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Mas quero aqui garantir que este casamento, a realizar-se, não é por conveniência, nem esconde interesses. Talvez afinidades. Isso, sim. A poesia dá-se com a liberdade. E depois pergunta-se - quem é a Senhora Avenida, para rejeitar um partido destes? Não é ela, afinal, a Avenida da Liberdade?
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.A pequerrucha começou a andar. A 'madame' Rotunda, encantada com a filha, que cada vez fugia mais ao pai, abriu-lhe os braços. A criança medrou - e hoje, já maior, é isto que se vê.
E a verdade, aqui entre nós, é que a Avenida teve muitos pretendentes. Sabe-se que o duque de Ávila lhe fez a corte. O marquês Sá da Bandeira mandou-lhe, do jardim, muitas flores e cartões perfumados.
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Depois da aristocracia, gente de estirpe, alta-finança e comércio, sábios e economistas, quiseram desposar a mais famosa dama de Lisboa.
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O Cais do Sodré e Estátua ao Duque da Terceira .
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O Campo das cebolas avistou-se com a "madame" Rotunda e disse-lhe, com a mercadoria à vista, em Santa Apolónia, que se a bela Avenida casasse com o seu filho, o Terreiro do Trigo, lhe dava um comboio cheio de géneros e uma grande quota mos vastos armazéns. Mas a pobre senhora, apesar de ambiciosa, disse logo que a pequena era maior e vacinada, já respondia perante o Código e tinha independência para resolver.
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Ainda mandaram o S. Pedro de Alcântara, bom pregador, falar com ela - mas a Avenida não cedeu. Estava na sua: só casaria por amor. Ela queria ser como a Rua dos bem-Casados.
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E os anos passaram, e de matrimónio nada. As brigas pelo amor da famosa Avenida nunca mais pararam. Em dada altura, muito gritou o Socorro, quando viu o Martim Moniz de espoleta artilheira, derrubar o velho Marquês de Alegrete, em plena Mouraria, por ciúme da Avenida!
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Parece que a madrinha da Avenida, a srª. Dª. Glória (quem sobe pela Glória, pára na Misericórdia) foi perguntar aos Fiéis de Deus se o casamento pode ser civil. Não tem grande fé. Acha "monsieur" Chiado muito frívolo, abonecado, um marido apenas para levar às compras. Na sua opinião, a rapariga devia ter escolhido um homem possante, enérgico, como o Campo de Santana ou o Largo do Leão. Mas gostos são gostos. Se for verdade nós, havemos de encontrar os papéis à porta do Jardim... do Regedor. O Chiado pode levar uma bonita representação.
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Dois padrinhos gloriosos: Capelo e Ivens. A Rua do Alecrim e das Flores decorarão o ambiente. A Horta Seca - essa, coitada não pode fornecer a hortaliça para o jantar. A Rua do Norte promete estar calada, para que não sopre o vento. A Rua das Chagas, mais acima, manda um telegrama, porque fica de cama a mudar os pensos. O Poço dos Negros não será convidado, por questões reaccionárias. Abrem o cortejo, de branco, os Anjos. A Praça da Alegria contará anedotas - e o Quebra Costas, por ser desordeiro, vai ao lado do Guarda-Mor.
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O Menino de Deus pegará na cauda da noiva, se ela autorizar. D. António Prior do Crato, por especial deferência, lançará a benção. Para maior realce do acto, o largo do Andaluz fornece, com redução de preços, os watts da energia eléctrica.
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Certamente que muitos convidados ficarão esquecidos, e outros terão sido recordados pelos seus nomes antigos! Santa Bárbara, por exemplo, só será lembrada se houver trovoada e o Areeiro, ainda pobre, sem fato de cerimónia, só vem à boda se arranjar, nos transportes públicos, um lugar.
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Mas isto é deitar contas à colheita - e ainda agora a semente foi à terra! Que é verdade - o namoro, sabe-se. Foi o Largo da Anunciada que o disse. Esperemos pois. Nada de precipitações!
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A Boa Vista, quando enxergar alguma coisa, há-de dizer. E, até lá, deixemos o Chiado e a Avenida viverem, sonhando, o seu idílio (...)
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Vídeo YouTube
Lisboa, Menina E Moça ...
Poema: Ary dos Santos
Voz: Carlos do Carmo.
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Adaptado de: Crónica de Lisboa pitoresca
Monsieur Chiado vai casar...[ por Manuel
Martinho].
in: Século Ilustrado de 1947NOV29
Imagens: Net























