[ Vox populi vox Dei ]

2016-03-29

« AGRADAR... E TER RETORNO »

 NICOLAU BREYNER
Actor
1940 - 2016

Gosto que gostem de mim, é um facto. É um fraco que eu tenho, porque eu gosto muito das pessoas.

= X =


Gostamos que gostem de nós. Pode ser uma fragilidade ou uma presunção, mas, de facto, a maioria de nós é sensível ao facto de desencadear nos outros reacções que passam por exprimir sentimentos positivos. 

Para muitos, não chega que os outros tenham uma atitude bem-educada, já que isso passa por um profissionalismo indiferente e desapegado. O que se quer mesmo é sentir que as pessoas que habitualmente nos rodeiam e até as que surgem pontualmente nas nossas vidas desenvolvam connosco uma ligação significativa, uma cuidado maior, uma deferência especial.

Tanto faz que seja o colega da mesa ao lado, o empregado do restaurante do costume, a empregada da frutaria em que fazemos as compras. Mesmo que não os conheçamos nem eles a nós, queremos sentir que nos tratam bem, queremos ter a sensação de que somos bem-vindos, queremos experimentar o conforto de nos sentirmos entre amigos.

Dir-se-ia que, por isto, seríamos todos consequentes com esta necessidade e, portanto, assumiríamos nós a responsabilidade da coisa, iniciando interacções simpáticas, afivelando sorrisos calorosos, dirigindo perguntas demonstrativas de um interesse mais pessoal (Como está? Não o tenho visto. Já sentia a sua falta.).

Algumas pessoas, em todo o caso poucas, são excelentes neste exercício e fazem dos seus quotidianos uma caminhada suave. Cumprimentam quem passa, sorriem à esquerda e à direita, dizem larachas e fazem brincadeiras com quem se cruzam, sabem o nome de toda a gente e lembram-se da questão certa ou do comentário adequado ("Então, Sr. Jaime, lá ganhou o seu Benfica"; "Olá, Dª. Augusta, está melhor das suas costas?"; "Viva Dr. Araújo, li a sua entrevista, gostei muito").

 A maioria das pessoas, no entanto, arrasta-se perra. Uns nem chegam a ter consciência da sua necessidade de agradar e, pelo contrário, parecem fazer tudo na direcção contrária. Carregam o sobrolho, desviam o olhar, irritam-se por dá cá aquela palha, respondem torto.

Outros por inabilidade, timidez, ou por nunca terem pensado no assunto, adoptam uma posição defensiva ou passiva como se a simpatia e a alegria fossem sempre uma resposta e nunca uma iniciativa.

Agradar, como tudo na vida, dá trabalho e precisa de empenho.


2016-03-18

« EFICIÊNCIA v/s EFICÁCIA »



Em tempos de vacas magras, um pouco por todo o lado, procura-se despender o menos possível para chegar a resultados idênticos.

Quando há muitos recursos, ninguém se preocupa como as coisas aparecem feitas. Ninguém se questiona se faz sentido que haja mais uma estrada a ligar nenhures a lado algum, se dá jeito ter uma nova máquina que ninguém sabe operar, se é adequado ultrapassar dez vezes um qualquer orçamento inicial, se é sensato pôr cem pessoas a fazer aquilo que cinco seriam capazes de executar no mesmo tempo. Ninguém se rala se as montanhas parem ratos. Quando os recursos passam a ser limitados, aí começa a preocupação com a racionalização.

Nas instituições, nas empresas de bens ou serviços, nos lares, todos percebemos que temos de ser mais eficientes e gastar menos recursos e energia para fazer o que há a fazer. Não se trata mera,ente de poupar. Trata-se de arranjar um equilíbrio mais sustentável entre o que se tem de fazer e a forma como se faz.

Não sei se se pode dizer que nós, como povo, temos muito a aprender em matéria de eficiência. Generalizar tende a ser abusivo. Mesmo assim, parece que nos enredamos demais nos processos que conduzem às soluções de um problema e que demasiadas vezes chegamos ao objectivo a um custo absurdamente dispendioso.

Os exemplos são aos montes. Os grandes pilares societários: justiça, saúde, ensino enredam-se de tal maneira nos seus próprios trâmites que temos todos a ideia de que os objectivos  que atingem são ridículos em função dos recursos que desbaratam. Ficamos mesmo com a sensação de que se distraem daquilo que achamos que são as respectivas missões e se despreocupam de administrar a justiça, tratar as doenças e promover a saúde ou ensinar e facilitar o conhecimento e se perdem amiúde com as problemáticas do seu corpo de funcionários.

A níveis mais básicos e comezinhos, as coisas correm do mesmo jeito. Muitos de nós sentem permanentemente que se esteve em demasiadas reuniões para discutir coisa nenhuma, que se preencheu dúzias de papéis que ninguém leu, que se gastaram horas  de vida em conversas, negociações e discussões laterais ao que era suposto ser o cerne da questão.

Parece que temos o gosto pelo drama e pela complicação, pela análise exaustiva de pequenos detalhes periféricos e que demasiadas vezes ficamos a olhar o dedo que aponta qualquer coisa magnífica que não chegamos a ver.

P.S. - Que atire a primeira pedra quem nunca se confundiu com a definição e aplicação dessas duas simples palavras: Eficiência e Eficácia. Sem medo de afirmar, essa é uma das dúvidas mais frequentes da área de Negócios. Mas afinal, qual a diferença entre eficiência e eficácia? É possível ser eficiente, mas não eficaz?
Peter Drucker, o pai da Administração moderna, define os termos da seguinte forma:
"A eficiência consiste em fazer certo as coisas: geralmente está ligada ao nível operacional, como realizar as operações com menos recursos – menos tempo, menor orçamento, menos pessoas, menos matéria-prima, etc…"
"Já a eficácia consiste em fazer as coisas certas: geralmente está relacionada ao nível gerencial".

2016-03-08

«A INGLATERRA DAS ALIANÇAS PECHISBEQUE»



Vai por essa Europa fora uma azia danada à conta das diatribes perpetradas pelos nossos amigos britânicos. O que, da nossa parte, apenas suscitará um sorriso condescendente. Continuam iguais a eles próprios. Dividir para reinar. 

Aquando da adesão à CEE em 1973, 67% de votos favoráveis decorrem apenas da conclusão de que, do exterior, jamais conseguiriam destruir a coisa.  Houve apenas um pequeno escolho que não conseguiriam remover e que se chamava De Gaulle. Apenas tiveram de aguardar, serenamente, a sua morte.

Mas tenhamos sempre presente que um britânico, embora pró-europeu, é sempre anti-europeu. Quer estar dentro para partir a louça, sem a maçada de recolher os cacos.

Lembremo-nos de Margaret Thatcher e da sua cruzada anti-euro. E como tinha razão! Por uma vez, concedamos que não se tratava apenas de teimosia, pois a razão está à vista de todos.

Regressando à vaca fria, assim sem esforço de memória recordemos terem feito alianças com holandeses contra espanhóis, com alemães contra franceses, com franceses contra alemães e italianos. E isto para ficarmos só pela Europa.

É a história da Grã-Breranha nos últimos cinco séculos. Querem uma Europa desunida. Eles, espertalhões, chamam-lhe diplomacia. Por vezes até, com ironia fina, apelidam-na de política externa. Para quê mudar, se tem sido uma receita de sucesso?

Uma sugestão aos líderes europeus. Em vez de mastigarem estatísticas, leiam a História. Evitariam, pelo menos, a cara de parvos que têm pavoneado por Bruxelas.