O vinho americano ou morangueiro é típico de algumas localidades de Lafões. No concelho de Oliveira de Frades, é na freguesia de Ribeiradio que este tipo de vinho tem uma maior expressão, se bem que a sua produção tem conhecido um decréscimo.
O vinho morangueiro apareceu em Portugal na sequência da destruição dos vinhedos tradicionais causados pela filioxera.
Ganhou particular relevo no norte do país (Minho, Douro Litoral e nas Beiras), abrangendo zonas que pela sua humidade e altitude não permitem o cultivo da vinha europeia.
Foi nessas zonas que este vinho ganhou maior adesão popular, particularmente porque as vinhas americanas produziam mais que as europeias.
A competição feita aos bons vinhos foi intensa, redundando na proibição da comercialização do morangueiro.
Na região de Lafões, a freguesia de Ribeiradio é um dos melhores exemplos de um local onde o vinho americano é expressivo.
Os produtores, sobretudo, são conhecedores deste produto que, durante anos trouxe gente a estas paragens para provar e comprar este néctar, e vinham buscar pipos e levavam quatro a cinco mil litros de cada vez.
Era um vinho apreciado por muitos, e ao passarem a palavra conseguia-se escoar muita produção. Agora há menos procura e menos venda.
Reconhece-se no entanto que a produção tem baixado significativamente nos últimos anos, muito graças às alterações de hábitos alimentares das gerações, mas também às medidas "do tempo de Salazar, que acabaram por não fomentar o seu desenvolvimento".
A preservação desta qualidade de vinho, com um paladar diferente e característico, deve ser feita em prol das raízes culturais desta região.
Especialistas acreditam que só assim se poderá fazer justiça para com este vinho, que teve uma importância fulcral no século passado, tanto como espécie autónoma, como para salvar as qualidades nacionais.
Apesar da diminuição da produção, em Ribeiradio, mas também em outras freguesias, é possível ver os cordões de vinha ao longo das terras ocupadas com outras culturas. As ramadas, especialmente nos quintais e junto às habitações, são outra das características desta espécie de vinha, que se estende ao longo de arames e esteios, numa conjugação que não tem conquistado as novas gerações.
Tudo começou no século XIX, quando chegaram dos Estados Unidos da América as videiras de vinho morangueiro ou americano como viria a ser conhecido.
O grande objectivo era neutralizar a filoxera, uma doença que estava a atacar a vinha nacional. Mas o que era para ser salvador da vinha, acabou por se transformar numa ameaça às culturas tradicionais, já que os produtores viram a extraordinária produtividade do vinho americano e também a sua grande capacidade de adaptação.
A acrescentar a estas potencialidades, esta qualidade de vinha tem ainda a vantagem de resisitir a habitat frios e húmidos e de não pôr em causa as outras produções agrícolas, como o milho, a batata ou mesmo as pastagens.
Uma característica desta vinha, disposta em "latadas", proporcionando protecção solar a alguma lavoura e, ou, aos seus produtores que descansavam, ou divertiam-se sob a sua sombra dedicando-se a múltiplas actividades.
Um cenário que agradava aos agricultores do Norte e das Beiras, que assim compunham o orçamento familiar, uma vez que o trabalho e o investimento com esta cultura também não eram significativos.
Ainda no que diz respeito a vantagens, registe-se que estas videiras, pelo porte e pela formação de ramadas, permitem a protecção de sementeiras do sol directo.
Em 1929 foi publicada legislação que obrigava a destruir a planta, já que os responsáveis políticos consideravam que esta espécie estava a prejudicar os vinhos nacionais.
A eterna questão dos políticos, preocupados com o sucesso dos pequenos, a favor dos grandes agrários!
A grande capacidade produtiva e o baixo preço, foram os argumentos utilizados pelo Estado para fazer cumprir a lei. A concorrência para com os vinhos nacionais sentia-se especialmente na abertura de vinhos novos, já que o vinho morangueiro tem um menor tempo de fermentação do que os restantes.
Mas os agricultores não viram com bons olhos a medida, já que esta planta lhes era útil e constituía uma forma de obter dividendos.
A juntar a estas vicissitudes, surgiu a desconfiança de que o vinho morangueiro prejudicava a saúde!!
Em 1936, saiu uma nova lei que impunha um prazo para reconversão ou destruição dos vinhedos, mas que acabou "esquecida" devida ao mau ano agrícola. Mas... o cenário de proibição foi mantido ao longo dos anos, com muita destruição pelo caminho.
Com a saída da ditadura, a proibição ficou esquecida, embora legalmente ainda seja uma realidade!
Há rumores de a União Europeia estar atenta ao assunto, podendo devolver ao vinho morangueiro a força de outrora.
Sendo conhecido também como vinho americano... esperemos que,
a Moody's... não o considere... lixo!



4 comentários:
Caro César
Ora aí está um belíssimo trabalho.
Por aqui tenho algumas videiras Morangueiro,que não deixei destruir nem enxertar.
Faço esse vinho separado.É uma delícia.
Tem uma maturação mais lenta e tardia,só o vindimo em finais de Outubro ou princípios de Novembro,dou-lhe mais algum tempo de fermentação,fica excelente.
Um abraço,
mário
Amigo Mário,
Obrigado pelo comentário e gentil apreciação.
Desde garoto que entrei em contacto com esta "pomada" no Caramulo, e a simplicidade das pessoas chamavam-lhe "Verde"!
E os usos e costumes, desconheciam os copos. Bebia-se por tijelas!
Ali, por muito que se bebesse, ninguém podia ficar
com os copos!
Um abraço
César
Tenho uma latada de morangueiro na margem sul do Tejo que trouxe de Vale de Cambra onde nasci
porque produz uma uva aromática um vinho leve e sombra deliciosa e também porque foi perseguida pelo Salazar
Boa memória
Abraço
Caro Mário
Quanto tempo de fermentação, exatamente, ou aproximadamente? Tenho um americano branco colhido há dias, algo ácido, e que parece fermentar mto devagar.Agora, não sei quando o trasvasar ou engarrafar em definitivo. Está a fermentar a cerca de 20-21 graus ambiente. Um palpite?
João Graça
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