[ Vox populi vox Dei ]

2011-01-07

« DERRADEIRA HOMENAGEM A MALANGATANA »

 CIDADÃO  do  MUNDO
(1936 - 2011)



 No intuito de prestarmos uma última homenagem, o corpo do Mestre Malangatana está presente no Mosteiro dos Jerónimos, hoje, dia 7 de Janeiro, a partir das 15H00




« Malangatana, o homem que pintava pessoas »


Malangatana vendeu os primeiros quadros há 50 anos e com o dinheiro arranjou uma casa e foi buscar a família para Maputo. Meio século depois, morreu um homem do mundo, um amigo de Portugal e um dos moçambicanos mais famosos.


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MALANGATANA VALENTE NGWENYA nasceu a 06 de junho de 1936 em Matalana, uma povoação do distrito de Marracuene, às portas da então Lourenço Marques, hoje Maputo. Foi pastor, aprendiz de curandeiro (tinha uma tia curandeira) e mainato (empregado doméstico).

A mãe bordava cabaças e afiava os dentes das jovens locais (uma moda da altura), o pai era mineiro na África do Sul. Com a mãe doente e um pai ausente, Malangatana foi viver com o tio paterno e estudou até à terceira classe. Só. Aos 11 anos começou a trabalhar porque já era “adulto” e podia fazer tudo, de cuidador de meninos a apanha-bolas no clube de ténis.

Nos últimos 50 anos foi também muito mais do que pintor. Fez cerâmica, tapeçaria, gravura e escultura. Fez experiências com areia, conchas, pedras e raízes. Foi poeta, ator, dançarino, músico, dinamizador cultural, organizador de festivais, filantropo e até deputado, da FRELIMO, partido no poder em Moçambique desde a independência.

Ainda que o seu lado político seja o menos conhecido, é nítido o seu posicionamento à esquerda, a sua militância na luta pela liberdade e a  simpatia pelo Partido Comunista Português.

 Malangatana chegou a estar preso, pela PIDE, acusado de pertencer ao então movimento de libertação FRELIMO, sendo libertado ao fim de 18 meses, por não conseguirem provar qualquer vínculo à resistência colonial.

 Malangatana viveu parte da sua adolescência junto dos colonos portugueses, os mesmos que o iniciaram na pintura, primeiro o artista plástico e biólogo Augusto Cabral (morreu em 2006) e depois o arquiteto Pancho Guedes.

Augusto Cabral era sócio do Clube de Ténis, onde trabalhava um tio do pintor. “Um apanha-bolas nas partidas de ténis era um tal Malangatana Ngwenya (crocodilo), que, no fim de uma tarde de desporto, se acercou de mim para me pedir se, por acaso, eu não teria em casa um par de sapatilhas velhas que lhe desse”, contou Augusto Cabral em 1999.

O pintor iria “nascer” nessa noite, quando Malangatana foi a casa de Augusto Cabral e o viu a pintar um painel. “Ensine-me a pintar”, pediu. E Augusto Cabral deu-lhe tintas, pincéis e placas de contraplacado. “Agora pinta”, disse ao jovem, ao que este perguntou: “pinto o quê?”. “O que está dentro da tua cabeça”, respondeu Augusto Cabral.

O jovem viria a ter também o apoio de outro português, o arquiteto Pancho Guedes, que lhe disponibilizou um espaço na garagem de sua casa de Maputo e lhe comprava dois quadros por mês, a preços inflacionados. Em poucos meses Malangatana quis fazer uma exposição e foi, para espanto confesso de Augusto Cabral, um enorme sucesso.

Nas pinturas, nessa altura e sempre, Matalana, onde nasceu e cresceu e onde frequentou a escola da missão suíça de até à segunda classe. Menino pastor, agricultor, caçador de ratos com azagaia, viria a estudar só mais um ano. Fica-lhe Matalana no pincel, a opressão colonial, a guerra civil. A paz reflecte-se numa pintura mais otimista e nos últimos anos foi um carácter mais sensual que a caracterizou.

E sempre o quotidiano. “Há sempre um manancial de temas a abordar. São os acontecimentos do mundo, às vezes tristes, outras alegres, e eu não fico indiferente. Seja em Moçambique, ou noutra parte do mundo, a dor humana é a mesma", disse numa entrevista à Lusa, ainda recentemente.

Já homem, com a pintura como profissão, confessou ao jornalista Machado da Graça que sentia grande aproximação com os artistas portugueses desde os anos 70, quando foi pela primeira a Portugal, como bolseiro da Gulbenkian.

Entre 1990 a 1994 foi deputado da FRELIMO e ao longo de décadas ligado a causas sociais e culturais. Foi um dos criadores do Museu Nacional de Arte de Moçambique, dinamizador do Núcleo de Arte, colaborador da UNICEF e arquiteto de um sonho antigo, que levou para a frente, a criação de um Centro Cultural na “sua” Matalana.

E exposições, muitas, em Moçambique e em Portugal mas também mundo fora, na Alemanha, Áustria e Bulgária, Chile, Brasil, Angola e Cuba, Estados Unidos, Índia… Tem murais em Maputo e na Beira, na África do Sul e na Suazilândia, mas também em países como a Suécia ou a Colômbia.

Contando com as obras em museus e galerias públicas e em coleções privadas, Malangatana vai continuar presente praticamente em todo o mundo, parte do qual conheceu como membro de júri de bienais, inaugurando exposições, fazendo palestras, até recebendo o doutoramento honoris causa, como aconteceu recentemente em Évora, Portugal.

Foi nomeado Artista pela Paz (UNESCO), recebeu o prémio Príncipe Claus, e de Portugal levou também a medalha da Ordem do Infante D.Henrique. 

Em Portugal morreria também o pastor, mainato e pintor. 
Malangatana. Valente.






- Texto selecionado no Destak, adaptado 
  e acrescentado.
- Fotografias escolhidas na Net.

11 comentários:

Luisa disse...

Para mim foi um choque, quando recebi a notícia. Tinha um olhar tão expressivo, que se lia o que lhe ia na alma! Perdeu-se um homem bom, solidário e humano! Fica a sua pintura, que tanto aprecio.

Bjo, César

Luísa

relogio.de.corda disse...

Vai-se o corpo mas permanece a obra do artista; esta, sem dúvida, eterna.

São disse...

Mais uma perda importante.
Que esteja em paz.

Mas porque razão o Patriarcado não autoriza a missa nos jerónimos?

Um feliz 2011

César Ramos disse...

São,

Obrigado pelos votos para o ano novo.
O Patriarcado deve ter qualquer informação sobre o falecido e achou assim, por bem(?), arranjar atritos!
O Patriarca fuma demais, e depois só vê fumaça por todos os lados!
Só pode estar em Paz, pois partiu com a missão muito bem cumprida, muito embora fosse demasiado exigente com ele próprio.

Cumpts.

César Ramos disse...

Relógio,

Plenamente de acordo.E a obra eterna que deixou, para além da pintura é bem vasta!... Basta até o seu exemplo como humanista (...)

César Ramos disse...

Luísa,

Fica a pintura e muito mais que o Tempo irá revelando!

É preciso dizer que muita gente ficou abalada com a partida dele mas, muitos nem tinham ainda ouvido falar do Mestre e Humanista!

Fica bem alinhar nestas ondas culturais à boleia, e notei presenças que se colaram para ficarem bem na fotografia!

Políticos incluídos!

Li diversos textos que "ignoraram" as suas simpatias pela militância e... pela esquerda verdadeira!

Carmo disse...

Perdeu-se o homem, mas fica a obra.

Um abraço

Boa semana

nacasadorau disse...

Malangatana é imortal pela sua obra e pela pessoa.

Abraço

svasconcelos disse...

Merecido tributo,mais que merecido, por tudo o que foi: o Homem, o artista e o político.
bjs,

JAIRCLOPES disse...

Gostei muito do conteúdo do blog, penso que a blogsfera só tem a ganhar com saites assim. Aproveito para dizer que em meu blog: www.jairclopes.blogspot.com publiquei uma matéria interessante sobre GENTILEZA que gostaria que você lesse e comentasse.

Palma disse...

Os grandes artistas não morrem. Sobretudo os que para lá da Arte também foram excelentes seres humanos. Abraço - Palma