[ Vox populi vox Dei ]

2010-11-19

« CARTA ABERTA... à EUROPA FECHADA »





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Parece bastante hipócrita a tenacidade com que a Europa procura evitar a chegada de imigrantes africanos, que não são outra coisa senão o resíduo patético das suas invasões coloniais de vários séculos.
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Esperará por acaso a Europa que, depois de séculos saqueando a África, despojando-a da sua cultura, dos seus recursos materiais e humanos, de infectá-la com a sua febre perniciosa de consumo, vai poder encarar este novo milénio como uma espécie de fortaleza armada e compacta, em cujo interior, a fome e o desespero se alastram?
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No conto de Edgar Allan Poe "A Máscara da Morte Vermelha", é simbolizada a futilidade da intenção do príncipe de se fechar no seu palácio, dando festas, até que a peste passe! A morte acabou por passar (...)
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A Europa é rica graças, essencialmente, a tudo o que levou de África. Por acaso esperam que os africanos famintos fiquem padecendo da miséria resultante dos latrocínios que sofreram, enquanto as sociedades europeis desfrutam de altos níveis de qualidade de vida?
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Acreditam que é tolerável que quem os roubou, matou e violou por centenas de anos venha pontificar e dar-lhes lições sobre moral internacional e direitos humanos?

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Vocês, ingleses, não se lembram dos massacres no Kenya, dos despojos na Rodésia?
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Não se lembram, franceses, o quanto roubaram em Dakar e na Costa do Marfim?
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Não se lembram, alemães, dos campos de concentração na Namíbia e dos crânios do povo guerreiro dizimado que ainda conservam no Museu de Medicina de Berlim?
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Não se lembram, belgas, das atrocidades que fizeram no Congo?
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Não se lembram, portugueses, das escavações depredadoras que fizeram em busca do ouro e dos diamantes de Angola, das caçadas de escravos também em Moçambique?
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Não foram a vossa cobiça e a vossa vaidade ridícula, europeus, que regaram com tanto sangue de crianças inocentes os diamantes da Serra Leoa?
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E agora dão-se ao luxo de repelir os desesperados, de fechar-se e de deportar os fugitivos que chegam às suas costas marítimas, porque dão mau aspecto às suas 'glamourosas' praias mediterrânicas!?
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Se a Europa fosse coerente com as suas próprias políticas de direitos humanos, teriam que acolher com os braços abertos todos os africanos e pedir-lhes perdão por todas as ofensas, oferecendo-lhes repartir aquilo que levaram das suas terras.
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E o mais curioso é que estes embandeirados pela angústia não pedem o que lhes pertence por direito!
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Apenas pedem as migalhas de uma esmola, vendem bujigangas na via pública, entregam jornais ou lavam automóveis, trabalham no duro na construção civil, nas estradas... e, mesmo assim, não os querem...!
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É um espectáculo demasiado doloroso, demasiado triste que no centro da vossa grande civilização se mostrem os rostos obscuros das vítimas que a tornaram possível. A vossa cegueira é admirável, a vossa hipocrisia é criminosa, a vossa baixeza é formidável.
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Meditem longamente sobre o que estão fazendo, europeus. Vocês, que fizeram História, seriam demasiado estúpidos se esquecessem o que alegadamente têm obrigação de ter aprendido (...)

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Todo o poder de Roma não impediu a queda do seu Império às mãos dos bárbaros famintos da Germânia e do Tártaro!
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Toda a majestade da Britânia se curvou sem atenuantes perante as massas hindús lideradas por um homenzinho de aparência insignificante [Gandhi], mas com um grande coração.
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Despertem desse vosso sonho torpe e da vossa fantasia narcótica. O mundo ruge desesperado à vossa volta. Quanto tempo mais pensam que poderão fingir não ouvir?

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A Europa deseja permanecer fechada enquanto uma África saqueada se dessangra... como a América Latina... como o Oriente de "segunda" categoria...
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Não se pode aceitar que tanta beleza nas artes tenha surgido de corações tão duros... Certamente a Europa abrirá o seu coração, as suas portas...
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Certamente algum dia... aprenderá a tratar todos os seres humanos... como iguais...



Vídeo sobre: MISÉRIA E POBREZA NA ÁFRICA...


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-Autor desconhecido.
[Extraído de power point]
-Imagens do texto e da Net

2010-11-17

« A NATO... na ' VIA ' MEDROSA... do FIM!...»





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Passando pela Estrada da Medrosa em Oeiras, a caminho da Torre, não se imagina que ali mesmo ao lado há centenas de pessoas a trabalhar em dois pisos debaixo do chão, num "bunker" húmido, escuro e apertado, construído no tempo da Guerra Fria para resistir a qualquer ataque.
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É no famoso "bunker", longe dos olhares mais indiscretos e curiosos que trabalha a grande maioria dos 300 funcionários (sobretudo militares) de 21 nacionalidades que fazem parte do Allied Joint Force Command Lisbon.
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Ao fim de mais de 40 anos de existência (foi fundado em 1967), o Comando Operacional da Aliança Atlântica em Portugal corre agora o risco de ser fechado ou descer de nível para comando naval, em nome de uma reforma da estrutura da Organização. Diz quem já entrou no "bunker" que é uma estrutura ultrapassada onde o metro quadrado por pessoa é bem inferior às regras actuais da NATO.
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É um resquício da Guerra Fria. Hoje só continua a ser usado por falta de espaço à superfície, mas de acordo com as novas directivas da NATO já não deveria ter pessoas em permanência lá debaixo! As pessoas pensam que existem ali 'submarinos', mas são gabinetes normais debaixo do chão. Lá em baixo há geradores, meios de comunicação e sobrevivência, filtragem de água e ar para sobreviver em caso de ataque. Mas, hoje, essa 'ameaça' já não se põe (...)
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Se o Comando sobreviver à reestruturação, serão feitas obras e a maior parte das pessoas virá para a superfície. Apenas o Centro de Operações ficará no "bunker" porque é muito pesado movê-lo e por razões de segurança.
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Mas, afinal, o que faz ao certo o Comando da NATO em Oeiras? Enquanto os comandos "rivais" de Brunssum, na Holanda, e de Nápoles, em Itália, têm uma estrutura três vezes maior (cerca de mil indivíduos) e a seu cargo as operações do Afeganistão e da Bósnia, respectivamente, Portugal concentra-se mais em África. Sobretudo na Operação Ocean Shield, contra a pirataria no Corno de África, com a presença de cinco navios e um submarino, e a Operação NS2AU, de apoio à União Africana.
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Portugal é o único país hospedeiro que paga para ter um Comando da NATO no seu território!... Uma factura de cerca 600 mil euros, o equivalente a 10% dos custos anuais do Quartel-General, que no total ascendem a seis milhões.
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«Nos outros comandos, é a NATO que paga à Holanda e à Itália pela renda do local», diz o 'Chief of Staff' português - Contra-almirante Pires da Cunha -, sublinhando outras vantagens que podem pesar a favor de Oeiras: o Comando está numa capital europeia, com as Embaixadas por perto, o país é estável, seguro, tem bom clima e um baixo custo de vida!
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Ainda no presente, na dita Estrada da Medrosa, o Comando da NATO é uma estrutura bem protegida por arame farpado e câmaras de vigilância. Os visitantes são recebidos por militares armados e na recepção saltam à vista documentos presos na parede, sobretudo um que diz "Ataques Terroristas" em letras garrafais. Do outro lado do detector de metais, outros militares de escala de serviço encarregam-se da tarefa de anfitriões para uma visita guiada.
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Por trás do edifício principal, no cimo de uma pequena colina (antes palco de um Forte Militar nas guerras napoleónicas), saltam à vista várias antenas e guaritas em betão com portas de ferro. Por baixo está o intrigante "bunker system", o "coração" do Comando onde são monitorizadas as operações de 24 horas por dia e mantido contacto com todo o mundo. A entrada não é secreta, mas também não está à vista e só é acessível a pé.
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Actualmente, um grupo de trabalhadores muda as enormes letras de pedra com as iniciais do Comando; ao longo de mais de 40 anos, o Comando de Oeiras mudou de nome várias vezes, a última em 2009!... Desta feita, se descer de nível, esta obra será em vão... pois poderá receber novo «crisma»!
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Há alguma ansiedade e é inevitável que a reforma da NATO crie ruído na Cimeira de Lisboa. Se houver muitas vozes dissonantes, a cimeira poderá ser um fracasso. Parece certo que o número de Comandos vai ter de ser reduzido. São muitos e a gestão é complicada e burocrática.
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O Analista do Instituto e Estudos Estratégicos da Universidade Católica - Miguel Monjardino - diz que um país com uma fachada Atlântica como a de Portugal tem interesse [?!] em manter um Comando que permita explorar essa mais-valia. Desconhece é se ainda se vai a tempo e que apoios teremos na cimeira!
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Parece que, Portugal... tem o facto de já não ter muitos recursos militares para contribuir para a NATO!
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Pelos vistos... Portugal paga para pertencer ao Clube, e os outros 'Sócios' em "Assembleia-Geral", ainda se podem fazer 'esquisitos'!...
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Por mim... prescindo, desde sempre... desta "Honra"!

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PAZ SIM!! NATO (OTAN) NÃO!! Manif. dia 20 de Novembro p.f.



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Depois da «Cimeira»
Limpar é Preciso!












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(Adaptado do Artigo de Bárbara Silva
do Diário Económico - de 15 p.p.)
Fotos In Net

2010-11-16

« MEDJUGORJE... A ' EVOLUÇÃO na CONTINUIDADE' de FÁTIMA »

Videntes de Fátima
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Os Pastorinhos
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(Portugal)
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Videntes de Medjugorje
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(Ex-Jugoslávia)


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Em 17 de Março último, a Congregação para a Doutrina da Fé instituiu uma Comissão Internacional de estudos sobre Medjugorje sob a presidência do Cardeal Camilo Ruini. É uma comissão composta por cardeais, bispos, peritos e especialistas que trabalharão de forma confidencial sendo os resultados do seu estudo usado para as necessidades da Congregação.
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Para a maior parte dos católicos esta notícia pouco significou mas para muitos foi um momento de alegria e de esperança após a visita do Cardeal Schonborn a Medjugorje na última quadra natalícia, que se avizinha.
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Para todos a quem o estranhíssimo nome desta aldeia pouco significa, redigimos estas linhas.
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Medjugorje - palavra aparentemente tão difícil - significa «entre colinas» em servo-croata e já foi aportuguesada no Brasil como Mediugorie. Esta pequena aldeia situa-se na república da Bósnia e Herzegóvina [antiga Jugoslávia].
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Tal como Fátima, Medjugorje situa-se numa zona montanhosa e pobre, mas profundamente católica embora esteja num país predominantemente muçulmano.
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Desde o dia 25 de Julho de 1981 que cinco adolescentes e uma criança de 10 anos (agora todos adultos, casados e com família), têm uma experiência espiritual extraordinária: dizem ver Maria, a mãe de Jesus, que traz um urgente pedido de conversão para a humanidade, correndo esta um grave risco se não atender aos solícitos pedidos pela Virgem.
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Ela diz que estas aparições continuam as da Cova da Iria - em Fátima - anunciando assim, de novo, o triunfo do Imaculado Coração já aqui previsto.
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Mas tal como em Fátima, se os pedidos não forem atendidos, gravíssimo mal ameaça a humanidade antes do Triunfo da Imaculada.
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Dez são os segredos que serão anunciados pelo Reverendo Padre Petar Ljubicic, três dias antes de acontecerem. Após o décimo segredo, virá o triunfo da Mãe Imaculada.
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Que pede a Mãe a estes videntes? Mais ou menos o mesmo que vem pedindo uma e outra vez:
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1) Reza diária do Rosário com amor e alegria.
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2) Participação diária na Santa Missa, ou se tal não for possível, pelo menos deve ser salvaguardada a participação dominical, não devendo ser esquecida a comunhão.
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3) Pede-se a Confissão mensal que deverá ser feita com o objectivo interior de conversão permanente. Mas, caso se cometa um pecado grave não se deve esperar pela confissão do mês seguinte devendo fazer-se a confissão logo a seguir.
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4) A Bíblia deverá ser lida diariamente, vivenciando cada texto lido durante o dia. Nas quintas-feiras dever-se-á meditar os versículos 24 a 34 do Evangelho segundo São Mateus.
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5) Dever-se-á jejuar a pão e água nas quartas e sextas-feiras de todas as semanas do ano. Esse jejum deverá ser feito com muita oração e imenso amor.
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Esses são os pedidos que os videntes Ivanka, Mirjana, Vicka, Marija, Ivan e Iakov nos apresentam vindos da Senhora que ali aparece como Rainha da Paz.
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Muitos milagres têm acompanhado as aparições durante todos estes anos (elas - as aparições - continuam a ocorrer diariamente às 17 horas e 40 minutos no Inverno e, uma hora mais tarde, no Verão), mas o maior de todos os milagres tem sido a conversão interior dos milhares de peregrinos que por Medjugorje passam (...)

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Recolhemos a maior parte destas informações num folheto encontrado na caixa do correio, as quais adaptámos e desenvolvemos para a redacção deste 'post'.
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Depois, por se achar a matéria algo incompleta quanto a mais pormenores, pesquisámos alguma coisa e... surpreendemo-nos com múltiplos filmes no YouTube, sobre o assunto!
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Ficámos com a sensação « déjà vu »... e, perante o metralhar constante de agradar ou não aos "Mercados" para evitar o "Abismo", dar voltas e voltas na cama carregadinho de insónias e cansaço com medinho do papão do FMI, dividimo-nos na decisão de aceitar o que o Poder exige de nós, ou defendermo-nos com esta nova Edição do Milagre do Sol.



.MENSAGEM de MEDJUGORJE!...


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EVOLUÇÃO na CONTINUIDADE das... APARIÇÕES...



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2010-11-14

«O Sr. OLÁ terá dito: "ADEUS, AMIGOS!... SEJAM FELIZES... POR MIM!" »

JOÃO MANUEL SERRA
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O ' Senhor do Adeus'
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'Senhor do Olá'...
como gostava mais que lhe chamassem

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(1930-2010)
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.Do Jornal DESTAK

Autoria de: João Manuel Serra

Morreu o "Senhor do Adeus"

11 | 11 | 2010 10.11H

Figura incontornável da cidade de Lisboa - que acenava a quem passava pela zona do Saldanha apenas porque acreditava que, dessa forma, fazia os lisboetas mais felizes - João Manuel Serra faleceu ontem aos 80 anos.

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FILMADO no Bairro do RESTELO em Lisboa

Luis Miguel Mota | lmota@destak.pt

Todos os dias, o Senhor do Adeus andava pelas ruas de Lisboa acenando a quem passava, cumprimentando com um adeus bem contente os carros que lhe buzinavam, também eles retribuindo o aceno.

A explicação para o modo de vida peculiar disse-o um dia numa entrevista que, depois da morte da mãe, era a sua forma de afugentar a solidão «essa senhora é uma malvada, que me persegue por entre as paredes vazias da casa. Para lhe escapar, venho para aqui. Acenar é a minha forma de comunicar, de sentir gente».

João Manuel Serra nasceu em 1930 e era um amador de cinema, indo todos os domingos ao Corte Inglês ver e discutir os filmes com os amigos.

Tornaram-se célebres, as tertúlias semanais que partilhava com o amigo Filipe Melo (músico de jazz, realizador e autor de banda desenhada) que depois este comentava no blogue O Senhor do Adeus.

Ontem à noite, em vez da habitual crítica de João, foi uma despedida que Filipe Melo publicou:

«Todos os dias, o João dizia adeus às pessoas. Era assim que assim fazia as pessoas felizes e que as pessoas lhe retribuíam essa felicidade. Era um dos meus melhores amigos, e terei muitas saudades das nossas idas ao cinema e de o ver a sorrir e a trazer alegria a todos os que o rodeavam».

João Manuel Serra assinava também uma rubrica de cinema no programa A Rede, do Canal Q, "apareceu" na banda desenhada As Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy (de Filipe Melo e Juan Cavia), e participou no filme I’ll See You In My Dreams e na série de televisão O Mundo Catita.

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VÍDEO COM UM FADO DEDICADO ao... "Senhor do Adeus" ...



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In: Arquivo do Blogue
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Sábado, 5 de Março de 2005

O Homem que diz Adeus

Recebi este texto através de uma boa amiga (obrigado, Patrícia), e não resisti a publicá-lo. Tentei saber a origem, não consegui, por isso limito-me a agradecer ao anónimo autor por nos lembrar algo tão óbvio e ao mesmo tempo tão ignorado, que é o facto de todos os rostos guardarem uma história, feita de vivências e sentimentos que o tempo ameniza mas não apaga, e que até actos que a olho nú nos causam espanto e admiração, podem ter fundamento no vazio do coração de alguém. Não andará também o nosso, por vezes, mais vazio do que devia?


Quem não conhece o Homem que diz Adeus...

Para quem não o conhece, é imperativo passar no Saldanha por volta das 23h e desfrutar de um momento que já faz parte da “nossa” cidade! Como é possível um simples gesto proporcionar um momento, apesar de um pouco “estranho”, agradável para quem passa... afinal se não fossem estas “pequenas” diferenças, a vida seria sempre igual... O homem que diz adeus.


É ele o homem que noite após noite acena aos carros que passam na Avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa. É por ele que tocam as buzinas, que se atiram beijos e sorrisos, que se gritam «boas noites!» e «adeus!», numa «onda de comunicação» que já dura à três anos e que nem se sabe explicar muito bem como começou. Numa cidade de estranhos em mundos fechados este é o seu «milagre». E é também o seu remédio. Há quem lhe chame o «senhor do adeus». Mas «senhor» é coisa que detesta que lhe chamem.


Aos 72 anos, João Manuel Serra tem a inocência de uma criança, o espírito de um jovem, mas o olhar nostálgico de um ancião que sente «ter aprendido com a vida tarde demais». A sua roupa clássica e a ondulação do cabelo grisalho disfarçada com gel, dão-lhe um ar meio aristocrático, que já faz parte da paisagem do Saldanha. Todos o conhecem e quem trabalha nas redondezas sabe o seu percurso de cor.


«Chega por volta das onze, meia-noite... Começa pela zona do Monumental, vai descendo a rua até ao Marquês e depois sobe, parando sempre em pontos estratégicos. Nunca falha.». Arménio é chefe de mesa na marisqueira Maracanã e já lhe serviu alguns jantares. «É muito simpático. Quando passa aqui, acenamos-lhe pela janela. Só não sei: porque é que faz isto?».


João começa por dizer que não sabe bem, mas, a pouco e pouco, interrompendo sempre para acenar, vai desvendando o mistério. Tudo começou há três anos e meio, depois da morte da mãe, com quem vivia. Precisava de se distrair, incomodava-o a ideia de estar sozinho em casa. Um dia, aconteceu. Já reparara que as pessoas o cumprimentavam sem razão, nos centros comerciais e, sem saber como nem porquê, surgiu o primeiro aceno na estrada. Depois veio outro e outro, e o caso virou fenómeno.


«No início era só rapaziada nova, mas depois contagiei todo o tipo de gente», explica sem esconder um certo orgulho.


Graças ao seu «milagre», já deu entrevistas para a televisão e para os jornais, apareceu em dois filmes e até num teledisco. «Sempre quis ser actor mas nunca me deixaram...». Ou nunca teve coragem de tentar.


Algumas dezenas de acenos mais tarde, já não é um João risonho e despreocupado, «com imensos amigos» com quem vai «ao teatro e ao cinema», que fala por detrás dos óculos de massa negra. Nos olhos cinzentos, estão duas lágrimas contidas. Pelo passado, pelo presente e por um futuro que não chega. Com um raciocínio de fazer inveja aos mais novos, o louco, o excêntrico, transforma-se lentamente num avô contador de histórias, que lê Agatha Christie para combater o medo ao andar de avião, que não tem telemóvel porque detesta máquinas e que não vê televisão.


João nasceu no seio de uma família nuito rica. Até aos dez anos, viveu num enorme palacete da Tomás Ribeiro, cobiçado mesmo pelo próprio Gulbenkian. «Que saudades tenho desse tempo... A casa estava sempre cheia de família e amigos...».


Mimado desde bebé, fez a instrução primária toda em casa, com um professor particular, pois no primeiro dia de aulas no Colégio Parisiense chorou tanto que os pais não tiveram coragem de o mandar de volta. «Fui criado numa redoma de vidro», confessa, explicando: «Naquela época era tudo muito diferente, havia muitos tabus.». Depois do divórcio dos seus progenitores, quando tinha 13 anos, João foi morar para o Restelo com o pai. Por ele, inscreveu-se em Direito, mas depressa desistiu, «era muito chato».


Depois de uma igualmente curta passagem pelo curso de Histórico-Filosóficas, o pai, «que não sabia que fazer» com ele, mandou-o para Londres com o irmão. «Foram três anos fantásticos. Tinha um grupo de amigos fabuloso, com quem viajei imenso. Teria lá ficado, se não fosse tão agarrado à família...». Sem quase pôr os pés nas aulas, regressou a Portugal e, depois da morte do pai, pouco tempo depois, foi morar com a mãe, de quem não se separou até ao último dia da sua vida. «Viajámos muito os dois. Todos os anos íamos a Paris e Madrid. Conheço a Europa inteira, excepto a Grécia...».


E o olhar perde-se num momento só dele, como se pensasse alto. Quando a mãe morreu, «ficou desasado». E talvez por isso esteja todas as noites a «comunicar».


Admite que o que faz «não é muito normal», mas não passa sem isso. É o remédio que lhe permite disfarçar a solidão que o consome e o faz olhar para o passado com arrependimento, por não ter ousado viver a sua vida em vez da dos outros.


«Ás vezes penso que foi tudo inútil...»
No baú dos sonhos perdidos, jaz o curso que não tirou, o trabalho que nunca fez, os filhos que não teve e, pior, o grande amor que nunca conheceu. «Sinto-me só. Incompleto. Como se algo estivesse a falhar.».

E assim lacrimeja quando vê um casal idoso de mãos dadas, ou quando dois rapazes, que diz «reconhecer do subconsciente», param o jipe para tirar uma fotografia com ele.


«Encontramo-nos no céu», repete, aludindo ao que um diplomata ucraniano lhe disse uma vez.


O homem do lixo atira-lhe o derradeiro aceno da noite.


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Num aceno de simpatia... disse-me adeus.

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Não conheci este homem na zona cosmopolita do Saldanha em Lisboa. Foi noutro bairro lisboeta - o Restelo -, onde, pela primeira vez, em Maio passado, o vi acenando para os carros que circulavam.
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Parei e perguntei-lhe se precisava de alguma coisa. Que não!... Estava simplesmente a cumprimentar - quem passava...!
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E continuei a passar todos os dias por aquela artéria do Restelo, acenando-lhe, até ao dia 1 de Julho p.p., data que me marcou - e «desasou» também - pelo mesmo motivo que, alegadamente, o levou àquele comportamento (...) de nos dizer adeus... a todos!



Adeus...
Companheiro







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Publicado p/ registo nesta minha
"gaveta" de memórias pessoais.
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