OS TRÊS CONSAGRADOS SANTOS DO MÊS DE JUNHO
No fluir da vida humana, o sagrado e o profano andam, frequentemente, de mão dada. Este mês de Junho é , de todo, emblemático, a este propósito.
Três datas aparecem logo em grande esplendor: 13 - Santo António, o nosso e de Pádua; 24 - S. João Batista, um dos escolhidos do próprio Jesus Cristo e irmão de Santiago, o de Compostela - Espanha; 29 - S. Pedro, o primeiro pontífice da Igreja Católica.
Olhando para as tradições, cada um deles motiva festa rija e muita devoção. Em jeito de brincadeira, dão o seu contributo para a disputa regional, com Santo António a fazer saltar Lisboa e o S. João a marcar o Porto e Braga. S. Pedro, mais sereno e institucional, fica-se por outros locais mais recatados...
Marcha do Bairro do Alto do Pina - Lisboa, vencedora este ano de 2011 do desfile das Marchas de todos os Bairros Lisboetas
Vídeo do desfile das marchas de Santo António de Lisboa de 2011
Na antropologia destas manifestações sociais e de crença, encontramos traços de uma variada origem, a que não é alheia a ideia da celebração de ciclos de vida, como o da exaltação do poder criativo do sol e o seu solstício de Verão, de uma passagem de tempos de sementeira para o seu amadurecimento, de fim de penosos trabalhos agrícolas, como aqueles de revolver os solos à custa de duro esforço braçal (charrua etc.), ou a fuga da Primavera para dar lugar a um tempo mais quente, mais propício a um certo relaxamento, associando todos este ingredientes a um sentimento de profunda fé no divino e sua simbologia.
O SOLSTÍCIO DE VERÃO
O Solstício de Verão é uma época tradicional, em que os pagãos colhem as ervas mágicas para os encantamentos e poções. É o momento ideal para as divinações e para os rituais de cura. Os alimentos pagãos são os vegetais frescos, frutos do Verão, pão de centeio integral, cerveja e hidromel.
Cântico do Solstício de Verão
Assim, temos os santos populares e, para os comemorar, nada melhor do que juntar devoção, costumes, testemunhos de gerações, etnografia, trajes, folclore, indústrias criativas, música, lugares míticos, espaços sacrais, paixões, sentimentos e, acima de tudo, fé, muita fé.
Com a religião fortemente enraizada na nossa cultura popular, estas festas são, ainda, uma rutura com rotinas diárias e muito vincadas, repetidas até à exaustão, pelo que se afigura que o aproveitamento de tudo quanto seja pontapé nesses dias sempre iguais, vem sempre a calhar.
Nesse período de pagamento de promessas, de um afagar de dores de um quotidiano difícil, ir aos arraiais, ao mesmo tempo que se entra nas capelas, igrejas, santuários, ou mesmo simples frutas, constitui uma obrigação -dever - e um prazer físico, social e espiritual. Reportamo-nos, como se deduz, de épocas em que nada da nossa modernidade estva ao nosso alcance: nem rádio, nem televisão, nem jornais, nem cinema, nem internet, nem toda esta vasta gama de estímulos e solicitações que quase esmagam o nosso querer.
Restavam então as festas populares, os entremezes, os saltimbancos, os circos ambulantes e, antes ainda, os jograis e os trovadores.
Sardinhas assadas nas brasas de carvão
'prato' tradicional nestas festas
Vasos de manjericos c/ flores e bandeirinhas de poemas
para todos os gostos dos apaixonados
Concentrando massas de gente de inesperadas origens, culturas e saberes, convertem-se estes eventos em trocas, intercâmbios, partilhas, naqueles lugares de culto, de lazer, de passagem de modas, de desporto, de trocas comerciais, de transmissão de notícias e de contos, sem que se ponham em causa o culto às divindades e aos santos, as missas, procissões, novenas e entregas ao alto e ao além.
Ao coabitarem rezas com foguetes e folguedo, é a religiosidade popular, na sua complicada confusão entre o sagrado e o profano, que vem a sobressair.
Santo António, é uma figura religiosa tradicionalmente considerada casamenteira. Por isso, incluem-se nos seus festejos, a celebração maciça de uma quantidade significativa de matrimónios católicos.
Estas festividades, por serem marcas penetrantes e impressivas nas nossas comunidades, arrastam muitos outros factores positivos: ajardinamento das localidades e seus espaços verdes, potenciamento das virtudes da gastronomia locais, convívio entre familiares e amigos, atração para o regresso, ainda que passageiro, de quem faz da diáspora modo de vida, por necessidade ou, por gosto, embelezamento pessoal, participação criativa de cada terra, em mordomias ou comissões de festa, hábitos de discussão sadia de propostas e soluções, eis de tudo um pouco!


















