[ Vox populi vox Dei ]

2011-03-31

« SAINT- EXUPÉRY... EM 1940 FEZ ESCALA EM LISBOA »


ANTOINE  DE  SAINT-EXUPÉRY
(1900 - 1944)





O grande escritor e jornalista francês Saint-Exupéry, piloto de aviação, desaparecido sobre o Mar Mediterrâneo em 31 de Julho de 1944, no mesmo ano em que a sua pátria seria enfim libertada, passou em Dezembro de 1940 por Portugal, a caminho de Nova Iorque.

Na sua Carta a Um Refém, o famoso piloto-aviador conta a impressão fantasmagórica, de «baile de bonecas», que a Lisboa do duplo centenário desse ano  podia oferecer a alguém que fugia de de uma Europa ensanguentada, em guerra, ocupada pelas hordas nazis.

É esse texto que adiante reproduzimos. Saint-Exupéry escreveu alguns livros que ficarão entre os maiores do nosso tempo, como "Correio Sul",  "Voo Nocturno", "Terra dos Homens", "Piloto de Guerra".

A sua "Carta a um Refém" é um opúsculo escrito na América e dirigida a um amigo do escritor que se encontrava preso pelos alemães, um judeu.

É também muito conhecida a célebre obra para crianças  "O Principezinho",  que aos adultos tanta falta faz  ler (...)



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Saint-Exupéry,  Lettre à un Otage

[Carta a um Refém]



Quando em Dezembro de 1940 atravessei Portugal para ir aos Estados Unidos, Lisboa surgiu-me como uma espécie de paraíso claro e triste. Falava-se então muito de invasão iminente e Portugal agarrava-se à ilusão da sua felicidade

Lisboa, que organizara a mais bela exposição do mundo, sorria com um sorriso um tanto pálido, como o das mães  que não têm quaiquer notícias do filho ausente na guerra e se esforçam por salvá-lo a poder ter confiança: «O meu filho continua vivo porque eu sorrio...» «Vejam como estou feliz», dizia assim Lisboa: «Como estou feliz, tranquila e bem iluminada...» O continente inteiro pesava contra Portugal como se fosse uma montanha selvagem, carregada de tribos predatórias; Lisboa em festa desafiava a Europa: «Haverá alguém capaz de me tomar por alvo se nem tento esconder-me? Se sou tão vulnerável!...»

À noite as cidades da minha terra eram cor de cinza. Nelas eu perdera o hábito de toda a claridade e esta capital radiosa causava-me um incómodo vago. Se é escura a vizinhança, os diamantes da montra muito iluminada atraem os que ali vagueiam. Sentimo-los circular. Contra Lisboa sentia eu pesar a noite da Europa habitada por grupos errantes de bombardeiros, como se ao longe tivessem farejado aquele tesouro.



Imagens da Exposição do «Mundo Português»
que Saint-Exupéry visitou em 1940 


Mas Portugal ignorava o apetite do monstro. Recusava-se a acreditar nos maus sinais. Portugal falava de arte com uma confiança desesperada. Haveria quem ousasse esmagá-lo no seu culto da arte? Pusera à mostra todas as suas maravilhas. Haveria quem ousasse esmagá-lo nas suas maravilhas? Mostrava os seus grandes homens. À falta de exército e canhões, contra o ferro do invasor erguera todas as suas sentinelas de pedra: os poetas, os exploradores, os conquistadores. À falta de exército e canhões, todo o passado de Portugal barrava a estrada. Haveria quem ousasse esmagá-lo na sua herança de um passado grandioso?

Noite após noite eu errava com melancolia através dos êxitos dessa exposição de extremo bom gosto onde tudo roçava a perfeição, até a música, tão discreta e escolhida com tanto tacto, como um mrmúrio de fonte. Haveria quem destruísse no mundo esse maravolhoso gosto pela justa medida?

Mas por baixo do sorriso, eu achava Lisboa mais triste que as minhas cidades extintas.

Conheci, vós também, por certo, dessas famílias um pouco excêntricas  que mantêm à mesa o lugar dum morto. Negavam o irreparável. Não cuido, porém que tal desafio consolasse. Dos mortos devemos fazer mortos. Então eles, no seu papel de mortos, recuperam outra forma de presença. Mas aquelas famílias suspendiam o seu regresso. Faziam deles ausentes eternos, convivas em atraso para toda a eternidade. Trocavam o luto por uma espera sem conteúdo. E essas casas pereciam-me mergulhadas num mal-estar sem perdão e tão abafante como o desgosto.

Pelo piloto Guillaumet consenti pôr luto, Deus meu!... o último amigo que perdi, morto em serviço postal aéreo. Guillaumet nunca mais mudará. Se não voltar a estar presente, também não há-de estar ausente. Sacrifiquei-lhe o lugar à mesa, essa armadilha inútil, e fiz dele um verdadeiro amigo morto.

Mas Portugal tentava acreditar na felicidade mantendo-lhe o seu lugar, conservando os seus candeeiros e a sua música. Em Lisboa representava-se a felicidade para que Deus acreditasse nela.



Os "aguadeiros" na Lisboa de 1940
(vendedores ambulantes de água)



Fotos de ruas de Lisboa nos anos 40



Em parte, o clima de tristeza devia-o Lisboa à presença de certos refugiados. Não me refiro a proscritos em busca de asilo. Não falo de emigrantes à procura de uma terra a fecundar com o seu trabalho. Falo dos que se expatriam para longe da miséria dos seus a fim de manter o dinheiro a bom recato.

Não consegui alojamento mesmo na cidade e fiquei no Estoril, a dois passos do casino. Eu tinha saído de uma guerra densa: o meu grupo aéreo, que durante nove meses não interrompera os voos sobre a Alemanha, perdera três quartos da equipagem no decurso da única ofensiva alemã. De volta a casa sentira a soturna atmosfera da escravidão e a ameaça da fome. Vivera a noite espessa das cidades. E eis que, a dois passos, o Casino do Estoril em cada noite se povoava de espectros. Automóveis Cadillac silenciosos que fingiam dirigir-se a qualque lugar largavam-nos ali, na areia fina do pórtico da entrada. Tinham-se vestido para o jantar como noutros tempos.  Exibiam a sua gravata ou as suas pérolas. Convidaram-se uns aos outros para refeições de figurantes onde nada havia a dizer.




O Casino do Estoril em 1940



Depois jogavam à roleta ou ao bacará, conforme as fortunas. Às vezes ia vê-los. Não sentia indignação nem qualquer sentimento irónico, porém uma vaga de angústia.A que nos assalta no jardim zoológico perante os sobreviventes de uma espécie extinta. Instalavam-se em redor das mesas. Apertavam-se de encontro a um croupier austero e esforçavam-se por examinar a esperança, o desespero, o medo, a inveja e a satisfação. Tal como seres vivos. Jogavam fortunas que talvez naquele minuto já se encontrassem vazias de significado. Usavam dinheiro que talvez já tivesse caducado. Talvez o valor dos seus cofres, fosse garantido por fábricas já confiscadas ou, de ameaçadas que estavam pelos torpedos aéreos, em vias de ruína. Faziam saques em Sírio. Apegando-se ao passado, esforçavam-se em crer na legitimidade da sua febre, como se de há uns tantos meses àquela parte nada houvesse começado a estalar na terra, na cobertura dos seus cheques, na eternidade das suas convenções. Era irreal. Lembrava um verdadeiro baile de bonecas. Porém era triste.




Praia do Estoril - foto de 1940




Com certeza não sentiam nada. Eu abandonei-os. Fui respirar à beira mar. E esse mar do Estoril, mar de cidade de banhos, mar domesticado, também a mim me parecia entrar no jogo.

Empurrava para o golfo uma onda única e mole, toda luzidia de lua, como se fora um vestido fora de época.





[Realizei esta composição em homenagem ao Homem Escritor, Grande Pensador e camarada Piloto-Aviador] 





Imagens: Selecionadas no Google
Texto: Adaptado e traduzido
- na íntegra - de Col. Pléiade;
Paris, Gallimard, 1959



10 comentários:

Jorge disse...

Muito interessante este artigo sobre Saint-Exupéry! Gostei de ler.

César Ramos disse...

Jorge,

Agradeço a sua presença e também por ter gostado.

Achei importante partilhar a opinião crítica de Saint-Exupéry sobre a década de 40, em Portugal!

Um abraço
César

Luisa disse...

César,

Não sabia que Saint Exupéry tinha passado por Portugal.
Gostei da análise à Lisboa daquela época. A passagem sobre o Casino do Estoril, não perdeu atualidade.

Reli “O Principezinho” recentemente.

Vou levar algumas fotos.

Bjo

César Ramos disse...

Luísa,

É uma obra tão bela, que relemos e descobrimos sempre coisas novas.

Os frequentadores de Casinos na época, como atualmente, são fantasmas de si próprios!

É uma pena que, a humanidade tenha sempre gente que desperdiça assim valores materiais e espirituais, que não ajudam o mundo a crescer.

Tenho muito gosto que leves as fotos que entenderes.

Fico satisfeito, porque valeu a pena algum trabalho que tive com o post.

Regina Rozenbaum disse...

Olá
Gostei da postagem tooooda, das fotos e principalmente desse lado da história de Saint-Exupéry que desconhecia por completo. Outro dia assisti ao filme lançado em 1974...já assitiu? Vale a pena. As canções são lindas!Alguém já aprendeu algo com uma raposa? Jà cuidou de uma rosa por ser a mais especial entre as outras? Já visitou um rei distante de tudo e de todos? Observou a maliciosa dança de uma serpente? O universo, ou melhor, a vida, é um lugar encantador, ainda mais quando se convive com O Pequeno Príncipe!
Beijuuss na alma

svasconcelos disse...

Outro bom documentário deste blogue. Não conhecia esta carta, mas não deixa de ser curioso a extrapolação que se pode fazer para os dias de hoje: Portugal esmagado pelo peso e pesar do resto da Europa...
bjs,

Mar Arável disse...

Por aqui sempre boas viagens

pela memória viva

Iolanda Lopes de Abreu disse...

Gostei muito do post sobre Exupéry e seu modo cativante de abordagem do tema. Grata por ter prestigiado meu blog, seguindo-o.

Duarte Fernandes Pinto disse...

Bonito excerto do "Lettre a un Otage", na qual se observa uma Lisboa de 1940, salvaguardada da guerra e embelezada pela Exposição do Mundo Português ...
Bonito texto e bonitas imagens, César Ramos ... obrigado por divulgar ...

m delfina m coelho disse...

Olá Cesar! Obrigada por dar a oportunidade de ler este tão belo Artigo, que em certas coisas me elucidou, o que aconteceria a muitas pessoas que o lessem...