[ Vox populi vox Dei ]

2010-09-08

« TRIBUNAIS, PROCESSOS e LEIS a OESTE de PECOS »

O «Saloon-Tribunal» do «Juiz» Roy Bean
em Langtry
TEXAS
(Lugar de interesse turístico)

ROY BEAN
o
juiz herói
do
folclore americano


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Fotografia da época
do
«Saloon-Tribunal»


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Se alguma vez o acaso, ou um roteiro turístico vos conduzir até Langtry (Texas), aí vereis uma velha barraca em ruínas, conservada a pensar nos turistas e com a seguinte inscrição: "JUIZ ROY BEAN - A LEI A OESTE DE PECOS - JUSTIÇA DE PAZ E CERVEJA GELADA."

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Legenda actual da atracção turística

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Foi naquela barraca de tábuas, ao mesmo tempo Bar e Tribunal que, no fim do Século XIX, o juiz Roy Bean vendia a sua cerveja e mantinha a lei com a ajuda de um velho Código Civil que nunca usava e de um revólver de calibre .45 que usava frequentemente.
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Se Roy Bean conhecia alguns termos jurídicos, era porque tinha frequentado com assiduidade as salas dos Tribunais (como acusado), e o lenço que usava à volta do pescoço dissimulava uma velha cicatriz deixada pela corda que o devia ter enforcado.
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Uma velha canção popular conta como o juiz conduziu o inquérito depois de ter sido descoberto o cadáver de um homem durante um acidente. Ao examinar o cadáver a fim de o identificar, Bean só encontrou um revólver e 41 dólares e meio. Confiscou a arma e condenou o cadáver a uma multa de 41 dólares e meio por porte ilegal de armas...
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As sentenças de Roy Bean não tinham recurso. Contudo, raramente condenava os seus acusados à pena de prisão; tinha sempre algumas tarefas para realizar e, debaixo das suas indicações cumpridas debaixo de arma, elas eram realizadas em tempo record.
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O Saloon-Tribunal chamava-se "The Jersey Lilly", o nome de uma actriz então muito em voga. Um pintor de tabuletas, culpado por um pecadilho, foi condenado por Bean a pintar os letreiros... tal e qual ainda se encontram!
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O seu "Tribunal" estava situado perto da linha do caminho de ferro, no sítio onde os comboios paravam alguns minutos para meterem água. Os viajantes aproveitavam a paragem para descerem e irem beber uma cerveja à pressa. Mas no momento de regressarem apressadamente ao comboio que apitava para a partida... tanto pior para os consumidores apressados que pagassem cum uma nota de maior valor. Invariavelmente, Bean não tinha moedas para o troco...
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Um dia, um viajante que tinha pago a sua cerveja de 30 cêntimos com uma nota de 20 dólares e não via chegar o troco, impacientou-se e chamou Roy Bean de ladrão! Foi o mal que ele fez: mudando imediatamente de "barman" para juiz, Roy Bean saldou as contas multando-o em 19 dólares e setenta cêntimos por insultos à Lei a Oeste de Pecos...
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Uma outra forma de se desembaraçar dos desmancha-prazeres consistia em o juiz chamar o seu urso, um grande animal, mais aterrorizante do que perigoso, mas capaz de desencorajar ou de expulsar os mais renitentes, recalcitrantes e violentos.
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É interessante, entretanto, acrescentar que sob esta capa de duro, o nosso juiz da lei da rolha escondia um coração sensível ao arrependimento de acusados que mereciam manifestamente uma segunda oportunidade. Um dia, condenou ao enforcamento um jovem culpado de ter morto um cavalo no decurso de uma zaragata a tiros de revólver! Matar um cavalo, nessa altura, consistia um crime imperdoável. Generosamente o juiz concedeu ao condenado o tempo de escrever uma última carta à sua mãe. Depois de a ler, o juiz alterou a sua decisão e concedeu o perdão ao condenado nestes termos:
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- "Houve um erro judiciário. O novo testemunho prova, preto no branco, que o réu visou o cavaleiro e não o cavalo. Este último foi portanto morto por acidente, e o acusado fica livre. Esta é a decisão deste tribunal. A causa foi ouvida e a audiência encerrada... Agora, às vossas cervejas!!"
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Roy Bean era mais do que um simpático pulha. Acabou por ser, tal como Davy Crockett, Buffalo Bill ou Wild Bill Hicock, um herói lendário do folclore americano, um herói cujas façanhas se contam e contarão ainda por largo tempo à roda das fogueiras. O seu Saloon tornou-se um lugar de peregrinação, um monumento aos homens que abriram as fronteiras selvagens do Oeste Americano.
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Quando as suas actividades jurídicas e acordãos estranhos chegaram muito para além do rio Pecos, as autoridades militares apareceram no meio de um processo em julgamento e, o comandante da força deu-lhe voz de prisão, por exercício ilegal da Lei e usurpação de funções públicas.
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Conta a lenda que, não havendo outro «juiz», Roy Bean 'auto sentenciou-se' em audiência por si aberta, declarando-se culpado, mas invocando as circunstâncias atenuantes de, apesar de ter explorado indecentemente os seus concidadãos, também os ter feito rir muitas vezes e, assim, aceitava a condenação de nunca mais exercer as funções de juiz, passando o resto da vida a vender bebidas, oferecendo então, pela primeira e última vez, uma rodada geral!

Parece que até o destacamento de tropas bebeu à conta de Roy Bean, e ficou tudo reduzido a águas de bacalhau que, não sabemos se já tinha sido ' inventado' naqueles tempos.
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O próprio Comandante do Exército deixou-se impressionar com o encerramento da audiência do ex-juiz quando ele, veementemente, afirmou dando um soco no balcão:
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« Bem!... Dou por encerrado o Processo e, Habeas Corpus... 'Sed Lex Dura Lex' e... Pluribus Unum... »


A brincar... a brincar... até à actualidade, ainda ninguém contestou
o
Cargo de Juiz
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inscrito na Pedra Tumular
de
ROY BEAN

5 comentários:

Luís Coelho disse...

Uma história engraçada que nos leva muito para lá dos relatos narrados.
Somos forçados a comparações actuais e tiramos outras conclusões.
Não me adianta fazer mais considerandos dado que seria correr riscos inesperados.

São disse...

Seria interessante saber com decidiria nesta vergonha nacional que é a violação de crianças (des)abrigadas na Casa Pia...

Tudo de bom.

smvasconcelos disse...

Não conhecia o personagem,mas gostei de saber da sua história e até do seu sentido de justiça... contextualizado na época, está claro.
bjs,

dSr disse...

hoje em dia não anda muito longe dessa realidade

Mar Arável disse...

Por cá recuperamos

em rigor

o flagelo da justiça

a soldo e a saldo

sempre em prestações