[ Vox populi vox Dei ]

2011-02-02

ICONOCLASTAS DESTROEM NO MUSEU DO CAIRO

 Vista geral do Museu do Cairo



 Máscara faraónica de Tutankhamon


 Fachada principal do Museu do Cairo




O Museu Egípcio do Cairo é um dos mais fantásticos museus no mundo inteiro. É um grande edifício onde se exibem os tesouros da História egípcia antiga, dando-nos as evidências da maravilhosa capacidade mental e da habilidade artística do Homem egípcio antigo.

Na verdade, antes da chegada da Campanha Francesa, liderada pelo célebre general Napoleão Bonaparte, ao Egipto, em 1798,  a  História Antiga do Egipto ficou por séculos quase desconhecida e cheia de muita confusão e ambiguidade. A Expedição Francesa trouxe mais de 165 eruditos e cientistas em todas as especialidades para estudarem todos os aspectos da vida egípcia; a geografia, zoologia, geologia, história, religião, tradições, leis etc.

Aqueles cientistas mostraram grande vontade e entusiasmo em estudar todo o Egipto, sobretudo a História e os monumentos antigos. O encanto e a grandeza de tais monumentos levaram muitos deles a percorrer quase todas as regiões do território egípcio, sobretudo no Alto-Egipto. Os monumentos egípcios antigos foram o maior campo de estudo e pesquisa para alguns desses historiadores e eruditos.

Uns anos depois, surgiu o trabalho do historiador e pintor francês Vivian Dinon, que andou encantado com as maravilhas egípcias, sobretudo no Alto-Egipto,  resumindo o seu trabalho  num livro valioso intitulado “Viagens para o Baixo e Alto-Egipto ” publicado em Paris em 1803. Também graças a outros eruditos franceses que vieram com a Expedição Francesa,  realizou-se outra grande obra, que compreende todos os aspectos da vida no Egipto,  publicada no livro famoso intitulado  “Descripcione del’ Egypte”, que contém nove volumes de investigações e onze de pinturas e ilustrações.

Uns anos mais tarde, um episódio histórico pontual, orientou  uma grande descoberta : o decifrar dos segredos da História Egipcia Antiga. O achado de uma pedra preta conhecida como “A pedra de Rosetta ” resultou, logo, no decifrar da Língua Egipcia Antiga; um acontecimento vital na História da humanidade; e assim, os escritos gravados nas paredes dos templos e  túmulos, mostraram  dados sobre a história, civilização,  religião e arte no antigo Egipto.

No século XIX iniciou-se o aparecer na Europa em geral  e na França em particular, de  uma nova ciência chamada  “Egiptologia”, o que levou a um fervor entre os estudiosos de Europa. Historiadores, arqueólogos, aventureiros  e caçadores de tesouros vieram para o Egipto encantados pela sua história e cultura e começaram a escavar em sítios diferentes do território.  

Obviamente muitos deles careciam da honestidade científica necessária, por isso havia roubos de monumentos e objectos, pelo que de imediato surgiu um grande mercado de Antiguidades Egípcias na Europa e, simultaneamente, havia, naquela altura do século XIX  uma inconsciência do valor verdadeiro dos monumentos do património, por parte dos egípcios nativos.

Nem o governo nem o povo sabiam o valor autêntico desses objectos achados e antiguidades maravilhosas. Portanto,  havia uma tolerância acompanhada por ignorância. E como não havia controlo sobre este sector cultural,  as antiguidades e os objectos egípcios eram sujeitos ao roubo, tráfico, contrabando e, desleixo descuidado durante quase 50 anos até os finais do reinado do governador Mohamad Ali ( 1805-1849), o pionero da modernização do Egipto, que mandou conservar os monumentos e objectos descobertos num edifício dentro da cidadela de Saladino no Cairo, proibindo o tráfico dos monumentos para fora do país.

Graças a Mariette Pasha (1821-1881) o percurso egiptólogo francês  estabeleceu o Serviço das Antiguidades Egípcias pela primeira vez.  Em 1857 Mariette fundou o primeiro museu verdadeiro no bairro de “Bulaq” no Cairo. Era um pequeno edifício que constava de quatro quartos em que se expuseram os objectos e antiguidades egípcias achadas. Porém, esse museu foi  afectado pelas cheias do rio Nilo, e por isso os objectos foram transferidos para um anexo de um palácio real do governador egípcio, Ismael, Paxá da cidade de Giza.

O actual Museu Egípcio do Cairo, foi  fruto de grandes esforços e de boa vontade para conservar o património egípcio antigo. Anunciou-se um concurso internacional entre as empresas europeias no final do século XIX para construir um museu, e ganhou o concurso uma empresa  belga. Por isso, o desenho da fachada do museu infelizmente não é egípcio e foi decorado segundo o estilo Greco-romano.

O desenho do museu foi realizado pelo arquitecto francês Marcel Dourgnon, segundo o modelo neoclássico. Em 1897 as obras de construção começaram, e terminaram em 1901 mas, apenas em 15 de Novembro de 1902,  o museu foi inaugurado oficialmente durante o reinado do governador do Egipto,  Abass Helmi (1892-1914).

O Museu Egípcio situa-se actualmente na praça do Tahrir (centro da cidade do Cairo) perto da margem oriental do rio Nilo (o corniche). É um edifício imenso de cor rosada com um pátio externo vasto. O museu tem  cafetaria e umas livrarias que vendem prendas, postais, slides, mapas, guias e livros de história e arte egípcia.


No pátio do museu, em frente do portal interno há três bandeiras: a primeira é a Bandeira Nacional, a segunda representa o Ministério de Cultura, e a terceira pertence ao Supremo Conselho das Antiguidades Egípcias. Na parte superior da fachada estão inscritas duas datas, a primeira é 1897, que se refere à data do início das obras de construção, enquanto a segunda é de 1901 e indica o fim das obras; porém (como se disse em cima), o museu foi inaugurado em 1902. Há também duas letras iniciais ao lado direito e ao lado esquerdo, do nome do governador que reinava no Egipto de 1892 a 1914 , são as letras “A” e “H” que indicam sucessivamente o nome de Abbas Helmi.


No centro da fachada encontra-se a cabeça da deusa, importantíssima segundo as crenças egípcias antigas, a deusa Hathor (Ht-Hr) que foi considerada uma das mais famosas e antigas deusas egípcias. Era a deusa que amamentou o deus Hórus quando era bebé durante a ausência da sua mãe Ísis, segundo os acontecimentos da lenda de Osíris.

Hathor era a deusa do amor, da alegria, música e maternidade. Era figurada fundamentalmente em três formas; a primeira como  vaca, a segunda numa forma híbrida com corpo de mulher e cabeça de vaca, e a terceira forma é uma mulher, mas com dois chifres de vaca em cima da cabeça e o disco solar entre eles. Na fachada, encontra-se a cabeça de Hathor: está representada com cara de mulher e dois cornos com o disco solar. Aos dois lados, à direita e à esquerda, há uma representação da deusa célebre Isis, a esposa de Osíris, e mãe de Hórus.

 Isis foi uma das divindades fundamentais que desempenhou um grande papel na Teologia Egípcia Antiga.  Foi a deusa da maternidade, fidelidade, e magia. Aqui, Isis está figurada numa forma Greco-romana e não egípcia tradicional, devido ao estilo da sua peruca e também o seu vestido com nó que é romano. Além disso, a fachada foi decorada segundo o estilo Greco-romano, devido à existência de duas colunas jónicas, pois este tipo de colunas apenas apareceu na Época Greco-romana.  Encontram-se ainda,   nomes de reis egípcios antigos, escritos dentro de medalhões.

No jardim do museu, uns monumentos estão espalhados aqui e ali, a maioria deles datados do período do Novo Reino ( 1570-1080 a. C.). A oeste extremo do pátio,  encontra-se um cenotáfio -  túmulo simbólico -, construído em homenagem à memória da figura célebre do egiptólogo francês Mariette Pasha, que nasceu em 1821 e faleceu em 1881. É um cenotáfio de mármore comemorando esta figura célebre,  porque teve a ideia da fundação do museu que abriga e exibe os objectos achados. Desejou ficar sepultado neste lugar, mas parece que  o cenotáfio é apenas simbólico.

O cenotáfio está rodeado de bustos de outros egiptólogos famosos, como: Champollion,   Mariette,  Selim Hassan,  Labibi Habashi,  Kamal Selim  etc.


No centro do pátio encontra-se uma fonte cheia de duas espécies de plantas; o Papiro e o Lótus. O papiro era o símbolo do Baixo-Egipto ( O Norte ), enquanto o lótus era o símbolo do Alto-Egipto ( O Sul ). O papiro encontra-se nos pântanos da região do Delta no norte do Egipto. É uma planta que precisa de grande quantidade de água e mede quase 2 metros de altura. No Egipto Antigo os papiros eram usados para fazer papel para escrever, sandálias,  barcas etc. Enquanto o lótus se encontrava no sul do país, e havia duas espécies; o lótus azul e o lotús branco,  durante a Época Egípcia Antiga.  Os romanos introduziram uma terceira espécie da Ásia: a flor de Lótus, que foi o símbolo da ressurreição; e, além do papiro, o Lótus deu inspiração aos arquitectos antigos, para decorar as colunas e capitéis.

Na realidade, o Museu Egípcio do Cairo, é um dos maiores museus de todo o mundo  em termos da quantidade de objectos expostos e  outros que ainda estão por classificar.  De acordo com uma estimativa, o museu possui cerca de 120.000 objectos expostos, enquanto que há mais de 100.000 objectos conservados nos armazéns.

A exibição das peças é organizada em dois andares segundo uma ordem cronológica, correspondendo com a direcção do relógio, iniciando-se a partir do Período Pré-dinástico, a Época Arcaica, passando pelo Antigo Reino, o Médio Reino, o Novo Reino, o Período Tardio e termina pelo início da Época Grega no Egipto.

O segundo andar é dedicado, fundamentalmente, para exibir a colecção de Tutankhamón, os objectos do túmulo do casal Yoya e Tuya e a Sala das Múmias.

Aos dois lados diante da entrada do museu há duas esfinges, que dão ao visitante uma impressão especial como se estivesse entrando num templo egípcio.






Busto de Nefertiti



 Vídeo denunciando a invasão, destruição e saque do 
Museu do Cairo:

.



Vídeo: YouTube
Imagens: Seleção na Net
Texto: Traduzido e adaptado pelo autor do blog
de uma revista de "The Rosicrucian's Letters".

11 comentários:

Luís Coelho disse...

Agradeço este video e envio um abraço aos heróis actuais que se dispuseram a proteger este museu que é um tesouro mundial.

Os tempos fazem história, mas seria bom que soubessem conservar a história contada nestes locais.

Teresa disse...

César, excelente este seu artigo sobre o Museu do Cairo. Confesso que me doeu o coração quando vi o video, mas também senti um assomo de esperança. Há salteadores e ranhosos em todo o lado, mas quando o próprio povo se dá os braços para proteger a sua cultura, nem tudo está perdido!
Bjs

O Puma disse...

Grato pela excelente síntese
de um património de valor incomensurável
propriedade da humanidade

Que a revolução
preserve estas memórias

Fábio Paulos disse...

só espero que este conflito acabe e aquele povo possa voltar a viver mais normalmente, é triste ver saqueado um museu tão importante como este do Cairo, espero um dia fazer uma visita a esse país que tanto me encanta.

Parabéns pelo blog, achei interessante, abraço

César Ramos disse...

Amigo Luís Coelho,

Comungo no seu abraço aos heróis populares que se dispuseram a proteger o Museu.

César

César Ramos disse...

Teresa,

Obrigado pela suas palavras. De facto, quando o povo dá os braços para proteger a sua cultura, significa que, como bem diz, nem tudo está perdido!

Neste, como noutros casos, o Povo tem de ter a consciência da sua força para proteger os seus interesses.

César

César Ramos disse...

Puma,

A revolução que acontece no Egipto não é responsável pelos saques e destruições!

Há estratégias "repentistas" entre oportunistas, que praticam atos vândalos para comprometer a espontanedade popular.

Parece até que, há grupos organizados pelo poder - que se esboroa -, para chocar as massas com atos reprováveis.

Enfim: o costume!

César

César Ramos disse...

Fábio Paulos,

Gostei da sua visita, que agradeço, bem como das suas amáveis palavras.

Apreciei o bom rasto que deixou com a sua opinião de fé promissora.

Pode estar certo que vai ter a Paz de volta ao Egipto e irá ver, no se esplendor, o país que o encanta a si, a mim e, julgo, que a todos!

Abraço
César

O Puma disse...

Meu caro

Obviamente

Fernando Samuel disse...

Excelente texto.
Como é natural, foram os que lutam pela liberdade e pela democracia que defenderam o Museu.

Anónimo disse...

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