[ Vox populi vox Dei ]

2011-03-09

O MERCADO da PRAÇA DA FIGUEIRA


Painel de azulejos representando o antigo Mercado da Praça da Figueira 
- Lisboa - 
numa parede da Rua do Alecrim
>+<




A Praça da Figueira é um local de vastas tradições. Quando o terramoto devastou a cidade; ali, naquele lugar onde ficava o hospital de Todos os Santos, determinou-se, por Decreto de 23 de Novembro de 1755, estabelecer-se um mercado local.

O hospital sofrera um incêndio; o tremos de terra aniquilara-lhe os restos e no terreno desobstruído foi decidido edificar um mercado de frutas e hortaliças com os seus arruamentos e cabanas para as diversas lojas. Sucedia - porém, que no mercado recém construído havia desordem. Os vendedores, os intermediários da produção e os fazendeiros não se entendiam devido à grande diferença de preços de uns para os outros, além disso, instalavam-se dias inteiros no sítio até esgotarem os objectos dos seus negócios, enchiam o recinto de carros, cestos, vasilhame, tomavam as cabanas, julgavam-se senhores do local, havia abusos, e, de quando em quando, a ordem era alterada.

Para acabar com toda esta confusão foi decidido, que os transportes deviam sair imediatamente do lugar após o descarreganento, os almotacés [oficiais da Câmara dos pesos e medidas] e os fiscais, eram obrigados a verificar os documentos de apresentação dos vendedores. O intermediário acabara.

A Praça devia estar levantada às duas da tarde. Nas cabans podiam expor-se frutas, aves, ovos, queijos e hortaliças. Os seus vendedores só podiam negociar um género.

Deste modo, não se prejudicavam os vizinhos. Ou vendia aves ou queijos, frutas ou hortaliças. Em todo o caso, mais tarde, não se sabe bem porquê, foi permitido que nas lojas de fruta se pudesse vender carne de porco limpa, vinda de fora, pois eram proibidas as matanças no mercado. Havia, no ano de 1804, 210 lugares na praça.


                                                                                                                                                                       
Vista do interior da praça



Em 1819, declarou-se «livre tráfego» e cada um podia vender o que quisesse, sendo aberto o mercado para todos os tráficos e negociantes.

Devido à falta de limpeza no local, os cães  eram os agentes de limpeza, foi deliberado o perfuramento do centro da praça em busca de água destinada à limpeza do local, toda a população sabia que, outrora, correra ali perto um rio, profundou-se e fez-se um poço que ficou pronto no Natal de 1835.


Vieram depois os melhoramentos; as grades, as portas, as defesas. Plantaram-se árvores, pois o mercado não era coberto, e desenvolveu-se o negócio.

O regatear balburdiava, os clientes tinham medo das vendedeiras que constituíam classe  pronta a batalhar entre si mas defendendo-se, mutuamente, contra o público. Os seus peitos repletos de cordões. de medalhas e crucifixos em ouro; as orelhas, esticadas ao peso dos brincos, eram mostruário da hostentação de riqueza nascida do negócio e do berro. A má língua da vendedeira tornara-se um provérbio.

A autoridade era deficiente; as desordens sucediam-se. Ali, no centro da cidade, a algazarra tornava-se impossível. Efectivamente, era necessário corrigir toda aquela desordem, com uma fiscalização eficaz e bem feita, obrigando os vendedores a respeitar os fregueses.
Funda-se a Companhia dos Mercados, que, no ano de 1875, apresenta a proposta à Câmara com o fim de melhorar a praça, dando-lhe o aspecto e a polícia própria de um grande mercado.

A Lúcio de Araújo e Manuel Ferreira Lima, da Companhia dos Mercados, foi-lhes cedido, por cem contos e oitocentos mil réis, os direitos de construção e exploração da praça. Receberam oitenta e um contos de contado e o resto em acções e iniciaram-se as obras...

Foi o autor do projecto Manual Faria Ricardo Correia e em 16 de maio de 1885 inaugurou-se novo mercado. Constava a praça de um edifício rectangular, em estrutura metálica, ocupava uma área de quase oito mil metros quadrados. Quatro pavilhões cupulados limitavam um primeiro corpo circundante, com portas principais e secundárias e lojas abertas para o exterior. As fachadas principais dividiam-se em três corpos no interior, de longos telhados corridos com clarabóias. Escusado será dizer que a prala se tornou logo num dos emblemas de Lisboa, pela construção notável para a época e pelo seu carácter de verdadeiro centro da cidade.



BILHETE  POSTAL  COM GRAVURA  DO  MERCADO PÚBLICO 
DA 
PRAÇA DA FIGUEIRA





Texto de uma publicação 
da autoria 
de 
António Ferro




Durante a construção deste edifício, os vendedores fizeram o seu negócio na Praça de D. PedroIV. As festas realizadas  deram que falar com as suas iluminações a gás, e no dia 18 de Maio - uma segunda feira - abriu o mercado ao público, devidamente policiado.

Passou o tempo e, em Fevereiro de 1934 começaram rumores na imprensa: "sempre que qualquer edilidade trata de melhoramentos da cidade, logo se afiança a demolição da Praça da Figueira"! Realmente é do programa do alargamento da área das ruas da Palma  e vizinhanças  que a transferência do célebre mercado  passou a estar condenado a desaparecer, sem se saber para onde seriam transferidos os lugares e os negócios. Esta sentença baseava-se ainda na necessidade do espaço para escoamento do trânsito que já era considerado imenso.

Dividiram-se as opiniões que consideravam uns, um benefício para o desenvolvimento, melhoria para os comércios no resto da cidade e outros, uma tradição que fazia falta, tanto ao público, como aos negociantes ali instalados, muitos deles a peso de ouro.

Foi, porém, a fatalidade eterna: os novos suplanterem os velhos. A Lisboa moderna reduzirá a antiga - a Baixa - a um campo de operações comerciais de espécie diferente. Foi o mercado financeiro; o empório dos escritórios.

O último Santo António, ali todos os anos alegremente festejado, foi o de 1949. A vereação de 1947 tinha assinado o óbito da Praça da Figueira, porque havia grandes planos para o local. De tais planos, apenas foi cumprido o da demolição. Nos anos seguintes, os mercados foram sendo instalados em edifícios mais pequenos, no alinhamento das ruas Chão de Loureiro e Forno do Tijolo.


Só em 1968 se assinou o contrato para a construção da estátua equestre de D. João I, executada pelo escultor Leopoldo de Almeida, que foi inaugurada em 1971.



ESTÁTUA do REI de PORTUGAL  D. JOÃO I



Esteve esta Praça, com chão de terra batida, transformada em parque de estacionamento a céu aberto, durante 22 anos aguardando pelos tais grandes planos....



Em baixo, apresenta-se um vídeo com pormenores da Praça, e o Rei ao centro:
[Mesmo assim... ainda não houve tempo de se fazer um trabalho em português]




RESUMO:

A Praça da Figueira antes do Terramoto de 1755 era o local do Hospital de Todos-os-Santos, cujas fundações foram postas a descoberto durante a construção do actual parque de estacionamento subterrâneo.

No desenho do Marquês de Pombal para a Baixa, a praça transformou-se no principal mercado da cidade. 

Em 1885 foi aí construído um mercado coberto, demolido nos anos 50. 

Hoje, os edifícios de quatro andares são ocupados por hotéis, lojas e cafés e a praça já não é um mercado.

Uma das características interessantes são os bandos de pombos que se empoleiram no pedestal da estátua equestre de bronze de D. João I erguida em 1971, da autoria de Leopoldo de Almeida.


A praça é servida pela estação de metro do Rossio, na Linha Verde, bem como por algumas carreiras da Carris e o serviço da CP Lisboa na estação de Lisboa Rossio.
 

17 comentários:

O Puma disse...

Excelente trabalho

logo hoje dia em que vai tomar posse - o coiso

Teresa disse...

Muito interessante, este seu post. Garanto que aprendi imenso, até acho que venho aqui roubar algumascoisas.
Lembro-me bem da Praça da Figueira de terra batida, a aguardar os tais grandes planos!
Bjs

César Ramos disse...

Amigo Puma,

É verdade!... logo hoje fui arranjar uma desculpa para o 'coiso' inaugurar no acto de posse: As demolições do costume!

Um abraço
César Ramos

César Ramos disse...

Teresa,

Lembro-me de, muito miúdo, ter ido àquele mercado com a minha avó.

Lembro-me também de ter arrumado lá o carro; era uma confusão diabólica e não tinha ainda destes 'arrumadores'!... Ainda não tinham sido 'inventados', nem a droga e o abandono social proliferava tanto por aí (pese embora o tempo da "outra senhora").

Só um vendedor de cautelas da Lotaria da Santa Casa é que dava uma pequena ajuda aos mais nabos.

Pode "roubar" sempre o que quiser!...

A blogosfera fez de nós uns larápios muito especiais, em nome da divulgação[partilha] de tudo o que aparecer interessante: faz-nos sentir úteis, e isso é muito bom.

Obrigado

Abraço
César Ramos

relogio.de.corda disse...

Muito bom. Um post de grande utilidade para quem quiser saber mais sobre a história da cidade de Lisboa.
(Arranjou os recortes de jornais na net ou foram "scaneados"?)

Mar Arável disse...

Uma bela viagem pelas memórias de um espaço ícone da nossa cidade
capital
lugar de encontros e desrncontros
e tantas lutas

Sempre um prazer visitar o seu espaço partilhado

César Ramos disse...

Relógio.de.corda,

Scaneados... de material antigo que tenho.

Devo confessar e todos adivinham, que não tenho tantos nomes e datas de memória. Socorri-me de fontes sólidas, da Sociedade Histórica a que pertenço como sócio.

Há hora a que acabei o post, esqueci-me de nomear as fontes! Bah!... também não tenho qualquer lucro com esta actividade [mais prejuízos!]...

A notar: Fotos - como sempre -, da internet; Vídeo do YouTube como está lá de caras; sobram os recortes que são meus, o que não tem a mínima importância (...)

Abraço
César Ramos

César Ramos disse...

Mar Arável,

Tão agradável e útil é visitar o seu blogue... como satisfação me dá passar aqui, por este sítio de todos nós (...)

Um abraço fraterno,
do
César Ramos

MENTORESDELUZ.BLOGSPOT.COM disse...

Amigo que coisa mais linda é seu blog,eu adoro portugal,sigo varios blogs de amigos portugueses mas o seu
me mostra os lugares e define exatamente ,oque são e onde estão,
é maravilhoso é como se eu podesse passear por ai,vou voltar aqui mais vezes para verlindos lugares um abraço com carinho
marlene

Carmo disse...

Parabéns!
Um trabalho de excelente qualidade e de muita pesquisa.
Obrigada por partilha-lo aqui no seu espaço.
Um abraço
Boa semana

Luisa disse...

Informação detalha e preciosa, vou levar comigo para guardar.
Lamento não ter memória deste mercado.

Tanto calcorreei a rua do Alecrim e, nunca me deparei com esta beleza de painel em azulejo, coisa que muito aprecio!

Bjo
Luísa

Maria Ribeiro disse...

POST de uma grande riqueza histórica!
Não sendo de LISBOA, a descrição pormenorizada "PÔS-ME" no centro da cidade ,sítio em que o mercado é sempre um ponto rico de vida.
Não sabia nada disto e sinto.me enriquecida com este trabalho.
Beijo amigo
Lisa

Jefhcardoso disse...

Olá César!
Parabéns pela postagem; fez um excelente trabalho!
Prazer em estar aqui!
“Para o legítimo sonhador não há sonho frustrado, mas sim sonho em curso” (Jefhcardoso)
Gostaria de lhe convidar para que comentasse o meu conto “Água benta bem gelada”. Ok?
Jefhcardoso do http://jefhcardoso.blogspot.com

stella disse...

fotografias y texto bien elaborados, me ha guastado visitarte
Un abrazo
Stella

Tais Luso disse...

Olá, César: já fui à Europa, porém nada me encantaria mais do que visitar minhas raízes! Portugal é nosso e nós somos de Portugal. Somos, sim, irmãos.

Tenho algumas coisas trazidas pelos meus avós de Portugal e as guardo com carinho. Adoro a arquitetura e as artes de seu país.
Estes azulejos, acima, são divinos. Você postou relíquias, parabéns.

E obrigada por compartilhar.
beijos do Brasil.
Tais Luso

namorar pela net pode dar certo. disse...

nossa, que interessante seu blog. legal a discrição que vc faz da Praça da Figueira, tão bem descrita que se torna familiar. parabéns pelo blog. obrigada por me seguir. em retribuição já estou seguindo vc tambem. e olha espero que volte sempre. otima noite. bjs

momo disse...

como gosto de pasear por tu ciudad ainda que sea de este modo...y gosto también de saber su historia.
muitos beijos