassem livres.Um jovem empreendedor, apaixonado pela namorada escrava, esforçava-se desesperadamente - utilizando o tempo disponível -, e durante anos acumulava o capital suficiente para obter a sua liberdade e a de sua noiva. Muitas mães negras, depois de trabalhar de sol a sol, passavam o resto da noite a lavar roupa e a guardarem os tostões assim obtidos até que, com os anos, acumulassem uma maquia considerável. Frequentemente, lutavam e sacrificavam-se para comprar, não a própria liberdade, mas a de um filho ou de uma filha. O dinheiro suado era pago ao senhor, em troca do instrumento legal de alforria que declarava o portador liberado da escravidão física.





 +

Dr. MARTIN  LUTHER KING

uma das suas citações


Com o progresso deste movimento, alguns negros devotaram a sua vida à compra e à libertação de outros.

Uma empregada de Thomas Jefferson - 3º Presidente da América - trabalhou durante quarenta anos e juntou dez mil dólares com que conseguiu obter a liberação de dezanove pessoas negras. Mais tarde, alguns brancos humanitários empreenderam uma cruzada pública  para obter fundos tendentes a resgatar os negros da degradação que lhes era imposta pelos captores (proprietários).

"Ajude-me a comprar a minha mãe," ou "Ajude-me a comprar o meu filho," era um apelo pungente! Para muitos brancos, em cujo espírito a escravidão produzia um constrangimento doloroso, isto calava fundo de maneira chocante, a profunda tortura da alma negra.





Martin Luther King foi uma fonte de inspiração para milhares de pessoas, ficou conhecido como um dos mais importantes  líderes do ativismo pelos direitos civis. Através de campanhas de apelo à não violência, foi capaz de mobilizar milhares de vontades, que partilhavam do mesmo sonho: a igualdade entre pessoas, independentemente do seu estatuto social e económico, credo religioso ou diferença racial.

"Eu tenho um sonho..." - uma das citações mais famosas desta figura ainda é ouvida atualmente em discursos políticos, na televisão e em manifestações estéticas e artísticas, designadamente de cariz musical.

Os seus principais feitos foram a conquista de direito ao voto, o fim da segregação, das descriminações no trabalho e a conquista de outros direitos civis básicos.

Foi graças às marchas e aos seus empolgantes discursos que conseguiu o apoio necessário para marcar a diferença. Na História ficou conhecido como uma das figuras mais importantes da América, tendo sido distinguido como o Homem mais novo a merecer o prémio Nobel da Paz.

Uma das suas grandes fontes de inspiração foi Mahatma Gandhi, também conhecido pelos seus gestos pacíficos.

Martin Luther King tornou-se um ícon, graças ao seu esforço e infindável esperança no sentido de vir a viver num mundo melhor, num mundo em que as pessoas "não serão julgadas pela cor da sua pele, mas pelo  conteúdo do seu caráter".





A PRISÃO DE MARTIN  LUTHER KING



Infelizmente, as ideias de Martin Luther King têm ainda hoje muita razão de ser, dado que pelo menos em muitas comunidades, sociedades e até nações, os seus desígnios não foram concretizados.

Todos devemos continuar a ter presentes e a defender  estes ideais de valores éticos, morais e de amor ao próximo.







 Velório de Martin Luther King
 (morto por assassínio)




ENTREVISTA AO ASSASSINO DO LÍDER:
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Em previsão tragicamente confirmada, Martin Luther King tinha a certeza que «não podia esperar» ...
(outro dos seus "slogans" de oratória) ... Nem ele, nem o seu povo!  A sua eliminação física era sempre uma questão de tempo, derivação natural do massacre a que o negro norte-americano estava submetido. 

Massacre social, económico, político e moral que o impede de atingir a condição humana.

Entendida esta na sua expressão mais simples, cujo significado não ultrapassa o limite da necessidade do ser humano, individual e coletivamente, viver num contexto  de direitos e obrigações que definem a moralidade, dão forma à liberdade concreta e que, no processo da sua efetivação, passam a ser o atributo básico do ser humano, isto é, tornam o homem, humano.

É exatamente em busca da sua humanidade que lutam os negros, e não estão sozinhos na batalha. Possuem companheiros de todas as cores em todos os continentes. Disso tinha plena consciência a liderança adulta de Luther King quando afirmou com grande lucidez: «A determinação dos negros norte americanos de se libertarem de todas as formas de opressão, deriva dos mesmo motivos profundos que inspiram as lutas de todos os povos oprimidos no mundo. Os descontentamentos na Ásia e na África são expressões de um anseio de liberdade e de dignidade humana por pessoas que, por longo tempo, foram vítimas do colonialismo e do imperialismo. Num sentido verdadeiro, a crise racial dos Estados Unidos é parte de uma crise mais ampla, que abrange o mundo inteiro».

Eis aí a verdadeira dimensão da luta racial nos Estados Unidos, suas implicações  e significados de ordem mundial, e dentro dela a importância, a vitalidade e o alcance do líder assassinado.

Sucumbiu, na forma já rotineira na América quando se trata de figura do maior destaque, através de atentado rápido e materialmente 'limpo', perpetrado ainda uma vez por um «louco» possuído de "fúria ideológica".

Martin Luther King conhecia a sua condição de vítima latente, e serenamente aguardou o desfecho.

Na impossibilidade absoluta de consolo, frize-se com veemência que ele sabia porquê... ia morrer, ele que morreu por todos nós! 

Continuemos a ser, na respetiva atuação e atitude quotidiana, um humilde mas ainda muito necessário Martin Luther King.