[ Vox populi vox Dei ]

2011-03-04

« O PRIMEIRO JORNAL PORTUGUÊS »

 D. AFONSO  VI
Rei de Portugal
(1643 - 1683)
[O Vitorioso]



Sexto filho de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão.
Atacado na infância por doença não identificada, fica mental e fisicamente diminuído. Com a morte de seu irmão D. Teodósio e de seu pai, sobe ao trono com treze anos, pelo que a regência ficou entregue a sua mãe. O rei foi crescendo, rebelde a toda a acção educadora, levando uma vida desregrada e manifestando-se perfeitamente incapaz para assumir as responsabilidades do governo.

Um dos seus companheiros, na vida de arruaceiro que levava, António Conti, italiano de origem, insinuou-se-lhe de tal maneira que em breve passou a viver no Paço, a convite de D. Afonso VI e a ter influência nos negócios do governo do reino. O escândalo aumentou a um ponto que D. Luísa de Gusmão fez jurar herdeiro do trono o infante D. Pedro e António Conti foi preso. Logo a seguir, o conde de Castelo Melhor executa um golpe de Estado, compelindo D. Luísa a entregar o governo a D. Afonso VI e forçando-a a retirar-se para um convento.

Nas boas graças do rei, Castelo Melhor lança-se na sua curta e brilhante carreira política, terminando vitoriosamente com a guerra da Restauração e conseguindo casar D. Afonso com Mademoiselle de Aumale. Em breve a nova rainha entra em conflito com Castelo Melhor.

Giza-se nova conspiração no paço, de que resulta a demissão do conde e a abdicação de D. Afonso VI. 
D. Pedro toma as rédeas do poder, casa com a cunhada, depois da anulação do casamento desta com D. Afonso e este último é desterrado para Angra do Heroísmo em 1669, donde regressa em 1674, sendo então encerrado no Palácio de Sintra até à sua morte.

D. Afonso VI nasceu em Lisboa, a 12 de Agosto de 1643 e morreu em Sintra, a 12 de Setembro de 1683, tendo sido sepultado no Mosteiro dos Jerónimos e trasladado para o Mosteiro de S. Vicente de Fora. 
Casou em 1666 com D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, que nasceu em Paris, a 21 de Junho de 1646, e morreu em Lisboa, a 27 de Dezembro de 1683, estando sepultada na igreja do Convento das Francesinhas e trasladada em 1912, para o Mosteiro de S. Vicente de Fora, filha de Carlos Amadeu de Sabóia, duque de Nemours, e de Isabel de Vendôme. Morreu sem descendência.
Ganhou o cognome de " O Vitorioso", porque no seu reinado Portugal venceu a Espanha em várias batalhas da Restauração, com o apoio militar do estratega alemão Conde e Duque de Schomberg. 
De resto, a sua vida até à morte súbita nada teve de vitoriosa; antes pelo contrário: um reinado que herdou prematuramente aos treze anos, um casamento falhado  com o pedido de anulação pela rainha, devido à queixa de não se ter consumado o matrimónio! 
Um autêntico enredo que constituiu matéria para, em verso, D. João da Câmara, em 1890, ter escrito uma das suas melhores produções dramáticas: «Afonso VI - Drama Histórico em 5 Actos»





 .
 Exemplar do primeiro jornal português  
de 
cariz político

 >o<


Nos primórdios da imprensa periódica portuguesa destacaram-se dois títulos - a "Gazeta" e o "Mercúrio Português".


A designação de Mercúrio foi adoptada por publicações de vários países europeus, evocando o simbolismo do mensageiro dos deuses. Segundo os estudiosos da imprensa periódica, havia diferenças claras entre os mercúrios e as gazetas, apresentando estas últimas um carácter mais noticioso.

Deste modo, considera-se a "Gazeta" como o primeiro periódico de notícias que se publicou em Portugal e o "Mercúrio" como o primeiro periódico político português. O "Mercúrio Português" surgiu em Janeiro de  1663, na cidade de Lisboa, e foi publicado até 1667.


O seu director e redactor foi o escritor, político e diplomata António de Sousa de Macedo, por muitos considerado o primeiro jornalista português. 

O tema principal do jornal era, como vinha apresentado no próprio título, "as novas da guerra entre Portugal e Castela". Este tema, de grande actualidade e de importância decisiva para o país, empenhou totalmente António de Sousa de Macedo que nele utilizou as suas grandes qualidades literárias. 

O jornal era impresso mensalmente na oficina de Henrique Valente de Oliveira, variando o seu preço entre 5 e 10 réis. Cada número tinha em regra 8 a 32 páginas e, até Dezembro de 1666, foi redigido por António de Sousa de Macedo. No ano de 1667 saíram mais 7 números, redigidos por autor anónimo. 

António de Sousa de Macedo nasceu no Porto em 1606, tendo-se formado em Direito na Universidade de Coimbra. Veio depois para Lisboa exercer o cargo de desembargador da Casa da Suplicação e, em 1641, foi nomeado secretário de embaixada. Com este cargo, seguiu para a corte de Inglaterra, onde muito se esforçou no sentido de serem reconhecidos os direitos do rei D. João IV à coroa portuguesa.

Em 1651 foi nomeado embaixador na Holanda, onde permaneceu alguns anos. De volta a Portugal, foi-lhe confiado o cargo de Secretário de Estado de D. Afonso VI em 1663, ano em que iniciou a publicação do "Mercúrio Português". 

O "Mercúrio Português", sendo embora um jornal de cariz eminentemente político, não tratava apenas da guerra entre Portugal e Castela.Inseria também muitas outras informações, tanto do país, e de Lisboa principalmente, como do estrangeiro, de interesse muito variado.


Por exemplo, no mês de Maio de 1665 referia a abertura de uma rua, denominada de Rua Nova do Almada, que iria tornar mais fácil a comunicação entre a baixa e a alta de Lisboa. O nome da rua devia-se ao nome do seu autor, o presidente do senado da câmara, Rui Fernandes de Almada. 

No número de Agosto de 1666, o jornal descrevia em pormenor a chegada de França e a entrada em Lisboa de D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, que vinha ao encontro de seu esposo, o rei D. Afonso VI. 

António de Sousa de Macedo foi o redactor do "Mercúrio Português" até Dezembro de 1666. Nesse último número do ano de 1666, despedia-se dos seus leitores, expondo uma vez mais as razões que o levaram a publicar este periódico - "tapar a boca aos Castelhanos".

No ano seguinte foram ainda publicados mais 7 números, sem no entanto se conhecer o seu autor.


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ANTÓNIO de SOUSA de MACEDO
(1606 - 1682)
Fidalgo da Casa Real
Comendador das Ordens de Cristo e de S. Bento de Avis
Doutor em Direito, Diplomata, Secretário de Estado do Rei

JORNALISTA

>o<

No artigo que serve de introdução ao 1.º número do Mercúrio, queixa-se amargamente António de Sousa de Macedo da falta de jornais, o que mostra que nessa época se não publicou em Portugal nenhum periódico.
 
O Mercúrio português teve grande voga, mas apesar de ser escrito por homem tão erudito, parece que não pôde, contudo, escapar ao fado de todos os jornais políticos, porque o P. António Vieira achava-o pouco verídico, impolítico e mal escrito. 

Essas dissidências poderiam talvez ser motivadas pelo facto de serem os dois grandes escritores de opiniões contrárias nas intrigas palacianas e políticas entre D. Afonso VI, seu irmão D. Pedro e a rainha D. Maria Francisca de Sabóia. Macedo, como secretário de Estado havia tomado o partido de D. Afonso VI, a quem era afeiçoado, fazendo-lhe portanto oposição o partido da rainha e do infante D. Pedro. 

Resultou daqui aborrece-lo a rainha, e para se vingar acusá-lo de lhe ter faltado ao respeito; porém a forma como os seus próprios inimigos referem o conflito é muito curiosa. A rainha queixou-se de um facto qualquer sucedido com um dos seus criados, e parece que dirigiu algumas palavras de censura aos portugueses, e António de Sousa de Macedo respondeu com irreverente cólera: «que sua majestade não tinha razão de se queixar dos portugueses, porque o respeito que eles lhe tinham, chegava a ser adoração.» 

Não parece que esta amabilidade possa envolver irreverente cólera, contudo, a rainha considerou-se muito ofendida, e exigiu a demissão de Macedo. D. Afonso opôs-se, sustentou uma grave luta contra sua mulher e seu irmão, mas afinal pela falta de energia, que tão fatal lho foi, esmoreceu a sucumbiu, acabando por ceder. 

O conde da Ericeira, no Portugal restaurado, diz, que o conselho do estado entendeu que, só para dar gosto à duquesa de Nemours, devia o rei mandar retirar da corte durante 10 ou 12 dias o secretário de estado e restitui-lo depois à sua antiga ocupação. 

O facto é que a rainha, naturalmente por Sousa de Macedo ser protegido pelo conde de Castelo Melhor, reputava-o como adversário, e tanto se magoou com o marido, enquanto não foi castigado o secretário de estado, que deixou de comparecer no segundo dia da corrida de touros da festa de Santo António, celebrada por essa ocasião no Terreiro do Paço pelo senado de Lisboa. 

Foi então que se recorreu ao conselho de estado, para satisfazer a irritação daquela senhora. Passado algum tempo voltou Macedo a exercer o seu antigo lugar, o que aumentou as iras da rainha, e levou seu cunhado, que mais tarde foi seu marido e rei D. Pedro II, a uma cena violenta com D. Afonso VI, acabando o conflito levantado por este motivo pela saída de Macedo para fora do Paço e para sítio, onde nunca mais pudesse receber ordens do infeliz monarca, como ele prometeu e cumpriu.

O fenómeno persecutório da classe jornalística pelo Poder... já vem de muito longe!











Fotos: 
-Google; com realce da fonte,
Biblioteca Nacional.
-Adaptações e condensações de um
portal de História.



4 comentários:

Luís Coelho disse...

Recordei um pouco de história aqui neste artigo.
Existem coisas na história dos reis e dos governos que são assustadoras.

Luisa disse...

César,
Li com muito prazer, este teu post. É sempre bom recordar coisas boas, ou menos boas, da nossa História.
Pois é, parece que os maus hábitos se têm eternizado!

Bjo

Austeriana disse...

Agradeço a oportunidade de tomar conhecimento de pedaços da história do jornalismo (e não só)sobre os quais nunca tinha lido!

Abraço.

relogio.de.corda disse...

Sobre o D.Afonso VI; não conhecia alguns aspectos da vida deste governante.Interessante...
Foi mais um rei que morreu jovem, digamos assim.