[ Vox populi vox Dei ]

2010-12-03

« PONTO de REFLEXÃO: HÁ CRISE DE IDENTIDADE?...»

Monumento a Teixeira de Pascoaes
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( Erguido em Amarante)
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(1877-1952)


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." Quando Pascoaes inventou Portugal não se deu conta do que tinha feito: pensou que se tinha limitado a descobri-lo.
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Quando imaginou os Portugueses, entregando-lhes as palavras e as visões que só a ele pertenciam, enganou-se. Os Portugueses de Pascoaes nem sequer existiam. Pascoaes nunca percebeu que era tudo invenção dele.


Escreveu um livro, a "Arte de Ser Português", recusando a responsabilidade da criação, na ânsia de ser apenas um espectador.

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Pascoaes não queria ser mais um poeta. Queria servir, servir e pertencer. Não queria ficar de fora nem sozinho. Queria escrever, mas escrever como quem presta um serviço: um serviço de observar, de ouvir, de descrever. Não queria ser mais um escritor português. Queria ser o escritor através do qual escrevia Portugal. Nem menos! "

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Miguel Esteves Cardoso



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Portugal vive hoje não só uma profunda crise política, económica, financeira e social, mas também uma crise de identidade que desmotiva os portugueses.
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Urge voltar a estimular o seu patriotismo, voltar a ensinar a sua História e Cultura, voltar a mostrar-lhes porque podem sentir-se orgulhosos de ser portugueses.
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Urge em suma continuar Portugal, porque de outra forma nos tornaremos, sem vantagem para ninguém, colonato, província ou Feudo!
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Esta tarefa traz inscrita no próprio título a presença tutelar de Teixeira de Pascoaes.
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Foi numa situação muito semelhante à nossa, a poucos anos da Revolução Republicana, exactamente em 1915, que Teixeira de Pascoaes escreveu a sua "Arte de Ser Português" em tentativa doutrinária de conferir um conteúdo castiço, personalizado e criador à jovem República, enleada em contradições, paralizações e bloqueamentos que fazem lembrar irresistivelmente o período actual.
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2010 está na verdade muito próximo de 1915!
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Mas com a diferença de que tudo de agravou e de que, ao vivermos uma experiência democrática, estamos a esquecer todos os ensinamentos que Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão, Fernando Pessoa tentaram transmitir-nos nas páginas da "Águia" ou nas Edições da Renascença Portuguesa (...)
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A assunção do ser português nos portugueses era para Teixeira de Pascoaes o elemento unitivo capaz de os tornar homens livres, solidários e fraternos.
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"Instruir, educar e criar portugueses" no "ideal patriótico", escreve no citado livro, é a única forma de aceder à Liberdade e à Independência da Nação, como também à sua Renascença!
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A bolha criada por uma fulgurante trajectória do sistema financeiro mundial rebentou nos Estados Unidos da América do Norte, no ano fatídico de 2007, originando a chamada crise do subprime. Conforme era de esperar, os seus efeitos repercutiram-se na Europa e no nosso País, abalaram o sistema financeiro, enfraqueceram a economia e acabaram por resvalar inexoravelmente para o campo social criando uma legião de desempregados.
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Ainda não recuperados deste embate, eis que, em menos de três anos, nos encontramos perante nova crise financeira, quiçá de natureza diferente. Tendo estruturado a economia na base de demasiados empréstimos e aventurado para um desenvolvimento com pagamento diferido, acordamos agora para a pesada realidade de que os empréstimos se pagam... e com juros!
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Tais pagamentos necessitam de criação de riqueza que, por sua vez, é fruto de trabalho. A criação de oportunidades de trabalho está, pois, no fulcro do problema. Uma multidão de desempregados em permanência significa um enorme desperdício de potencial e traz consequências gravosas para o tecido social. O trabalho é essencial para a coesão social, o trabalho dignifica a pessoa humana.
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Não custa crêr que, nas condições infelizmente criadas, seja necessária muita contenção. Porém, é imperativo que os sacrifícios resultantes sejam distribuídos equitativamente. As crises não devem servir para uma transferência de riqueza para os que já têm muita!!
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Este, e os próximos, são anos de Luta contra a pobreza e a exclusão social!
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É inadmissível que, em vez de progresso nessa Luta, venhamos a ter um retrocesso.
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Para o futuro, importa uma reflexão sobre o sistema em que vivemos e a melhor forma de ter desenvolvimento aceitável sem crises recorrentes.
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Para já, quatro pontos apenas, desgarrados, mas nem por isso menos importantes:
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O fundamento da comunidade política é a pessoa humana. O sistema político, como seja a democracia, deve assumir como princípios inalienáveis a dignidade da pessoa humana, o respeito dos Direitos do Homem e a promoção do bem comum.
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A premissa fundamental da política, enquanto nobre arte e ciência do governo das nações, é que a actuação deste deve ser orientada para o bem comum, tendo sempre presentes os valores da Verdade, da Justiça e da Liberdade.
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Uma das funções primaciais da governação é a redistribuição, de forma equitativa, da riqueza produzida evitando o império da lei do mais forte.
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Os partidos políticos, conquanto fundamentais para a democracia participativa, não devem considerar que o mandato de governação concedido pelo Povo nas eleições é uma carta branca para se servirem da res publica, a seu bel-prazer, sem respeito pelo bem comum, presente e futuro.
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O Povo, na sua proverbial sabedoria, é já suficientemente adulto e experiente para, nos próximos actos eleitorais determinar o rumo certo para Portugal...

4 comentários:

Luís Coelho disse...

Bom dia
Agradeço a forma clara como delimitou o desencanto dos portugueses em face das actuais crises e das politicas, económicas e sociais.

Urge reinventar o nosso orgulho de ser português.

Por este caminho não vamos bem e acabarão por nos sufocar atirando-nos para o esquecimento dos nossos heróis, da nossa história e da vontade de ser português.

Carmo disse...

Importante reflexão sobre o estado a que chegou o nosso país e a desilusão que habita em cada um de nós.

Um abraço e boa semana

César Ramos disse...

Luís Coelho,

Eu é que agradeço a sua presença, com a linguagem sempre adequada para me dar ensejo a escrevinhar.

Os 'nossos' heróis de hoje, chamam-se Mourinhos, Ronaldos e outras metásteses da mesma igualha!

O ópio do povo... continua a ser o mesmo, de tempos tristes ainda recentes!

O "ideal" do Povo, é algo que já não arde... nem vê!

Há quem pense que, ser patriota, é não ser revolucionário; há quem pense que, ser patriota é conservadorismo; há quem esqueça que, desprezar a História...é atirar-nos no Abismo.

Abraço amigo
e patriótico!
César

César Ramos disse...

Carmo,

Mais uma vez, sinto uma honra muito grande, por ter o comentário de uma pessoa com o seu perfil intelectual!

Penso que lhe disse, ter feito uma plantação de papoilas, num grande canteiro, junto da minha casa.

Espero que nasçam vigorosas! Para dar ambiente, à minha esperança de não perder Portugal!

Abraço fraterno
César Ramos