[ Vox populi vox Dei ]

2010-11-14

«O Sr. OLÁ terá dito: "ADEUS, AMIGOS!... SEJAM FELIZES... POR MIM!" »

JOÃO MANUEL SERRA
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O ' Senhor do Adeus'
ou
'Senhor do Olá'...
como gostava mais que lhe chamassem

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(1930-2010)
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.Do Jornal DESTAK

Autoria de: João Manuel Serra

Morreu o "Senhor do Adeus"

11 | 11 | 2010 10.11H

Figura incontornável da cidade de Lisboa - que acenava a quem passava pela zona do Saldanha apenas porque acreditava que, dessa forma, fazia os lisboetas mais felizes - João Manuel Serra faleceu ontem aos 80 anos.

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FILMADO no Bairro do RESTELO em Lisboa

Luis Miguel Mota | lmota@destak.pt

Todos os dias, o Senhor do Adeus andava pelas ruas de Lisboa acenando a quem passava, cumprimentando com um adeus bem contente os carros que lhe buzinavam, também eles retribuindo o aceno.

A explicação para o modo de vida peculiar disse-o um dia numa entrevista que, depois da morte da mãe, era a sua forma de afugentar a solidão «essa senhora é uma malvada, que me persegue por entre as paredes vazias da casa. Para lhe escapar, venho para aqui. Acenar é a minha forma de comunicar, de sentir gente».

João Manuel Serra nasceu em 1930 e era um amador de cinema, indo todos os domingos ao Corte Inglês ver e discutir os filmes com os amigos.

Tornaram-se célebres, as tertúlias semanais que partilhava com o amigo Filipe Melo (músico de jazz, realizador e autor de banda desenhada) que depois este comentava no blogue O Senhor do Adeus.

Ontem à noite, em vez da habitual crítica de João, foi uma despedida que Filipe Melo publicou:

«Todos os dias, o João dizia adeus às pessoas. Era assim que assim fazia as pessoas felizes e que as pessoas lhe retribuíam essa felicidade. Era um dos meus melhores amigos, e terei muitas saudades das nossas idas ao cinema e de o ver a sorrir e a trazer alegria a todos os que o rodeavam».

João Manuel Serra assinava também uma rubrica de cinema no programa A Rede, do Canal Q, "apareceu" na banda desenhada As Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy (de Filipe Melo e Juan Cavia), e participou no filme I’ll See You In My Dreams e na série de televisão O Mundo Catita.

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VÍDEO COM UM FADO DEDICADO ao... "Senhor do Adeus" ...



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In: Arquivo do Blogue
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Sábado, 5 de Março de 2005

O Homem que diz Adeus

Recebi este texto através de uma boa amiga (obrigado, Patrícia), e não resisti a publicá-lo. Tentei saber a origem, não consegui, por isso limito-me a agradecer ao anónimo autor por nos lembrar algo tão óbvio e ao mesmo tempo tão ignorado, que é o facto de todos os rostos guardarem uma história, feita de vivências e sentimentos que o tempo ameniza mas não apaga, e que até actos que a olho nú nos causam espanto e admiração, podem ter fundamento no vazio do coração de alguém. Não andará também o nosso, por vezes, mais vazio do que devia?


Quem não conhece o Homem que diz Adeus...

Para quem não o conhece, é imperativo passar no Saldanha por volta das 23h e desfrutar de um momento que já faz parte da “nossa” cidade! Como é possível um simples gesto proporcionar um momento, apesar de um pouco “estranho”, agradável para quem passa... afinal se não fossem estas “pequenas” diferenças, a vida seria sempre igual... O homem que diz adeus.


É ele o homem que noite após noite acena aos carros que passam na Avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa. É por ele que tocam as buzinas, que se atiram beijos e sorrisos, que se gritam «boas noites!» e «adeus!», numa «onda de comunicação» que já dura à três anos e que nem se sabe explicar muito bem como começou. Numa cidade de estranhos em mundos fechados este é o seu «milagre». E é também o seu remédio. Há quem lhe chame o «senhor do adeus». Mas «senhor» é coisa que detesta que lhe chamem.


Aos 72 anos, João Manuel Serra tem a inocência de uma criança, o espírito de um jovem, mas o olhar nostálgico de um ancião que sente «ter aprendido com a vida tarde demais». A sua roupa clássica e a ondulação do cabelo grisalho disfarçada com gel, dão-lhe um ar meio aristocrático, que já faz parte da paisagem do Saldanha. Todos o conhecem e quem trabalha nas redondezas sabe o seu percurso de cor.


«Chega por volta das onze, meia-noite... Começa pela zona do Monumental, vai descendo a rua até ao Marquês e depois sobe, parando sempre em pontos estratégicos. Nunca falha.». Arménio é chefe de mesa na marisqueira Maracanã e já lhe serviu alguns jantares. «É muito simpático. Quando passa aqui, acenamos-lhe pela janela. Só não sei: porque é que faz isto?».


João começa por dizer que não sabe bem, mas, a pouco e pouco, interrompendo sempre para acenar, vai desvendando o mistério. Tudo começou há três anos e meio, depois da morte da mãe, com quem vivia. Precisava de se distrair, incomodava-o a ideia de estar sozinho em casa. Um dia, aconteceu. Já reparara que as pessoas o cumprimentavam sem razão, nos centros comerciais e, sem saber como nem porquê, surgiu o primeiro aceno na estrada. Depois veio outro e outro, e o caso virou fenómeno.


«No início era só rapaziada nova, mas depois contagiei todo o tipo de gente», explica sem esconder um certo orgulho.


Graças ao seu «milagre», já deu entrevistas para a televisão e para os jornais, apareceu em dois filmes e até num teledisco. «Sempre quis ser actor mas nunca me deixaram...». Ou nunca teve coragem de tentar.


Algumas dezenas de acenos mais tarde, já não é um João risonho e despreocupado, «com imensos amigos» com quem vai «ao teatro e ao cinema», que fala por detrás dos óculos de massa negra. Nos olhos cinzentos, estão duas lágrimas contidas. Pelo passado, pelo presente e por um futuro que não chega. Com um raciocínio de fazer inveja aos mais novos, o louco, o excêntrico, transforma-se lentamente num avô contador de histórias, que lê Agatha Christie para combater o medo ao andar de avião, que não tem telemóvel porque detesta máquinas e que não vê televisão.


João nasceu no seio de uma família nuito rica. Até aos dez anos, viveu num enorme palacete da Tomás Ribeiro, cobiçado mesmo pelo próprio Gulbenkian. «Que saudades tenho desse tempo... A casa estava sempre cheia de família e amigos...».


Mimado desde bebé, fez a instrução primária toda em casa, com um professor particular, pois no primeiro dia de aulas no Colégio Parisiense chorou tanto que os pais não tiveram coragem de o mandar de volta. «Fui criado numa redoma de vidro», confessa, explicando: «Naquela época era tudo muito diferente, havia muitos tabus.». Depois do divórcio dos seus progenitores, quando tinha 13 anos, João foi morar para o Restelo com o pai. Por ele, inscreveu-se em Direito, mas depressa desistiu, «era muito chato».


Depois de uma igualmente curta passagem pelo curso de Histórico-Filosóficas, o pai, «que não sabia que fazer» com ele, mandou-o para Londres com o irmão. «Foram três anos fantásticos. Tinha um grupo de amigos fabuloso, com quem viajei imenso. Teria lá ficado, se não fosse tão agarrado à família...». Sem quase pôr os pés nas aulas, regressou a Portugal e, depois da morte do pai, pouco tempo depois, foi morar com a mãe, de quem não se separou até ao último dia da sua vida. «Viajámos muito os dois. Todos os anos íamos a Paris e Madrid. Conheço a Europa inteira, excepto a Grécia...».


E o olhar perde-se num momento só dele, como se pensasse alto. Quando a mãe morreu, «ficou desasado». E talvez por isso esteja todas as noites a «comunicar».


Admite que o que faz «não é muito normal», mas não passa sem isso. É o remédio que lhe permite disfarçar a solidão que o consome e o faz olhar para o passado com arrependimento, por não ter ousado viver a sua vida em vez da dos outros.


«Ás vezes penso que foi tudo inútil...»
No baú dos sonhos perdidos, jaz o curso que não tirou, o trabalho que nunca fez, os filhos que não teve e, pior, o grande amor que nunca conheceu. «Sinto-me só. Incompleto. Como se algo estivesse a falhar.».

E assim lacrimeja quando vê um casal idoso de mãos dadas, ou quando dois rapazes, que diz «reconhecer do subconsciente», param o jipe para tirar uma fotografia com ele.


«Encontramo-nos no céu», repete, aludindo ao que um diplomata ucraniano lhe disse uma vez.


O homem do lixo atira-lhe o derradeiro aceno da noite.


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Num aceno de simpatia... disse-me adeus.

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Não conheci este homem na zona cosmopolita do Saldanha em Lisboa. Foi noutro bairro lisboeta - o Restelo -, onde, pela primeira vez, em Maio passado, o vi acenando para os carros que circulavam.
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Parei e perguntei-lhe se precisava de alguma coisa. Que não!... Estava simplesmente a cumprimentar - quem passava...!
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E continuei a passar todos os dias por aquela artéria do Restelo, acenando-lhe, até ao dia 1 de Julho p.p., data que me marcou - e «desasou» também - pelo mesmo motivo que, alegadamente, o levou àquele comportamento (...) de nos dizer adeus... a todos!



Adeus...
Companheiro







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Publicado p/ registo nesta minha
"gaveta" de memórias pessoais.
Vídeos: YouTube
Imagens: Seleccionadas na Net
Fontes: Identificadas no texto


6 comentários:

César Ramos disse...

Permito-me a registar este comentário publicado no blog:

http://senhordoadeus.blogs.sapo.pt

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De: Joao F a 11 de Novembro de 2010 às 23:45

Deixem-me vos dizer que em 2008 comprei um apartamento para o remodelar e habitar de seguida.

No acto da visita e após ter criado empatia com o espaço, questionei o antigo proprietário sobre a vizinhança, que prontamente me respondeu que era tudo boa gente mas que o vizinho de cima, sendo uma excelente pessoa, era um tanto ao quanto "estranho".

Intrigado pela resposta, questionei-o novamente se me podia definir o seu conceito de "estranho". Jackpot! João Manuel Serra! Nem queria acreditar! Uma pessoa que sempre me suscitou a minha curiosidade e que preenchia e preenche o imaginário da maioria dos lisboetas.

Terminadas as obras mudei-me! Está claro e como devem imaginar, durante os meses em que estas decorreram fui fantasiando sobre como seria viver por baixo de tal “criatura de Deus” e que me comunicaram ser um tanto ao quanto “estranho”.

Nos primeiros dias, algo curioso, receoso e envergonhado estabeleci o meu primeiro contacto com o “estranho”, que para meu espanto ficou largos minutos a conversar comigo sem me dizer adeus e que terminou com um “sejam muito felizes”, que ainda hoje guardamos com carinho.

Desde então era raro o dia em que não trocávamos alguns minutos de conversa, por vezes mais longas outras vezes mais circunstanciais.

O “estranho”, passou a ser o Sr. João. Educado, culto e acima de tudo repleto de memórias de uma vida cheia de surpresas .

O Sr. João (- Não me chame Sr. João. É só João!!!! repetia ele vezes sem conta a cada conversa de janela), acima de tudo era o nosso metrometro ”, que nos preenchia e ritmava os dia /noites com os seus passos enérgicos carregados de “solidão” nocturna que percorriam os “km” de corredores da sua casa.

Já não os ouvimos, o cigarro de janela já não sabe ao mesmo e a porta da entrada já não range a partir da 1h.

Que pena, quem bom vizinho que perdi.

Até sempre João!

(...)

Luís Coelho disse...

Li de uma assentada toda a história aqui narrada de uma forma simples directa e cativante como seria o Senhor do Adeus.

Sou tentado a dizer como outros:
- Personagem estranha!....

Seremos nós os estranhos que não entendemos este tipo de vidas....?

Sinceramente gostei de conhecer este Senhor e acabei gostando dele e do seu gesto de acenar.

Dizia adeus a todos os que via pela primeira vez e a muitos outros que certamente não voltaria a ver.

...estranha forma de vida......

trepadeira disse...

Caro César

Sempre atento e lúcido.Cada recordação que aqui reencontro.
Também o vi,várias vezes.
Nunca me pareceu estar a dizer adeus.
Parecia-me mais um cumprimento,um pouco do calor humano já quase perdido na grande cidade.
Um abraço,
mário

relogio.de.corda disse...

Curta e breve; só posso dizer que este senhor seria alguém mesmo muito especial.

Luisa disse...

César,

Só o vi uma única vez, mas bastou para verificar que se tratava de alguém carente de afectos. Nada de andrajoso, como alguém me terá dito. Sinal de que espalhou amizade, e simpatia, são as homenagens sucedidas que lhe têm prestado. Deixa um vazio!


Bjos
Luísa

smvasconcelos disse...

Grata pelo teu trabalho, uma bela e sentida homenagem a um homem estranhamente singular...
bjs.