[ Vox populi vox Dei ]

2013-08-07

«AS BONECAS... E OS MAGALAS DE CHUMBO»


A Tucha



A boneca atravessou todas as idades da humanidade, esquecida no jardim, molhada, suja, mimada, acarinhada, punida, recompensada. Modificou-se ao longo do tempo, com novos materiais: pano, cera, porcelana, pasta de papel, celulóide, plástico e borracha transformaram  a sua fisionomia, mas o afecto da criança por ela não mudou.

Os túmulos egípcios, gregos e romanos guardam figurinhas em terracota ou osso que provavelmente desempenharam o papel das nossas bonecas, exprimindo também os sinais do sagrado, servindo de totem.

A boneca permite consciencializar um corpo, torna-se um duplo, um alter-ego capaz de captar ansiedades e vivências, conversas. Veste-se e despe-se. Adormece-se. Pode-se embalar. E podemos contar-lhes a nossa vida. As bonecas desde o século XVIII, divulgam a moda de Paris, e eram exportadas para vários países da Europa lançando modelos franceses pelo mundo. A colecção de bonecas da rainha Vitória, vestidas pelas suas próprias mãos e representando personagens da corte, revelam um grande sentido de exactidão e o gosto que a boneca suscita em todos os tempos.




 Exemplares de bonecas antigas


Actualmente, por exemplo, a Barbie invade os mercados, multiplicando-se em cores, conjuntos e situações. Também se vendem bonecos articulados, a pensar na divisão social rapaz-rapariga (divisão que parece redutora e que com as creches deixa de acontecer) que apresentam aventuras de todo o tipo e acessórios diversificados. Boneco ou boneca, é o brinquedo por excelência. Permite o diálogo com o mundo e com o «outro» numa dimensão que se desenha mais profunda em cada época.



A  Barbie


Estes bonecos vivem por vezes em casa, são manuseados, arrumados em famílias, estes «lares» podem ser um recanto de jardim ou um sólido e ordenado ambiente doméstico, uma casinha de bonecas, ensinando uma ordem doméstica e um modus vivendi para com quem com elas brinca.

As casas de bonecas são a melhor história do mobiliário. Informam-nos sobre a vida privada das épocas e dos países. Copiam-se também utensílios domésticos. Desde a mais remota Antiguidade que se reproduzem, à escala, os objectos da vida real.





Criança ao lado da sua casa de bonecas


O brinquedo funcionou muitas vezes de modelo transmissão de uma época, de uma moral, de uma política. Isso acontece com forte intenção na história moderna. Os soldadinhos de chumbo serviram a Hitler (e o militarismo em geral) para preparar os rapazes para uma futura guerra. Hitler auto-representava-se mais alto do que qualquer outro (quando era de baixa estatura), os soldados em miniatura, os brinquedos adquiriram uma forma instintiva, com sangue, cavalos mortos no campo de batalha, enfermarias, feridos, muita violência.

Assim se pretendia «formar» soldados sem medo, com vontade de guerra. Daquela guerra. Como, aliás, das guerras de hoje!!

Luís XIV, aos 12 anos, foi iniciado nos exercícios militares com soldados em miniatura. A verdade é que as crianças imitam nas suas brincadeiras o que vêem.



Exemplares de brinquedos representando líders nazis e fascistas





Soldados de chumbo nazis em "acção"



O Estado português fascista, no tempo do chamado Estado Novo, também editou
os filiados da Mocidade Portuguesa de chumbo em "alto estilo"
como a imagem mostra




Durante a Revolução Francesa, as crianças guilhotinavam gatos recém-nascidos, e assistiam à execução para se divertirem. Na Ásia menor foram encontrados guerreiros em terracota da época romana [não estava ainda em prática o uso do chumbo para moldar soldados].

Soldados e guerras que suscitaram sempre o entusiasmo de quem com eles brincou, fornecendo provas de que só são diferentes as maneiras, mas a guerra acontece sempre.

Com estas histórias do brinquedo que acabo de contar, reafirmo: o que é perene - o modo de brincar, às vezes! As brincadeiras perdidas no tempo e na memória de quem as leva consigo. 

O que muda: os materiais e modos de fabrico; os brinquedos; as novidades introduzidas em cada época e que se esquecem, passam de moda, a fisionomia do brinquedo, o gosto, o sistema, os símbolos de vida, os sinais, as pessoas.

O que é imutável: o modo de brincar, muitas vezes! As brincadeiras repetidas ou guardadas na memória de quem as preserva.

O que é igual: alguns brinquedos e modos de brincar; alguns materiais; o afecto, o gosto de brincar, a alegria e a tristeza, o crescer, a vida, tantas vezes o medo.


1 comentário:

Mar Arável disse...

... bonecas só de carne e osso

porque a vida não é de brincar