REI D. CARLOS I
Poeta Guerra Junqueiro
O Ultimato Inglês de 1890 foi sentido como um ultraje por toda a nação portuguesa, provocando a elevação dos círculos republicanos portugueses. Guerra Junqueiro, conhecido escritor, converteu-se numa das vozes mais agressiva da propaganda republicana, ele que até então era um frequentador dos círculos conservadores da sociedade e da política portuguesas.
Para o efeito compôs um poema, que dedicou a Fialho de Almeida, intitulado "O caçador Simão" e que foi publicado na imprensa da época como no Globo, na Província e nos Pontos nos ii, entre outros. Recorde-se que Simão era o último dos nomes próprios do Rei D. Carlos, logo o caçador Simão pretendia designar o próprio rei, entronizado recentemente.
O poema foi considerado uma premonição (ou mesmo um desejo) do atentado que haveria de matar o rei e o seu filho primogénito, 18 anos mais tarde.
Logo na primeira quadra, Guerra Junqueiro, hostiliza o rei, acusando-o de indiferença, perante a agonia do seu moribundo pai, o rei D. Luís I e da dor da sua mãe, a rainha D. Maria Pia. Nas restantes quadras pode observar-se o ódio e o sentimento patriótico provocados pelo Ultimato Britânico, o qual vexou uma pátria inteira.
O ódio expresso por Guerra Junqueiro leva-o a escrever a última quadra, que se viria a revelar profética, não faltando quem a interprete como um incentivo ao regicídio (Papagaio real, diz-me, quem passa? - É alguém, é alguém que foi à caça do caçador Simão!...) [Em Simão leia-se o Rei D. Carlos].
O regicídio viria a ocorrer no dia 1 de Fevereiro de 1908, quando as armas de Manuel Buiça e de Alfredo Costa matam o Rei D. Carlos I, vindo de Vila Viçosa onde praticara a caça, e o Príncipe Real D. Luís Filipe, em pleno Terreiro do Paço.
Para melhor compreensão fica o poema integral:
= O CAÇADOR SIMÃO =
Jaz el-rei entrevado e moribundo
Na fortaleza lôbrega e silente…
Corta a mudez sinistra o mar profundo …
Chora a rainha desgrenhadamente …
Papagaio real, diz-me quem passa?
— É o príncipe Simão que vai à caça.
Os sinos dobram pelo rei finado …
Morte tremenda, pavoroso horror!...
Sai das almas atónitas um brado,
Um brado imenso d’amargura e dor …
Papagaio real, diz-me, quem passa?
— É el-rei D. Simão que vai à caça.
Cospe o estrangeiro afrontas assassinas
Sobre o rosto da pátria a agonizar …
Rugem nos corações fúrias leoninas,
Erguem-se as mãos crispadas para o ar!...
Papagaio real, diz-me quem passa?
— É el-rei D. Simão que vai à caça.
A Pátria é morta! A Liberdade é morta!
Noite negra sem astros, sem faróis!
Ri o estrangeiro odioso à nossa porta,
Guarda a Infâmia os sepulcros dos Heróis!
Papagaio real, diz-me, quem passa?
— É el-rei D. Simão que vai à caça.
Tiros ao longe numa luta acesa!
Rola indolentemente a multidão …
Tocam clarins de guerra a Marselheza …
Desaba um trono em súbita explosão!...
Papagaio real, diz-me, quem passa?
— É alguém, é alguém que foi à caça
Do caçador Simão!...
= O CAÇADOR SIMÃO =
Jaz el-rei entrevado e moribundo
Na fortaleza lôbrega e silente…
Corta a mudez sinistra o mar profundo …
Chora a rainha desgrenhadamente …
Papagaio real, diz-me quem passa?
— É o príncipe Simão que vai à caça.
Os sinos dobram pelo rei finado …
Morte tremenda, pavoroso horror!...
Sai das almas atónitas um brado,
Um brado imenso d’amargura e dor …
Papagaio real, diz-me, quem passa?
— É el-rei D. Simão que vai à caça.
Cospe o estrangeiro afrontas assassinas
Sobre o rosto da pátria a agonizar …
Rugem nos corações fúrias leoninas,
Erguem-se as mãos crispadas para o ar!...
Papagaio real, diz-me quem passa?
— É el-rei D. Simão que vai à caça.
A Pátria é morta! A Liberdade é morta!
Noite negra sem astros, sem faróis!
Ri o estrangeiro odioso à nossa porta,
Guarda a Infâmia os sepulcros dos Heróis!
Papagaio real, diz-me, quem passa?
— É el-rei D. Simão que vai à caça.
Tiros ao longe numa luta acesa!
Rola indolentemente a multidão …
Tocam clarins de guerra a Marselheza …
Desaba um trono em súbita explosão!...
Papagaio real, diz-me, quem passa?
— É alguém, é alguém que foi à caça
Do caçador Simão!...
« MATARAM O REI NO TERREIRO DO PAÇO »
Esta notícia bombástica espalhou-se por Lisboa na tarde de 1 de Fevereiro de 1908. Depois, um muro de silêncio abateu-se sobre o regicídio.
A meio da tarde de 1 de Fevereiro de 1908, sob um pálido sol de inverno, D. Carlos, penúltimo rei de Portugal, e o príncipe Luís Filipe, herdeiro do trono, foram assassinados a tiro na Praça do Comércio (vulgo Terreiro do Paço), a "sala de visitas" de Lisboa.
O eco dos tiros disparados por Manuel Buíça e Alfredo Costa, dois membros da sociedade secreta Carbonária, abalou a vida política nacional e anunciou para breve o advento da República.
A família real regressava de Vila Viçosa, em cujo palácio e propriedades passara, em caçadas, o mês de Janeiro. Os últimos Bragança iam para lá muito no Inverno, reservando para as férias de Verão o Palácio da Pena, na Serra de Sintra,, , e a Cidadela de Cascais. O comboio que trazia D.Carlos, a rainha D. Amélia e o herdeiro do trono descarrilou na Casa Branca, atrasando-se uma hora e meia. Em vez de chegarem às 16 horas à Gare do Sul e Sueste, os viajantes só desembarcaram do barco do Barreiro perto das 17h30.
À espera, entre muitos políticos, estavam o filho mais novo dos reis, D. Manuel e João Franco, o primeiro-ministro que governava com o Parlamento encerrado, com o apoio do rei.
Os Bragança tomaram depois lugar numa carruagem descoberta, tipo landau, que, dirigindo-se ao Palácio das Necessidades, subiu o Terreiro do Paço pelo lado esquerdo. Foi perto da esquina dos Correios que os disparos foram feitos.
D. Manuel foi ferido num braço e a rainha vergastou com um ramos de flores Alfredo Costa, que subira para o estribo da carruagem de revólver em punho. Ele e Buíça foram de imediato abatidos pela polícia.
Na altura, o regicídio foi considerado quase como algo natural pelos republicanos. E pelos lisboetas em geral. Naturalmente, ninguém se vangloriou do feito, que foi tacitamente atribuido a uma decisão isoladas dos dois regicidas.
Sabe-se agora que, como é natural, se tratou de um plano articulado. Além dos membros da Carbonária, estariam envolvidas muitas outras pessoas, algumas "bem colocadas " socialmente.
Numa reportagem no New York Times em Julho desse ano de 1908 lia-se a dada altura: «Diz-se que a rainha Amélia reconheceu num dos assassinos um proeminente líder político, mas guarda firmemente o seu segredo.»
E mais adiante: «Desde esse fatal dia 1 de Fevereiro foram presas centenas de pessoas. A rainha olhou para centenas de rostos. Disfarçada, esperando que aquele que ela crê ser o chefe se denunciasse por uma pose ou por um gesto. Tudo foi em vão.»
Sabe-se que o Buíça era apenas um pobre professor de música e ardente revolucionário, com um perfil dostoievskiano.
Mas estava aberta a porta para as dúvidas e as especulações. Tudo viria porém a ser abafado. A República vinha a caminho e, por razões políticas, ninguém abriu o processo. Nem a Ditadura Militar do 28 de Maio, nem mesmo no, alegadamente, Estado Novo salazarista.
Gravura artística reproduzindo o facto
- Pesquisas obtidas na
SHIP-Soc. Histórica de Portugal
onde sou sócio.
- Gravuras: Selecionadas na Internet

















