[ Vox populi vox Dei ]

2012-03-11

« NÃO SOMOS ... GENTE DESCARTÁVEL »



Livro de: Kevin Bales
"Gente Descartável : A Nova Escravatura na Economia Global"



"Gente Descartável"


     Na nova escravidão, a raça tem pouco significado. No passado, as diferenças étnicas e raciais eram usadas para explicar e desculpar a escravatura. Essas diferenças permitiam aos escravocratas inventar razões que tornavam a escravatura aceitável, ou até uma boa coisa para os escravos. 

A diferença dos escravos tornava mais fácil usar a violência e a crueldade necessárias para o controlo total. Essa diferença podia ser definida quase de um modo qualquer – diferente religião, tribo, cor de pele, língua, costumes ou classe económica. Qualquer dessas diferenças podia ser e era usada para separar os escravos dos escravocratas. 

Manter essas diferenças exigia um tremendo investimento em algumas ideias muito irracionais – quanto mais louca a ideia justificativa mais veementemente se insistia nela. Os Pais Fundadores tiveram que recorrer a contorções morais, linguísticas e políticas para explicar por que razão a sua «terra dos livres» era só para pessoas brancas. 

Muitos deles sabiam que ao admitir a escravatura estavam a trair os seus mais caros ideais. Eram levados a isso porque nesse tempo a escravatura valia muito dinheiro para muita gente na América do Norte. Mas deram-se ao trabalho de urdir desculpas legais e políticas porque sentiam que tinham de justificar moralmente as suas decisões económicas.
    
 Hoje, a moralidade do dinheiro supera todas as outras considerações. A maioria dos escravocratas não sente a necessidade de explicar ou defender o método de recrutamento ou de gestão do trabalho que escolheram. A escravatura é um negócio muito lucrativo, e um bom lucro é justificação bastante. Libertos das ideias que restringem o estatuto de escravo aos outros, os escravocratas modernos usam outros critérios para escolher escravos. 

Na realidade, eles gozam de uma grande vantagem: ser capaz de escravizar pessoas do seu próprio país ajuda a manter os custos baixos. Os escravos no Sul da América no século XIX eram muito caros, em parte porque originalmente tinham de ser transportados de África por milhares de quilómetros. Quando os escravos podem ser obtidos na cidade ou na região ao lado, caem os custos de transporte. A questão não é: «Serão eles da cor certa para serem escravos?», mas «Serão eles suficientemente vulneráveis para serem escravizados?». Os critérios de escravização não se referem à cor, tribo ou religião; eles centram-se na fraqueza, na credulidade e na privação.

     É verdade que em alguns países existem diferenças étnicas ou religiosas entre os escravos e os escravocratas. No Paquistão, por exemplo, muitos tijoleiros escravizados são cristãos, enquanto os escravocratas são muçulmanos. Na índia, escravo e escravocrata podem ser de castas diferentes. 

 Na Tailândia podem ser de diferentes regiões do país e são muito mais provavelmente mulheres. Mas no Paquistão há cristãos que não são escravos, na Índia membros da mesma casta que são livres. A sua casta ou religião reflecte simplesmente a sua vulnerabilidade à escravização; não é a causa dela. 

Só num país, a Mauritânia, o racismo da antiga escravatura persiste – ali os escravos negros pertencem a escravocratas árabes, e a raça é uma divisão-chave. Na verdade, algumas culturas estão mais divididas pelas linhas raciais do que outras. A cultura japonesa distingue fortemente os japoneses como diferentes de todos os outros, e por isso as prostitutas escravizadas no Japão são provavelmente mulheres tailandesas, filipinas ou europeias – embora possam também ser japonesas. 

Mesmo ali, a diferença-chave não é racial, mas económica: as mulheres japonesas não são de modo nenhum tão vulneráveis e desesperadas como as tailandesas ou filipinas. E as tailandesas estão disponíveis para serem transportadas para o Japão, porque os tailandeses escravizam tailandeses. 

O mesmo padrão verifica-se nos Estados ricos em petróleo da Arábia Saudita e do Kuwait, onde os árabes muçulmanos escravizam promiscuamente hindus do Sri Lanka, cristãos das Filipinas e muçulmanos da Nigéria. O denominador comum é a pobreza, não a cor. Por trás de cada afirmação de diferença étnica, está a realidade da disparidade económica. 

Se todos os canhotos do mundo se tornassem amanhã necessitados, em breve haveria escravocratas a aproveitar-se deles. Os modernos escravocratas são predadores intensamente conhecedores da fraqueza; eles estão a adaptar rapidamente uma prática antiga à nova economia global.
Kevin Bales (2001). Gente Descartável: A Nova Escravatura na Economia Global.
(António Pescada, Trad.). Lisboa: Caminho. pp. 20-22.





 

 Manuel António Pina
In-Jornal de Notícias de 05/3/12
publicou :

Admirável Mundo Novo


 
" Dois eticistas as universidades de Melbourne e Oxford defendem no "Journal of Medical Ethics" que matar recém-nascidos é eticamente justificável pelos mesmos motivos, incluindo motivos "sociais" e "económicos", por que se permite o aborto.

Gente respeitável como Peter Singer havia já admitido, em nome do mais radical neo-utilitarismo moral, o direito a matar recém-nascidos deficientes profundos cuja sobrevivência fosse expectavelmente origem de infelicidade para o próprio e família.

Ninguém tinha ido ao ponto (até os mais primários pós-benthamianos reconhecem, em geral, limites à mera aritmética do sofrimento-prazer e infelicidade-felicidade) de justificar a morte de bebés saudáveis com "os encargos sociais, psicológicos e económicos" que os pais suportariam com eles.

Fizeram-no agora os autores do ominoso artigo do "Journal of Medical Ethics", alegando que o bebé não é "ainda" uma pessoa no sentido de "sujeito de um direito moral à vida" pois não tem ainda "expectativas".

Fica aberta a larga porta da Ética para que velhos, doentes incuráveis e, porque não?, reformados ou desempregados sem hipótese de regresso ao mercado do trabalho, que não são "já" pessoas pois deixaram de ter "expectativas", possam ser abatidos de modo a poupar "encargos" à família e ao Estado.

Não há-de ser difícil justificá-lo, como fez a dra. Ferreira Leite com os idosos dependentes de hemodiálise e sem meios para a pagar."






«Um dos execráveis descartantes»


"O político analfabeto João Almeida volta a dar nas vistas, desta fez sem Facebook. A ideia de que o trabalho não tem direitos, tudo se nivela por baixo e um trabalhador é uma espécie de objecto descartável, assenta-lhe que nem uma luva.

É maneira de pensar como qualquer outra, e vigora em muitos países  para onde o deputado bem podia emigrar. Para a China, por exemplo."







 
Sinopse da obra - «Gente Descartável»:

A escravatura é ilegal. Mas existe e está a expandir-se rapidamente. Segundo Kevin Bales, existem mais de 27 milhões de escravos em todo o mundo. Em «Gente Descartável» descreve-se o funcionamento da nova escravatura e a sua forma de adaptação à globalização da economia em países como a Tailândia, a Mauritânia, o Brasil, o Paquistão e a Índia, e em zonas da Europa e dos EUA. Expõem-se as forças económicas e sociais que a sustentam, desde a corrupção dos governos locais até à cumplicidade das grandes organizações multinacionais. E apresentam-se os incríveis lucros que advêm desta «prática economicista». Os escravocratas actuais controlam os seus escravos pela força e pelo medo e, quando estes já não representam uma mais-valia económica, são «dispensados»: os escravos de hoje são gente descartável. Mas a escravatura não tem de ser uma nódoa permanente na história humana e neste livro são apontados caminhos para a combater, quer a nível individual quer a nível governamental, e é descrito o sucesso de acções antiescravistas de organizações locais e internacionais.


7 comentários:

relogio.de.corda disse...

...Gente descartável, somos carne para canhão para as estatísticas. No fundo, existimos para trabalhar e encher os cofres dos senhores todo-poderosos do dinheiro. Novas formas de escravatura do mundo moderno de que muitos vítimas sem o saberem. Triste vida a nossa!
De qualquer forma,o livro é uma referência a ter em conta para futuras leituras.Obrigada pela sua dica.

trepadeira disse...

Culto,lúcido e claro.

Eu mandá-los-ia para outro lado.

Um abraço,
mário

Mar Arável disse...

Um dia seremos de novo crianças

para criar um novo mundo

Boa partilha

Luisa Moreira disse...

Se meu andar é hesitante
e minhas mãos trêmulas, ampare-me.
Se minha audição não é boa, e tenho de me
esforçar para ouvir o que você
está dizendo, procure entender-me.
Se minha visão é imperfeita
e o meu entendimento escasso,
ajude-me com paciência.
Se minha mão treme e derrubo comida
na mesa ou no chão, por favor,
não se irrite, tentei fazer o que pude.
Se você me encontrar na rua,
não faça de conta que não me viu.
Pare para conversar comigo. Sinto-me só.
Se você, na sua sensibilidade,
me ver triste e só,
simplesmente partilhe comigo um sorriso e seja solidário.
Se lhe contei pela terceira vez a mesma história num
só dia, não me repreenda, simplesmente ouça-me.
Se me comporto como criança, cerque-me de carinho.
Se estou doente e sendo um peso, não me abandone.
Se estou com medo da morte e tento negá-la,
por favor, ajude-me na preparação para o adeus

(Autor Desconhecido)

toryburchshoesbags disse...

In my opinion, Belstaff Jackets Abercrombie Fitch clothing can't be lack of in our wardrobe.Belstaff Jackets Clothing fashion is changing everyday. People like fashion especially women. Abercrombie Fitch clothing is one of these famous brands on the market.Ugg boots 5815 Designed by famous designer and founded by famous artist, this clothing brand attracts all young girls and boys even Rosetta Stone lots of middle-aged women and men.

Anónimo disse...

cialis bestellen cialis generika erfahrungen
comprare cialis prezzo cialis
generico cialis cialis
cialis acheter cialis generique

Anónimo disse...

http://achatcialisgenerique.lo.gs/ cialis acheter
http://commandercialisfer.lo.gs/ achat cialis
http://prezzocialisgenericoit.net/ cialis comprare
http://preciocialisgenericoespana.net/ cialis comprar