[ Vox populi vox Dei ]

2016-02-27

« A INIMPORTÂNCIA DE NÓS TODOS... »



Somos todos importantes. Há uma valorização intrínseca à condição humana, filiada na mais politicamente correcta perspectiva sobre a existência e a dignidade humanas, que faz de cada um de nós, individualmente, seres importantes.

Também há a nossa própria ideia sobre o lugar que ocupamos no mundo, e a maioria de nós acha, quase sempre, que esse lugar tem mérito.

Tirando as fases de depressão profunda em que nada faz sentido e abrindo excepção também para uns tantos com uma auto-estima tão baixa que acreditam não ter a menor valia, os outros, todos os outros, acham genericamente que o que são e o que fazem merece reconhecimento.

Os níveis de reconhecimento a que cada um de nós aspira são, depois, bastante variáveis. Para alguns, chega e basta que os filhos os considerem bons pais ou que os maridos ou as esposas afirmem que têm bons parceiros de vida. Para outros, o reconhecimento pretendido vem de figuras consideradas de autoridade: os pais, à cabeça, mas também os sucessivos chefes com que vão privando.

Uns tantos precisam de reconhecimento público, quer pela natureza da sua profissão, quer pelo fascínio da popularidade. Outros ambicionam um lugar na História: um parágrafo, duas linhas, um nome de rua, qualquer coisa que passe à posteridade e conceda um lastro de glória.

Também há os que o que querem mesmo é o reconhecimento dos seus pares: serem apontados entre colegas de profissão ou amigos de grupo como especialmente dotados ou competentes em qualquer coisa que todos valorizam.

Há ainda os que acedem a uma qualquer consciência de serem devidamente reconhecidos por se guindarem a estatutos especialmente relevantes ou posições de grande destaque.

O problema, o grande problema, com que nos deparamos é que a importância que julgamos ter e o nível de reconhecimento correspondente não costumam andar a par.

Vivemos num sítio sem hábitos de exortação positiva, louvor público ou simples elogio. Pelo contrário, o que grassa é a crítica, o maldizer, a desconfiança generalizada, a inveja até!

Daí que tenhamos de aprender a saber viver, bem, sem expectativas de reconhecimento. Melhor ainda é capaz de ser, como diria Fernando Pessoa, que a consciência da própria 'inimportância' seja o cume do  conhecimento da vida.


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