Agências de notação: há mais mundo... além desta gente!
Há tiros que saem pela culatra e assim aconteceu com a recente e desastrosa notação que a Moody´s atribuiu à nossa dívida soberana e a uma série de outras entidades, desde bancos a câmaras municipais.
Aquilo que pretendeu ser uma forte reprimenda a Portugal, com intenções mais do que duvidosas, redundou, afinal, num coro de protestos e de rejeição dessa classificação, que fez unir a Europa a gritar contra tão descabidas posições, para além de, por aqui, nos pôr a todos a olhar de lado para essa gente que, na sua terra, os EUA, deixou grassar a epidemia do colapso das suas próprias finanças e do mundo, em geral.
Cabe-nos dizer que isto de nos tratar como "lixo", é bofetada que nunca mais vai deixar de doer. É uma ofensa grave, até porque se sabe que o papel destas agências não é ingénuo, nem isento: quem assim fala dos outros tem interesses no jogo, uma vez que se confundem os campos de atuação - dá-se uma nota, por um lado, espera-se que ela destrua a economia dos visados e, depois, vai-se ao mercado, o que é uma manifesta traição à ética e ao bom senso.
A prestigiada empresa portuguesa LANIDOR lançou 10.000 exemplares de T-shirts - como a imagem em cima ilustra -, para serem distribuídas gratuitamente em todas as Lojas da Marca aos clientes que possuam o LA Card. João Pedro Xavier, um administrador da Lanidor, explicou que foi utilizado o inglês, para que a Moody's possa perceber a mensagem de repúdio, sublinhando que, «Quem não se sente, não é filho de boa gente. Não somos
lixo e não nos sentimos lixo»
Mas esta é uma história perversa, porque assenta num triângulo, umas vezes pretensamente virtuoso, outras a descambar para o pântano e para o perigo e que é este: o sustentáculo dessas entidades passa pelos clientes, estes sujeitam-se ao seu veredicto (que não pode ser tornado público) e os notadores também não se afastam da ideia de que o resultado das suas decisões tem influência direta nos seus próprios financiadores, o que é, no mínimo, perfeitamente estranho.
Durante cerca de cem anos, todo este esquema funcionou um pouco na "perfeição". O pior é quando outros discos têm de ser tocados, talvez numa surda guerra de moedas, o dólar e o euro. Pelo meio, ficam a apanhar tareia aqueles que, devido as suas debilidades intrínsecas, são os mais fracos em toda esta teia de confusões e Portugal está, para nosso mal, no fim desta picada. Entretanto, e como que a mostrar que, um dia, muitos mais desastres haverá, eis que a EU debate o problema da Itália, um colosso também na corda bamba.
Agora, soou a trombeta do descontentamento e, com ela, a necessidade de se encontrarem outros protagonistas de matriz mais europeia e, sobretudo, mais independentes, como já fizeram saber a UE, o BCE e muitas outras instâncias por esse mundo fora. Pela voz da Comissária Europeia, Viviane Reding, pede-se, inclusivamente, o desmantelamento dessas agências, sendo, pela análise presente, muito mais papistas que o papa. Com tal trunfo de unidade em mãos, saiu-nos, a esse propósito, a sorte grande!
Mas o certo é que a bolsa caiu, os investidores fugiram ainda mais, o mercado - que, curiosamente, Portugal bem pode dispensar em função dos fundos pedidos à Troika - fez disparar os juros e, por isso, a banca e as empresas têm acrescidas dificuldades em financiar-se. Aqui é que está, para já, o cerne da questão, a ponto de a Brisa, o BES, a ANA e as Câmaras de Lisboa, Porto, Cascais e Sintra terem abandonado esse mesmo barco, descontentes com quem eles apoiaram durante tempo demais.
Está feito o mal. Importa é, neste momento de reflexão, olhar noutras direções e escolher as melhores vias, que este foi chão que deu uvas, algumas bem podres, como se está a ver.
Por assim ser, mais do que rejeitarmos estas ditas Agências de Notação, queremos ver o nosso país mais equilibrado, sereno e capaz de se atirar pelos milénios além.
E isso só se constrói, com novos paradigmas de desenvolvimento e ordenamento do território e muito menos com balelas de adormecer os detentores de crónicas insónias, por mais aborrecidas que sejam.
- Legenda: da T-Shirt da Lanidor
adaptada da Revista VISÃO
nº 958.
- Imagens: do Google






8 comentários:
Fiquei abismado com a tentativa de arrasar parte da Europa e depois com a reacção desta mesma Europa que vejo muitas vezes instalada no interesse de meia dúzia de altas individualidades.
Aquilo da reforma de 9000 euros, aos cinquenta de idade, é um atentado a todos nós.
Os governos, sejam os de Kadafi ou outros, estão eivados de interesses próprios e apenas se alimentam a eles
Meu caro César
Isto só se resolverá com a mudança do sistema.
Remendos andam eles a coser há muitos séculos.
Pelos milénios fora quando o povo perder o medo.
Um abraço,
mário
Cristina Valente Mouta
escreveu [o que muito agradeço] na m/pág.
do Facebook:
.............
César,
Acabei de ler no seu blog o texto. PERFEITO !
Quando vi essa notícia, aqui no Brasil, fiquei chocada, revoltada, indignada , triste...todos os sentimentos de uma ativista em fúria....rs Jamais a pátria do meu pai e de meus avós, minh...a por coração e escolha, será lixo.
País maravilhoso, de gente maravilhosa com uma história linda e corajosa. Povo trabalhador e repleto de tradições ainda cultivadas que os fazem pitorescos e singulares.
LIXO é o que a nossa raça está se transformando a cada dia mais por arrogância, prepotência, disputa desenfreada do poder e do dinheiro onde tudo vale, onde valores foram postos de lado e chegaram ao ponto de "classificar" MEU PORTUGAL de lixo.
"Importa é, neste momento de reflexão, olhar noutras direções".
Estou de acordo.
Eu gosto de olhar para cima...,
ou para o outro lado do mar.
A Cristina é mesmo Valente.
Obrigado por todo o tempo e dedicação.
Chico
Esta calssificação , como bem vincaste, não foi isenta de interesses, má fé e papismo.
E remataste bem: "lixo é a tia deles, pá "
bjs,
... entretanto pagamos ao sistema
para sermos desqualificados
nesta europa não solidária
Abraço
Subscrevo totalmente o comentario
do meu amigo Luis Coelho.
Havia de haver uma mobilização de
todos os trabalhadores a nível
da Europa,mas isso as centrais
sindicais não querem ou não podem.
País a país, não vai dar em nada.
Um abraço
Não era o Professor Cavaco que há uns meses atrás dizia que se deveriam tratar estas « puras» Agências com desvelo e simpatia ? Vá lá que felizmente chegou à conclusão oposta graças à chegada ao poder de um dos seus amigalhaços. Mais vale tarde do que nunca. Palma
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