SANTO ANTÓNIO[15.08.1195 - 13.06.1231]
. Portugal, terra morena
Onde a tristeza é cantada;
Onde o amor é motivo
De quatro versos rimados;
Onde o ciúme é lamento
Numa rima que embeleza
E prende a voz do poeta
- E a própria desgraça tem
No soluçar da guitarra
A melodia do fado...
Portugal, terra morena
Das serenatas, das loas,
Das desfolhadas, das rodas
- Tudo motivo de versos
Que o povo faz e entoa...
Terra morena embalada
Nas ondas da beira-mar
Que lhe dão o ritmo certo
Das cantigas populares...
Terra morena do vira,
Da chula, do corridinho
E do fandango - do Sol
Das saudades e do vinho! ...
Esta é a terra trigueira
Que baila ao som do harmónio,
À luz que vem da fogueira,
Em noite de Santo António!

.QUADRAS dos MANJERICOS
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.Há rosmaninho do monte
Ardendo pelas fogueiras!
- Vão a caminho da fonte
As raparigas solteiras...
.
Em cada peito, um desejo;
Em cada boca, um sorriso...
- Salta a canção, foge um beijo...
Que mais, que mais é preciso?
.
A noite pode ser fria;
A vida pode ser dura:
Vem da fogueira a magia
Que torna tudo ventura!
.
Rapazes e raparigas
Na tentação dum harmónio
Dançam rezando cantigas
Em honra de Santo António!
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Que noite! pelas aldeias
Do Norte ao Sul do País
Até nas moças mais feias
Há um sorriso feliz...
.
Porque o Santo português
Da tradição popular
De entre os milagres que fez
Fez o verbo namorar...
.
Raro destino dum Santo!
- Tornar-se tão pecador
Que possa importar-se tanto
Com pecadinhos de amor!
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Quanto pode a tradição!
Quanto pode a voz do povo!
Geração em geração
Santo António é sempre novo!
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E cada Junho que passa
Santo António se renova
Trazendo virtude e graça
Que o povo põe numa trova...
.
Talvez que seja pagã
A tradição popular
Mas é tão casta, tão sã
Como a brancura do altar...
.
E das fogueiras acesas
Vem o cheiro natural
Dos montes e das devezas
Da terra de Portugal!
.
Pode a mirra ser mais benta,
Ser o incenso mais nobre
- Na fé que tudo sustenta
Também é rico o mais pobre...
.
Rosmaninho que é rasteiro
E que tem tão triste flor
Tem nesta noite mais cheiro,
Parece que tem mais cor...
.
Os próprios manjericões
Debruçados nas janelas
Dão calor aos corações
Saltitantes das donzelas...
.
Há quadras ao desafio
Em derredor da fogueira
Cujo tom é tão sadio
Como a voz da cantadeira:
.
«Olha a silva do valado
A presunção que ela tem!
- Viu-te passar a meu lado
E quis prender-te também...»
.
E não demora a resposta!
A voz de alguém que se esconde
Para mostrar de quem gosta
Sobe mais alto e responde:
.
«Se passaste à minha porta
Não tornes mais a passar...
A minha rua é tão torta
Que podes lá tropeçar...»
.
A fogueira continua!
Parece ter mais rubor
Ouvindo a voz que flutua
Por força e graça do amor!
No rosário dum harmónio
Ao pé da fogueira acesa,
Em noite de Santo António!
.
Nota:
Jerónimo Bragança foi autor de milhares de poesias
considerado [no tempo] o mais 'fiel letrista'
das músicas do compositor Nóbrega e Sousa.















