[ Vox populi vox Dei ]

2012-02-29

« O POEMA PREMONITÓRIO DO REGICÍDIO »


REI  D. CARLOS I



Poeta Guerra Junqueiro




 
O Ultimato Inglês de 1890 foi sentido como um ultraje por toda a nação portuguesa, provocando a elevação dos círculos republicanos portugueses. Guerra Junqueiro, conhecido escritor, converteu-se numa das vozes mais agressiva da propaganda republicana, ele que até então era um frequentador dos círculos conservadores da sociedade e da política portuguesas. 

Para o efeito compôs um poema, que dedicou a Fialho de Almeida, intitulado "O caçador Simão" e que foi publicado na imprensa da época como no Globo, na Província e nos Pontos nos ii, entre outros. Recorde-se que Simão era o último dos nomes próprios do Rei D. Carlos, logo o caçador Simão pretendia designar o próprio rei, entronizado recentemente.

O poema foi considerado uma premonição (ou mesmo um desejo) do atentado que haveria de matar o rei e o seu filho primogénito, 18 anos mais tarde.
Logo na primeira quadra, Guerra Junqueiro, hostiliza o rei, acusando-o de indiferença, perante a agonia do seu moribundo pai, o rei D. Luís I e da dor da sua mãe, a rainha D. Maria Pia. Nas restantes quadras pode observar-se o ódio e o sentimento patriótico provocados pelo Ultimato Britânico, o qual vexou uma pátria inteira.


O ódio expresso por Guerra Junqueiro leva-o a escrever a última quadra, que se viria a revelar profética, não faltando quem a interprete como um incentivo ao regicídio (Papagaio real, diz-me, quem passa? - É alguém, é alguém que foi à caça do caçador Simão!...) [Em Simão leia-se o Rei D. Carlos]. 

O regicídio viria a ocorrer no dia  1 de Fevereiro de 1908, quando as armas de  Manuel Buiça e de  Alfredo Costa matam o Rei D. Carlos I, vindo de Vila Viçosa onde praticara a caça, e o Príncipe Real D. Luís Filipe, em pleno Terreiro do Paço.
Para melhor compreensão fica o poema integral:

= O CAÇADOR  SIMÃO =

Jaz el-rei entrevado e moribundo
Na fortaleza lôbrega e silente…
Corta a mudez sinistra o mar profundo …
Chora a rainha desgrenhadamente …

Papagaio real, diz-me quem passa?
— É o príncipe Simão que vai à caça.

Os sinos dobram pelo rei finado …
Morte tremenda, pavoroso horror!...
Sai das almas atónitas um brado,
Um brado imenso d’amargura e dor …

Papagaio real, diz-me, quem passa?
— É el-rei D. Simão que vai à caça.

Cospe o estrangeiro afrontas assassinas
Sobre o rosto da pátria a agonizar …
Rugem nos corações fúrias leoninas,
Erguem-se as mãos crispadas para o ar!...

Papagaio real, diz-me quem passa?
— É el-rei D. Simão que vai à caça.

A Pátria é morta! A Liberdade é morta!
Noite negra sem astros, sem faróis!
Ri o estrangeiro odioso à nossa porta,
Guarda a Infâmia os sepulcros dos Heróis!

Papagaio real, diz-me, quem passa?
— É el-rei D. Simão que vai à caça.

Tiros ao longe numa luta acesa!
Rola indolentemente a multidão …
Tocam clarins de guerra a Marselheza …
Desaba um trono em súbita explosão!...

Papagaio real, diz-me, quem passa?
— É alguém, é alguém que foi à caça
Do caçador Simão!...


« MATARAM  O  REI  NO  TERREIRO  DO PAÇO »

Esta notícia bombástica espalhou-se por Lisboa na tarde de 1 de Fevereiro de 1908. Depois, um muro de silêncio abateu-se sobre o regicídio.




A meio da tarde de 1 de Fevereiro de 1908, sob um pálido sol de inverno, D. Carlos, penúltimo rei de Portugal, e o príncipe Luís Filipe, herdeiro do trono, foram assassinados a tiro na Praça do Comércio (vulgo Terreiro do Paço), a "sala de visitas" de Lisboa.

O eco dos tiros disparados por Manuel Buíça e Alfredo Costa, dois membros da sociedade secreta  Carbonária, abalou a vida política nacional e anunciou para breve o advento da República.

A família real regressava de Vila Viçosa, em cujo palácio e propriedades passara, em caçadas, o mês de Janeiro. Os últimos Bragança iam  para lá muito no Inverno, reservando para as férias  de Verão o Palácio da Pena, na Serra de Sintra,, , e a Cidadela de Cascais. O comboio que trazia D.Carlos, a rainha D. Amélia e o herdeiro do trono descarrilou na Casa Branca, atrasando-se uma hora e meia. Em vez de chegarem às 16 horas à Gare do Sul e Sueste, os viajantes só desembarcaram do barco do Barreiro perto das 17h30.

À espera, entre muitos políticos, estavam o filho mais novo dos reis, D. Manuel e João Franco, o primeiro-ministro que governava com o Parlamento encerrado, com o apoio do rei.

Os Bragança tomaram depois lugar numa carruagem descoberta, tipo landau, que, dirigindo-se ao Palácio das Necessidades, subiu o Terreiro do Paço pelo lado esquerdo. Foi perto da esquina dos Correios  que os disparos foram feitos.

D. Manuel foi ferido num braço e a rainha vergastou com um ramos de flores Alfredo Costa, que subira para o estribo da carruagem de revólver em punho. Ele e Buíça foram de imediato abatidos pela polícia.





Na altura, o regicídio foi considerado quase como algo natural pelos republicanos. E pelos lisboetas em geral. Naturalmente, ninguém se vangloriou do feito, que foi tacitamente atribuido a uma decisão isoladas dos dois regicidas.

Sabe-se agora que, como é natural, se tratou de um plano articulado. Além dos membros da Carbonária, estariam envolvidas muitas outras pessoas, algumas "bem colocadas " socialmente.

Numa reportagem no New York Times em Julho desse ano de 1908 lia-se a dada altura: «Diz-se que a rainha Amélia reconheceu num dos assassinos um proeminente líder político, mas guarda firmemente o seu segredo.»

E mais adiante: «Desde esse fatal dia 1 de Fevereiro foram presas centenas de pessoas. A rainha olhou para centenas de rostos. Disfarçada, esperando que aquele que ela crê ser o chefe se denunciasse por uma pose ou por um gesto. Tudo foi em vão.»




Sabe-se que o Buíça era apenas um pobre professor de música e ardente revolucionário, com um perfil dostoievskiano.

Mas estava aberta a porta para as dúvidas e as especulações. Tudo viria porém a ser abafado. A República vinha a caminho e, por razões políticas, ninguém abriu o processo. Nem a Ditadura Militar do 28 de Maio, nem mesmo no, alegadamente, Estado Novo salazarista.


Gravura artística reproduzindo o facto






- Pesquisas obtidas na 
SHIP-Soc. Histórica de Portugal 
onde sou sócio.
- Gravuras: Selecionadas na Internet 

7 comentários:

relogio.de.corda disse...

Parabéns por esta aula de História. O poema de Guerra Junqueiro está cheio de ironias, sátira... enfim, o que é comum neste tipo de situação, em que a política é geralmente fonte de desentendimentos.

Teresa disse...

E assim dois assassinos se transformaram em heróis!

Marilu disse...

Querido amigo, que bela aula de história, adorei saber coisas que jamais ouvi falar. Beijocas

Maria José Meireles disse...

Do poder da poesia, já não duvido!...

trepadeira disse...

Para premonição tanto tempo é demais,espero espera mais curta.

Como sempre,bela reportagem.

Um abraço,
mário

Mar Arável disse...

Uma viagem pela memória do tempo

Boa partilha

toryburchshoesbags disse...

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