[ Vox populi vox Dei ]

2010-09-22

« JÚLIO VERNE: UM ILUMINADO, OU PROFETA ? »

JÚLIO VERNE
(1828-1905)



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Júlio Verne viveu numa época e num lugar em que o mundo se encontrava numa contínua e radical transformação. Estávamos em Paris e esta, era a Revolução personificada. Produto dessa revolução, são as suas histórias em que nenhum dos horizontes humanos parece ter um limite preciso.
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Pode dizer-se que a inquietação que qualifica este escritor, cuja vida abarcou três quartos do tumultuoso Século XIX francês, também caracteriza o seu momento histórico. Na Paris de Verne, vivia-se uma insólita efervescência em todas as dimensões, quer no mundo da política, quer no da economia, na mudança dos costumes sociais, nos avanços tecnológicos, nas expedições científicas ou na profunda revolução que estava a ocorrer também no mundo da arte.
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Diante dos olhos de Júlio Verne, nascido em 1828, passaram os últimos anos da Restauração Borboniana, a Monarquia burguesa de Luís Filipe de Orleães, a Revolução de 1848 e a Segunda República, o Segundo Império de Napoleão III, a Guerra da Crimeia, a Guerra Franco-Prussiana, a Comuna de Paris e os primeiros e agitados anos da Terceira República.
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Duas imagens que reflectem o panorama
Político-Social
da época

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Nascido no seio de uma família abastada de Nantes, podemos dizer que Júlio Verne é um dos frutos dessa Idade de Ouro da burguesia que prosperou sob o lema «enriquecei-os» de Luís Filipe de Orleães, o Rei burguês. No entanto, a ruptura com o pai - que o deserdou por Verne se dedicar às letras -, na altura da sua primeira etapa parisience, coincidiu com a vaga de revoltas operárias de 1848, ano da publicação do " Manifesto Comunista ".
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Foi durante esta «Primavera dos Povos» que Júlio Verne adquiriu consciência política.

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Uma estátua homenageando
Júlio Verne


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Com o passar dos anos, o escritor visionário impregnar-se-ia do romantismo libertário do poeta Lamartine e adoptará uma orientação republicana e um certo filoanarquismo que o acompanhará até à sua morte, em 1905.
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Os ecos da revolução proletária de 1848 e a sua simpatia pelas lutas de libertação, reflectem-se em muitas das suas obras.
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Mas, em meados do Século XIX, as fronteiras políticas não eram as únicas a abrirem-se no mundo. A ciência e a técnica ameaçavam inclusivamente eliminar no ser humano a capacidade de se surpreender.
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Aos seguidores apaixonados da vanguarda técnica e científica, como Verne, podia parecer-lhes que quase tudo se encontrava ao seu alcance. Foi, além disso, uma época de explorações e descobrimentos. Os últimos românticos puderam satisfazer o seu gosto pelo exótico com as notícias trazidas por viajantes como célebre Dr. Livingstone, que penetrara na África mais recôndita na altura em que Júlio Verne forjava a sua vocação de escritor na boémia parisiense.

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Saint-Michel III
o último dos iates que possuiu para as suas expedições




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Viajante apaixonado, investigador e devorador de livros, Júlio Verne soube criar uma literatura visionária que combinava a fantasia com os dados científicos, antecipando factos e avanços tecnológicos impensáveis na sua época e que hoje são uma realidade.
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Mais de um Século depois da sua morte, o valor profético da obra prolífera de Júlio Verne continua a espantar os leitores de todo o mundo.
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A extensa obra deste escritor francês, é a expressão da infinita curiosidade que sentia por tudo o que o rodeava.
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Apesar de se ter formado em Direito, obedecendo à vontade férrea de seu pai que desejava legar-lhe o seu cartório de advocacia na capital, o jovem irrequieto sentiu-se atraído pela boémia parisiense e decidiu tornar-se escritor, pela mão do seu mentor, Alexandre Dumas (pai).
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Júlio Verne era, além disso, um estudioso dedicado da geografia e um entusiasta das coisas do mar. Chegou a ter três embarcações - entre as quais o famoso Saint-Michel III, um luxuoso iate a vapor que o levou a navegar por todo o mar Mediterrâneo e pelo mar do Norte - e a realizar expedições a países longínquos e desconhecidos.
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Os fascinantes e divertidos romances de Verne têm neste rico e crucial acervo uma das suas fontes de inspiração. Mas os livros também o inspiraram, não só os que guardava na sua mansão como os que consultava nas bibliotecas: as fichas arquivadas pelo escritor durante muitos anos de estudo contam-se aos milhares, além dos inúmeros recortes de jornais e revistas.
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Mas nada disto teria dado frutos sem os seus dotes de imaginação e intuição, com os quais este escritor adiantado para a sua época soube pressentir e materializar nos seus relatos muitas das conquistas que a ciência moderna realizaria ao longo do tempo.
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Por causa deste seu dom quase visionário, Verne foi considerado, a par do seu contemporâneo H.G.Wells, um dos pais da ficção científica. No entanto, Verne sempre se demarcou da escrita de Wells. Relativamente a este, disse numa entrevista dada em 1903: «O nosso processo não é o mesmo. As suas histórias não assentam em bases científicas. Não, não existe qualquer relação entre o seu trabalho e o meu. Eu faço uso da Física. Ele inventa. Eu vou à Lua numa bala disparada por um canhão. Ele viaja até Marte numa aeronave de metal que anula a Lei da Gravidade. Está tudo certo, mas... mostrem-me esse metal.»
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Verne orgulhava-se de disciplinar a sua imaginação, fundamentando as suas invenções em factos reais e fazendo uso nas suas elaborações dos conhecimentos e capacidades da engenharia sua contemporânea.
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Outro dos aspectos fascinantes de Verne é a sua qualidade de escritor enigmático, que mostrou sempre um profundo interesse pelo esoterismo. Chegou a fazer parte de algumas Sociedades Secretas Ocultistas francesas do Século XIX, entre as quais se destacam os Franco-Maçons e os Rosa-Cruzes. Este facto está intimamente ligado à sua paixão pela criptografia, ou seja, pela arte de ocultar informações em código, já que muitas das suas obras seriam transposições de rituais iniciáticos que conteriam segredos invisíveis aos olhos profanos.
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A vida deste escritor continua a intrigar os investigadores e é em grande medida uma incógnita, como ele próprio deixou escrito numa das suas cartas: «Sinto-me o mais desconhecido dos homens.»



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A Sonda Espacial Jules Verne, com destino à Estação Espacial Internacional
Em sua honra, a Agência Espacial Europeia lançou a 9/03/2008, com o foguetão Ariane 5, uma sonda espacial com o nome do Escritor




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É opinião corrente nos meios literários que o segundo livro de um escritor tem sempre uma grande importância. Segundo a tradição, crê-se que nele o autor pôs de parte o carácter autobiográfico do primeiro e dá largas à fantasia, ao enredo, ao mistério que constituirão a seiva e a árvore das suas narrativas. Nomeadamente, a «Viagem ao Centro da Terra» passa por ser o segundo livro de Júlio Verne. E dizemos «passa por ser» porque quem estudar a cronologia deste autor chega à conclusão de que ninguém a entende. Verne tinha trinta e cinco anos quando publicou a sua primeira obra, «Cinco Semanas em Balão». Assinara um acordo com uma Editora comprometendo-se a entregar dois romances por ano. Metódico e prolífero, não só cumpriu o contrato como chegou a excedê-lo em mais de cinco anos.
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Basta lembrar que, em 1910, as suas admiradoras foram mudar-lhe as flores da campa levando no bolso o «último» livro (o oitavo depois da sua morte), recentemente publicado.
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Quem poderá saber, portanto, quando escreveu ele algum dos seus livros?
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O segredo de uma imaginação tão desenfreada estava no seu método. Se traçássemos um mapa das «viagens» possíveis, na Terra e fora dela, quando Júlio Verne começou a publicação das suas obras, e marcássemos as novas rotas que surgiram nos seus trinta e tantos anos de actividade literária, observaríamos que levou as suas personagens aos pólos, ao equador, à Lua, aos cinco continentes, a dar a volta ao mundo e a abri-lo como se fosse uma laranja, que as mandou ao passado e ao futuro, aos sete mares e às ilhas misteriosas... com o rigor de um guia turístico.
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.Vídeo sobre Júlio Verne, focando a vida e a sua obra, intitulado
«O Pai da Ficção Científica»:


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Entrevista em vídeo, ao escritor português Lobo Antunes:


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Túmulo de Júlio Verne
Cemitério
de
Madeleine, Amiens

9 comentários:

Marilu disse...

Querido amigo, belíssimo documentário sobre Julio Verne, bruxo, visionário, gênio??? Beijocas

Mar Arável disse...

Belo sumário de um homem

maior que o seu tempo

Grato pelo seu trabalho

Luisa disse...

Um homem de ideais convictos.

Um homem grande que, por certo, não foi valorizado como era devido.

Um belo trabalho César, como sempre aliás.

bjs

São disse...

Devorei Júlio Verne através de todos os seus livros, tão á frente do tempo em que viveu.

DE Lobo Antunes recuso-me a ver o vídeo , embora também lesse alguns dos livros qye publicou.

Um resto de semana bom.

relogio.de.corda disse...

Muito bom este post, muito completo e muito didáctico. Júlio Verne, foi sem dúvida, um homem avançado no TEMPO. Antigamente, era assim...

dRAMOs disse...

...para mim, um visionário!

smvasconcelos disse...

Adorei este trabalho. Obrigada.
bjs,

R. disse...

Uma descrição completíssima e, contudo, sempre ingrata tratando-se de um homem tão profundamente complexo e genial. Um visionário, sem dúvida. Talvez o Nostradamus dos tempos modernos :)

Anónimo disse...

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