[ Vox populi vox Dei ]

2010-10-02

« POESIA OUTONAL em PROSA, de BERNARDO SOARES »

BERNARDO SOARES [semi-heterónimo de Fernando Pessoa]
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(Detalhe de escultura em betão, da autoria do artista plástico António Seco)




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Obra composta por Bernardo Soares




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.Bernardo Soares, o semi-heterónimo de Fernando Pessoa, é ajudante de Guarda-livros na cidade de Lisboa, escreve sem encadeamento narrativo claro, sem factos propriamente ditos e sem noção de tempo definida.
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Foi nesta Obra que Fernando Pessoa mais se aproximou do género romance. Sob aquele nome, escreveu os 'Fragmentos' mais tarde reunidos em "O Livro do Desassossego", do qual transcrevo este excerto:
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" Prefiro a prosa ao verso, como modo de arte, por duas razões, das quais a primeira, que é minha, é que não tenho escolha, pois sou incapaz de escrever em verso. A segunda, porém, é de todos, e não é - creio bem - uma sombra ou disfarce da primeira. Vale pois a pena que eu a esfie, porque toca no sentido íntimo de toda a valia da arte.
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Considero o verso como uma coisa intermédia, uma passagem da música para a prosa.
(...)
Na prosa falamos livres. Podemos incluir ritmos musicais, e contudo pensar.
(...)
Um ritmo ocasional de verso não estorva a prosa; um ritmo ocasional de prosa faz tropeçar o verso."

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Com o devido respeito pela memória desta insigne figura da Literatura portuguesa, na minha qualidade de seu ex-vizinho - morámos na mesma rua muito embora em épocas diferentes -, vou , sem o desfeitear, citar um Poema dele (de 1933), que "contraria" esta falta de " jeito" para o verso:


.« I S T O »
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Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

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Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

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Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério de que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

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.O que é que podemos fazer... quando nos propomos lidar com Génios... na tentativa de os interpretar e estudar?!
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Simplesmente... admirá-los!...


..
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O OUTONO

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Atrás dos primeiros menos-calores do estio findo vieram, nos acasos das tardes, certos coloridos mais brandos do céu amplo, certos retoques de brisa fria que anunciavam o outono.

Não era ainda o desverde da folhagem, ou o desprenderem-se das folhas, nem aquela vaga angústia que acompanha a nossa sensação da morte externa, porque o há-de ser também a nossa. Era como um cansaço do esforço existente, um vago sono sobrevindo aos últimos gestos de agir. Ah, são tardes de uma tão magoada indiferença, que, antes que comece nas coisas, começa em nós o outono.


Cada outono que vem é mais perto do último outono que teremos, e o mesmo é verdade do verão ou do estio; mas o outono lembra, por o que é, o acabamento de tudo, e no verão ou no estio é fácil, de olhar, que o esqueçamos. Não é ainda o outono, não está ainda no ar o amarelo das folhas caídas ou a tristeza húmida do tempo que vai ser inverno mais tarde. Mas há um resquício de tristeza antecipada, uma mágoa vestida para a viagem, no sentimento em que somos vagamente atentos à difusão colorida das coisas, ao outro tom do vento, ao sossego mais velho que se alastra, se a noite cai, pela presença inevitável do universo.


Sim, passaremos todos, passaremos tudo. Nada ficará do que usou sentimentos e luvas, do que falou da morte e da política local. Como é a mesma luz que ilumina as faces dos santos e as polainas dos transeuntes, assim será a mesma falta de luz que deixará no escuro o nada que ficar de uns terem sido santos e outros usadores de polainas.

No vasto redemoinho, como o das folhas secas, em que jaz indolentemente o mundo inteiro, tanto faz os remos como os vestidos das costureiras, e as tranças das crianças louras vão no mesmo giro mortal que os ceptros que figuraram impérios.

Tudo é nada, e no átrio do Invisível, cuja porta aberta mostra apenas, defronte, uma porta fechada, bailam, servas desse vento que as remexe sem mãos, todas as coisas, pequenas e grandes, que formaram, para nós e em nós, o sistema sentido do universo.

Tudo é sombra e pó mexido, nem há voz senão a do som que faz o que [o] vento ergue e arrasta, nem silêncio senão do que o vento deixa. Uns, folhas leves, menos presas de terra por mais leves, vão altas do rodopio do Átrio e caem mais longe que o círculo dos pesados. Outros, invisíveis quase, pó igual, diferente só se o víssemos de perto, faz cama a si mesmo no redemoinho. Outros ainda, miniaturas de troncos, são arrastados à roda e cessam aqui e ali.

Um dia, no fim do conhecimento das coisas, abrir-se-á a porta do fundo e tudo o que fomos - lixo de estrelas e de almas - será varrido para fora da casa, para que o que há recomece.


Meu coração dói-me como um corpo estranho. Meu cérebro dorme tudo quanto sinto. Sim, é o princípio do outono que traz ao ar e à minha alma aquela luz sem sorriso que vai orlando de amarelo morto o arredondamento confuso das poucas nuvens do poente.

Sim, é o princípio do outono, e o conhecimento claro, na hora límpida, da insuficiência anónima de tudo. O outono, sim, o outono, o que há ou o que vai haver, e o cansaço antecipado de todos os gestos, a desilusão antecipada de todos os sonhos.

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Que posso eu esperar e de quê? Já, no que penso de mim, vou entre as folhas e os pós do átrio, na órbita sem sentido de coisa nenhuma, fazendo som de vida nas lajes limpas que um sol angular doura de fim não sei onde.


Tudo quanto pensei, tudo quanto sonhei, tudo quanto fiz ou não fiz - tudo isso irá no outono, como os fósforos gastos que juncam o chão em diversos sentidos, ou os papéis amarrotados em bolas falsas, ou os grandes impérios, as religiões todas, as filosofias com que brincaram, fazendo-as, as crianças sonolentas do abismo.

Tudo quanto foi minha alma, desde tudo a que aspirei à casa vulgar em que moro, desde os deuses que tive ao patrão Vasques que também tive, tudo vai no outono, tudo no outono, na ternura indiferente do outono.

Tudo no outono, sim, tudo no outono…



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In: «Livro do Desassossego» de Bernardo Soares



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8 comentários:

relogio.de.corda disse...

Uma bonita evocação outonal, sim senhor... Quando eu fiz o meu 12º ano,há 20 e tantos anos, como aluna de humanidades, tive de estudar a obra deste grande Fernando Pessoa. Passei deste então, a gostar dele, da sua poesia e da sua prosa.

Swt disse...

Adorei tudo o que aqui li e vi. Parabéns pelas suas escolhas!

Luisa disse...

Gosto de estações intermédias, por isso gosto do Outono. Foi com muito prazer que, nesta tarde de Outono, estive a ler este post.

Obrigada César.

Beijinhos



Grandes mistérios habitam
O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.

São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.

Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz.

Fernando Pessoa

smvasconcelos disse...

Outro bom trabalho! Obrigada!:)
bjs,

trepadeira disse...

Às vezes,para refinar o génio,basta partilhar lugares e ler a obra.
Um abraço,
mário

Anónimo disse...

Toda a gente é Pessoa. Mas este Fernando não tem Pessoa que se lhe assemelhe... Palma

Anónimo disse...

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MariaS disse...

Fiquei "deslumbrada" com a foto da escultura de Fernando Pessoa aqui postada. Tanto assim que me atrevi a copiá-la, hoje, para o meu blog, http://marias100.blogspot.pt/
Pesquisando uma foto de FP, topei com esta que, ao mesmo tempo, me dá "um ar", "um não sei quê" de Hermann Hesse, por isso me fascinou.
Tem esta mensagem a finalidade última de solicitar autorização para manter essa foto no meu blogue.
Grata pela atenção e parabéns pelo seu Blogue.
MariaS