[ Vox populi vox Dei ]

2011-03-24

« AS MÁSCARAS DO ROSTO DA HUMANIDADE »




A Humanidade  nunca se sentiu satisfeita consigo mesma. Desejou sempre ser diferente. Parecia-lhe que não tinha bastante poder. Invejou por vezes a força animal, e por isso desejou ser búfalo, leão, deus ou demónio, aquilo que melhor servisse as suas ambições ou diminuisse os seus receios.

Desses diferentes estados de espírito nasceu o anseio de transformação, dando ao rosto expressões de benevolência, de omnipotência ou de pesar, conforme as circunstâncias. Insatisfeita, criou uma forma eficaz: as máscaras.


 Vídeo-Clip com: - Máscaras de todo o mundo...





Máscara fúnebre de Goethe
perpetuando o poeta





O primitivo uso básico da máscara, parece ter sido o propósito de transformar a personalidade. A primeira máscara terá sido a pintura corporal, obtida com o auxílio de argila vermelha, terra branca, carvão, penugem de pássaros amassada com sangue, e outros materiais que a natureza fornecia.

A aplicação de massas coloridas, diretamente sobre a pele, resultava numa expressão dramática, uma vez animada pelos músculos do rosto.

Esta máscara rudimentar, mas de seguro efeito, foi também uma das primeiras manifestações estéticas. Assim, sem qualquer espécie de alardes, passaram os povos primitivos da pintura corporal para a confeção de máscaras, manifestação de arte primeva [primitiva]. Máscara é, pois, arte. Arte é diálogo. Diálogo do artista com o mundo que vive dentro dele, com os seres a quem o pretende transmitir, mesmo que esse mundo tenha pouca correspondência com o das coisas concretas.




Existem máscaras provenientes de todos os pontos do mundo e oriundas de todas as formas de sociedade, das mais primitivas às mais civilizadas. No museu de Toronto são apresentadas sobre mesas giratórias, em que incidem luzes que arrancam efeitos hilariantes ou dramáticos. Agrupadas segundo as regiões de onde provêm, estão dispostas de forma a que o impacte sobre o visitante sugira o impulso primário comum a toda a Humanidade, dos esquimós aos africanos.




Algumas, como as de origem japonesa, são inexcedivelmente subtis e delicadas. Outras, rudemente talhadas em pedra, são apenas projetadas numa singela forma dominante. Há-as laboriosamente feitas de osso, de madeira, cabelo ou pele, e algumas em tecido.





Embora as origens sejam tão diferentes e bastas vezes reflexo de sociedades elevadas, à ideia de máscara andou sempre associado o conceito de primitivismo. Os povos ditos civilizados criam-nos rudes e ignorantes, impreparados de todo para compreender o seu semelhante, que procuravam incorporar em si alguma força irreal, através de tal Arte.

Quando no último quartel do século XIX, os artistas europeus procuraram representar o universo sob formas cubistas e realistas, desfizeram-se alguns dos antigos preconceitos, ao verificar-se que os artistas africanos tinham encontrado muito antes deles - e partindo de premissas completamente diferentes - magníficas expressões plásticas que se adaptavam à sua visão predominantemente espiritualista do mundo. Reside aí, no papel preponderante das religiões ou da magia, o denominador comum para a interpretação correta de tais manifestações artísticas.

Dentro da evolução dos fins a que se destinam, surgiu depois a máscara  fúnebre, usada para "preservar a individualidade". Em cima, apresentamos uma fotografia da máscara fúnebre do poeta Goethe. É conhecida a máscara fúnebre de Estaline e de outras individualidades, entre elas, a de Oliveira Salazar, que sabemos ter sido efectuada mas, desconhecemos de todo o seu paradeiro. 

Esta prática foi comum a diversas regiões do globo, revestindo embora formas diversas. Todos nos familiarizamos com as máscaras pintadas das múmias egípcias que, consoante o grau de riqueza e prestígio do defunto, eram mais ou menos valiosas. Os faraós fizeram perpetuar a sua memória com o auxílio de máscaras perfeitíssimas e por vezes de elevado valor material.





O jovem faraó Tutankhámon levou a múmia totalmente recoberta por uma máscara de folhas de ouro, de que se destacava o rosto, pela perfeição das formas e pelas inúmeras e extraordinárias pedras preciosas que a ornavam.

Acreditavam esses povos que a alma era imortal, e que um dia viria em que a alma, após a morte, de novo se juntava ao corpo. Tal crença implicava a necessidade dos mortos serem enterrados com a devida pompa. Para não haver possibilidades de engano, e a alma se não depositar num corpo errado, o adorno com as feições do morto facilitaria a tarefa. Ainda hoje, em certas regiões, se fazem moldes de gesso do morto, mas esta prática está confinada aos grandes e aos notáveis, como acima já sugerimos.

Com a preocupação de preservar a individualidade - e é bom que isto seja dito entre aspas - as formas tornaram-se ideais, os traços delicados, e as feições mantidas em repouso. Essas figuras, cheias de caráter, revelam a insatisfação do Homem consigo próprio, na ânsia de se tornar imortal.

 Mais perto de nós, a máscara de novo se destinou a esconder a personalidade de quem a usa. Destinada a determinados fins, corresponde à aquisição de uma qualidade exterior ao indivíduo; este aparece assim revestidodas insignias da sua função. No grande melodrama da vida africana a todo o momento intervêm  bailarinos mascarados. Os objectivos podem ser singelamente lúcidos ou participação imdispensável de ritos de iniciação, danças guerreiras ou cerimónias propiciatórias da caça ou do auxílio dos antepassados.

As populações africanas movimentam-se tradicionalmente num mundo embebido de religiosidade, que os observadores ocidentais dificilmente poderão compreender, limitados como são pelas suas conceções de eficiência, lucro e técnica.

A própria escolha de materiais obedece frequentemente a conceitos religiosos. Dentes e chifres de animais possantes representam a força. A madeira de certas árvores, mansão de espíritos protetores, transmite poderes e virtudes. A cor branca associa-se aos espíritos, símbolo de outro mundo, embora não sejam raras as máscaras de variadas cores.

Nem sempre as máscaras têm por finalidade auxiliar a alcançar objetivos extra terrenos. Nas cerimónias de circuncisão, por exemplo, que se efetuam entre povos africanos, os mestres são guiados para local isolado onde os circuncisos são mantidos alguns dias, por um membro do grupo que se cobre com uma máscara grotesca, ou de traços cómicos. Destina-se ela a incutir coragem nos jovens que vão ser submetidos à cerimónia e se encontram naturalmente amedrontados. Pelo receio da dor que os espera. Pelo clima de mistério em que se desenrolam as atos preliminares aos quais não é permitida a presença de mulheres, sentindo-se afastados do acolhedor amparo das mães. Os efeitos dessas máscaras consideram-se deveras eficazes.



Estes e outros resultados não devem admirar ninguém: as máscaras raramente são inexpressivas. Antes pelo contrário: constituem manifestações ampliadas de emoções ou de caráteres. Parecem mesmo muito mais naturais que certos rostos com que nos cruzamos a cada passo, rostos teatralizados, formalizados, de harmonia com a vida quotidiana que levam os seus possuidores.

Conscientes desses factos, os encenadores teatrais estão cada vez mais a fazer reviver o uso das máscaras no teatro contemporêneo.

Parece, assim, que a máscara, tão duramente julgada, se vai tornando indispensável até no quotidiano das nossas vidas  em sociedade.











Fotos: - Net
Vídeo: - YouTube
Pesquisas em:
 - "Enciclopédia dos Museus"
Mirador Internacional
(Edição de 1969)
 - "Essais sur la Anthropologie"
Recherches Internationales
(Edição de 1959)

16 comentários:

Luís Coelho disse...

Um texto muito interessante sobre as mascaras. Já vem dos tempos antigos e foram-lhe atribuídas diversas funções. Uma era a de esconder a verdadeira personagem. Usado em bailes e teatros fazendo jogos também interessantes.

momo disse...

que bonita entrada sobre las más caras amigo, y muy interesante. A veces incluso llevamos máscara tan dificil de desprendernos de ella.
beijossssssss

Luisa disse...

Um bom post, boa informação, uma vez mais.
Sem nunca ter colocado uma, talvez já tenha usado alguma.
Uma máscara transformará a personalidade de quem a usa?

O vídeo é, muito bom!

Bj

trepadeira disse...

Caro César

A humanidade sempre sentiu necessidade de se esconder,umas vezes por vergonha,outras vezes por maldade.

Quando o fazia por brincadeira e malícia era quase um jogo de teatro.

Um abraço,
mário

Austeriana disse...

Há alguns anos, fazia colecção de máscaras. De cada lugar visitado, trazia, pelo menos, uma que me parecesse ter que ver com o país, a cidade, o sítio onde tinha vivido durante uns tempos.

Um dia, mudei de casa e, com a mudança, as máscaras foram parar ao lixo - partiu-se quase tudo durante o transporte.
Interpretei o "acidente" como uma oportunidade para mudar o meu rumo de coleccionadora e também por questões práticas, designadamente pelo facto de ficar sem paredes para colocar outros objectos de que gosto!
Este post - bem interessante por dar conta do que cada uma delas pode representar - lembrou-me as minhas máscaras destruídas. Aliás, tive algumas parecidas com as que aqui são reveladas. E também me recordou aquela tirada magistral de que «só somos verdadeiramente aquilo que aparentamos», do saudoso José Gomes Ferreira.
Gostei muito de o ler.
Abraço.

Palma disse...

Belo trabalho. Parabéns. Palma

Carmo disse...

Olá César, delicioso este seu texto.
Adoro máscaras e tudo o que elas me possam transmitir acerca de um povo.
Obrigada pela informação
Boa semana
Um abraço

Ana Paula Sena disse...

Gostei desta viagem ao mundo fascinante das máscaras.

Um abraço.

stella disse...

Un ligero reapso por sta entrada de las márcaras y los sentimientos que en todo momento logran que el hombre adopte una u otra, me ha parecido muy interesante esta entrada, te seguiré seguro
un abrazo
Stella

svasconcelos disse...

Muito bonito, e sempre didáctico o teu post.:))
bjs,

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