[ Vox populi vox Dei ]

2011-04-27

« GONZALO ROJAS - POETA CHILENO - PARTIU ... »


GONZALO ROJAS
(1917 - 2011)

Um dos Poetas mais importantes do Chile das últimas décadas
Conhecido Autor da obra  «La Miséria del  Hombre»










El poeta maldice a su cadáver


Fuiste la libertad de salvarte o perderte.
Viste el mundo sin ver lo que era el mundo.
¿Por qué fué deformada en tus pupilas
la luz fundamental? ¿Perdiste la razón
antes de resolverse la raíz de tu origen?

Maldita sea tu naturaleza
que sopló por tu boca la hermosura
de la imaginación. Maldita sea
la belleza que hablaba por tu boca.
Maldito el yacimiento de todas tus palabras.

¿Por qué estás disfrazado bajo el vidrio,
como un libro sellado para siempre,
letra inútil, fatídica escritura?
¿Por qué tras de tus ojos ya no está el fuego eterno,
máscara del gusano?

Esta es tu boca. -¿Dónde están tus besos?
Esta es tu lengua. -¿Dónde tu palabra?
Estas, tus piernas. -¿Dónde están tus pasos?
Este tu pelo. -¿Dónde tu lujuria?
Este, tu cuerpo. ¿Dónde tu persona?
Estas, tus manos. -¿Dónde está tu fuerza?
Todo esto fuiste tú. -¿Dónde estás tú?
Dime: ¿dónde hubo un hombre?

Ya no puedes llorar como los árboles
cuando el viento trastorna sus sentidos.
Ya no eres animal, ni adivino del mundo.
Te estás secando poco a poco. Estás
quemando tus acciones, hasta ser
polvo del torbellino.






De La miseria del hombre, 1948.






















 
« Santiago (Chile), 25 abr (EFE). - O Chile chora a morte do poeta Gonzalo Rojas, morto nesta segunda-feira aos 93 anos após permanecer por mais de dois meses num delicado estado de saúde devido a um acidente vascular cerebral (AVC).

O poeta morreu às 6h15 do horário local  numa clínica de Santiago ao lado de sua família, do médico e das enfermeiras que haviam cuidado de seu caso desde 12 de Março, quando foi transferido de Chillán, a cerca de 400 quilómetros ao sul da capital, para ficar mais perto de seus parentes.

Alguns dias antes, em 22 de Fevereiro, a saúde do escritor, agraciado com o Prémio Cervantes de Literatura 2003, o Prémio Nacional de Literatura 1992 e o Prémio Reina Sofía de Poesia Ibero-Americana 1992, havia sido afetada por um derrame.

Seu filho Gonzalo Rojas-May destacou que o pai teve uma vida muito intensa e lembrou que mesmo depois da pneumonia que sofreu no ano passado, manteve-se muito ativo e tinha vários projetos.

"Foi realmente um privilégio ter tido a possibilidade de aprender a ver e a ler o mundo com ele", afirmou Rojas-May à "Rádio Cooperativa".

Nascido em 20 de Dezembro de 1917 na cidade de Lebu, de uma família de mineiros, Gonzalo Rojas é considerado no mundo literário como grande contribuidor do chamado "boom" latino-americano, graças aos seminários e encontros que organizava nos anos 1950 e 1960.

"Filho literário" de Pablo Neruda, Vicente Huidobro e Gabriela Mistral, Rojas era apontado como "um poeta do assombro" e não tinha medo da morte porque achava que ia viver muito, segundo disse em entrevista concedida à Efe há alguns anos.

Autor de poemas como "La Reniñez" e "La Miseria del Hombre", sua consagração internacional ocorreu em 1977 com "Oscuro", publicado na Venezuela durante seu período de exílio por conta da ditadura de Augusto Pinochet.

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, lamentou nesta segunda-feira a morte do homem que qualificou como "um grande poeta, um grande pai, um grande amigo e um grande chileno".

"Junto com grandes poetas como Pablo Neruda, Gabriela Mistral, Vicente Huidobro e Nicanor Parra, ele fez com que o Chile fosse conhecido como o país dos poetas", disse Piñera aos jornalistas após um ato oficial em Villa Alemana, perto de Valparaíso.

Já o ministro da Cultura, Luciano Cruz-Coke, destacou o legado literário de Gonzalo Rojas.

"Foi um homem talentoso, uma grande pessoa. Seu carinho incondicional pela literatura  traduziu-se num grande trabalho como académico e o seu compromisso com as novas gerações", afirmou o ministro durante a inauguração da Feira do Livro de Santiago.

As mensagens de condolências chegaram também do universo académico, um mundo que conhecia bem e onde circulava com desenvoltura graças à sua experiência como professor em várias universidades.

O reitor da Universidade de Talca, Álvaro Rojas, referiu-se ao poeta como uma pessoa "extremamente prolixa", que  "inspirava a todos com suas reflexões poéticas".

"Morreu um poeta maior, talvez o principal poeta da língua espanhola", disse o reitor, amigo pessoal de Gonzalo Rojas, em comunicado.

Já o presidente da Câmara Chilena do Livro, Eduardo Castillo, lamentou em declarações concedidas à Efe a perda de "um homem lúcido de uma generosidade extraordinária".

Mas as demonstrações de carinho ao autor de obras como "Qué se Ama Cuando se Ama" e "Contra La Muerte" cruzaram as fronteiras do Chile.

"Acho que é um grandíssimo poeta, alguém muito original que tinha o melhor ouvido da poesia espanhola", afirmou à Efe o poeta mexicano José Emilio Pacheco.

O governo chileno decretou luto oficial na terça e quarta-feira. O corpo do poeta será velado a partir desta segunda-feira no Museu Nacional de Belas Artes, a poucas quadras do Palacio de La Moneda.

Na quarta-feira será realizada uma cerimónia no museu e posteriormente seu corpo será levado a Chillán, sua "cidade adotiva", onde será sepultado. »






2011-04-25

« O FERIADO DA LIBERDADE ... »










O  25  DE  ABRIL  DE  1974



No 25 de Abril
Momento mais belo da história
Uniram-se uns tantos mil
Para festejar a vitória.

O sinal foi uma canção
E em vez de sangue houve cravos
Que o povo levou na mão
Para oferecer aos soldados.

O povo da ditadura
Correu logo entusiasmado
Porque de fome e tortura
Já estava saturado.

As mães saíram à rua
Para seus filhos apoiar
Que de rastos pelo chão
E atentos de arma na mão
Aguardavam disparar 
Por uma luta que era sua.

Sim, essa luta era sua
Porque são filhos do povo;
Por isso estavam na rua
P'ra fazer Portugal novo.


[Modestos versos do autor do blogue]












OTELO

Texto postado por: Dr. Francisco Seixas da Costa
Embaixador de Portugal em França
(24 de Abril de 2011)



«Algumas pessoas espantam-se com afirmações recentes de Otelo Saraiva de Carvalho. 

Vale a pena notar que nada de isto é novo. Todos os anos, pela primavera de abril, alguma imprensa vai desencantar Otelo, que, honra lhe seja!, não se furta a aproveitar esse warholiano nicho de cíclica visibilidade para dizer umas coisas ao lado do "politicamente correto". Já faz parte da "saison". Os "abrilistas" entram em agonia, os seus detratores deliciam-se com o que acham serem os deslizes do ex-militar. Passa abril e Otelo volta a desaparecer. Até para o ano.

Não podemos pedir que Otelo não fale, porque todos nós devemos a Otelo a possibilidade de dizermos aquilo que nos vem à alma, até mesmo dizer que, "assim", o 25 de abril não terá valido a pena, que seria bom se a democracia pudesse contar com alguém com a inteligência de Salazar - como se houvesse figuras de neutral sapiência que, qual Fouché, serviriam todos os regimes.

Conheço mal Otelo Saraiva de Carvalho mas, diga-se desde já, tenho, face a ele, toda a gratidão do mundo. Por tudo o que fez por nós, há 37 anos. Algumas pessoas não perceberão isso. Problema delas, como dizem os brasileiros.

Um dia, em inícios de 1983, em Luanda, cruzei-me com Otelo num hotel. Não nos víamos desde o "verão quente", dos corredores do MFA, de idas ao Alto do Duque. Convidei-o a vir almoçar no dia seguinte a minha casa, com o João Sobral Costa, um amigo comum, um gigante de bondade que, como capitão da Força Aérea, havia feito parte do grupo ocupante do Rádio Clube Português, na noite de 25 de abril, e que trabalhava então em Angola. Sugeri que se nos juntasse o Arlindo Ferreira, outro capitão de abril, que estava em Luanda para outras "guerras" (e que já faleceu). Por aquelas "makas" (uso uma expressão angolana) em que a família militar (e a de abril ainda mais) é useira e vezeira, não se reuniu consenso para o Arlindo se nos juntar.

No dia do almoço, vim à porta de casa buscar Otelo, que ia acompanhado da mulher e de uma figura que não vem para o caso (mas que talvez pudesse explicar muita coisa). A minha residência era no "compound" da Embaixada, onde também funcionavam os serviços e o consulado-geral, na então rua Karl Marx, que antes fora chamada de Vasco da Gama e que, hoje em dia, é avenida de Portugal (evolução toponímica que daria para um mestrado...). 

A grande maioria dos funcionários da nossa missão diplomática em Luanda era constituída por antigos quadros da administração colonial, que tinham visto o percurso da sua vida perturbado pelo 25 de abril e pela independência do país que, em geral, sofriam bem mais do que celebravam. Não era, assim, legítimo pedir-lhes que entoassem loas à chegada do estratega da Pontinha. Um deles, boquiaberto, perguntou-me: "É o...?", sem ousar dizer o nome. Era, confirmei-lhe, e, nesse segundo, devo ter caído uns furos na sua escala de consideração, bem como na de outros a quem terá contado a inconveniente frequentação social do jovem diplomata que eu então era.

Esse almoço com Otelo foi uma ocasião que recordo como bastante simpática. Ele e o João Sobral Costa, que haviam sido vedetas de um filme onde eu só fiz umas "pontas" como figurante, conflituaram versões sobre o "documento do COPCON" (demoraria muito explicar aqui o que isso foi) e outras cenas desses tempos movimentados. Recordo-me de lhes ter lido extratos de um livro que Otelo não conhecia, escrito por um certo militar, onde se criticava o seu "silêncio" durante a célebre "assembleia selvagem" do MFA, em 11 de março de 1975. Rimo-nos todos, porque, como eu era ali o único que podia atestar, Otelo, de facto, não tinha então falado porque... não havia estado presente nessa tão badalada reunião!

Otelo chegara a Luanda vindo de Maputo. Iria partir dali para a Líbia. Alguma coisa importante, da sua vida e da sua história pessoal futura, iria ter a ver com essa viagem.

Otelo Saraiva de Carvalho é uma figura reconhecidamente controversa. Será. Porém, para mim, será sempre muito mais do que isso. Ponto.



Em tempo: Otelo Saraiva de Carvalho acaba de publicar "O dia inicial", um livro que conta, hora a hora, a sua leitura do 25 de abril. Li-o rapidamente mas, com franqueza, não me pareceu muito interessante. Além disso, as pequenas notas pessoais inseridas no final são de um impressionismo demasiado ligeiro. O seu velho "Alvorada em Abril" continua a ser muito mais curioso.»












  - Publicação do texto autorizada desde que citada a "fonte".
  - Fotos: Google
  -Vídeo YouTube


2011-04-10

« PORTUGAL PEREGRINO... E A SENDA DOS MESSIAS »

 FRANCISCO PINTO DA CUNHA LEAL
 (1888-1970)
Sidonista, anti-sidonista, direitista, inspirador do 28 de maio de 1926, inimigo da ditadura, português livre.



CUNHA  LEAL
Presidente do Conselho de Ministros 
(Dezembro de 1921)


 .
 Cunha Leal rodeado dos seus ministros






Cunha Leal usando da palavra por ocasião da travessia aérea do Atlântico Sul 
(1922)



Cunha Leal, discursando no funeral de António Granjo, um dos republicanos assassinados na tristemente célebre «Leva da Morte»

+

No enterro de António Granjo, Cunha Leal proclamou esta verdade: «O sangue correu pela inconsciência da turba — a fera que todos nós, e eu, açulámos, que anda solta, matando porque é preciso matar. Todos nós temos a culpa! É esta maldita política que nos envergonha e me salpica de lama».



.



Francisco Pinto da Cunha Leal, que foi reitor da Universidade de Coimbra entre 1924 e 1925, conheceu Salazar quando este era professor de Economia e Finanças em Coimbra. 

Três anos depois, quando já interrompidas as suas relações pessoais com o então Ministro das Finanças (1928-1932), Cunha Leal descreve-o nestes termos:

«Bisonho, avesso às fáceis relações com os contemporâneos de escola, naturalmente misógino, refugiado dentro do seu orgulho como um cágado dentro da concha protectora, conservou-se sempre um quase isolado, calcando, implacavelmente, os seus próprios sonhos com o cilindro de uma alma fria, tristemente despida das ilusões fagueiras da mocidade.» (Obra Intangível, pág. 43)

Volvidos mais de trinta anos, Cunha Leal volta a analisar as origens da personalidade de Oliveira Salazar nas suas Memórias, propondo-se: «tentar definir a tessitura espiritual [de Salazar] tal como a minha observação directa me permitiu visioná-la através das nossas relações».

Cunha Leal refere as origens humildes de Oliveira Salazar e a sua educação como factores preponderantes da sua análise, citando o próprio que se define como «integrado no grupo social dos “pobres, filhos de pobres”». Sobre o Seminário de Viseu, que Salazar frequentou entre 1900 e 1908, ou seja, dos 11 aos 19 anos, Cunha Leal recorda que o próprio Salazar afirmava «dever àquela casa grande parte da [sua] educação que doutra forma não faria». Seguidamente, tece algumas considerações sobre o abandono da carreira eclesiástica do jovem Salazar, que confessou ter «perdido a fé em que lá me educaram» e vai terminar o ensino secundário já no Liceu de Viseu, entre 1909 e 1910.

Eis alguns excertos do retrato de Oliveira Salazar, visto por um homem apenas um ano mais velho, e que o conheceu pessoalmente, com alguma intimidade:
«Nascido em 1889 começou a cursar a Universidade de Coimbra com 21 anos e meio de idade, isto é com maturidade espiritual superior à da generalidade dos restantes caloiros. Esta circunstância, aliada à inferiorização material decorrente duma honesta e sadia pobreza, à origem pouco correntia da sua escolaridade, a um ingénito ensimesmamento anímico, a acentuadas dificuldades de expressionismo oratório e à imensidade do orgulho a que são atreitos certos solitários, afastou-o, radicalmente, das doces leviandades da boémia estudantil tradicional e acabou por transformá-lo num ser hipocondríaco e taciturno, aferrado ao estudo como única tábua para navegar num oceano de desconsolo íntimo.»


E mais adiante:
«Confesso o meu pecado ou… a minha virtude. Dos contactos conimbricenses com o Dr. Oliveira Salazar resultou simpatizar com ele. Era um homem hermético [...] meticuloso como professor, exigente, com tendência para a severidade austera [...] Faltava-lhe calor humano e, por isso, confinava a sua actividade docente dentro do conceito dum distanciamento altaneiro entre mestre e discípulos [...] Quando me punha, porém, a reflectir na evolução da sua vida, tratava logo de fazer um sério esforço de compreensão. Que de desconsolos íntimos não viria ele fazendo refluir da zona da consciência para as geenas do subconsciente! A vida é fácil e, frequentemente, doce para os favorecidos da fortuna, mas é de extrema dureza para quantos, apesar da sua pobreza, anseiem por trepar na escala social, sem, contudo, renegarem a sua origem, antes orgulhando-se dela. Se, ao longo da trajectória de certas criaturas de Deus, se não proporciona aos seus organismos, pletóricos de energia física e espiritual, a alternância do cumprimento dos deveres, mais modestos do que gratos, com gozos por vezes simples, como a contemplação embevecida dos sublimes encantos de que a natureza é pródiga, a par de outros de valor moral mais complexo, como os derivados das ferroadas do sexo e do amor e de tantas outras expansões cuja necessidade desabrocha espontaneamente, [...] então não é de estranhar que a melancolia se aposse delas. E, quando a auto convicção do seu valor intrínseco refine com a educação e o consequente ascenso cultural, é de crer que se gere na alma de tais pessoas um ressentimento que, em regra, descambará em neurastenia quando se vejam privadas, por mor da conjugação da penúria material com a timidez, de satisfações e honras sociais. E esse estado temperamental virá a descambar em tirania se, um dia, na roleta do Destino, acertarem no número que, inesperadamente os sagre como vencedores omnipotentes».


Cunha Leal, As Minhas Memórias, Coisas dos Tempos Idos, volume III, Lisboa, 1968 (págs. 169-175)








 No seu livro «A Obra Intangível do Dr. Oliveira Salazar» (edição do autor, Lisboa, 1930), Cunha Leal, depois de evocar os transes e as humilhações do empréstimo pedido pela Ditadura à Sociedade das Nações, descreve a determinação político-económica daí resultante e a aparição do «Messias» que a catastrófica situação vigente tornara ansiosamente esperado.



O   «MESSIAS»    SALAZAR

por  CUNHA  LEAL 








Os cofres exaustos por virtude duma administração perdulária e inclassificável tinham estado aguardando, ansiosamente, a entrada dos milhões de John Bull. Mas os milhões acabaram por não chegar. Que fazer? Para entreter a imaginação e a debilidade da ditadura, anunciavam-se, com desvergonhado descar, novos empréstimos que não passavam de imaginosos contos, destes que servem de entretenimento às crianças grandes.

Os governantes, aflitos, deram em apertar os cordões à bolsa, no reconhecimento forçado da necessidade duma política de maior poupança. Onde não há, el-rei o perde. Houve, porém, um momento em que o pânico se apoderou, literalmente da ditadura. Apesar de certos aumentos de receita, arrancados à passividade da Nação. apesar de ter sido elevada de 200.000 contos a circulação fiduciária, dos quais 125.000 para as necessidades do Estado, apesar dum aumento de 300.000 contos, números redondos, na dívida flutuante entre 30 de Junho de 1926 e 30 de Junho de 1928, apesar de se ter consumido o produto da venda da prata, apesar de tudo isso, não havia, como disse, escudos no erário público.

Não havia, do mesmo modo, divisas estrangeiras para a satisfação das mais urgentes necessidades comerciais do país. Agravavam-se os câmbios, dia a dia. O índice do custo de vida aumentara, desde o 28 de Maio, cerca de 300.

A confiança desaparecera, quase por completo, dos espíritos. Os mais intrépidos dentre os monárquicos - os menos intrépidos limitavam-se a apertar as mãos à cabeça -,  relegando para melhores dias a marcha ascensional para a monarquia, desataram a tocar, no bordão das horas más, a música celestial da união. E os maechais da ditadura, suando as amargas gotas dum suor de agonia, olharam, ansiosamente, em volta de si à procura de alguém.

Descobriram, então, o Dr. Oliveira Salazar. Um homem do povo, feito à custa do seu próprio esforço. Tendo entrado, mercê da sua tenacidade e dos encontrões do acaso, numa esfera social bem diferente daquela em que nascera, cedo começou a conhecer quantas amarguras e dores custa a aelevação daqueles que o destino lançou a este mundo sem fortuna e sem protecções.

Bisonho, avesso às fáceis relações com os contemporâneos de escola, naturalmente misógino, refugiado dentro do seu orgulho como um cágado dentro da carapaça protectora, conservou-se sempre um quase isolado, calcando, implacavelmente, os seus próprios sonhos com o cilindro duma alma fria, tristemente despida das ilusões fagueiras da mocidade.

Foi sempre assim: poucas amizades e nenhuns amores; exagero inconsciente do seu próprio valor; insensibilidade devida ao isolamento; desprezo absoluto por uma humanidade que o não compreendia e que nem sequer soubera atirar-lhe para os braços, num gesto espontâneo, a companheira com que, apesar de tudo,deve, às vezes, ter sonhado - a eleita do Senhor, descrita por Salomão no Cântico dos Cânticos, com seus dois seios virginais, como duas cabrinhas saltitantes dos montes de Galaad.

Em fins de Abril de 1928 ei-lo lançado no turbilhão e na voragem da cidade absorvente. É-lhe entregue o cargo de ministro das Finanças em condições de absoluta subordinação, por parte dos seus colegas, sem excepção do próprio presidente do Ministério.

A ditadura alarmada via nos embaraços financeiros, que ela principiara, levianamente, por considerar coisa secundária, a causa provável de próxima ruína e morte.

O Salvador - messiânico - vinha de Coimbra simultaneamente arrogante e modesto, cônscio da sua força e cônscio das sus responsabilidades, exigindo, para actuar, disciplina dentro da Nação e disciplina dentro do Governo.

Todos se curvaram perante as suas imposições; e a Reforma Orçamental, publicada logo nos primeiros dias de Maio de 1928, consagrava, oficialmente, a instituição dum verdadeira ditadura dentro da ditadura.


NOTA FINAL:  Ainda não tinha sido inventado o FMI,  para solucionar o problema!





2011-03-31

« SAINT- EXUPÉRY... EM 1940 FEZ ESCALA EM LISBOA »


ANTOINE  DE  SAINT-EXUPÉRY
(1900 - 1944)





O grande escritor e jornalista francês Saint-Exupéry, piloto de aviação, desaparecido sobre o Mar Mediterrâneo em 31 de Julho de 1944, no mesmo ano em que a sua pátria seria enfim libertada, passou em Dezembro de 1940 por Portugal, a caminho de Nova Iorque.

Na sua Carta a Um Refém, o famoso piloto-aviador conta a impressão fantasmagórica, de «baile de bonecas», que a Lisboa do duplo centenário desse ano  podia oferecer a alguém que fugia de de uma Europa ensanguentada, em guerra, ocupada pelas hordas nazis.

É esse texto que adiante reproduzimos. Saint-Exupéry escreveu alguns livros que ficarão entre os maiores do nosso tempo, como "Correio Sul",  "Voo Nocturno", "Terra dos Homens", "Piloto de Guerra".

A sua "Carta a um Refém" é um opúsculo escrito na América e dirigida a um amigo do escritor que se encontrava preso pelos alemães, um judeu.

É também muito conhecida a célebre obra para crianças  "O Principezinho",  que aos adultos tanta falta faz  ler (...)



.






Saint-Exupéry,  Lettre à un Otage

[Carta a um Refém]



Quando em Dezembro de 1940 atravessei Portugal para ir aos Estados Unidos, Lisboa surgiu-me como uma espécie de paraíso claro e triste. Falava-se então muito de invasão iminente e Portugal agarrava-se à ilusão da sua felicidade

Lisboa, que organizara a mais bela exposição do mundo, sorria com um sorriso um tanto pálido, como o das mães  que não têm quaiquer notícias do filho ausente na guerra e se esforçam por salvá-lo a poder ter confiança: «O meu filho continua vivo porque eu sorrio...» «Vejam como estou feliz», dizia assim Lisboa: «Como estou feliz, tranquila e bem iluminada...» O continente inteiro pesava contra Portugal como se fosse uma montanha selvagem, carregada de tribos predatórias; Lisboa em festa desafiava a Europa: «Haverá alguém capaz de me tomar por alvo se nem tento esconder-me? Se sou tão vulnerável!...»

À noite as cidades da minha terra eram cor de cinza. Nelas eu perdera o hábito de toda a claridade e esta capital radiosa causava-me um incómodo vago. Se é escura a vizinhança, os diamantes da montra muito iluminada atraem os que ali vagueiam. Sentimo-los circular. Contra Lisboa sentia eu pesar a noite da Europa habitada por grupos errantes de bombardeiros, como se ao longe tivessem farejado aquele tesouro.



Imagens da Exposição do «Mundo Português»
que Saint-Exupéry visitou em 1940 


Mas Portugal ignorava o apetite do monstro. Recusava-se a acreditar nos maus sinais. Portugal falava de arte com uma confiança desesperada. Haveria quem ousasse esmagá-lo no seu culto da arte? Pusera à mostra todas as suas maravilhas. Haveria quem ousasse esmagá-lo nas suas maravilhas? Mostrava os seus grandes homens. À falta de exército e canhões, contra o ferro do invasor erguera todas as suas sentinelas de pedra: os poetas, os exploradores, os conquistadores. À falta de exército e canhões, todo o passado de Portugal barrava a estrada. Haveria quem ousasse esmagá-lo na sua herança de um passado grandioso?

Noite após noite eu errava com melancolia através dos êxitos dessa exposição de extremo bom gosto onde tudo roçava a perfeição, até a música, tão discreta e escolhida com tanto tacto, como um mrmúrio de fonte. Haveria quem destruísse no mundo esse maravolhoso gosto pela justa medida?

Mas por baixo do sorriso, eu achava Lisboa mais triste que as minhas cidades extintas.

Conheci, vós também, por certo, dessas famílias um pouco excêntricas  que mantêm à mesa o lugar dum morto. Negavam o irreparável. Não cuido, porém que tal desafio consolasse. Dos mortos devemos fazer mortos. Então eles, no seu papel de mortos, recuperam outra forma de presença. Mas aquelas famílias suspendiam o seu regresso. Faziam deles ausentes eternos, convivas em atraso para toda a eternidade. Trocavam o luto por uma espera sem conteúdo. E essas casas pereciam-me mergulhadas num mal-estar sem perdão e tão abafante como o desgosto.

Pelo piloto Guillaumet consenti pôr luto, Deus meu!... o último amigo que perdi, morto em serviço postal aéreo. Guillaumet nunca mais mudará. Se não voltar a estar presente, também não há-de estar ausente. Sacrifiquei-lhe o lugar à mesa, essa armadilha inútil, e fiz dele um verdadeiro amigo morto.

Mas Portugal tentava acreditar na felicidade mantendo-lhe o seu lugar, conservando os seus candeeiros e a sua música. Em Lisboa representava-se a felicidade para que Deus acreditasse nela.



Os "aguadeiros" na Lisboa de 1940
(vendedores ambulantes de água)



Fotos de ruas de Lisboa nos anos 40



Em parte, o clima de tristeza devia-o Lisboa à presença de certos refugiados. Não me refiro a proscritos em busca de asilo. Não falo de emigrantes à procura de uma terra a fecundar com o seu trabalho. Falo dos que se expatriam para longe da miséria dos seus a fim de manter o dinheiro a bom recato.

Não consegui alojamento mesmo na cidade e fiquei no Estoril, a dois passos do casino. Eu tinha saído de uma guerra densa: o meu grupo aéreo, que durante nove meses não interrompera os voos sobre a Alemanha, perdera três quartos da equipagem no decurso da única ofensiva alemã. De volta a casa sentira a soturna atmosfera da escravidão e a ameaça da fome. Vivera a noite espessa das cidades. E eis que, a dois passos, o Casino do Estoril em cada noite se povoava de espectros. Automóveis Cadillac silenciosos que fingiam dirigir-se a qualque lugar largavam-nos ali, na areia fina do pórtico da entrada. Tinham-se vestido para o jantar como noutros tempos.  Exibiam a sua gravata ou as suas pérolas. Convidaram-se uns aos outros para refeições de figurantes onde nada havia a dizer.




O Casino do Estoril em 1940



Depois jogavam à roleta ou ao bacará, conforme as fortunas. Às vezes ia vê-los. Não sentia indignação nem qualquer sentimento irónico, porém uma vaga de angústia.A que nos assalta no jardim zoológico perante os sobreviventes de uma espécie extinta. Instalavam-se em redor das mesas. Apertavam-se de encontro a um croupier austero e esforçavam-se por examinar a esperança, o desespero, o medo, a inveja e a satisfação. Tal como seres vivos. Jogavam fortunas que talvez naquele minuto já se encontrassem vazias de significado. Usavam dinheiro que talvez já tivesse caducado. Talvez o valor dos seus cofres, fosse garantido por fábricas já confiscadas ou, de ameaçadas que estavam pelos torpedos aéreos, em vias de ruína. Faziam saques em Sírio. Apegando-se ao passado, esforçavam-se em crer na legitimidade da sua febre, como se de há uns tantos meses àquela parte nada houvesse começado a estalar na terra, na cobertura dos seus cheques, na eternidade das suas convenções. Era irreal. Lembrava um verdadeiro baile de bonecas. Porém era triste.




Praia do Estoril - foto de 1940




Com certeza não sentiam nada. Eu abandonei-os. Fui respirar à beira mar. E esse mar do Estoril, mar de cidade de banhos, mar domesticado, também a mim me parecia entrar no jogo.

Empurrava para o golfo uma onda única e mole, toda luzidia de lua, como se fora um vestido fora de época.





[Realizei esta composição em homenagem ao Homem Escritor, Grande Pensador e camarada Piloto-Aviador] 





Imagens: Selecionadas no Google
Texto: Adaptado e traduzido
- na íntegra - de Col. Pléiade;
Paris, Gallimard, 1959