[ Vox populi vox Dei ]

2011-07-03

« ANTÓNIO GEDEÃO... O MEU POETA, SE EU VOLTAR A SER PEQUENO... »

 .


 Lágrima sofrida...  na Poesia de Gedeão



O meu professor Rómulo de Carvalho  v/s   poeta  António Gedeão






ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA


Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,
 
Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, 
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas
Despertas;
 
Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;
 
Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;
 
Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio 
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;
 
Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
Abaixo o mistério da poesia.






António Gedeão, Linhas de Força







Estamos perante um poeta que olhou atentamente para a relação que se estabelece entre o indivíduo e a sociedade que o rodeia como espaço de intervenção. 

Veja-se a este propósito o poema intitulado “ Poema do Homem Só” (Sós,/ irremediavelmente sós,/como um astro perdido que arrefece./Todos passam por nós/ e ninguém nos conhece.) onde o poeta expressa a sua visão do Homem, como vemos, marcada pelo seu carácter anti-social, apresenta-o, em outros poemas, também como animal esquecido, mau, confuso, miserável e oportunista (Eu sou o homem. O Homem./Desço ao mar e subo ao céu./ Não há temores/ que me domem/ É tudo meu, tudo meu.) como no “Poema do homem-rã”.


O mundo, que inevitavelmente carrega este fardo chamado Homem, também não lhe oferece melhor visão como em “Esta é a Cidade” (Aperfeiçoo a focagem. / Olho imagem por imagem/ numa comoção crescente. / Enchem-se-me os olhos de água. / Tanto sonho! Tanta mágoa!/ Tanta coisa! Tanta gente!/ São automóveis, lambretas,/ motos, vespas, bicicletas,/ carros, carrinhos, carretas,/ e gente, sempre mais gente,/ gente, gente, gente, gente,/ num tumulto permanente/ que não cansa nem descansa, /um rio que no mar se lança/ em caudalosa corrente.// Tanto sonho! Tanta esperança!/ Tanta mágoa! Tanta gente!).


 No entanto, face a esta realidade António Gedeão não renuncia. Há uma solução: o sonho. Esse mesmo sonho que tem força mítica como em “Pedra Filosofal” (Eles não sabem, nem sonham, / que o sonho comanda a vida. / Que sempre que um homem sonha/ o mundo pula e avança/ como bola colorida/ entre as mãos de uma criança.), volta-se para o mundo através da poesia que pode humanizar, transformar e harmonizar pelo amor e assume a voz daqueles que não têm voz numa perspetiva total onde todos nos revemos e onde o próprio poeta, num primeiro estádio, também se sente.


Surgem, assim, na sua poesia várias personagens como que acusando suas próprias narrativas – a cantora, a criança, a bailarina, a filha do alfaiate, a Luísa que sobe a calçada (como lhe sobem as dificuldades na vida), o Galileu (símbolo de coragem), a multidão, a vítima da guerra, o bêbado, os camponeses e tantos outros – porque todos têm alguma coisa a dizer e querem dizê-lo.











 

5 comentários:

Maria disse...

Tão bom ler Gedeão a qualquer hora...
:)

trepadeira disse...

"Querem dizê-lo".
Pena que a humanidade teime em não querer ouvi-lo.

Um abraço,
mário

Anónimo disse...

"porque todos têm alguma coisa a dizer e querem dizê-lo."
Mas nem todos podem dizê-lo.
Porque uns são som e outros são luz...
Quando está escuro no meu quarto
ouço o sino na torre da igreja e sinto os gritos dos meus irmãos, lá fora.
Porque é que entra o som onde não entra a luz?
Qual é a diferença entre som e luz?
Chico

svasconcelos disse...

Lindo tributo a Gedeão! Sem dúvida , um dos que mais gosto!:)) Obrigada pelo teu post!
bjs,

Mar Arável disse...

Excelente

... com um abraço