[ Vox populi vox Dei ]

2011-01-21

« A EVOLUÇÃO DA ORTHOGRAPHIA »




A Ortografia, é o estudo da figuração dos sons, ou da escrita correcta das palavras. As diferenças entre a grafia e a pronúncia, entre a língua falada, sujeita à influência multiforme dos coloquiantes e a língua escrita, com tendência a certa imobilidade, provocam dificuldades graves aos que escrevem.

A situação manifesta-se em variantes gráficas e ortográficas flutuantes, mas o que fixa a pronúncia não é a Ortografia, é a História.

A escrita pressupõe uma representação gráfica da pronúncia e, daí a necessidade de reduzir ao mínimo o desacordo entre a fala e a escrita. O melhor sistema gráfico será, assim, o que mais se aproximar da pronúncia.

O famoso António de Nebrija (1441-1522), na «Gramática  de la Lengua Castellana», de 1492, a primeira gramática de uma língua vulgar que se escreveu na Europa, escreveu: "Temos de escrever como pronunciamos e pronunciar como escrevemos". 

Dedicou este livro famoso à Rainha Isabel I de Castilla (a Católica).

O nosso grande Duarte Nunes de Leão (1530-1608), natural de Évora, jurista, linguista e historiador, de origem judaica, afirma que compôs o seu livro de Ortografia da Língua Portuguesa em que «reduzi a arte e preceitos o que nunca teve arte, nem concerto».

Por outro lado, não parece casual que nos séculos XVI, XVII e XVIII proliferassem os tratados de Ortografia; citemos a título de exemplo, o Padre Bento Pereira (1536-1610), Pedro de Magalhães Gândavo, João de Morais Madureira Feijó (séc. XVIII), todos com obras de títulos análogos: «Regras Gerais da melhor Ortografia», «Ortografia ou Modo de Escrever», «Orthographia ov modo para Escrever certo na língua Portuguesa» (1631)... 

... Álvaro Ferreira de Véra (séc. XVII)... afirma no prólogo da sua «Orthographia»:
«O falar é cousa de muitos; e o escrever de poucos; os que escrevem sabem e os que muito falam erram e obram pouco e sabem menos. Assim que é tão diferente a eloquência da orthographia e tão fora de se comparar com ela, que para o homem ser sábio, há-de ser destro no escrever, breve e cauto no falar. Contudo, não nego que o falar faz bem, é vantagem que os homens estimam, como cousa tão superior aos animais.»

E, a páginas 82, da sua Ortografia, escreveu ainda: «E povoando Portugal e toda a Hespanha desta gente, a lingua que failavão era Hespanhola, no que concordao muitos»!

Sem dúvida que, desde há muito tempo os Acordos Ortográficos e a sua evolução têm sido de uma importância fundamental para os povos, posto que,  não se concebe como legítimo, que cada cidadão escreva a sua língua, arbitrariamente!



 O  BOM  NATURAL  DAS  GENTES  DO  BRAZIL
[Texto escrito segundo a Ortografia de 1872]



Ao estrondo da artilheria disparada pelos nossos descobridores, e nunca d'antes ouvido naquellas regiões, se abalaram, como attonitos, dos arredores de suas serranias, bandos de barbaria, suspensos de verem que sustentava o corpo das aguas machinas tam grandes, como a de nossas naus da India; e muito mais, de verem hospedes tão extranhos, brancos, com barba, e vestidos, cousas entre elles nunca imaginadas.

Desciam a ver, como em manadas, ordenados porém a seu modo em som de guerra; e eram tantos os que concurriam, que ao principio davam cuidado. Porém com signaes e acenos, e muito mais com dadivas (a melhor fala de todas as nações) de cascaveis, manilhas, pentes, espelhos, cousas para elles as maiores do mundo, vieram a conhecer que a nossa entrada não era de mao titulo. 

Fizeram confiança, trouxeram mulheres e filhos, e tractaram logo  com os portuguezes fóra de todo o receio: traçaram em sua presença mostras de alegria a modo de sua gentilidade, galanteados elles e ellas de tintas de paos e pennas de passaros, fazendo festas, bailes e jogos, lançando frechas ao ar; e por fim vieram carregados de animaes e aves de suas caças, e de fructas varias da terra, que, por não vistas outro tempo dos nossos, não podiam deixar de agradar. 

Quando se embarcava o general, acompanhavam-no com mostras de prazer: iam com elle á praia, uns se mettiam pela agua chegando o batel, outros nadavam á contenda com elle, outros seguiam-no até ás naus em jangadas, tudo signaes de amizade; dando a intender que lhes era grata sua presença, e que ficavam agradecidos de sua boa correspondencia.

Sobre tudo mostrava esta gente natural docil e domavel; porque, assistindo entre os nossos ás missas e mais actos christãos dos religiosos do seraphico padre S. Francisco, que alli se acharam, estavam decentemente, como pasmados, mostrando fazer conceito da bondade d'aquellas ceremonias, pondo-se de joelhos, batendo nos peitos, levantando as mãos, e fazendo as mais acções que viam fazer aos portuguezes, como pezarosos de não intenderem elles tambem o que significavam.



Parece estranha a ortografia do texto acima redigido, mas era assim que escreviam, entre muitos outros, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Eça de Queiroz e... o homem que nos ensinou a  ler e a escrever... na sua Cartilha Maternal:  João de Deus!





Invadidos observam invasores

11 comentários:

Jorge disse...

Porque uma língua é uma coisa viva, há que estar de acordo com o acordo!

Luisa disse...

César,

Citando Fernando Pessoa, digo: “primeiro estranha-se, depois entranha-se”.
Habitue-mo-nos!

Bjo
Luísa

César Ramos disse...

Jorge

Obrigado por estar de acordo com o acordo, e concordo consigo!

Já chega, derivarmos tanto de uma língua morta: o Latim! [Muito embora eu goste muito]

Estou a escrever isto, mas ainda sinto inércia: sempre que faço um texto conforme o novo acordo, parece que desenhei uma árvore com menos folhas!

Mas a primavera vem a caminho (...)

Abraço
César

César Ramos disse...

Luísa,

Isto escrito por ti... ainda fica mais verdadeiro!

É como tudo!... Não queiramos atualizarmo-nos, na postura de que tudo fique na mesma!

Por isso, rebusquei um texto do séc. XIX, para que se note como agora é mais cristalina a língua portuguesa!

Talvez por isso, nos famosos anos 60, parecia impossível cantar música moderna em Portugal... a língua prendia-se na música... emperrava e, agora... tudo flui!

É audível e pronunciável!

Bjo
César

Carmo disse...

Confesso que ainda não consigo escrever segundo o acordo, peço desculpa por isso. Penso que é uma questão de tempo.
Não me considero retrógada, mas escrever fato em vez de facto...

Muito bom o seu texto.

Um abraço

Boa semana

Luisa disse...

César,


Muito bem analisado!
Aprende-se, com as respostas que dás.

Bjo
Luísa

César Ramos disse...

Carmo,

Não tem de se desculpar, porque escrevi o post numa de: olhem para o que eu digo, mas não olhem para o que eu faço!

Julgo que tive necessidade de escrever um texto assim, para me obrigar a "entranhar" e deixar de "estranhar"
(repetindo a Luísa - em cima - que citou Fernando Pessoa).

É verdade que também não gosto de escrever fato quando não se trata de roupa, mas de um acontecimento.

Tem razão: vai ser uma questão de tempo.
Até agora, como escrevi num comentário acima, ainda acho que desenho árvores com menos folhas, ao usar o Acordo (...)

Uma boa semana
César

São disse...

A língua é viva e ainda bem, porque senão ainda escreveríamos com o extraordinário, mas velho de séculos, Fernão Lopes.

Quanto ao Acordo...não sei muito bem o que me parece.

Boa noite.

Nanda Assis disse...

eu to ficando cada dia mais burra, n sei escrever mais.

bjosss...

Anónimo disse...

cialis preise preise cialis
acquistare cialis cialis farmaco per impotenza
generico cialis comprar cialis espana
cialis prix cialis

Anónimo disse...

[url=http://kaufencialisgenerikade.com/]cialis generika[/url] cialis online
[url=http://acquistocialisgenericoit.com/]acquisto cialis[/url] cialis senza ricetta
[url=http://comprarcialisgenericoes.com/]cialis[/url] cialis comprar online
[url=http://achatcialisgeneriquefr.com/]cialis generique[/url] cialis acheter belgique