[ Vox populi vox Dei ]

2012-04-14

« MUDAM-SE OS TEMPOS, E A MANEIRA DE SER »

"Estátua viva da vergonha"


A crise económica internacional, que se vem acentuando nos últimos anos, tem levado a medidas restritivas nos países de destino dos nossos emigrantes, tendo afetado, de forma mais ou menos drástica, o quotidiano de todos aqueles que procuram, longe da pátria, a realização pessoal, profissional e social, que dê sentido satisfatório a um percurso de vida que ambicionam com a maior estabilidade possível.

Sendo assim, uma boa parte  das gentes das nossas regiões, em movimentos migratórios internos, facilitados por uma rede cada vez mais alargada de estradas e servidos por uma razoável rede de meios de transporte, procura, nos grandes centros urbanos portugueses , a satisfação para as legítimas  necessidades de um viver mais desafogado, já que a agricultura e a pastorícia, os recursos económicos mais tradicionais das nossas terras, deixaram há muito de satisfazer as naturais ambições das novas gerações.

Todo este fenómeno, aliado à obrigatoriedade cada vez mais alargada da escolarização dos nossos jovens, pela demanda de mais saber e de um emprego economicamente mais rentável, e também ao atual baixo índice de nascimentos, tem levado ao declínio demográfico, que se traduz numa população cada vez mais envelhecida.




No entanto, o regresso às origens é sempre uma obrigação. O Natal, a Páscoa e principalmente os meses de verão assistem ao retorno dos que partiram. Carregados de saudades, de mimos e presentes para os que aqui deixaram e dos luxos possíveis transferidos de grandes centros  de consumo, vão modificando a fisionomia e os modos de viver e de sentir da nossa gente.

Trazem novos hábitos, novas experiências, novas exigências. Aprenderam por lá a competitividade que, naturalmente, passou a fazer parte das suas preocupações e que conduz a certa ostentação, exposta principalmente nos carros que conduzem, nas casas que constroem, nos eletrodomésticos que usam, nos mobiliários com que recheiam as suas habitações.

Hoje, poucas serão as casas das nossas aldeias que não exibem um razoável frigorífico, arca congeladora, aquecedor elétrico, miroondas e o indispensável televisor que nos aproxima do mundo.

De facto, a televisão entrou na vida de toda a gente, invadiu os seus tempos de lazer, faz parte dos seus serões, apresenta-lhe novas modas e novos valores.







O convívio dos homens na taberna, à porta da venda, no cafezinho intimista ao lado do minimercado,, foi sofrendo alterações, ficando cada vez mais frouxo. Quase só o futebol consegue monopolizar atenções e alargar interesses que se querem partilhados com os vizinhos e os amigos. Quase só o futebol junta um razoável grupo para a discussão dos resultados. Pelo meio, a televisão.

O convívio das mulheres na fonte, nos lavadouros das poças e dos tanques, à saída da missa, nas feiras ou nos bailes, foi ficando cada vez mais desprendido de interesses e de afetos. Quase só as novelas despertam comentários que se querem partilhados com as vizinhas e com as amigas. Pelo meio, ainda e sempre a televisão.

Com a chegada da televisão, dos telemóveis e da internet, foram dissipadas barreiras julgadas intransponíveis. As novas tecnologias estão aí, a revolucionar  o quotidiano das populações. As seculares práticas comunitárias, instaladas desde tempos imemoriais, vão dando lugar ao individualismo da modernidade.


MÚSICA  PORTUGUESA  DO  EMIGRANTE:



As gerações mais velhas, embaladas neste sonho de conforto e de progresso, de boamente aceitam as mudanças que possam facilitar um pouco os seus dias, desde sempre marcados pelo esforço duro e penoso.

Na prática, quase ninguém se apercebeu dos efeitos perversos desta mudança de atitudes e mentalidades. Naturalmente, as coisas foram acontecendo devagar e, quando se deu por isso, as crianças já não cultivavam práticas e linguagens, gestos, memórias e afetos que se julgavam imorredoiros.

Tinham deixado de aprender, porque ninguém lho tinha ensinado na distância das grandes cidades, o carinhoso respeito pelos nossos velhos, a quem já não recorrem para as aprendizagens da vida, com quem já não rezam as contas ao serão, a quem já não pedem a bênção pela manhã e antes de adormecerem. As nossas crianças e os nossos jovens das aldeias, foram perdendo o espírito que era genuíno e que caracterizava a sua identidade e são agora, para o bem e para o mal, em tudo parecidos com os novos portugueses de todo o resto do país e do mundo.


EMIGRANTES
Obra da autoria de Segall


A abertura dos ambientes outrora isolados aos novos meios de comunicação e de transporte, só pode ser encarada numa perspetiva de enriquecimento e desenvolvimento a todos os níveis. Estas regalias, até há pouco impensáveis para uns e esperadas com impaciência por muitos outros, serão por certo  résteas do progresso que, com toda a justiça, chegam às nossas províncias.

Difícil é prever até que ponto poderemos ainda preservar os sinais que nos distinguem como seres únicos que, respirando uma vitalidade e culturas próprias, são capazes de se afirmar pelo mundo, sem todavia se desprenderem das raízes que os ligarão para sempre às suas terras.

4 comentários:

Luís Coelho disse...

Somos um país de emigrantes. No tempo das descobertas saímos com um sonho e construímos um império.
Depois nos anos sessenta assistimos ao êxodo dos homens e mulheres que procuravam uma vida melhor que a que viviam por aqui na agricultura.

Esta segunda fase tocou-me de perto e muitos sujeitaram-se a tudo para mostrarem que tinham uns trocos.
Poucos foram da primeira leva que já regressaram e vivem um pouco melhor.

Hoje a situação é pior porque se somos comunidade europeia deveríamos ter por cá os mesmos direitos e empregos que se procuram lá fora.

Pobre país em que os governantes mandam emigrar...
Para onde caminhamos em incompetência e ignorância elegendo estes homens em governantes ...????

trepadeira disse...

E tudo isto feito de propósito,bem estudado e cumprindo sempre os interesses de poucos em detrimento do interesse geral.
É preciso mandar emigrar os traidores.

Portugal não está condenado,assim o povo queira.
Há muita gente que quer,só não são os que governam e se governam.

Um abraço,
mário

Luís Henriques disse...

Muito bom! Está tudo dito.

Cumprimentos,
Luís Henriques

Anónimo disse...

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