[ Vox populi vox Dei ]

2013-01-12

« LATIM: A NOSSA LÍNGUA MÃE »






O ensino do latim e do grego no ensino público em Portugal vive, de há muito, um enquadramento curricular modesto e precário, devido a intervenções legislativas desastradas que têm vindo a erodir as condições para a sua presença nas escolas.

A erosão já é longa: desde reformulações precipitadas dos curricula escolares até às alterações nas competências requeridas para a profissionalização dos docentes na área de Português e de Línguas Clássicas, chegámos finalmente ao bem conhecido de todos os docentes, o despacho 5106-A/ de 2012 (https://www.portaldasescolas.pt/imageserver/plumtree/portal/matnet/Despacho_5106A_2012.pdf 

Definição de um conjunto de normas relacionadas com as matrículas, distribuição dos alunos por escolas e agrupamentos, regime de funcionamento das escolas e constituição de turmas ), que determina o número mínimo de vinte alunos para a abertura de disciplinas de opção.

Imaginem uma mãe que deu à luz várias filhas. Essas filhas cresceram todas na Europa. São mais ou menos parecidas umas com as outras, como quaisquer  irmãs, e foram crescendo e evoluindo separadamente, em países diferentes. Depois, os seus descendentes foram emigrando, espalhando-se pelo mundo. A mãe deixara-lhes uma herança valiosa: a sua língua e cultura.

Esta poderia ser a imagem do que representa o Latim, a matriz da nossa língua, ou seja, a mãe do português, uma das nossas línguas-filhas, a que se convencionou chamarem-se línguas românicas ou neo latinas. Assim, a língua portuguesa tem mais irmãs: o castelhano, o francês, o italiano, entre outras.






Até meados do século XX, em Portugal, era obrigatório na Escola aprender-se as regras da língua latina. Mais tarde, só quem ia para determinados cursos humanísticos como Filologia clássica ou românica, Direito, Teologia e pouco mais é que teriam que estudar latim, pois era inconcebível não o saber nessas áreas que tanto o utilizam. É difícil, um quebra-cabeças, um autêntico puzzle, dizia-se. Tanta declinação para decorar, tantos casos, tantos verbos! Tal como a tabuada, as equações, as fórmulas matemáticas... Chamavam-lhe, por isso, "a matemática das letras". E, tal como esta, o latim desenvolve a capacidade de análise e o raciocínio lógico, ajudando ainda a utilizar corretamente a nossa língua, a compreender textos de grandes autores lusófonos, facilitando também a aprendizagem de línguas estrangeiras, mesmo as não latinas, como o inglês ou o alemão.



Peguemos no caso do alemão. Não sendo uma língua neolatina e, portanto, afastando-se mais das línguas românicas, o povo alemão, no entanto, sempre reconheceu a importância da língua latina, considerando-a uma boa "madrasta", pois acham que a sua aprendizagem promove o seu desenvolvimento intelectual e a sua boa formação. Atualmente, muitos milhares de alunos estudam livremente o latim em escolas e universidades da Alemanha! É a 3ª língua estrangeira mais estudada, depois do francês e do inglês!

Dizer que o latim é uma língua morta é uma falácia. Considerar que é algo que já só diz respeito a alguns, como os representantes da Igreja, ou associá-lo a algo arcaico e em desuso, é mentira. Imaginemos que a nossa mãe linguística se retirou para parte incerta. Mas as suas filhas, de vez em quando, revisitam-na, nem que seja  para se recordarem das palavras que ela lhes ensinou para, a partir delas, formarem outras ou para as utilizar tal e qual a mãe lhes ensinara. Para o nosso maior poeta, Camões, a língua portuguesa era a que mais se assemelhava ao latim: "e na língua, na qual quando imagina, / com pouca corrupção, crê que é a latina" [Lusíadas, I-33].

Assim sendo, a língua portuguesa tem sido uma filha ingrata. Os portugueses têm-na esquecido, enquanto outros, bem mais bastardos, a respeitam e veneram.




Com efeito, o ensino do latim tem sido progressivamente abandonado em Portugal, tendo sido reduzido a uma disciplina de opção para quem segue Humanidades. E será útil para os estudos humanísticos? Outra falácia e outra mentira. Além de expressões latinas inalteradas a que recorremos frequentemente no nosso discurso como: "persona non grata", "alter ego", "a priori", "proforma", "per capita", ou a abreviaturas cuja origem é latina como etc. ("et caetera", e outras coisas) ou P.S. ("post scriptum", depois da escrita), é habitual ir buscar ao latim palavras para designar novos inventos ou novas tecnologias: "vídeo" (vejo), "audio" (oiço), "media" (os meios, de comunicação) ou os "multimedia" (muitos meios).

Não esquecendo que grande parte do vocabulário de diversas áreas científicas  tem raízes latinas: medicina, economia, botânica, geologia, biologia, etc.

Estando há muito o latim em extinção, Nuno Crato [Ministro da Educação, ainda em exercício] poderá dar a machadada final se mantiver  a sua decisão de só se poder formar uma turma da disciplina de latim no Ensino Secundário, caso haja 20 alunos interessados.

Há 30 anos (ou mais), bastavam 5 alunos para se abrir uma turma na Universidade! Então, isto é o mesmo que dizer que o latim é algo a abater, uma inutilidade do ponto de vista económico imediato. Juntamente com o latim, também a literatura portuguesa tem sido menosprezada, numa relação causa-efeito. Se não se dominam as estruturas gramaticais da nossa língua e o vocabulário latino que deu origem ao nosso léxico, como se pode gostar de ler e analisar os autores clássicos? Não basta "ressuscitar" Camilo, dada a efeméride de se comemorarem 150 anos da primeira edição do "Amor de Perdição"!

Esta obra também há vários anos tinha sido banida do programa da disciplina de Português do Ensino Secundário, bem como vários outros autores e respetivas obras...

O que estamos a fazer à nossa língua mãe é o mesmo que estamos a fazer aos nossos ascendentes mais idosos, votando-os ao abandono...

Eliminar o estudo do latim é, mais do que abandonar uma mãe que nos ensinou (quase) tudo, contribuir para o crescimento da iliteracia linguística, literária e cultural de todos nós e para o aumento dos maus tratos de que a língua portuguesa tem vindo a sofrer progressivamente. 

Se uma filha cometer matricídio e se ainda lhe restar algum fundo humanista, sofrerá muito. Se tiver um rebate de consciência, talvez ainda vá a tempo de se redimir, tentando ressuscitá-la.

Façamo-lo "pro bono publico".






7 comentários:

Jorge disse...

Bom documento!
Saudações.

Maria José Meireles disse...

Saudades!... (verdadeiras)

César Ramos disse...

Olá amigos, que ainda aparecem e comentam!

Obrigado pelas vossas presenças, e também pelas palavras que me dirigem.

Tudo isto anda um pouco "avariado", pois tenho aqui os vossos testemunhos, e nada me apareceu por e-mail (a avisar).

São tantos os aperfeiçoamentos do Blogger, que acabam por estragar - digo eu!

O que está bem não devia ser mexido, mas... "eles"
lá sabem!

Desejo aos presentes, e aos ausentes mas que irão aparecer... eu sei que vão...

Um BOM ANO, na medida em que nos deixarem!

Abraço a todos e
SAUDADES também!

trepadeira disse...

Olá César

Também Augustus na sabedoria.
Mais um excelente documento.

Lá me obrigaram a estudar latim,primeiro com alguma relutância,depois com gosto,nos dois últimos anos do chamado 3º ciclo dos liceus.

Hoje uso-o quase diariamente,não para usar latinadas,às vezes tão úteis,para não baralhar e designar com rigor os amigos bichitos e plantas.

Abraço,

mário

Mar Arável disse...

Tudo se move

mas não existem amanhãs

sem boas memórias vivas

Jaime A. disse...

Adorei o seu texto, mais ainda porque sendo a minha formação totalmente diversa, desejaria muito aprender latim por mim (ainda não tive coragem, confesso).
Continue, pois, a defender o ensino do latim contrariando essa falácia de um acordo ortográfico que tenta esmagar a nossa ligação ao latim.

Anónimo disse...

They are believed to be embryogenetic in descent and
are related to to lipomyelomeningocele with which they portion a usual extraction in
the 8% s�o representados por lipomas.

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