[ Vox populi vox Dei ]

2013-08-03

«OSTRAS - CRIATURAS COMESTÍVEIS, OU DE ADORNO»

Exemplar de ostra


Desde que foi pela primeira vez tentada com êxito no Oriente, há séculos, a arte de cultivar ostras tem sido amplamente praticada. Em princípio, criar ostras é coisa simples: plantam-se numa baía ou estuário cascas de ostra ou outras conchas vazias semelhantes, para apanhar certa porção de ostras novas. Assim que elas atingem tamanho comercializável, faz-se a colheita. São necessários, porém, conhecimentos para se conseguir constantemente uma boa produção dessa cultura submarina.


Criação artificial - ostreicultura




Aspecto de apetrechos de criação de ostras


É preciso ter sorte também. A vida da ostra está sujeita desde o início a riscos sem conta. Provavelmente, apenas duas num milhão atingem a idade adulta!
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A chance do criador de ostras é a surpreendente vida sexual desses animais ser da mais fecunda. Em geral a ostra começa a vida como macho, depois, uma vez em cada época, pode transformar-se em fêmea e pôr uma grande quantidade de ovos. A fêmea pode pôr nada menos do que 500 milhões de ovos numa só temporada de desova. No mesmo período o macho solta bilhões de espermatozóides. No entanto, apenas poucas células germinativas chegam a unir-se, pois o seu encontro ocorre na água, é aparentemente ao acaso.
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Poucas horas depois de o ovo ter sido fertilizado, dele sai o embrião. Dentro de um a dois dias a pequenina ostra forma uma concha minúscula, semelhante a um pequeno marisco, mas invisível a olho nu. Mesmo depois de alimentar-se constantemente durante duas semanas, não é muito maior do que a cabeça de um alfinete. Correntes e marés arrastam muitas ostras novas às águas profundas, onde morrem. Das cem espécies conhecidas no mundo inteiro, poucas vivem em profundidades superiores a oito metros e uma grande quantidade torna-se o repasto de medusas e outras criaturas marinhas.
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As que sobrevivem às duas primeiras semanas descem ao fundo, onde procuram superfícies limpas para nelas se fixarem. Quando a ostra encontra uma superfície adequada, a concha segrega imediatamente uma substância adesiva. Dentro de poucos minutos torna-se dura como cimento e daí em diante a ostra está permanentemente fixada à base, sempre pela metade profunda da sua concha - esquerda; apenas a metade direita - plana -, que a ela se adapta como tampa, permanece móvel. A ostra cresce aumentando as bordas da concha, cerca de dois centímetros e meio por ano em algumas regiões; porém, mais do que o dobro nos períodos de crescimento mais longos, em águas quentes.
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Durante a estação de crescimento o criador de ostras deve inspeccionar com frequência os seus parques ostrícolas, pois é quase certo os rapinantes andarem por perto. Nas águas setentrionais, estrelas-do-mar aos bandos pululam sobre os bancos de ostras. Com o corpo grotescamente curvado, a estrela-do-mar monta-se numa ostra fechada e, com os numerosos tentáculos tubulares, começa a sugar até que os vigorosos músculos da ostra não resistem à tensão e abre a concha.
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Os cultivadores de ostras arrastam enormes lambazes - aparelho marítimo tipo' vassoura' - ao longo dos seus bancos de cultura para enlear as estrelas-do-mar nos cordões do equipamento, ou espalham cal sobre o fundo; esta dissolverá a casca crustácea das estrelas- do-mar.
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Em certas regiões, esponjas de amarelo vivo crescem sobre as cascas das ostras e dissolvem-nas. Gigantescas raias-chita podem devastar uma grande ostreira apenas numa noite! Para combatê-las, é preciso guarnecer as áreas de cultivo com paus aguçados para espetar as raias quando estas se baixam para comer.
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As ostras são atacadas por numerosos fungos. Os leitos da desova podem ser destruídos, ou as ostras podem ser mortas por resíduos industriais. Excesso de chuva pode diluir o sal na água das baías ou enseadas, deixando-o abaixo do teor necessário à vida da ostra. Todavia, a falta de chuva pode impedir a afluência de substâncias nutritivas indispensáveis vindas de terra.
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Em condições favoráveis, a ostra come 24 horas por dia, bombeando durante esse tempo cerca de 750 litros de água através das guelras. Partículas sólidas na água são arrastadas a canais de espesso muco, que flui lentamente para a boca da ostra. As partículas menores de alimento - minúsculas plantas ou detritos orgânicos - vão para o estômago.
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Em águas quentes as ostras atingem em 18 meses, ou menos, o tamanho adequado para venda, mas em águas setentrionais podem levar cinco anos ou mais para crescerem até ao mesmo tamanho.




 Ostra perlífera

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Entre as diferentes espécies melhoradas por uma cuidadosa cultura, pode citar-se a Ostra portuguesa, originária do rio Tejo, que chega ao estado adulto no fim de três anos; mas só no fim de quatro a sete é que atinge as suas maiores dimensões.
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Ostras de água fria são firmes, tendo em média 23% de carne sólida. As de água quente, de crescimento rápido, têm menos de 10% de substância sólida.
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Outrora era considerado perigoso comer ostras nos meses de Verão. É verdade que as ostras no Verão são leitosas por causa das ovas e muito menos saborosas do que as colhidas no Inverno; mas as ostras de nenhum modo são venenosas. A ideia de se evitarem as ostras no Verão originou-se na Europa, onde a ostra comum nessa estação do ano se torna arenosa, sendo desagradável ao paladar.



Ostras prontas para a mesa
          Foi corajoso quem comeu uma ostra pela primeira vez

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Em valor nutritivo poucos alimentos são comparáveis às ostras, tão ricas em cobre e ferro como uma porção equivalente de fígado. Contêm manganês, cálcio, fósforo, duzentas vezes mais iodo do que o leite, os ovos, ou a carne, além de elevado teor de proteínas e vitaminas. O coeficiente de calorias é semelhante ao do leite, mas as calorias do leite são provenientes da gordura, ao passo que as da ostra são da proteína.
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As ostras figuram entre os poucos animais que o homem ainda come vivos e crus! Acondicionadas em sacos húmidos e mantidas frescas, de comboio de mercadorias, camiões frigoríficos, ou de avião, são entregues em mercados distantes milhares de quilómetros do local onde foram apanhadas.
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A temperaturas negativas tornam-se semi-dormentes e, neste estado, conservam-se vivas e frescas durante muitos meses.
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Observando-se a ostra, um humilde molusco disforme e viscoso, um autêntico nó cinzento em nada devendo à estética, concordar-se-á que o Anónimo que comeu a primeira ostra, ou tinha muita fome, ou era alguém com muita coragem!




1 comentário:

cosmos disse...

Deu vontade!!!
Agora apetece-me provar durante o inverno. Que pena que terei de esperar praticamente um ano inteiro!!