[ Vox populi vox Dei ]

2011-04-10

« PORTUGAL PEREGRINO... E A SENDA DOS MESSIAS »

 FRANCISCO PINTO DA CUNHA LEAL
 (1888-1970)
Sidonista, anti-sidonista, direitista, inspirador do 28 de maio de 1926, inimigo da ditadura, português livre.



CUNHA  LEAL
Presidente do Conselho de Ministros 
(Dezembro de 1921)


 .
 Cunha Leal rodeado dos seus ministros






Cunha Leal usando da palavra por ocasião da travessia aérea do Atlântico Sul 
(1922)



Cunha Leal, discursando no funeral de António Granjo, um dos republicanos assassinados na tristemente célebre «Leva da Morte»

+

No enterro de António Granjo, Cunha Leal proclamou esta verdade: «O sangue correu pela inconsciência da turba — a fera que todos nós, e eu, açulámos, que anda solta, matando porque é preciso matar. Todos nós temos a culpa! É esta maldita política que nos envergonha e me salpica de lama».



.



Francisco Pinto da Cunha Leal, que foi reitor da Universidade de Coimbra entre 1924 e 1925, conheceu Salazar quando este era professor de Economia e Finanças em Coimbra. 

Três anos depois, quando já interrompidas as suas relações pessoais com o então Ministro das Finanças (1928-1932), Cunha Leal descreve-o nestes termos:

«Bisonho, avesso às fáceis relações com os contemporâneos de escola, naturalmente misógino, refugiado dentro do seu orgulho como um cágado dentro da concha protectora, conservou-se sempre um quase isolado, calcando, implacavelmente, os seus próprios sonhos com o cilindro de uma alma fria, tristemente despida das ilusões fagueiras da mocidade.» (Obra Intangível, pág. 43)

Volvidos mais de trinta anos, Cunha Leal volta a analisar as origens da personalidade de Oliveira Salazar nas suas Memórias, propondo-se: «tentar definir a tessitura espiritual [de Salazar] tal como a minha observação directa me permitiu visioná-la através das nossas relações».

Cunha Leal refere as origens humildes de Oliveira Salazar e a sua educação como factores preponderantes da sua análise, citando o próprio que se define como «integrado no grupo social dos “pobres, filhos de pobres”». Sobre o Seminário de Viseu, que Salazar frequentou entre 1900 e 1908, ou seja, dos 11 aos 19 anos, Cunha Leal recorda que o próprio Salazar afirmava «dever àquela casa grande parte da [sua] educação que doutra forma não faria». Seguidamente, tece algumas considerações sobre o abandono da carreira eclesiástica do jovem Salazar, que confessou ter «perdido a fé em que lá me educaram» e vai terminar o ensino secundário já no Liceu de Viseu, entre 1909 e 1910.

Eis alguns excertos do retrato de Oliveira Salazar, visto por um homem apenas um ano mais velho, e que o conheceu pessoalmente, com alguma intimidade:
«Nascido em 1889 começou a cursar a Universidade de Coimbra com 21 anos e meio de idade, isto é com maturidade espiritual superior à da generalidade dos restantes caloiros. Esta circunstância, aliada à inferiorização material decorrente duma honesta e sadia pobreza, à origem pouco correntia da sua escolaridade, a um ingénito ensimesmamento anímico, a acentuadas dificuldades de expressionismo oratório e à imensidade do orgulho a que são atreitos certos solitários, afastou-o, radicalmente, das doces leviandades da boémia estudantil tradicional e acabou por transformá-lo num ser hipocondríaco e taciturno, aferrado ao estudo como única tábua para navegar num oceano de desconsolo íntimo.»


E mais adiante:
«Confesso o meu pecado ou… a minha virtude. Dos contactos conimbricenses com o Dr. Oliveira Salazar resultou simpatizar com ele. Era um homem hermético [...] meticuloso como professor, exigente, com tendência para a severidade austera [...] Faltava-lhe calor humano e, por isso, confinava a sua actividade docente dentro do conceito dum distanciamento altaneiro entre mestre e discípulos [...] Quando me punha, porém, a reflectir na evolução da sua vida, tratava logo de fazer um sério esforço de compreensão. Que de desconsolos íntimos não viria ele fazendo refluir da zona da consciência para as geenas do subconsciente! A vida é fácil e, frequentemente, doce para os favorecidos da fortuna, mas é de extrema dureza para quantos, apesar da sua pobreza, anseiem por trepar na escala social, sem, contudo, renegarem a sua origem, antes orgulhando-se dela. Se, ao longo da trajectória de certas criaturas de Deus, se não proporciona aos seus organismos, pletóricos de energia física e espiritual, a alternância do cumprimento dos deveres, mais modestos do que gratos, com gozos por vezes simples, como a contemplação embevecida dos sublimes encantos de que a natureza é pródiga, a par de outros de valor moral mais complexo, como os derivados das ferroadas do sexo e do amor e de tantas outras expansões cuja necessidade desabrocha espontaneamente, [...] então não é de estranhar que a melancolia se aposse delas. E, quando a auto convicção do seu valor intrínseco refine com a educação e o consequente ascenso cultural, é de crer que se gere na alma de tais pessoas um ressentimento que, em regra, descambará em neurastenia quando se vejam privadas, por mor da conjugação da penúria material com a timidez, de satisfações e honras sociais. E esse estado temperamental virá a descambar em tirania se, um dia, na roleta do Destino, acertarem no número que, inesperadamente os sagre como vencedores omnipotentes».


Cunha Leal, As Minhas Memórias, Coisas dos Tempos Idos, volume III, Lisboa, 1968 (págs. 169-175)








 No seu livro «A Obra Intangível do Dr. Oliveira Salazar» (edição do autor, Lisboa, 1930), Cunha Leal, depois de evocar os transes e as humilhações do empréstimo pedido pela Ditadura à Sociedade das Nações, descreve a determinação político-económica daí resultante e a aparição do «Messias» que a catastrófica situação vigente tornara ansiosamente esperado.



O   «MESSIAS»    SALAZAR

por  CUNHA  LEAL 








Os cofres exaustos por virtude duma administração perdulária e inclassificável tinham estado aguardando, ansiosamente, a entrada dos milhões de John Bull. Mas os milhões acabaram por não chegar. Que fazer? Para entreter a imaginação e a debilidade da ditadura, anunciavam-se, com desvergonhado descar, novos empréstimos que não passavam de imaginosos contos, destes que servem de entretenimento às crianças grandes.

Os governantes, aflitos, deram em apertar os cordões à bolsa, no reconhecimento forçado da necessidade duma política de maior poupança. Onde não há, el-rei o perde. Houve, porém, um momento em que o pânico se apoderou, literalmente da ditadura. Apesar de certos aumentos de receita, arrancados à passividade da Nação. apesar de ter sido elevada de 200.000 contos a circulação fiduciária, dos quais 125.000 para as necessidades do Estado, apesar dum aumento de 300.000 contos, números redondos, na dívida flutuante entre 30 de Junho de 1926 e 30 de Junho de 1928, apesar de se ter consumido o produto da venda da prata, apesar de tudo isso, não havia, como disse, escudos no erário público.

Não havia, do mesmo modo, divisas estrangeiras para a satisfação das mais urgentes necessidades comerciais do país. Agravavam-se os câmbios, dia a dia. O índice do custo de vida aumentara, desde o 28 de Maio, cerca de 300.

A confiança desaparecera, quase por completo, dos espíritos. Os mais intrépidos dentre os monárquicos - os menos intrépidos limitavam-se a apertar as mãos à cabeça -,  relegando para melhores dias a marcha ascensional para a monarquia, desataram a tocar, no bordão das horas más, a música celestial da união. E os maechais da ditadura, suando as amargas gotas dum suor de agonia, olharam, ansiosamente, em volta de si à procura de alguém.

Descobriram, então, o Dr. Oliveira Salazar. Um homem do povo, feito à custa do seu próprio esforço. Tendo entrado, mercê da sua tenacidade e dos encontrões do acaso, numa esfera social bem diferente daquela em que nascera, cedo começou a conhecer quantas amarguras e dores custa a aelevação daqueles que o destino lançou a este mundo sem fortuna e sem protecções.

Bisonho, avesso às fáceis relações com os contemporâneos de escola, naturalmente misógino, refugiado dentro do seu orgulho como um cágado dentro da carapaça protectora, conservou-se sempre um quase isolado, calcando, implacavelmente, os seus próprios sonhos com o cilindro duma alma fria, tristemente despida das ilusões fagueiras da mocidade.

Foi sempre assim: poucas amizades e nenhuns amores; exagero inconsciente do seu próprio valor; insensibilidade devida ao isolamento; desprezo absoluto por uma humanidade que o não compreendia e que nem sequer soubera atirar-lhe para os braços, num gesto espontâneo, a companheira com que, apesar de tudo,deve, às vezes, ter sonhado - a eleita do Senhor, descrita por Salomão no Cântico dos Cânticos, com seus dois seios virginais, como duas cabrinhas saltitantes dos montes de Galaad.

Em fins de Abril de 1928 ei-lo lançado no turbilhão e na voragem da cidade absorvente. É-lhe entregue o cargo de ministro das Finanças em condições de absoluta subordinação, por parte dos seus colegas, sem excepção do próprio presidente do Ministério.

A ditadura alarmada via nos embaraços financeiros, que ela principiara, levianamente, por considerar coisa secundária, a causa provável de próxima ruína e morte.

O Salvador - messiânico - vinha de Coimbra simultaneamente arrogante e modesto, cônscio da sua força e cônscio das sus responsabilidades, exigindo, para actuar, disciplina dentro da Nação e disciplina dentro do Governo.

Todos se curvaram perante as suas imposições; e a Reforma Orçamental, publicada logo nos primeiros dias de Maio de 1928, consagrava, oficialmente, a instituição dum verdadeira ditadura dentro da ditadura.


NOTA FINAL:  Ainda não tinha sido inventado o FMI,  para solucionar o problema!





13 comentários:

trepadeira disse...

Magnífico.Bem a propósito,quando outro,ou outros salazar,se perfilam,de dentro ou de fora.

Dentro da concha,como um cágado,bem queria tirar o acento,nunca permitiu que sequer o conhecessem.Assim se protegeu,como outro hoje.

O perigo aí está.

É urgentíssimo ir à luta,antes que seja tarde e bem mais difícil.
mário

Swt disse...

Não tinha uma ideia sobre nada disto.
A minha geração só veio a conhecer estes estadistas e certos detalhes em adulto, "pelo seu pé", porque na escola primária e no liceu não passavam nada disto. Não lhes convinha.
Se, em casa, os pais não puxavam estes assuntos, ficávamos absolutamente analfabrutos! Agora com estes blogs, por exemplo, são lições de história!

Palma disse...

Mais uma vez o Cesar de parabéns por este excelente trabalho. E nós a aprender..... Palma

svasconcelos disse...

Os messias do nosso tempo são igualmente assustadores.
Estes períodos de recessão são pródigos no nascimento de salvadores que cedo se revelam não mais que uns demagogos populistas com tiques ou mesmo intuitos ditatoriais.

bjs,

Anónimo disse...

enianeAmigo César, as portas estão abertas a outro "messias". Parabens por nos lembrar outros tempos . Um abraço do seu amigo Luis cavalleri.

nacasadorau disse...

Será que o vai resolver?

Porque posso não te falar antes da Páscoa, não quero deixar de te desejar uma Páscoa verdadeiramente renascida e feliz.

Vamos começar tudo de novo, libertando-nos do mal que eventualmente nos corrompeu
a alma e assim nos recobriremos com a pureza da alma que tivemos um dia.

Abandonaremos tudo o que é velho e antigo e olharemos em frente com coragem. Nos dedicaremos à vida como quem sorve o sumo de um fruto delicioso.

Beijos

Marilu disse...

Querido amigo, Páscoa é amor, ressurreição e renovação, abra seu coração e deixe que o amor faça sua eterna moradia. Tenha uma Feliz e abençoada
Páscoa.
Beijocas de chocolate.

namorar pela net pode dar certo. disse...

olá, passando pra desejar otimo feriado,uma feliz pascoa!!!!!!!muitas felicidades. boa noite.bjs

relogio.de.corda disse...

Gostei muito de ler este seu post. Eu já imaginava que o Salazar tivesse a personalidade e o feitio que aqui é descrito (acho que o Otelo devia ler isto). Custa-me perceber como é que existem pessoas que defendem o saudosismo e o regresso de um Salazar como este: frio, fechado dentro de si próprio, etc, etc...

Maria Lúcia Marangon disse...

Olá! Boa tarde! Vim desejar uma Feliz Páscoa para você e toda a sua família.
Abraços!
Maria Lúcia

namorar pela net pode dar certo. disse...

obrigada, volte sempre que puder.

"Páscoa
é ajudar mais gente a ser gente, é viver em constante
libertação, é
crer na vida que vence a morte. Páscoa é renascimento, é
recomeço, é uma
nova chance pra gente melhorar as coisas que não
gostamos quem sabe em nós. Para
sermos mais felizes por conhecermos a
nós mesmos mais um pouquinho e
vermos que hoje somos melhores do que
fomos ontem. Abraço e VIVA JESUS!!

tenha uma pascoa feliz!!!!!!!bjs

Palma disse...

Uma Páscoa Feliz e que os tempos apesar de cinzentos tragam dias mais luminosos. Nada na terra existe para sempre ! Palma

União Nacional disse...

Viva Salazar.
Salazar está e estará sempre vivo no coração dos portugueses!!!