[ Vox populi vox Dei ]

2011-10-15

«"DOMÉSTICA": UMA PROFISSÃO A RECONHECER E PRESTIGIAR»

Florence Nightingale
Fundadora da Enfermagem Moderna



Num destes dias, ao olhar para uma janela que pingava água, vi a silhueta de uma mulher que estendia roupa, e pensei nas enfermeiras e em Florence Nightingale.

Florence Nightingale é mundialmente considerada a fundadora  da enfermagem moderna. Com a sua iniciativa e o seu trabalho contribuiu para dignificar uma profissão - a da enfermagem - que até à época era um trabalho desqualificado, socialmente desvalorizado e mal remunerado, sendo os cuidados médicos prestados sem qualquer qualidade técnica e a profissão desempenhada pelas Irmãs de Caridade e sobretudo, pelas matrons - pessoal com uma conduta reprovável: alcoolismo, roubo, desleixo, promiscuidade etc.

Estudando as condições em que os cuidados médicos eram prestados, Florence Nightingale demonstrou estatisticamente que quando a técnica e a assepsia eram respeitadas, morriam menos pessoas (naquele caso, soldados, pois a estatística foi feita nos hospitais militares do Reino Unido) do que nas circunstâncias então existentes e que era de toda a conveniência a formação pessoal e profissional das enfermeiras.

Analisando o valor social do trabalho doméstico, podemos concluir que ainda hoje, no século XXI e por cá, comunga de algumas das características da enfermagem do século XIX: socialmente desvalorizado, com um desempenho associado no imaginário a um nível socioeconómico baixo, de preferência executado por emigrantes, das quais muitas sem a escolaridade básica e sem qualquer formação técnica. E, se não é mal remunerado, comparando com outras profissões, é porque a oferta é escassa.




Mas o trabalho da casa é uma profissão? Não é só limpar o pó, despejar o lixo, cozinhar e pouco mais? Não existem hoje em dia máquinas de cozinhar? Aspiradores robot?

Existem máquinas e deviam existir ainda mais. Mas, quem as põe a funcionar? Quem tem conhecimentos técnicos necessários para, utilizando-as, elaborar ementas equilibradas, saborosas, que diminuam os riscos da obesidade, das doenças cardiovasculares e outras? Para lavar a roupa, limpar o chão etc. sem utilizar mais detergente do que o adequado, contribuindo para a sua manutenção, durabilidade e evitando poluir o ambiente? Quem organiza o trabalho doméstico equilibrando os recursos  disponíveis e evitando o desperdício? Quem está preparado para reintroduzir em casa a beleza de umas flores dispostas com gosto, de uma travessa que vem à mesa tão bonita que diminui a falta de apetite e o cansaço de qualquer um?

Num momento ou noutro, não há ninguém que não tenha vivido o caos que se instala quando, por doença, excesso de trabalho etc. a mãe, ou quem se encarrega desse trabalho, deixa de o poder realizar.

Para não referir os desastres causados pelos que começam a desempenhar esta profissão: refeições intragáveis, panelas queimadas, peúgas no lixo, máquinas avariadas etc. e o orçamento familiar com cada vez menos recursos disponíveis.

Frequentemente, nos meios de comunicação social, no Parlamento e em outras tribunas públicas, lamenta-se o facto de as mulheres a exercerem cargos de elevada responsabilidade serem muito poucas.

Uma das razões porque isto acontece é que muito poucas mulheres conseguem, sem ajuda, compatibilizar essas funções com as domésticas. Sem a ajuda preparada e experiente de alguém é muito difícil compatibilizar dois trabalhos igualmente exigentes e por isso a escolha de optar por sacrificar a carreira pública, por assim dizer, pela doméstica e conseguir estar mais tempo em casa, proporcionando aos outros membros da família um bem-estar que de outro modo seria difícil de alcançar.

Por isso, pergunto-me: no início do século XXI tal como Florence Nightingale no século XIX, não será altura de repensar o valor do serviço doméstico? Reconhecer a mais-valia deste trabalho, as condições em que deve ser prestado, a necessária formação técnica e humana e deste modo contribuir para o justo prestígio de uma profissão tão preconceituosamente vilipendiada.

E, claro, passar das palavras aos atos na decisão política, o que neste momento deve ser impraticável, considerando a falta de respeito que o atual executivo tem por todos os trabalhadores.






6 comentários:

Maria José Meireles disse...

César, parece-me que já aprecia mais os prazeres de uma boa cama e uma boa mesa :). Estou inteiramente de acordo. Pessoalmente, valorizo muito mais quem me sirva uma boa sopa (bem servida) do que quem me faça um bom diagnóstico médico...

trepadeira disse...

Caro César

Só acreditarei na valorização do "trabalho doméstico" quando a "criada",poder dizer à "patroa",hoje é o teu dia de cozinhar para mim.

Quando a gestão for colectiva todos teremos tempo para a família,para os pequenos prazeres,para a cultura,para o lazer.

Hoje há quem racionalmente não queira entrar nessa loucura desumana de carreiras "exigentes",ou seja,carreiras esclavagistas.

Um abraço,

mário

Luisa disse...

César,

Bela homenagem à mulher, gosto da forma como as compreendes.
Um político da nossa praça, há muitos anos quando ingressou num governo, tinha uma meta que ficou por cumprir, dar salário às chamadas “donas de casa”. Este político chama-se Diogo Freitas do Amaral, comunga de uma política que rejeito em absoluto!

Bjo

Orlando Terra Seca disse...

Uma saudação especial, Caríssimo César Ramos

Tenho passado por aqui. Hoje, dado não haver novo post, fui ler outros, que ainda não tinha feito,e escolhi este que achei interessante comentar,e reporto-me ao trabalho doméstico e enfermagem. O trabalho doméstico continua ainda hoje, a ser um trabalho pouco compreendido, e nada compensado.

Os mais velhos foram habituados e até educados a ver trabalhos que era típica e exclusivamente femininos. Hoje não será tanto assim, mas ainda há remanescentes desta “cultura”.

Se nos reportarmos a algumas dezenas de anos atrás, não muitas, sabemos que genericamente, a mulher tinha por missão e função únicas, cuidar dos filhos e das lides da casa, era a “tradição”.

Não era inocente esta “tradição” dado ser um modo de submeter a mulher. O não ter direito a votar em eleições, era outro factor discriminatório que se manteve por muitos anos.

Se recordarmos outros comportamentos, sabemos que se uma mulher fosse mãe solteira era em boa parte marginalizada pela sociedade, com a aquiescência, inclusive, da igreja.

Como disse, nada disto era inocente. Ainda hoje, e ao correr do meu pensamento a mulher é discriminada em zonas muito industrializadas, fazendo o mesmo trabalho as mulheres têm salários inferiores ao colega do sexo masculino.

Ainda bem que as pessoas vão alterando os seus comportamentos e modos de estar na vida.
Hoje, seja nas Universidades, Saúde ou Ensino, as mulheres são maioritárias, mas ainda têm “muito chão” para desbravar…

Não me vou alongar. Quanto à enfermagem era do mesmo modo uma profissão pouco respeitada, e as mulheres que enveredavam por ela, sujeitavam-se a conotações pouco dignificantes...

As coisas vão mudando: Paulatinamente as mulheres vão-se impondo num mundo que durante muitos e muitos anos, muita gente pensava ter sido feito exclusivamente para os homens.

Um abraço
Orlando Terra Seca

Anónimo disse...

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