[ Vox populi vox Dei ]

2012-09-28

« DO FUTURO PROSAICO... À POESIA INTEMPORAL »



Além do presente, que para muitas pessoas está um sufoco, há ideias de futuro que toldam ainda mais aquilo que acontece aqui e agora.

Como se sabe, a vida é sempre aqui e agora e o que há-de ser são apenas projeções de ideias mais prováveis ou mais improváveis. Do futuro vislumbramos apenas aquilo que as nossas experiências passadas, a nossa específica condição e circunstância, nos permitem levar a crer que pode ser possível.

Mas, mesmo não havendo ainda nenhum futuro, mesmo que se perceba que a graça desta viagem no tempo que é a nossa própria existência reside, sobretudo, no facto de ser uma expedição no desconhecido, a nossa imensa fantasia de controlo - um controlo que nos permite mover com alguma segurança e o convencimento de que sabemos para onde vamos - implica vivermos em estados de enorme ansiedade quando, como agora, é assumido que não temos a menor ideia de como será o mundo daqui a uns tempos. Não sabemos nem como será o nosso estilo de vida, nem que direções as coisas que nos são conhecidas e familiares seguirão. Olhando para trás, recuando apenas as três últimas décadas que são acessíveis à maioria de nós, dá para perceber que o mundo atual não é nada parecido com qualquer das hipóteses que colocávamos antes da "queda" do muro de Berlim, antes do "fim" das grandes ideologias, antes dos computadores domésticos e das tecnologias  de informação e comunicação.

Não sonhávamos com telemóveis e "smartphones" multifunções, não pensávamos possível deslocarmo-nos pelo mundo como depois viemos a fazer, não lobrigávamos hipóteses de o consumo se transformar no que depois foi, não tínhamos as mesmas perspetivas - ou a falta delas - sobre a saúde, a educação, a justiça, as relações entre géneros e entre gerações que acabámos por ter.

Não tínhamos os mesmos costumes nem adivinhávamos o que se seguiria em termos de transformações de mentalidades.

Ou seja, há apenas duas ou três décadas vivíamos inseguros por outras razões e tínhamos do futuro que veio a ser imensas convicções que não se confirmaram.

Faz sentido relembrar isto quando se ouve com frequência que não há futuro.

O futuro espera por nós, mesmo que nós não esperemos nada dele! 







 António Gedeão
Poeta




« Poema do Futuro »

Conscientemente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.

No declive do tempo os anos correm,
deslizam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê, e sorri.
Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corpo imóvel, exhumado
da vala do poema.

Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.
Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo quanto fica,
é tudo quanto resta
de um ser que entre outros seres
vagueou sobre a Terra.

António Gedeão, in 'Poemas Póstumos'







Ary dos Santos

Poeta





O Futuro    

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.








3 comentários:

trepadeira disse...

Isto vai,com paciência e determinação,isto vai,pode demorar mais do que queremos mas,isto vai,se não desistirmos,isto vai.

Um abraço,
mário

Helen De Rose disse...

Dá um nó na garganta ler tudo isto, ainda mais sabendo que o tempo está se esgotando para o programa nuclear do Irã, será que teremos outra bomba nuclear? O futuro é incerto.
Agradeço por compartilhar, César.
Bom dia.
Helen.

Teresa disse...

César

É muito importante este seu post. É importante perceber que o futuro é sempre incerto e nunca como o antevemos, mesmo quando nos parece muito certinho!

Bjs
(Por favor, retire esta irritante moderação de comentários com palavras incompreensíveis, que retiram qualquer vontade de comentar!)